Enigma - Segredos e Mentiras
31 Capítulo 30
Notas iniciais
Edward muitas vezes se mostrou ameaçador, contudo Bella jamais acreditou que um dia ele de fato tomasse a liberdade de lhe bater; e com tamanha força.
– Maluco!... – ela gritou finalmente liberando as lágrimas que tanto represou. – Me solta seu comedor de hóstias desgraçado!
Fato! Era um maluco desgraçado sem chances de recuperação. Perdera o bom senso e o pouco controle que ainda lhe restava após a espera e a abordagem temerária. Ultrapassou todos seus limites, porém pouco se importava. Edward estava cansado do ciúme e do desejo degradante que sentia quando a via sobre aquele palco. E acima de tudo, não suportava ouvir dos lábios dela o que sabia de cor; que não tinha direitos. E o que era ainda pior, que ela continuaria a expor o que deveria ser somente seu.
Todas as vezes que descia sua mão, esta carregava toda a frustração por não ser livre. Por saber-se tão amoral e depravado quanto ela. Ressentia-se por Bella ter o poder de desmascará-lo; desnudá-lo de todas suas armaduras. Por deixá-lo miserável e fraco quando havia sido moldado para resistir as mais diversas tentações. Sim, naquele momento a odiava e em contrapartida se odiava na mesma proporção.
– Pare! – ela gritou novamente, decepcionada consigo mesma por ser tão fraca. Jasper a ensinou como se livrar de situações piores, no entanto, não conseguia se desprender daquele aperto de ferro. Sua carne ardia a cada novo golpe. Seus joelhos e cotovelos nus já estavam arranhados o suficiente pelas pedras mínimas. As lágrimas roubavam-lhe a força então, machucada e com o orgulho ferido, desistiu de lutar.
– Eu o odeio... – ela murmurou embargada.
Edward queria dizer o mesmo, porém sentir sua derrota enquanto ainda lhe batia tornou-o consciente da proximidade de seus quadris. Sua mão ardia tanto quanto a carne sob o tecido fino da saia, porém ainda desferiu mais três tapas. Esses últimos, com um sabor diferente. Entre cada uma das vezes que tocou o monte quente, acariciou-o fortemente deixando que seu corpo liberasse o desejo recolhido em todas as vezes que precisou recuar quando poderia possuí-la ou das vezes que a viu sobre o palco.
Quase que imediatamente a sua declaração inflamada, Bella o sentiu enrijecer sob seu quadril. Queria repetir que o odiava; indignar-se por Edward se excitar enquanto lhe aplicava as palmadas perversas. Porém seu corpo traiçoeiro respondeu prontamente ao dele que nas últimas vezes, antes de machucá-la a estimulou apertando-a com a mão violenta. Sem que pudesse conter ela liberou um gemido de puro deleite. Ouvir tal rendição inflamou o padre que, sem forças para resistir, se curvou para apertá-la mais contra si.
– Guarda... – murmurou muito rouco. – Sinta o que fez comigo...
Então sempre seria a culpada? Pensou parcialmente recuperada; parecia que sim. Sabendo bem como terminaria, aproveitou a trégua para escapar de seu algoz. Livre, pôs-se de pé e, mesmo vacilante tentou correr. Porém novamente não deu dois passos antes de ser capturada e presa por braços fortes. Ainda tentou se libertar, mas sem forças, desistiu e se deixou abraçar, morrendo lentamente ao sentir a dureza do padre comprimida contra suas nádegas doloridas.
Edward não a deixaria se afastar. Não tão ciente de seu corpo pequeno; quando estava longe de tudo e de todos sem nada para lembrar-lhe quem era. Com Bella presa entre seus braços, sem lutar, ele a voltou e ergueu pela cintura para prensá-la contra o capo de seu jipe. Já não sabia mais o que sentia por ela aquela noite, somente que não resistiria se a deixasse ir embora. E com aquela ânsia desesperada a correr por suas veias, segurou-lhe o rosto e a beijou.
Completamente rendida, Bella o abraçou e retribuiu ao beijo quase hostil, enroscando-se ao padre também com suas pernas deixando que o desejo despertado de forma violenta ganhasse força dolorosa ao ter aquele monte túmido prensado contra si. Rogando que daquela vez nada os detivessem, correu as mãos pelo abdômen plano e as subiu até alcançar-lhe os ombros para livrá-lo da jaqueta. Antevendo a intenção ao sentir as mãos pequenas correr por seu corpo, Edward retirou a peça, deixando que caísse ao chão.
Não tinha mais consciência de onde estavam. Apenas sentia a quentura convidativa da boca dela e aproveitava o máximo daquele beijo. Todo seu corpo respondia ao esfregar de línguas, levando-o a ansiar por mais. Afastou-se da boca arfante somente para retirar a camiseta rapidamente, então a prendeu em seus lábios abafando um gemido ao ter as mãos delicadas diretamente em sua pele. Lamentando apenas a escuridão que não lhe permitia vê-lo, Bella passeou os dedos por todo o dorso oferecido para si. Ainda tinha seus lábios cativos enquanto acariciou o peito forte e coberto de pelos.
Maldosamente, Bella apertou um dos bicos mínimos e como recompensa teve outro gemido alto abafado em sua boca. Continuando a exploração sua mão tocou acidentalmente no pingente do cordão que ele carregava sempre ao pescoço. Ignorando-o, Bella afastou os dedos daquele símbolo que a recordava do compromisso eterno, vagando as mãos até as costas largas. Outro erro, pois sentiu as ondulações que as deixavam áspera. Imediatamente se arrependeu de suas palavras anteriores. Edward não a feriria deliberadamente, apenas lhe deu o que procurou. Ele possuía uma alma torturada e só; não ajudaria ouvir que era odiado.
– Senhor... – tentou se retratar, porém nem fora ouvida. Edward liberou outro gemido e, para sua alienação, introduziu as mãos pela barra de sua camiseta para tocar-lhe os seios. Ao sentir as mãos grandes se fechando sobre eles toda e qualquer declaração se calou. E quando ele acomodou-se sobre si, perdeu o ar. Ele poderia torná-la mulher ali, no acostamento daquela estradinha de terra que ainda assim seria especial. Como se tivesse ouvido seus pensamentos, ou talvez também enfraquecido, Edward a deitou no solo arenoso para se estender sobre ela.
Não aguentava mais; precisava prová-la como havia feito antes. Imediatamente ergueu a camiseta para liberar os seios firmes e macios. Após três apresentações, conhecia-os de cor. Preso ao ciúme daninho vindo com a recordação tomou um deles em sua boca e esmagou outro em sua palma ainda dolorida.
– Ai... – Bella exclamou lamuriosa. Não de dor, apenas confirmação de sua volúpia que terminou por instigá-lo a prová-la com sofreguidão. Ansioso, Edward se comprimiu contra ela desejoso por se colocar dentro; sentir de uma vez por todas como era estar em uma mulher. E não de qualquer mulher, mas na única que lhe despertava tal vontade.
– Bella... – gemeu em agonia ao sentir a mão delicada correr por seu abdômen e parar somente quando o tocou, exalando palavras desconexas antes de afundar o rosto na curva do pescoço feminino. – Bella mia...
As pedrinhas soltas arranhavam, mas Bella simplesmente não tinha como protestar. Apesar de apreensiva, adorava perceber as reações que provocava no padre. Se conseguisse se entregar a ele ficariam juntos para sempre. Edward ficaria viciado nela, assim como ela própria já estava irremediavelmente dependente dele.
– Estou aqui Edward... – ouvi-la sussurrar seu nome de forma lamuriosa enquanto o acariciava daquela maneira indecente despertou o fio de sanidade que ainda lhe restava. Vinha agindo como um ultimamente, mas não era nenhum animal.
– Per favore, pare!... – pediu em um fio de voz.
– Não! – foi a resposta firme. Contudo não cabia a ela decidir.
– Pare Bella. – Edward demandou. Precisava voltar totalmente à razão, então ignorou os protestos e se pôs de pé trazendo-a consigo.
– Por que parar agora?... Faltava tão pouco... – choramingou abraçando-o. Trêmula de desejo; de frustração; de medo.
– Justamente. – concordou retribuindo o abraço. – Faltava pouco para que fizéssemos uma loucura na beira dessa estrada.
– Eu não me importo! – ela declarou beijando seu peito amplo.
Evidente que não se importaria em copular em qualquer lugar, o padre pensou mais uma vez sendo visitado pelo despeito. Tal consciência também fez voltar a sua raiva. Não lhe era permitido desejar mulher alguma e querer uma perdida como Bella agravava seu pecado. Todavia já havia aceitado sua desgraçada sina, considerou enquanto ainda se comprazia com os lábios que passeavam por sua pele. Não havia mais retorno, pois mesmo que a parasse, procurá-la-ia depois. Então, engolindo sua revolta por se saber irremediavelmente corrompido, disse seriamente.
– Mas eu me importo... Aqui não é o lugar apropriado para o que pretendemos fazer. Já nos arriscamos demais.
Bella sentiu seu peito se encher de esperança; Edward não fugiria. Estava livre do arroubo apaixonado, consciente de sua vida dupla e ainda assim indicava que ficariam juntos.
– Haverá um lugar adequando? – tentou uma confirmação acariciando-lhe o abdômen. Após um breve silêncio, ao qual a moça acreditou ter brincado com a sorte, o padre assegurou duramente.
– Haverá.
Soltando a respiração suspensa até então, Bella sorriu satisfeita e lhe beijou o pescoço, a mandíbula antes de procurar por sua boca. Edward aproveitou o beijo enquanto sentia os dedos libertinos vagarem por seu abdômen e novamente acariciá-lo sem nenhum decoro. Com a boca ainda sobre a dela, pediu muito rouco.
– Não faça isso... Precisamos ir embora.
– Vamos ficar só mais um pouquinho... – pediu languida. Antes que retrucasse a libertina tentou desafivelar seu cinto. A insistência o envaidecia, mas era imprópria.
– Non... – freou-a, retendo a mão raptora para novamente a beijar apaixonadamente. Cedo demais quebrou o contato, pois era preciso acalmar seus corpos. A cada minuto se tornava imperioso partir. A droga toda era que não sabia como fazê-lo; nunca antes ficaram juntos tanto tempo sem qualquer intromissão.
– Estranho deixá-la ir embora. – comentou sem notar.
– Devo entender que vai sentir minha falta e pensar muito em mim? – Bella indagou deixando que o contentamento pelas últimas palavras sufocasse a recusa recente.
– Não preciso alimentar seu ego, não é mesmo? – Edward retrucou ainda que gentilmente. Não era seu desejo expor-se tanto, contudo ao senti-la murchar em seu abraço, decidiu que era tarde demais para se precaver dela. A declaração que faria era de suma importância então não se surpreendeu quando sua voz saiu rouca ao acrescentar. – Corro um risco real ao dizer isso Bella, mas acho que deva saber... Penso em você desde a primeira vez que a vi e todos os dias me enlouquece mais.
Então seriam os dois a perder a sanidade, Bella pensou comovida. Seu padre bipolar era louco por ela; por ela e mais ninguém. Queria lhe dizer que não havia motivos para temê-la, porém foi interrompida por aquela voz cantada que tanto amava.
– Tu se una senza vergogna Bella, ma anch’io non sono molto meglio... Poi com’è impossibile non sè innamorato di te.*
*Você é uma sem vergonha Bella, mas eu não sou muito melhor, então é impossível não me apaixonar.
– O que disse? – ela perguntou enlevada.
– Que temos que ir embora, mesmo que me custe deixá-la ir. – não foi o que disse, mas era uma variante aceitável, pensou. Descobrir estar apaixonado não o deixava preparado para admiti-lo de forma que ela entendesse. Não quando havia tanto a esclarecer. – Está muito tarde e já afrontamos a sorte por tempo demais.
– Certo. – ela exalou contrafeita, afastando-se um passo para se recompor. – Tenho mesmo que ir embora. E precisarei de uma boa desculpa pelo meu atraso caso encontre meu pai acordado.
Edward recolocou sua camiseta e se abaixou para pegar sua jaqueta enquanto a moça falava. Á menção de uma boa desculpa fez com que o tema que os levou até ali retornasse com força na mente do padre que sério falou.
– Tenho certeza que conseguirá uma das melhores.
– O que houve? – Bella se aproximou, estranhando o tom. Como não enlouquecer com aquele homem de humores variados e bruscamente mutáveis? – Está com raiva?
– Não com raiva. – assegurou acariciando-lhe o rosto para tranquilizá-la. – Apenas me lembrei do quanto é boa com mentiras... Arrumará uma boa desculpa.
– Tudo bem... Depois de hoje nem tenho como me defender, mas posso explicar...
– Acredito que possa – falou abraçando-a pelos ombros. Uma vez que teria que deixá-la partir a fez seguir até a pick up –, somente não asseguro acreditar.
– Novamente não tenho como retrucar a isso. – Bella disse sem rancor, apenas colhia o que plantara. – Mas vou tentar... Poderíamos conversar amanhã pela manhã se for à praia.
A possibilidade era animadora, contudo estavam livres de Jacob, não de Jasper.
– Como fará com seu irmão?
– Se marcarmos muito cedo eu posso fugir pela varanda antes que todos levantem.
– Fugir pela varanda? – Edward estranhou. – Não quero. É arriscado.
– Não se preocupe, faço sempre. Desço e subo por uma grade de madeira. Você a viu. – lembrou-o. – Passamos por ela para ir até meu atelier.
Talvez lembrasse caso saber daquele hábito não incitassem seu ciúme. Evidente que a rota usual de fuga era usada com frequência para seus encontros secretos. A certeza lhe trouxe uma ressentida resignação. Se a moça estava habituada a colocar seu lindo pescoço a prova, que se arriscasse também por ele.
– Está bem! – assentiu lacônico. Sua ideia era deixá-la e partir, porém ela o segurou num abraço apertado e o beijou. Ainda enciumado não retribuiu, apenas a afastou. – Boa noite Bella e se lembre de que nossa conversa será sobre sua ida àquele lugar.
A moça o viu se afastar e entrar em seu jipe sem entender a mudança. Foi preciso que Edward sinalizasse com os faróis para que saísse da inércia e o imitasse. Por mais que repassasse suas últimas palavras não via o que poderia ter dito para distanciá-lo. Caso não fosse a dor em seu traseiro ou os faróis que a seguiam de perto, poderia acreditar que havia sonhado; não sonhou. Ainda não estava certa quanto aos tapas que recebeu, mas todo o resto seria para sempre lembrado. Tudo havia sido quente, muito quente e não se deixaria influenciar pelas variações de Edward nem a estragaria pensando no futuro. Saltaria um obstáculo por vez e por ora o maior era Charlie Swan. Enquanto guiava, rogava que ainda tivesse algum crédito e encontrasse todos a dormir.
– O que farei com você Edward? – Carlisle indagou em sua língua natal imediatamente à entrada do sobrinho. – Isso são horas de chegar? Onde esteve?
O jovem padre sustentou-lhe o olhar; não se encontrava num bom estado de espírito para discussões. Queria se deitar e dormir para abreviar o tempo que o separava do novo encontro.
– Por favor, senhor. – começou cansado. – Eu não quero ser grosseiro então apenas me deixe ir dormir.
– Deixou-me falando sozinho. – o tio lembrou-o, sério. – Nossa conversa ficou inacabada.
– Não ficou. – Edward retrucou, comprimindo o espaço entre seus olhos fechados. Previa uma dor de cabeça incômoda caso prosseguissem. – Eu a interrompi pelo mesmo motivo que o peço para que me deixe ir dormir. Não quero ser mal educado com o senhor. Estou farto de nossas brigas.
– Frequentes de uns dias para cá. – Carlisle salientou insistente. – Eu queria saber o que há?... O que tem feito de sua vida. Olhe como está... Sujo. Cheirando a cigarro... Fico me perguntando se também bebeu... Diante disso como posso vê-lo se destruir e simplesmente deixá-lo ir dormir?
O padre encarou seu eterno tutor, seu confessor – aquele que aprendeu a respeitar e confiar – e que a partir de uma única conversa fortuita deixou de reconhecer. Pelo afeto que ainda lhe tinha não foi descortês, contudo usou de sinceridade mordaz ao replicar.
– E se eu lhe dissesse que pela primeira vez em anos sinto que tenho uma vida? É nova. Não sei o que faço com ela; se a descarto ou apenas a vivo intensamente. A única coisa que sei é que somente agora, depois daquele maldito acidente que me levou tudo deixando um imenso vazio aqui – socou a têmpora direita –, eu me sinto vivo. Não vou esquecer minhas obrigações nem chamar a atenção sobre mim se é esse seu medo. Mas vou encontrar um meio termo que me permita ir aonde tenha que ir; fazer o que tiver que fazer sem ter que dar satisfações a ninguém. Nem mesmo ao senhor.
Carlisle continuou encarando-o altivo, porém a emoção podia ser vista em seus olhos. Sem envergonhar-se ou tentar ocultar, deixou que uma lágrima caísse por seu rosto consternado.
– Não posso condená-lo por desejar se sentir assim, mas temo pela forma que vai guiar essa vida. Não percebe como está indo contra sua vocação?... O que sua mãe diria?
– Não tenho como saber o que minha mãe diria e sabe por quê? – Edward chegou ao seu limite. – Porque ela está morta. Não tenho como confirmar o que a faria sentir orgulho ou decepção assim como não posso saber se sempre tive essa vocação que tanto cita e que me colocou aqui. – disse expandindo os braços para indicar seu entorno. – Não posso ter certeza de nada nessa existência que criou e me faz crer... Somente aceitar sua palavra que no momento, bem sabe que pouco vale para mim.
– Pare de dizer essas coisas. – Carlisle ordenou embargado. – Não admito que questione o que lhe digo.
– Quando muito pode não aceitar, mas não me obrigar a acreditar no que quer que seja. Agradeço por toda a dedicação que sempre me teve; na medida do possível vou obedecê-lo, por respeito ao nosso parentesco e à sua idade. Contudo entenda de uma vez por todas que eu cresci. Não preciso mais de um tutor que me diga aonde ir ou quando. Sou responsável por meus atos e se um dia cometer alguma falta a qual deva responder eu o farei sem pestanejar. Agora, por favor, deixe-me dormir. Não quero ser acusado de deixá-lo falando sozinho.
– Vá de uma vez Edward. – o tio o liberou por fim. – Mas antes de dormir reze pedindo iluminação para sua vida. Farei o mesmo para que não encontre trevas por esse caminho que pelo o que vejo, está decidido a trilhar.
– Farei exatamente isso. – retorquiu se encaminhando para o corredor. – Pedindo apenas para me manter em meu caminho, seja ele qual for.
Uma vez no quarto Edward refreou o ímpeto infantil de bater a porta e, sem se importar com a sujeira mencionada, atirou-se sobre a cama vestido como estava. Carlisle não precisava aporrinhá-lo mais quando já fora bem ruim seguir a moça substituindo o lugar antes ocupado por Jacob. Sendo igualmente conivente e até fraco por ter se rendido a ela sem conseguir sua confirmação de que deixaria a casa noturna. De qual outra forma poderia agir quando sua paixão por ela terminou por eclipsar seus erros? Nada, então deveria se esquecer de Carlisle e dormir para então estar junto a ela uma vez mais.
Minutos depois, ainda agitado, Edward levantou e passou a vagar de um lado ao outro. Inquieto, sem saber ao certo o que o movia, acendeu a luz e foi até o guarda roupa para resgatar a velha caixa de madeira. De volta à cama, acomodou-a sobre o colo e correu os dedos pela inscrição: SADE. Repassou a palavra mentalmente rogando que esta lhe trouxesse alguma centelha de reconhecimento; nada. Poderia significar qualquer coisa. Iniciais de um nome completo; referência ao Marquês de Sade. Não tinha como saber.
Sem se aprofundar na especulação, retirou o cordão do pescoço e abriu a caixa. Entre intrigado e fascinado, Edward ignorou as algemas e tomou um dos punhais em sua mão. Empunhou-o pelo cabo, sentiu seu peso depois correu o indicador pelo fio conseguindo um corte mínimo. A gota de sangue o lembrou seu pavor paralisante ao ver a palma lavada por ele; outra peça sem par para o quebra-cabeça incompleto que era sua vida, pois daquela vez nada sentiu.
Aproveitando a lâmina afiada cutucou os pontos esquecidos até soltá-los. No processo novamente se feriu, mas tão superficialmente que como seu dedo, logo estaria curado. Estava mais interessado no próprio punhal. Voltando a girá-lo também recordou seu sonho onde o manuseava enquanto Bella dançava e se despia somente para ele. Na ocasião o segurava pela ponta com um profundo desejo de arremessá-lo tendo a certeza que o acertaria.
– Como se adiantasse alguma coisa. – murmurou descrente antes de atirá-lo. Para sua surpresa o punhal atingiu o alvo. Não se fixou na porta do quarto e pelo adiantado da hora fez estrondo ao cair. Admirado Edward viu haver alguma lógica em se atirar facas daquela maneira até então pouco usual a ele. A novidade prendeu sua atenção, desviando-o das inquietações que o mantinha insone.
Considerando-se um tanto imbecil o padre retirou a jaqueta rapidamente e, depois de capturar o punhal, voltou à posição anterior. De pé, empregou maior força e novamente o arremessou conseguindo prendê-lo na madeira, contudo logo caiu com estardalhaço. Daquela segunda vez Edward reconheceu haver certa diversão na brincadeira, porém mesmo tentado não a repetiu. Se continuasse a fazer barulho logo Carlisle viria bater a sua porta e não estava disposto a um novo encontro.
Guardaria o punhal, mas mudou de ideia no último minuto deixando-o sobre a cama. Depois de trancar a caixa e recolocá-la no lugar, apagou a luz e se descalçou. Novamente deitado, segurou o punhal somente para rolá-lo pelo cabo. Talvez estivesse apenas impressionado por ter sentido um leve prazer ao atirá-lo, contudo também notou certa intimidade com o objeto; como ocorreu com a bebida, o tabaco e o clima da maldita casa noturna.
O que aquelas similaridades poderiam lhe dizer? Quais as chances de todas elas terem feito parte do passado de um precoce aspirante a padre? Nenhuma. Ou todas; bastava aceitar que seu tio não tão confiável, tenha lhe mentido todo aquele tempo.
– Pouco provável. – murmurou. Mais fácil seria crer que se autoinduzia a reconhecer aquelas coisas espúrias para estar mais próximo ao mundo de Bella. Ao pensar nela as especulações infrutíferas se esvaíram. Ficou o que fez na estrada; não o começo e sim o depois. Também abstraindo sua consternação final, apenas apreciou os ecos daquela satisfação desvirtuada vinda com cada contato violento de sua mão com a nádega arredondada. Acalentando o desejo maldoso de que ainda estivesse doendo, o padre finalmente dormiu.
Acordou horas depois atrasado, com o corpo desperto como de costume. Ignorando-o, banhou-se até que se aquietasse. Também dispensou as flexões, trocando-se para finalmente sair. Antes deixou o punhal ao lado de seu chicote; esquecido na gaveta desde a manhã de sábado na qual foi empunhado por Bella. Correndo os dedos pelas tiras negras, Edward confirmou que seu antigo companheiro de correção, quando muito seria um cúmplice em seus delitos, não um carrasco.
Como não havia tempo a perder, deixou de divagações libertinas, fechou a gaveta e saiu. A sala estava deserta, assim como a praça e seu percurso. Tanto melhor, não queria encontrar ninguém que o detivesse. Queria apenas seguir aquela força que o compelia até a moça, rogando para que ela já tivesse se valido de sua habilidade em fugir e o estivesse esperando. Não estava; constatou ao terminar a trilha. A casa dos Swan estava silenciosa e com todas as cortinas cerradas ao passar por ela. Assim como ele Bella havia chegado tarde, talvez tivesse perdido a hora; inferno.
Correndo os olhos ao longo da faixa de areia, o padre decidiu abandonar a má vontade e aproveitar a oportunidade de estar de volta à praia. Enchendo seus pulmões com o ar puro da manhã, observou que aquele seria um lindo dia e que não deveria estragá-lo logo cedo com seu mau humor. Bella chegaria e se não acontecesse, valeria como aprendizado para não criar tantas expectativas uma vez que nem sempre seus encontros dariam certo. Conformando-se Edward passou a alongar seus músculos e tão logo se sentiu bem disposto, iniciou a corrida.
Chegou até as grandes pedras próximas do local onde encontrou as roupas de Bella da última vez que esteve naquela praia. Recusando-se a deixar que a lembrança daquele encontro com Jacob roubasse a tranquilidade adquirida durante o exercício físico, fez o caminho de volta. Seguia distraído então avistou a moça sobre a conhecida pedra já a poucos metros. Invariavelmente ele não se ocupava em distinguir as sensações estranhas que o visitavam ao vê-la, mas a dor fina e gélida que cruzou seu peito naquele momento o assustou fazendo com que desacelerasse seus passos e seguisse caminhando até ela.
Bella se pôs de pé para recebê-lo. Seus cabelos estavam atados no rabo de cavalo que lamentava não poder desfazer. Vestia camiseta branca, uma calça de moletom preta e tênis da mesma cor que não a cobriam perante seus olhos. E em seus lábios carregava um sorriso tímido que o incitava a beijá-la somente para apagá-lo por saber ser tão embusteiro quanto quem o ostentava. Naquele instante novamente a desejava; e odiava por tê-lo feito esperar. Iria cobrar-lhe a falta quando Bella alargou o sorriso e murmurou.
– Posso tomar-lhe a benção senhor?
Surpreendente perceber o poder que a Messalina exercia sobre ele. Bella abria-lhe as portas do inferno por erotizar algo sagrado; ainda assim o padre arderia satisfeito sem nunca negar-lhe tal ação. Após atendê-la, ele estendeu a mão. A moça a segurou e comprimiu os lábios macios em seus dedos causando-lhe uma prazerosa agitação abaixo da cintura. Sua vontade era puxá-la para si. Beijar sua boca aliciadora e talvez dar sequência a todo o resto como qualquer casal normal faria. Todavia não poderia jamais se esquecer de que não formavam um. Nem estavam encobertos pela escuridão da noite.
– Basta! – pediu recolhendo a mão. Apesar de desértica a praia não era segura para que permitisse contatos prolongados.
– Bom dia! – ela cumprimentou sem se abater com a interrupção; se colocando muito perto, indicando compartilhar de sua vontade proibida.
– Buongiorno! – exalou em um fio de voz, mirando a boca rosada tão próxima a sua. Com um pigarro libertador, Edward deu um passo atrás e se recompôs para assumir o controle da situação. – Você demorou.
– Não vai me beijar? – ela indagou com um muxoxo ignorando o comentário.
– Aqui não é o lugar. – lembrou-a. Afastando-se mais antes que também se esquecesse.
Evidente que não era; Bella pensou deixando-o ir. Em sua ansiedade pelo reencontro ficava alheia aos cuidados que deveria tomar. Não seria sempre que sua boa estrela lhe sorriria como à noite quando não foram flagrados na estrada nem cruzou com seus pais a sua chegada.
– Vamos caminhar então? – sugeriu.
– E conversar como combinado. – falou emparelhando-se a ela.
– E conversar. – repetiu com o coração aos pulos. Alimentou fantasias românticas por toda a madrugada somente para ser despertada pela dura realidade; a hora da verdade havia chegado. Por ser um momento decisivo, lhe pareceu que ficaram em silêncio por tempo demais. Ela a sentir as palmas das mãos suadas e frias, pois não saberia como lhe diria que não poderia deixar de ir à casa noturna; ele por estar cansado de tantas mentiras e descrente de que em algum momento viesse a acreditar em explicações dúbias.
– Então. – Bella foi quem rompeu o silêncio. – Qual o tema?
– Jacob Black. – falou sem pensar; afinal o rapaz era o maior de todos seus problemas.
– Não sei o que ainda possa dizer sobre ele. – a moça retrucou cautelosa. – É um grande amigo e nada mais.
– E baseado em sua concepção de amizade eu devo entender que Emmett também o seja? – ironizou acidamente.
– Emmett é apaixonado por Rosalie – Bella contou sem rodeios. – E estou considerando o que disse como segredo de confissão.
– E mesmo assim se sujeita a ficar com ele?! – Edward ciciou. Nem mesmo ser lembrado de sua condição apagou o espanto da declaração; a leviandade da moça não conhecia limites. – Sinceramente não sei como ainda me surpreendo.
– Não julgue o que não sabe. – ela pediu detendo-o pelo braço. Quando os olhos azuis enraivecidos estavam nos seus, esclareceu. – Nunca estivemos juntos da forma que imagina. Era apenas encenação para que minha irmã covarde tomasse alguma atitude e o assumisse. Acredite. – novamente pediu sentindo seu rosto corar de vergonha genuína ante ao olhar duro que recebia. – Estou dizendo a verdade, senhor. Quando aceitei a proposta de Emmett ela não me pareceu tão estúpida como agora.
Se a face carmim não endossasse suas palavras os olhos castanhos o faziam, contudo longe de se tranquilizar, Edward inquiriu.
– Então devo entender o quê do espetáculo que presenciei aqui nessa praia quando sua irmã nem ao menos estava presente? – ao registrar o morder de lábios e um leve encolhimento de ombros, imaginou ter sua resposta. – Eu estava não é mesmo?
– Desculpe-me. – pediu. – Foi imaturo de minha parte. Eu estava com raiva por me destratar sem motivo, quis revidar, causar ciúmes, nem sei mais...
– Pois saiba que conseguiu. – ele a cortou taciturno; irritado por recordar que pela infantilidade dos jovens amigos se entregou de bandeja ao tio admitindo sua fraqueza. Para evitar erros futuros, falou sinceramente. – Sei que não devo, mas sinto ciúme de você. Por isso a quero livre, pois não suportaria divisões.
– Não há. – ela assegurou espalmando as mãos em seu peito, sem se importar onde estavam. Não sentindo qualquer orgulho ao saber que atingira seu objetivo. – Somos apenas nós dois. Quando me falou para deixá-los eu disse que não havia o que pensar porque não tenho ninguém. Por favor, acredite em mim.
Em meio àquele mar de mentiras no qual ela parecia viver mergulhada, acreditar era tudo o que mais queria, contudo havia tantos detalhes sórdidos a serem analisados que simplesmente não via meios de conceder-lhe alguma credibilidade. Retirando as mãos delicadas de seu peito, falou dando um passo atrás.
– Posso acreditar nesse acordo infantil; ambos parecem capazes de qualquer inconsequência e podem ser somente amigos. – quando a moça lhe sorriu satisfeita, prosseguiu. – Mas o mesmo não se dá com Jacob. Eu os observei, Bella... Não uma, e sim várias vezes. – ela abriu a boca para protestar, porém Edward não permitiu. – E se não bastasse toda a intimidade e a tensão presentes nos encontros que presenciei, há as palavras dele que confirmaram já tê-la tocado... Há a presença dele naquele lugar maldito.
Aquela foi a vez de Bella recuar antes de se manter completamente imóvel. Na noite anterior o amigo não estava na boate. Havia apenas uma forma de Edward saber. Forçando o ar para seus pulmões, indagou num fio de voz.
– Ontem não foi a primeira vez que me viu dançar?
– Não. – o padre confirmou silábico.
– Quantas vezes o senhor esteve na The Isle? – sussurrou; a garganta obstruída.
– O suficiente para não acreditar no que diz.
– Então como será? – ela perguntou no limite do seu constrangimento.
Imaginar-se a dançar perante tantos homens com aquele que amava entre eles tornava a possibilidade de seu pai descobrir insignificante. Se pudesse voltar no tempo jamais teria colocado os pés naquele antro como Edward mesmo o denominava, pensou com os olhos a marejarem. Sem dúvida aproveitaria a oportunidade e cortaria os avanços de Jacob desde o primeiro momento, nem concordaria com a estupidez de Emmett. Faria qualquer coisa que naquele momento a livrasse do impasse no qual se colocou.
– Se não acredita como nós poderemos... – Bella não foi capaz de terminar a frase que inaudivelmente iniciou. O choro que lhe travava a garganta veio fácil, calando-a. Pelo tanto que conhecia do comportamento de seu padre bipolar à luz do dia, cada vez mais lhe parecia que aquela conversa era somente o prenúncio para o que temeu acontecer na noite anterior.
– Per favore, non piangere. – Edward pediu olhando em volta antes de fixar sua atenção na figura arqueada da moça, sem saber por que chorava. Nervosamente correu a mãos pelos cabelos não sabendo como agir. Quantas vezes desejou consolá-la? Inúmeras e quando tinha a chance descobria que não poderia fazê-lo. O impedimento ante algo corriqueiro o tornava mais consciente da inviabilidade daquele relacionamento, porém não havia como recuar. – Não chore Bella...
Queria atendê-lo, mas não podia. Desamparada, ela se deixou cair sentada sobre a areia macia; já saudosa daquela fala cantada e dos beijos que não receberia. Por que ele não colocava um fim em sua agonia? Edward não poderia e vê-la desmoronar o desesperou de vez. Enraivecido por sua inutilidade passou à circular diante dela, assistindo seu choro silencioso.
– O que eu disse para deixá-la assim? – perguntou por fim; sem encobrir a rispidez em sua voz. – Não pode me culpar por acreditar mais em ações do que em palavras.
– Não culpo. – falou embargada; era a única errada. – Só não quero que vá embora...
– Dio santo! – ele estacou confuso, porém aliviado por vê-la reagir sem sua ajuda. – E quando eu disse que iria?
– É a lógica, não? – Bella indagou igualmente aturdida, secando as lágrimas com as costas das mãos. – Depois de ver o que faço e não acreditar que esteja sozinha como vai me aceitar?
– Eu já aceitei menina. – o padre afirmou agachando-se a sua frente. Chamou-a daquela maneira por ser exatamente como ela lhe parecia. Chorosa, com o nariz e bochechas vermelhas; tão mais nova do que ele além dos seis anos que os separavam. Quando os orbes castanhos e lacrimejantes maximizaram incrédulos, Edward pôde até conferir-lhe alguma inocência; estava perdido. E como não retrocederia, decidiu confortá-la com palavras. – Estou lhe dando o benefício da dúvida Bella. Quem sabe com o tempo não entenda esse relacionamento estranho que insiste em chamar de amizade?
Bella seria capaz de beijá-lo tamanha alegria em ouvir tais palavras, contudo a postura rígida e a distância que nem ao menos o permitiu abraçá-la lhe indicava que não haveria exceções quando fosse preciso manter a discrição.
– Vai entender. – assegurou. E decidida a não lhe esconder coisa alguma para fazer por merecer a confiança empenhada, acrescentou. – Na segunda, depois que o deixei, fiquei sabendo do acidente de Jacob e fui com meus pais visitá-lo. E foi bom, pois tivemos uma conversa definitiva.
– Definitiva como? – perguntou contrafeito.
– Ele entendeu que nunca ficaríamos juntos. Não vai mais me perseguir nem demonstrou interesse em denunciá-lo pelo o que viu.
– E você acreditou?
– Bom... Só o tempo dirá, mas no momento não tenho porque duvidar. – falou arriscando um meio sorriso.
Não havia muito a ser feito senão esperar, ele decidiu um tanto mais calmo por vê-la finalmente tranquila. Com aquelas palavras, Jacob se tornava um problema menor ante o impedimento de abraçá-la; Edward esperava nunca mais passar por algo parecido.
– Se confia, vou fazer o mesmo. – garantiu antes de perguntar. – Está mais calma?
– Disse que não vai embora então estou. – sorriu mais confiante.
– Não vou. – ele reinterou gravemente. – Esqueceu o que eu disse ontem? Que me enlouquece desde a primeira vez que a vi?
– Não esqueci – falou segura. –, mas tem que concordar que também não é muito confiável, senhor. Tem horas que me atrai e em outras me rejeita sem qualquer motivo aparente. O que eu deveria pensar quando os têm aos montes?
Não poderia tirar sua razão e se a queria em sua vida deveria mostrar-se um pouco a ela. Com as pernas doloridas pelo agachamento, finalmente se sentou exalando um suspiro cansado. Depois de passar as mãos pelos cabelos já em desalinho, explicou.
– Não foi sem motivos. – sem desviar os olhos do rosto ainda corado pelo choro recente, prosseguiu. – Sabe que é errado isso que estamos fazendo. Não posso querer estar com você Bella, no entanto é o que quero e tudo piora quando faz coisas que não me agradam.
– Poderia ter me dito.
– Não havia o que dizer... Não vim para essa cidade a passeio nem a procura de flertes, então não espere que eu fique me declarando. Eu deveria era parar de sentir, mas como parece impossível estou disposto a fazer com que isso entre nós dê certo de alguma maneira.
– Não precisa se declarar desde que me mantenha por perto. – a moça falou contente; animada por Edward ter feito uma declaração mesmo sem perceber.
– Você entende o que acontecerá entre nós? – ele indagou expectante. Receoso de que ela não tivesse se dado conta do que lhe aguardava. Descobriu naquele momento que ansiava por seu entendimento e que ela fizesse o que ele não era capaz, colocando fim na insanidade se recusando a tomar o caminho sem futuro que a convidava a seguir. – Não tenho nada a lhe oferecer Bella. Não se trata somente de declarações. Nunca serei seu namorado. Não haverá passeios, mãos dadas, sorvetes divididos com a mesma colher na lanchonete ou qualquer dessas bobagens românticas que jovenzinhas como você esperam.
– Mas eu o terei para mim, não terei?
– Raríssimas vezes. – explicar para ela dava a si próprio à devida dimensão do sacrifício que lhe impingia. Era um homem egoísta sem chances de remição. – Todas discretas, pois ninguém nessa cidade além de Jacob pode sequer sonhar com nosso envolvimento. Acha que pode suportar?
– Deixe-me pensar... – pediu jocosa, contorcendo o rosto como se efetuasse um cálculo mental. – Será que posso suportar ter um “não namorado” que por ser padre não poderá assumir perante todos... Difícil essa!
– Por que brinca com assuntos sérios? – Edward indagou com o cenho franzido.
– Porque se não brincássemos às vezes enlouquecíamos senhor. – ela exclamou jovial. Então subitamente séria pediu. – Por que não fazemos assim... Vamos deixar acontecer, depois veremos o que podemos suportar. Não temos como prever o futuro não é mesmo?
Era arriscado, mas não havia outra solução. A moça poderia simplesmente se cansar de ser sua amante e deixá-lo, contudo nenhuma palavra empenhada naquele momento seria garantia de uma permanência duradoura; apenas a possibilidade enregelava seu coração.
– Tem razão... – disse rouco. – Não podemos prever o futuro.
– Já que é assim... – Bella começou esperançosa, mirando a boca que durante toda a madrugada quis provar. – Poderíamos “não namorar” só um pouquinho?
Ouvir o pedido manhoso e vê-la correr a língua sobre os lábios enquanto seu coração ainda era atacado pelo temor de uma possível separação reacendeu nele a vontade de abraçá-la e beijá-la. Considerava atendê-la quando uma movimentação distante chamou-lhe a atenção, mostrando que esteve certo por em momento algum se render às suas vontades.
– Seu irmão veio buscá-la. – informou acenando para Jasper que antes o cumprimentou. – Vê que aqui não é seguro? – acrescentou colocando-se de pé.
– Então onde? E quando? – Bella perguntou rapidamente, imitando-o e também acenando para o irmão.
– Ainda não sei, mas darei um jeito. – Edward assegurou ansioso com a separação momentânea e com a percepção de todas as complicações que teriam.
– Bom dia senhor padre! – Jasper exclamou jovial medindo um e outro. Fixando o olhar no rosto corado da irmã, comentou. – Saiu cedo. Por que não me acordou?
– Cheguei tarde Jasper. Nem sabia que você estava em casa.
– Alice me trouxe ontem à noite. – explicou. – Quis se certificar que eu viria direto para casa. Acho que está desconfiada da semana passada.
Bella não queria nem lembrar o mal entendido, contudo Edward se mostrou curioso.
– O que aconteceu?
– Ah... Uma bobagem. Fui a uma boate lá de Wells. Ela não sabe, mas desconfia. – contou, alheio a troca de olhares significativos entre o casal.
– Entendo. – Edward falou levemente enjoado por imaginá-lo a ver a irmã despida. Como se lesse seu pensamento, ela esclareceu.
– Sei que não está interessado nessas coisas senhor, mas meu irmão queria conhecer uma das atrações. Só que ela já tinha se apresentado e ele nem a viu.
– Pois é... – exalou lamurioso. – Uma pena, mas não vale arriscar me desentender com Alice. Não volto mais até lá.
– Acho que muitas pessoas deveriam deixar de ir a lugares desse tipo. – o padre retorquiu contrariado por ter se deixado levar pelo choro da moça que o distraiu fazendo-o esquecer daquele assunto. Sério, recuou um passo. – Que bom que chegou para fazer companhia para sua irmã... Preciso ir cuidar de meus afazeres. – olhando diretamente para Bella, despediu-se. – Foi um prazer encontrá-la aqui. Gostei muito de nossa conversa. Consegui convencê-la de voltar às missas?
– Se conseguiu foi um milagre. – Jasper se adiantou a ela. – Eu já estava estranhando ela ir com frequência. Essa aí nunca gostou de igrejas.
– Veremos senhor. – ela respondeu séria impressionada com a dureza da voz cantada. Estava claro que a menção da casa noturna havia quebrado o clima bom. Como prova ele não retrucou; apenas se despediu dos dois irmãos e se foi, não olhando uma única vez para trás.
– Agora nós dois maninha. – Jasper falou ao seu lado atraindo-lhe a atenção.
Bella o encarou com as sobrancelhas unidas. Algo no olhar do irmão lhe dizia que encontrá-la a conversar com o padre, depois de escapulir muito cedo, havia alimentado suas suspeitas. Colocando as mãos nos bolsos da calça de moletom para ocultar seu tremor, perguntou desentendida.
– O que fiz para usar esse tom?
– Eu perguntei uma vez e você negou, mas tenho que fazer novamente... Você está interessada no padre?
– Agora uma pessoa não pode conversar com outra que já é interesse? – rebateu ofendida. – Apenas nos encontramos aqui... E ele aproveitou para me chamar de volta à igreja. Você ouviu.
O irmão a encarou desconfiado; mediu-a de alto abaixo, então falou.
– Não acredito em você, mas não é da minha conta. Não quero ser o irmão chato que fica regulando sua vida. Só espero que não seja louca de se insinuar para o padre. Respeite-o e também ao Emmett.
– Pode deixar... – ela exalou cansada. – Agora podemos ir? Estou com fome.
– Todos nós estamos. – Jasper comunicou rumando para a trilha com a irmã ao seu lado. – Papai está nos esperando para tomarmos o café juntos. Sabe como ele fica quando está perto de uma viagem.
– Sei sim. – Bella falou levemente culpada. – Eu deveria ter prestado atenção à hora.
– Deveria. – provocou. –, mas com tanta distração fica difícil.
A moça não retrucou. Seguiu calada até a casa ainda temerosa com o que viria em seu próximo encontro com o padre. Baseada em tudo o que foi dito naquela manhã, considerava contar a verdade. Apesar da chantagem, estava determinada a deixar a casa noturna e talvez Edward lhe desse alguma ideia sobre como agir.
– Finalmente! – Charlie exclamou a entrada dos filhos. – Pensei que fosse preciso eu mesmo ir buscá-los.
– Nem demoramos tanto assim. – Jasper falou indo se sentar. – Encontrei-a e logo viemos embora.
Bella agradeceu intimamente por seu irmão não ter mencionado o padre. Depois de lavar as mãos, ocupou seu lugar à mesa. Após cumprimentar a todos corretamente, perguntou à irmã.
– Alguma novidade? – não foi preciso mais do que isso para que Rosalie a entendesse.
– Nada ainda. – falou sem emoção.
– James aparecerá. – Renée sentenciou. – Agora podemos tomar nosso café sem assuntos desagradáveis?
Houve um consenso geral ao qual Bella também agradeceu. Perguntara somente para puxar um assunto qualquer. No fundo somente conseguia se preocupar com sua própria vida; dividida entre a alegria de finalmente ter conquistado o interesse do padre e o temor pelo o que ainda colheria por seus atos impensados.
Atendendo ao seu desejo mudo, naquela manhã o pai a requisitou para lhe fazer companhia no centro comunitário para que junto com os voluntários o ajudasse a deixar tudo em ordem para sua partida. De bom grado os ajudou a decidir o que seria prioridade para tratar na sua volta ou as amenidades cuidadas durante sua ausência. Também ajudou na organização do recebimento dos poucos habitantes queixosos.
Sam estava entre eles para pedir – pela quinta vez – autorização para abrir um pequeno bar. Novamente assegurou que não faria concorrência com a lanchonete, pois seria um lugar voltado aos adultos com bebidas e uma mesa de bilhar para a diversão dos pescadores. Assim como seu pai, Bella sempre fora contra por solidariedade a Esme, pois mesmo negada, a concorrência existiria. Contudo, com o novo temor em ser descoberta, preferia que os homens de Sin Bay permanecessem na pequena cidade.
– O senhor deveria deixar papai. – falou despretensiosa. – Acho que seria divertido ter onde jogar bilhar. Ou dardos. Já pensou nisso Sam?
– Está nos meus planos, caso o Sr. Swan finalmente autorize. – falou esperançoso.
– Não sei. – o capitão olhou-o sério. – Conhece meu medo.
– Não vou criar alcoólatras. – o dono da casa de iscas falou veemente. – Podemos tirar uma base por nossos bailes mensais. Que oportunidade melhor todos teriam de encher a cara, no entanto, mesmo que bebam nunca ninguém passou dos limites.
– É verdade. – Charlie concordou.
– Deixe papai. – Bella pediu.
– Eu asseguro que mantenho a ordem. – Sam empenhou sua palavra. – Gostaria que me desse sua resposta antes que fosse para o mar, pois queria começar a adaptar minha garagem, integrando-a ao porão.
Charlie olhou de um a outro. Depois de deliberar consigo mesmo por alguns instantes, aquiesceu.
– Está bem... Mas não invista muito, pois se tivermos problemas eu pedirei para fechar o bar.
– Sim senhor! – Sam exclamou satisfeito já se colocando de pé para apertar-lhe a mão e sair. – Obrigado!
Depois de piscar para Bella em agradecimento pela ajuda, se foi. Depois dele outros entraram. Ouvia-os aérea e nunca mais interveio. A cada demonstração de respeito similar a de Sam Uley a moça se sentia mais culpada. Se um dia sua vida dupla viesse à tona causaria um forte abalo na reputação de seu pai. Como alguém obedeceria ou respeitaria um homem que não tomava conta de sua própria família?
Sentindo-se nauseada pediu que o pai a liberasse. Caminhou até sua casa e ao passar em frente a igreja tomou o devido cuidado de não a olhar. Juntamente com seu mal feito na boate estava seu romance com o padre que igualmente deixaria seu pai desacreditado perante todos. Infelizmente aquele era um risco que não deixaria de correr. Seria o mais discreta possível e negaria com veemência convincente caso alguém mais observador como seu irmão levantasse a hipótese, mas de Edward Cullen não abriria mão.
SPOILER...
Debruçada sobre sua mesa de desenhos, a moça procurou distração traçando riscos aleatórios com grafite sobre uma das grandes folhas em branco. Logo descobriu que seus traços não tinham a casualidade inicialmente pretendida, adquiriam formas distintas que logo lhe mostraram olhos conhecidos; desprovidos de cor ainda assim tão azuis. Animada por eles cobriu-os com sobrancelhas grossas e expressivas. Então partiu para o nariz grego, longo, reto e forte. Apagou-o e recomeçou por três vezes; entregue a tarefa. Perdia-se na simetria dos lábios que sentia a falta, quando notou a movimentação à sua porta.
– Buona sera Bella!
Foi preciso tapar a boca para não alardear seu espanto. Ainda não recuperada do susto, tremendo violentamente e sem ter muita certeza de que se manteria de pé, ela deixou o banco. Foi até Edward – muito a vontade como se não fosse errado estar ali vestido em jeans e camiseta. Antes de responder, ela saiu para olhar em direção a porta da sala. Ao vê-la às escuras recuou confusa para finalmente cumprimentá-lo.
– Boa noite. Que horas são?
– Perdoe-me, mas não vim lhe informar as horas. – e antes que pudesse assimilar suas palavras, foi capturada e beijada fortemente.
E quem queria saber o horário afinal, pensou passando os braços ao redor de seu pescoço. Caso restasse alguma dor em sua cabeça, esta se foi num passe de mágica. Toda a consciência que tinha do próprio corpo era aquele calor que a aquecia por inteiro enquanto tinha a língua experimentada com avidez por seu padre. Queria poder se perder em todas as sensações que a visitavam, mas ainda lhe restava um fio de consciência que a fez tocá-lo no peito e afastá-lo.
– Espere. – pediu num sussurro quando Edward tentou retomar o beijo. – Minha mãe...
– Ela já subiu. – ele informou calmamente. – Eu esperei.
– Esperou? – o ar se tornou rarefeito por imaginar Edward ao redor de sua casa, vigiando até o momento oportuno para ir até ela; teria pressentido e por esse motivo também “esperado” enquanto o desenhava?
– Precisava vê-la. – explicou como se aquele desejo bastasse para cruzar a cidade no meio da noite, pela segunda vez seguida, e se arriscar ser descoberto. Como não amá-lo mais?
– Também senti a sua. – exalou junto à boca masculina. – Eu o vi mesmo essa manhã?
– Não tenho muita certeza. – Edward respondeu intimista. O tempo parecia estranho longe dela.
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