Notas iniciais
Oie... Obrigada pelos reviews... :) BOA LEITURA!

Ao mirar o próprio rosto no pequeno espelho sobre a pia do banheiro, Edward analisou as olheiras acentuadas sob seus olhos azuis. Intimamente maldisse a presença noturna de Bella que povoou sua mente por todas as horas até o raiar do dia. As imagens alternadas iam desde a breve estada feminina sobre sua cama até sua atenção exagerada e pública ao rapaz loiro. Custava a crer que quase se rendeu aos encantos de uma Messalina capaz de trair e enganar á todos enquanto ainda afrontava a irmã. Perturbador era perceber o quanto lhe sentia a falta, o padre pensou enquanto seguia para seu quarto.

Ao entrar no cômodo, como todos os dias desde a quinta quando deixou de ir á praia, se lançou ao chão e iniciou uma serie de flexões. Como muitas coisas sobre si mesmo, não entendeu a forma de substituição que subitamente lhe ocorreu, mas ainda que em poucos dias, apreciava o subir e descer de seu corpo tanto quanto apreciava correr. Seus braços ainda doíam pelo esforço ininterrupto e diário, contudo Edward os flexionava até a completa exaustão. Enquanto se exercitava não pensava na cobra tentadora. Naquela manhã – até onde conseguiu contar – fez quase duzentas flexões. O pároco perdeu-se muito antes em sua contagem quando a presença invasora tomou sua mente de assalto indiretamente pela lembrança das palavras de seu tio.

– Amanhã Bella virá buscar as imagens... – Carlisle disse de má vontade tão logo o afilhado retornou á casa depois de considerar seus afazeres na igreja encerrados. – Foi o que ficou combinado com o pai.

– Ouvi antes de sair. – Edward retrucou tomando o caminho do corredor; precisava de um banho que o fizesse esquecer o que havia visto na lanchonete.

– Espero que não tenha uma recaída. – o padrinho comentou aumentando a voz para ser ouvido, obrigando o padre á girar nos calcanhares e retornar á sala.

– Agradeceria se parasse com esse tipo de comentário.

– E eu agradeceria muito mais se parasse de ser tão sensível á essa moça. Alega ter perdido o interesse, mas eu vejo como fica á simples menção do nome dela.

– Então pare de dizê-lo. – Edward ordenou antes de dar as costas ao tutor e rumar para o banheiro.

Ao entrar refreou o desejo de bater a porta. Realmente não deveria ser tão suscetível á ela, mas não mandava em seu corpo e mente. Como não os comandou durante a noite, ou pela manhã que sempre o encontrava excitado mesmo que insone; ou naquele exato momento em que erguia do chão com os braços e costas doloridos e fazia o caminho de volta ao banheiro para banhar-se. Como invariavelmente fazia, tentava dizer á si mesmo que a expectativa que tomava seu coração era somente pelo início das obras em sua igreja e não com a visita agendada contra sua vontade.

O banho foi breve, assim como o tempo que gastou para aprontar-se, mínimo. Ás sete horas já se encontrava em sua igreja, com as orações matinais concluídas e á espera dos primeiros trabalhadores; todos locais deixando-o á vontade com o conhecimento geral.

– Bom dia padre! – disse Carl, tão logo entrou na capela depois de estacionar um pequeno caminhão ás suas portas. – Trouxe os andaimes de aço que sempre usamos no reparo do galpão. Quando der o sinal verde começamos.

– Pois já o tem. – Edward disse subitamente se sentindo ansioso com o início dos trabalhos.

– Então com sua licença senhor... – o grande homem pediu, antes de sair, porém se voltou e avisou. – Alguns dos rapazes ficarão aqui para iniciar os reparos nos bancos... Será barulhento.

– Não tem importância. – tranquilizou-o com um sorriso. Talvez o martelar e serrar incessante ocupasse os espaços vagos em sua cabeça traiçoeira, pensou enquanto seguia Carl até a entrada da igreja para olhar em direção á rua que levava a trilha da praia.

Com as mãos nos bolsos de sua calça, Edward ficou á observar os homens descarregarem as grandes armações e recostá-las contra a parede lateral da pequena igreja. Pela agilidade empregada, poderia supor que realmente eram experientes no trabalho que executariam. Manteve-se tão absorto na ação que teve um leve sobressalto ao ouvir a voz feminina atrás de si.

– Bom dia senhor Cullen!

Antes mesmo de se voltar tentava identificar e administrar a decepção por não ser a moça certa.

– Bom dia Rosalie.

– Sua benção padre!

Ao abençoá-la sentiu seus dedos reclamarem um contato que não mais teriam. Respirando profundamente, indagou logo em seguida.

– O que faz aqui tão cedo?... Acaso veio para conversarmos?... Se foi para isso, hoje eu...

– Não senhor. Sei que hoje os trabalhos começam. – ela o interrompeu apressadamente; então acrescentou segura. – E não preciso mais perturbá-lo com minhas lamúrias. Já me ajudou o suficiente.

– De verdade? – o padre nutria certa dúvida, afinal ela alegou amar aquele que sua irmã languidamente alimentou bem diante de seus olhos; e dos dele, pensou contrafeito.

– De verdade. – ela confirmou. – Acho que vou fazer como me disse e conversar com meu pai. Estou juntando coragem... De toda forma o que mais me atormentava era o sentimento ruim por minha irmã e esse já passou.

– Passou? – indagou com o cenho franzido.

– Bom... – ela começou receosa. – o que digo aqui ainda fica sob o segredo da confissão?

– Fica. – Edward a tranquilizou, queria saber o que se passava.

– Bom... Então reafirmo que passou sim... É incomodo, mas vejo como Emmett este feliz ao lado de minha irmã. E é isso que me importa. Também não sei se acredito que Bella o esteja usando, ela sempre foi sua amiga, não o magoaria dessa maneira. Quero vê-lo sempre contente... E também... Vê-lo. Nesses últimos dias tenho estado perto de Emmett mais vezes do que nos últimos meses.

Como padre deveria entender e enaltecer tal amor desapegado; como psicólogo acreditava que a moça á sua frente precisava de ajuda para trabalhar sua total falta de amor próprio e estima; como homem sua vontade era sacudi-la para tentar acordá-la de tamanho torpor. Perguntava-se como poderia se conformar em presenciar os carinhos que a pessoa amada fazia á outra somente pela oportunidade de “vê-la”. O conceito lhe parecia absurdo e sem fundamento, contudo não era de sua conta, pensou resignado. Apenas tentava sufocar o desejo que sentia por uma das partes citadas então não deveria se aprofundar em um assunto que cada vez mais perdia seu interesse. Na verdade apenas uma coisa importava por isso falou.

– Se encontrou paz nesse pensamento... Apenas faço votos que tenha coragem de conversar com seu pai o quanto antes... – mudando o peso de seu corpo em suas pernas, perguntou novamente. – Se não veio para conversar o que veio fazer?

– Vim buscar as imagens que Bella precisa restaurar.

Á explicação, o coração desavisado do padre involuntariamente enregelou; Bella não viria.

– Pensei que sua irmã viesse fazê-lo. – comentou sem pensar. Precisava ouvir mesmo que soubesse a resposta. – O que houve?

– Não saberia dizer, senhor. – ela disse sinceramente. – Ontem ela me pediu para fazer-lhe esse favor... E sem questioná-la então não saberia lhe dizer o motivo de não vir ela mesma... Desculpe.

Como pensou anteriormente, sabia o motivo. Ela apenas fazia o que lhe pediu; o que lhe ordenou na verdade. Então não deveria se sentir traído por não ter comparecido em um compromisso que nem fora marcado por ela. Ainda com o coração á palpitar estranhamente, ele indagou.

– Sua irmã fez alguma recomendação?... Disse quanto precisaria para o material?

– Não disse. – Rosalie comentou levemente consternada. – Eu deveria tê-la lembrado... De toda forma, se ela não pediu deve ser porque não precisa de nada... Ela tem tanta coisa naquele atelier...

O padre ainda recordava de seu comentário na ocasião do acordo entre ela e seu tio. Que deixaria para depois do piquenique porque teriam dinheiro para o material que utilizaria; se Bella não lhe mandou qualquer recado poderia supor que não dava a devida atenção ao trabalho que executaria, deduziu contrariado. Tentando modular sua voz, disse.

– Mesmo que tenha tudo não acho certo... Venha, vou enviar algum dinheiro e você lhe entrega.

– Sim senhor. – a moça concordou seguindo-o até a sacristia.

Após contornar a grande mesa, Edward se sentou em sua cadeira e, depois de destrancar a primeira gaveta, separou algumas notas que considerou ser o suficiente para gesso, tintas e as desconhecidas folhas de ouro. Colocou o montante em um envelope e o entregou á Rosalie.

– Diga é sua irmã que se for preciso mais basta avisar-me. – ela mesma lhe soprou sua parte saudosa. – Ela disse qual imagem deveria levar?

– Bella pediu que levasse todas, mas hoje meu pai saiu cedo com a pick up, então levarei apenas uma... Depois ela vem buscar o restante... ou eu volto, enfim...

Sem que pudesse evitar, Edward sentia uma raiva inexplicável crescendo em seu íntimo. Deveria estar agradecido por Bella atender-lhe e se manter no seu lugar, contudo começava á odiá-la pela obediência; decididamente a moça o enlouquecia. Sabendo-se incapaz de proferir uma única palavra que não soasse rouca ou incerta, o padre apenas levantou e foi até o salão principal da igreja. Rumou decidido até a imagem que a moça havia analisado e a pegou sem muito esforço. Depois de pigarrear algumas vezes a estendeu á Rosalie e disse.

– Leve essa. Depois veremos o que fazer com as outras.

A moça tão parecida com a irmã caçula, porém sem ter sobre ele efeito algum, tomou a imagem de suas mãos e depois de abraçá-la protetoramente, se despediu e partiu. Edward ainda ficou á vê-la sumir na rua que a levaria para casa; para junto de Bella, pensativamente.

– Bom dia senhor! – ouviu um rapaz dizer ao seu lado; também não lhe notou a aproximação. – Charlie nos mandou para ver os bancos.

O padre desceu o olhar sobre os três homens á sua frente, depois de cumprimentá-los mecanicamente, os fez entrar e os deixou á cuidar de seu serviço. Minutos depois de se refugiar na sacristia, pôde ouvir o primeiro som de um martelar. Após alguns minutos não ouvia nada além de seus próprios pensamentos. Até mesmo quando o padrinho se juntou á ele, não lhe ouvia. Tudo que conseguia era se questionar sobre a possibilidade cada vez mais palpável de nunca mais se encontrar com a moça; como tanto sua parte consciente desejou.

Para agravar a briga interna entre suas metades, quando voltou á sacristia depois de ter saído por apenas alguns minutos, descobriu o envelope que mandou por Rosalie sobre sua mesa. Ao abri-lo teve a impressão que Bella nem ao menos contou o dinheiro enviado. Ao ler o bilhete anexo, não soube decifrar se estava certo.

Agradeço a ajuda de custo, mas era desnecessária. Descobri que os materiais que possuo serão suficientes. Quando a imagem estiver pronta peço á alguém para levá-la. Se possível mande todas as outras de uma só vez, assim não será preciso perturbá-lo. Sem mais, obrigada.

Isabella

Depositando o bilhete sobre a mesa, Edward se ergueu e, depois de pegar o envelope, seguiu até a porta. Realmente ficou fora por míseros minutos, talvez ainda a visse á cruzar a praça. Não iria aceitar mais favores. Ela estava prestando um serviço á igreja e como todos os outros trabalhadores receberia ao menos o material. Ao chegar á porta, não a viu em parte alguma. Somente então se lembrou que Bella provavelmente já havia seguido viagem para suas aulas em Wells. Olhava para o envelope, ordenando á si mesmo que deixasse de desculpas esfarrapadas que o colocassem diante da moça, quando um dos trabalhadores se aproximou apontando para o mesmo.

– Senhor padre, eu que deixei isso sobre sua mesa. Aconteceu alguma coisa?

– Não, obrigado... – respondeu-lhe alheio; ela nem mesmo entrou.

Ao voltar para o interior da igreja uma parte sua lamentava ter atendido ao chamado de Carlisle para que fosse se servir da comida tão primorosamente preparada pela prestativa senhora Williams. Se não tivesse ido se obrigar á comer alguma coisa, teria cercado a moça. E para quê? Sua parte lúcida lhe perguntou. Para fazê-la receber dinheiro que não queria? Pouco provável. Deveria deixar que tudo seguisse seu curso sem interrupções. Determinou, ordenou e estava sendo atendido; finalmente o certo.

Na manhã seguinte – depois de mais uma noite praticamente insone – o padre pensou tão logo terminou sua série de flexões, que a droga toda era a inquietação que o certo lhe trazia. Em todo o tempo não conseguia mais do que poucos minutos de trégua para seus questionamentos, a imagem persistente de Bella e a ausência sentida. Enquanto se banhava, se dizia que não havia motivos lógicos para padecer por uma mulher leviana e traidora. Já em seu quarto, entoou palavras de encorajamento para aquele novo dia; que seria diferente mesmo tendo semelhante início á todos os outros.

– Bom dia padrinho, sua benção. – Edward cumprimentou tão logo o encontrou ao entrar na cozinha. – Como se sente hoje?

– Estou bem, obrigado. – o padre mais velho respondeu indo se sentar á mesa posta para o desjejum.

Após se juntar ao tio e analisá-lo, Edward comentou.

– Está diferente hoje... Parece... Animado.

– Impressão sua. – ele retrucou sem desviar os olhos do pão que cortava. – Estou como todos os dias. Você que parece observador hoje... Resolveu sair de sua apatia?

– Não estou apático. – o pároco negou, servindo-se de café puro.

– Não é o que me parece... Até gostaria dessa ideia de barba se soubesse que pretende criá-la, porém sei que esse rosto mal cuidado é simplesmente desleixo e tremo por imaginar o motivo.

– Perdoe-me pelo pecado imperdoável da preguiça. – Edward replicou tentando encobrir certo deboche. – Amanhã me barbeio.

– Preferia que fosse hoje. – o padrinho falou sério.

– Mas será amanhã. – o afilhado retrucou se pondo de pé. – Preciso fazer minhas orações antes de abrir a igreja. Ficará bem?

– Tenho estado todos esses dias... Logo a babá que me arrumou estará aqui.

– Então, com licença.

Depois de um último gole no café nem mesmo adoçado, o padre rumou para a igreja. Fez como anunciou, porém recitou suas preces habituais sem prestar atenção as palavras proferidas. Ás sete e meia as portas da capela já estavam abertas á espera dos trabalhadores. Antes das oito horas todos cuidavam de seus afazeres, deixando o interior da igreja mergulhado no reconfortante som de madeira sendo trabalhada; telhas sendo retiradas e recolocadas ou substituídas. Gritos, ordens, risadas até que viesse o silêncio.

A ausência de som íntima e estritamente reservada á mente do padre. Quando os sons invadiram sua esfera particular, Edward piscou algumas vezes e olhou em volta. Ao fixar os olhos no relógio disposto em uma das paredes, percebeu alarmado que havia se desligado por quase uma hora. Imediatamente se pôs de pé e voltou á sua casa. Precisava de água fresca que o ajudasse á digerir a novidade de permanecer por quarenta e dois minutos preso as imagens de Bella.

Mais uma vez a moça se remexeu sobre o sofá. Apesar de ser deixada – educadamente – de fora da conversa que fluía fácil entre a dona da lanchonete e o tio do padre, ela não se sentia confortável por estar naquela sala que lhe trazia tantas lembranças perturbadoras. Ainda mais quando recebia olhares furtivos e invariavelmente indiscretos do padre mais velho. Também não ajudava saber que Edward estava tão próximo á ela. Sabia que não devia, afinal se fosse flagrada poderia ser interpretada erroneamente mesmo que somente fosse uma mera acompanhante, contudo esperava expectante que o jovem padre cruzasse alguma porta. Desde a manhã passada se sentia arrependida de não ter usado o pretexto de devolver o dinheiro dos materiais para vê-lo. A sensação incomoda por ter recebido o envelope das mãos da irmã ainda estavam vividas em sua memória.

– Mas eu não pedi dinheiro algum. – havia exclamado ao ter o envelope estendido em sua direção.

– Então vá dizer isso ao padre. – a irmã retrucou. – Se tivesse me dito eu não receberia.

– Leve de volta! – Bella ordenou devolvendo o envelope intocado para a irmã.

– Ah, não... Já fiz o favor que me pediu... Agora vou é cuidar de me arrumar para ir para a lanchonete. Com o início das obras da igreja Esme acha que pode ter maior movimento.

– Por favor, Rosie... – a moça implorou.

– Qual o problema Bella? – a irmã perguntou desconfiada. – Por acaso brigou com o padre ou algo parecido?... Eram amigos e agora nem quer ir á igreja.

– Não é nada disso! – exclamou na defensiva. — Ah... Deixe que depois eu resolvo. Obrigada Rosie.

Com essa nada mais lhe restou do que devolver o bendito dinheiro pessoalmente. Era culpa sua que Edward o tivesse mandado, afinal o pediu anteriormente. Também não queria que sua irmã começasse a desconfiar de seu comportamento. Conformada, iniciou seu trabalho meio aérea, contudo tratando a imagem de São Nicolau com todo o desvelo que a peça delicada requeria. Quando chegou a hora de trocar-se para sua ida á Wells, já havia retirado todo o verniz antigo e lixado as partes lascadas para receber as camadas de gesso que a recuperaria. Depois do almoço frugal, seguiu para a igreja com as pernas falhas. Considerou ter sorte por poder pedir á um dos trabalhadores que o entregasse antes de seguir para o ponto de ônibus á passos largos, somente para se arrepender nos minutos seguintes.

Era inútil de sua parte fugir de um contato desejado mesmo que inadequado – aparentemente traçado e reforçado pelo destino – pois seria somente um adiamento. A moça sabia que fatalmente encontraria seu padre quando fosse servir de companhia á Esme. O que não contava era que a demora em vê-lo, assim como ter que ficar sentada no mesmo lugar onde Edward a tocou pela primeira vez por incontáveis minutos, fosse deixá-la ansiosa e tensa. Como o padre nunca chegava, por várias vezes Bella sinalizou para a patroa de sua irmã indicando que deveriam ir embora ao que foi simplesmente ignorada. Nunca imaginou que pudesse existir tamanha variedade de ervas e plantas medicinais para que os dois trocassem tantas informações. Á certa altura, impaciente, a moça de pôs de pé.

– Senhor Cullen, se importa que eu vá tomar um pouco de água?

– Fique á vontade. – foi a resposta ligeiramente seca e breve, então, como se recordasse de algo que lhe parecia agradável, mudou o tom e pediu. – Se importaria de preparar um pouco de café?... Estava esperando a senhora Williams para pedir, mas ela não chega nunca.

– Não me importo.

Qualquer serviço extra seria preferível á ficar sobre aquele sofá que lhe despertava sensações inquietante ouvindo as maravilhas curativas da alfavaca. Exasperada, ainda rolava os olhos quando adentrou apressadamente na cozinha. Ao ver a figura conhecida e desejada vestida de preto junto á pia, não pode conter uma exclamação de surpresa. Talvez sua entrada abrupta, juntamente com seu grito baixo e incontido, tenha assustado o jovem padre; Bella não saberia. Toda ação se deu em parcos segundos. Mal pôde registrar o assombro nos olhos azuis quando ouviu o som de vidro sendo quebrado e então a conhecida blasfêmia.

Inferno!

– Ai meu Deus! – a moça murmurou preocupada ao ver de onde vinha o som. Edward acabara de quebrar um copo com a mão esquerda. Ao ver o sangue começar a tingir a palma pálida, ela se aproximou e sem se importar se seria repelida ou não, segurou-lhe o pulso para tentar colocá-lo sob a torneira ainda aberta. Não conseguiu movê-la um milímetro; o braço de Edward estava travado junto ao corpo enquanto o sangue lhe cobria a mão cada vez mais.

– Deixe-me lavar sua mão. – ela pediu. – Precisamos ver esse corte.

Quando não obteve resposta ergueu o rosto para encará-lo. Inexplicavelmente o padre mirava a palma ensanguentada com olhos fixos; congelados. A cena de contemplação era perturbadora. Apenas uma vez havia visto os orbes azuis em tal evidência – quando o tocou com o pé causando-lhe espanto. A moça se perguntou quais as chances de o italiano ter alguma aversão ao próprio sangue. Seria destoante para um homem daquele tamanho, contudo não incomum. Fosse como fosse, não tinham tempo para entraves de pavor. Ele continuava á perder sangue que agora gotejava dentro da pia.

– Senhor! – ela chamou enquanto novamente lhe puxava a mão com maior firmeza. – Temos que lavar sua mão, rápido.

Como se despertasse de alguma espécie de transe, Edward livrou seu pulso bruscamente ao que capturado logo em seguida por uma mão pequena e decidida.

– Deixe de bobagem senhor, não vou mordê-lo. – ao falar finalmente conseguiu colocar a mão sob a água. Lavado o corte não se mostrou extenso, porém parecia ser fundo. Depois de verificar que não havia cacos no local, Bella desligou a torneira e saiu á caça de um pano de pratos. Ao avistar a peça desejada, pegou-a e enrolou na palma ferida.

– Segure firme e venha, vou levá-lo onde possam tratá-lo.

Non è necessario. – Edward disse roucamente, afastando-se.

– Certo, Acho que isso foi uma recusa então digo que deixe de bobagens. Esse corte precisa de pontos. Eu o levo... – subitamente indecisa, perguntou. – Devemos avisar seu tio?

Muitas informações para assimilar em curto espaço de tempo, Edward pensou enquanto mirava o rosto de expressão incerta da moça. A primeira seria entender aquele martelar frenético e estranhamente dolorido de seu coração com a presença dela. Sua aparição inesperada causou-lhe tamanho choque que o resultado estava ali, latejando em sua palma. Aquela era outra novidade digna de nota; por mais que olhasse para aquele rosto de anjo, ainda conseguia ver o líquido vermelho que cobriu sua mão e o paralizou. A visão causou-lhe tal horror que simplesmente não pôde se mover. Não fosse a insistência de Bella talvez ainda estivesse travado.

– Senhor... – ela chamou, despertando-o uma segunda vez. – Vamos avisar?

– Não. – disse decidido.

Não entendia o que ela fazia em sua casa aparentando tanta familiaridade e desenvoltura, assim como não sabia se pontos seriam necessários para fechar seu corte, contudo sentia que precisava acompanhá-la. Depois tentaria compreender todos as detalhes dos últimos acontecimentos. E se queria ser levado, tudo o que não poeria fazer era avisar ao padrinho que estava prestes á sair com a caçula de Charlie Swan. Não seria segredo, pois sua igreja estava lotada de amigos e trabalhadores do capitão e líder comunitário então apenas evitaria um desentendimento imediato.

Contornando a mesa, o padre foi até a geladeira e pegou sobre ela um bloquinho de notas. Depois de escrever resimudamente o ocorrido e avisar pelo mesmo que seria levado ao hospital de Wells para receber o devido cuidado em seu corte, deixou o bilhete sobre a mesa e chamou pela moça – ainda com o coração aos pulos no peito.

– Podemos ir agora.

– Venha. – ela disse tomando a dianteira antes de rumar pelo caminho que os levaria á igreja.

Provando-lhe que o tamborilhar anterior era nada, o coração do jovem padre acelerou ainda mais enquanto a seguia e seus sentidos eram presenteados com o odor do perfume de flores e a visão do corpo curvilineo oculto por uma saia lilás e camiseta branca e o famigerado rabo de cavalo que oscilava de um lado ao outro; fascinante. Ao ter seus olhos ofuscados pela claridade da manhã, Edward se deu conta que cruzou a nave da capela sem nem ao menos percebê-la. Ao ganharem a rua, alguns dos trabalhadores interromperam seus afazeres para aproximarem-se e especular sobre o pano enrolado em sua mão.

– O padre Cullen conseguiu abrir um corte na palma da mão. – Bella explicou á ninguém em especial, banalizando o ocorrido com a intenção de não alarmá-los. – Vou levá-lo para que Billy dê uma olhada, mas acredito não ser nada sério.

Edward estranhou á mençlão de um nome, porém apenas confirmou e continuou á segui-la. Quando a moça marchou para a rua lateral que os levaria para a entrada de sua casa, ele olhou em volta, aturdido.

– Para onde vamos afinal? Pensei que fosse me levar ao hospital.

– Levá-lo á Wells por um corte na mão? – ela indagou contendo um sorriso. – Billy mora perto e o conserta rapidinho.

– Billy? – ele inquiriu ainda mais confuso. – Não me lembro de ninguém com esse nome. A casa desse Billy é nessa rua?

– Não. – ela respondeu parando ao lado de seu jipe. – Billy mora nos arredores, mas não perto o suficiente para irmos ir á pé. – então ela lhe estendeu a mão.

– O quê...? – o padre indagou vagamente ao entender sua intenção; olhando novamente em volta, perguntou. – Cadê sua pick up?

– Papai á está usando esses dias, então me dê as chaves, sei que estão aí com o senhor.

Edward olhou para seu jipe e então mais uma vez para a moça. Não sabia de onde vinha aquela reserva, mas se sentia incomodado por alguém guiar seu carro. Era irracional uma vez que não deveria ser apegado ás coisas materiais, mas a ideia não lhe agradava. Ante a sua demora em atendê-la, a moça bufou impaciente e moveu a mão.

– Não temos tempo para crises machistas senhor. Sei dirigir muito bem... Não vou quebrar seu carro, nem ralar a calota ou arranhar a embreagem... Se desejar nem mexo nos retrovisores, agora poderia me entregar as chaves, por favor?

Mesmo contrariado foi obrigado á lhe dar razão. Não poderia dirigir com a mão machucada, então não havia remédio senão deixá-la guiar. Ao tatear o bolso direito por puro reflexo com a mão sã, o descobriu vazio. Imediatamente contorceu-se para tentar acessar o bolso esquerdo, sem sucesso. Antes que pudesse prever ou tomar alguma atitude restritiva, a moça deu a volta por trás de suas costas e sem cerimônias capturou as chaves no fundo de seu bolso. Ainda se recuperava pelo choque de adrenalina que correu sua espinha, quando ela chamou, já acomodada ao volante.

– Venha senhor, não temos toda a manhã.

Em silêncio, Edward contornou seu jipe e se acomodou no assento do carona. A sensação de ser conduzido era estranha, contudo mínima se comparada á perturbação de reviver o toque da mão pequena e furtiva que passeou instigadoramente próxima á sua parte que mais ansiava por ela. Como poderia esquecê-la, pensou enquanto a assistia manobrar seu jipe. Bella, ainda mais bela á segurar o volante com segurança e desenvoltura. Nem ao menos poderia considerar que voltou ao zero, pois não obteve sucesso nesses dias miseráveis que ficou sem vê-la. Agora, apenas teria mais detalhes inquietantes para povoar sua mente quando se desligasse do mundo á sua volta para que ela povoasse sua cabeça; era uma alma condenada.

– O que estava fazendo em minha casa? – Edward perguntou intempestivamente.

Finalmente o padre resolveu falar alguma coisa, Bella pensou aliviada. Começava á ser desconfortável dirigir sob aquela vigilância silenciosa e insistente. Reacomodando-se sobre o assento, respondeu após um breve pigarro.

– Esme queria visitar seu tio e como não achava correto ir sozinha me pediu para acompanhá-la. Na verdade eu estou pagando um favor que devia á ela... – então, olhando-o rapidamente, acrescentou. – Acredite, tentei me livrar do compromisso, mas não tive como... Não era minha intenção desobedecê-lo, senhor.

Às palavras da moça e às lembranças do motivo de sua restrição, o coração do jovem padre enregelou e novamente palpitou.

– Não á proibi de ir á minha casa. – disse novamente rouco. – Nem tampouco a proibi de ir á igreja... Não precisa deixar de frequentar á missa pelo que aconteceu.

– O senhor disse para que eu me mantivesse no meu lugar e é o que estou fazendo. Nunca fui de missas. Invariavelmente as frequentava por obrigação, então... uma vez que fui liberada não tenho motivos para fazê-lo.

– Talvez devesse aproveitar que começou e continuar. – ele arriscou. – Quem sabe não se descobre a apreciar nossas reuniões semanais.

– Acho que ficarei melhor como estou. – Bella replicou levemente aborrecida com o tom pastoral completamente destoante da rouquidão evidente. – Não precisa tentar salvar minha alma senhor. Essa ovelha desgarrada já está perdida há muito tempo.

– O que me pede é impossível. – Edward retrucou brandamente. – É minha obrigação tentar salvar á todos, mesmo as ovelhas perdidas mais resistentes.

A situação era tão surreal quanto tragicômica, Bella pensou reprimindo um sorriso sardônico. Estava ao lado do homem que desejava desesperadamente ter sobre uma cama – ou qualquer outro lugar que aceitasse tomá-la – enquanto ele tentava catequizá-la. Sem que pudesse conter, sua irritação chegou ao limite tolerável. Novamente o olhou de esguelha e ao flagar o olhar azul expectante, replicou seriamente.

– Estamos só nós dois aqui então vou falar francamente. Não fui á sua igreja esses dias atrás de salvação senhor. E uma vez que o que procurava parece ser realmente impossível de conseguir, não tenho motivos para voltar... Aproveite que recordei quem é e o respeito que lhe devo para me deixar quieta no lugar ao qual pertenço.

Por que as palavras da moça, assim como sua atitude defensiva tinham que perturbá-lo daquela maneira; Edward se perguntou alarmado. Enquanto estava ali ao seu lado, sua parte saudosa se esquecia da Messalina traidora que era e a desejava de volta; provocando-o. Contudo Bella tinha razão; sabia de suas reais intenções assim como conhecias as suas próprias. Intimamente se recriminou por usar sua posição eclesiástica para atrai-la quando havia pedido o contrário. O que imaginou afinal, novamente se indagou, que poderiam conviver pacificamente como se nada tivesse acontecido; impossivel. Estava claro que não haveria meio termo para eles e uma vez que não poderia lhe dar o que desejava – jamais faria parte de qualquer grupo amoroso – era melhor deixá-la em paz.

Complicado era explicar tal verdade ao seu coração e ao seu corpo, ambos somavam forças e trabalhavam em conjunto para confundir sua mente. Seu coração não havia batido uma única vez corretamente depois que a viu entrar em sua cozinha assim como seu corpo estremecia com a proximidade. Sua boca se tornava ressequida e ansiosa por se unir á dela, tão séria e rígida enquanto sua dona guiava sem desviar os olhos em sua direção. E com Bella tão perto, com as pernas á mostra exibindo o movimentar de seus músculos enquanto toca os pedais com o pés delicados vinha o pior de todos os seus distúrbios corporais; aquela parte livre de comando agitava-se entre saus pernas clamando que a moça voltasse á lhe pedir atenção. Definitivamente estava condenado á danação eterna.



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Notas finais
É isso amores... Espero que tenham gostado... E me desculpem a falta de spoiler... Nessa semana deixo na fanpage... ;) Boa noite á todas, boa semana e bom descanso... bjus