Notas iniciais
Bom dia... E BOA LEITURA... ;)

O pároco ainda permaneceu estacado; paralisado pelas derradeiras palavras da moça. Fora chocante ouvir dos lábios femininos a verdade à ser cumprida. Era fato que não somente precisava se compreender como primordialmente se conhecer, mas jamais poderia imaginar que alguém tão jovem pudesse lhe desvendar a alma daquela maneira. Tal acontecimento somente foi possível por sempre se desnudar diante dela.

De que adiantava se manter distante e alheio ao que se referia à Bella, quando bastava tê-la perto para que todas suas convicções caissem por terra e passasse á ser um bisbilhoteiro ressentido?

Não deveria especular sobre as particularidades da moça que mais o incomodavam; como se tivesse algum direito de saber ou cobrar. Nada admirável que a confundisse com sua própria confusão. Enquanto a via se afastar á abanar seu rabo de cavalo acintoso considerou se conhecer-se não fosse a chave para ter todas as respostas e pudesse finalmente viver em paz; sem ela... Ou com ela?

– Está melhor senhor padre? – um dos trabalhadores lhe perguntou, chegando-se á ele; livrando-o do assombro ao último pensamento.

– Sim, estou. Obrigado! – disse áereo. O homem demonstrou que daria continuidadde á conversa, porém ambos tinham o que fazer. Antes que ele prosseguisse, Edward acrescentou. – Se me der licença.

– Tem toda senhor. – ouviu já à entrada da igreja.

O padre atravessou a nave central sem perceber o som de madeira sendo trabalhada. Apenas ouvia seu próprio pensamento. Chegando á sacristia cogitou se ocupar, contudo tinha plena consciência que não conseguiria empregar sua atenção á nada que não fosse a conversa recente ou sua conclusão conseguinte. Impaciente, tomou o caminho de sua casa. Acreditou que encontraria o padrinho á esperá-lo com um sermão preparado na ponta da língua por ter saído com Bella, porém, para sua surpresa a sala estava deserta.

Tanto melhor, pensou. Todavia, no segundo seguinte se recriminou. Carlisle ainda se recuperava e talvez estivesse indisposto. Além de confuso se tornava egoísta; tudo não se resumia sempre á ele. Preocupado, rumou para o corredor. Subitamente estacou ao ouvir vozes sussurradas virem do quarto do padrinho. Parado onde estava, sem voltar á ouvir um único som, acreditou ter imaginado as vozes, ainda mais quando uma delas era feminina.

Edward não esperou um minuto inteiro antes de caminhar, cauteloso, até a porta fechada do quarto de Carlisle. Ouviu apenas silêncio. Ridicularizava sua impressão de haver uma mulher á portas fechadas com seu tio, quando a ouviu nítida.

– Eu não deveria ter vindo aqui. Alguém poderia ter aparecido.

Esme Anne Platt?! o nome espocou nas paredes de seu cérebro. Com o choque todas as suas perturbações foram esquecidas. Incrédulo, o padre colocou a mão na maçaneta; estava prestes á girá-la, porém a voz tranquilizadora de Carlisle o deteve.

– A senhora Williams me avisou que só viria á tarde e como você me disse, Edward foi até Wells. Ninguém além deles dois vem aqui.

Paralisado junto á porta, Edward procurava em sua mente por muitos motivos irrelevantes que colocassem Esme naquele quarto, contudo apenas um lhe ocorria; insólito para sequer ser cogitado. Ainda repassava mentalmente todas as razões lógicas para refutar tal absurdo, quando Esme retrucou com voz preocupada.

– Ainda assim não acho certo. De que adiantaria todo o cuidado que sempre tivemos para sermos flagrados em atitude tão suspeita?

Caso fosse possível restar alguma dúvida quanto ao que aconteceu naquele quarto, tal possibilidade se esvaiu às palavras. E também ficou claro que a libertinagem não se dava pela primeira vez. Ainda sem saber como proceder, Edward se mantinha diante da porta. O que fazer?

– Acho que está certa. É melhor que se vá então. – Carlisle disse em tom resignado. Nesse momento Edward saiu de sua inércia. Não para confrontá-los e sim se esconder em seu quarto como se fosse ele o infrator.

– E agora – Esme indagou já no corredor –, como saio?

– Vou levá-la pelo corredor que leva á igreja. Não se lembrarão de tê-la visto entrar, mas caberá a dúvida e chamará mesmo a atenção do que sair sozinha de minha casa.

As últimas palavras chegaram de muito longe aos ouvidos de Edward. Provavelmente já ditas quando acessavam a sala. Suando frio, apenas sabendo que não queria ser visto pelo padrinho, deixou o quarto e cautelosamente seguiu os passos dos... O que eram? Ele não conseguia sequer imaginar a denominação aos dois embusteiros. Vendo o caminho livre, rumou á passos largos até a saída. Girava a maçaneta que o libertaria da cena inimaginável quando ouviu atrás de si.

– Já está de volta?

Sem responder, apenas acalmando um eriçar involutário de pelos, Edward se voltou e encarou o tio. Ainda não sabia o que diria, então nada falou. Carlisle perscrutava-lhe o rosto, levemente lívido, mas impassível em sua expressão.

– Ou estava saindo?

– Como poderia estar saindo? – se obrigou á dizer.

– Não sei... – disse ainda o estudando. – Está estranho...

– Minha mão dói. – retrucou rapidamente.

– Entendo... – falou chegando mais perto. – O que houve afinal?

– Foi um acidente. – começou sentindo um estranho turbilhão se formar em seu estômago enquanto mirava o rosto daquele que na verdade não conhecia de todo – Cortei minha mão e Bella – sentiu um prazer viperino em citar o nome – ajudou-me.

– Muito atencioso da parte dela. – comentou cautelosamente. – E ela o levou á Wells? Pensei que fosse demorar mais á ser atendido.

– Não chegamos á ir até lá... – explicou. – Bella me levou até á casa de um antigo enfermeiro que sempre cuida desses pequenos acidentes.

– Acho que já ouvi falar dele... Talvez pela Sra. Williams... – falou alheio antes de acrescentar. – Mas acha que foi seguro? – parecia verdadeiramente preocupado, mas Edward não tinha mais como saber, tinha?

– O serviço foi limpo. – retrucou secamente mesmo que não fosse sua intenção; algo em seu estômago realmente incomodava. – E como disse o corte dói então vou me recolher por alguns minutos. Será que poderia continuar á supervisionar os trabalhadores?

– Poderia. – Carlisle aquiesceu se aproveitando da desculpa oferecida visto que nem menos pisou os pés na igreja já que voltou em tão pouco tempo. – Descanse o quanto quiser. – antes que o afilhado se fosse, perguntou. – Bella lhe disse que a senhorita Platt esteve aqui, não?

Ouvir o nome da moça, livre da usual entonação depreciativa o revoltou, mas ainda manteve seu desagrado ocultado pela mesma indiferença estudada de seu tio.

– Bella me disse. O que tem isso demais?

– Nada... – o velho padre deu de ombros. – Só queria lhe dizer que ela se ofereceu para nos trazer o almoço já que ambos estamos debilitados e a senhora Williams não virá prepará-lo.

– Agradeça-lhe por mim e deixe minha parte na cozinha. Por ora estou sem fome... Com licença.

Sem esperar pela mesma, que veio muito depois de ter passado pelo padrinho, Edward se trancou em seu quarto. Impaciente, vagou de um lado á outro tentando digerir a novidade. Carlisle e Esme, juntos! Seu tio leiloou seu piquenique privado e deu-lhe o dia de folga. Para que nenhum outro o fizesse como ele próprio quando arrematou a moça? O padrinho era sempre intratável com todos, menos com a dona da lanchonete. A afinidade fora sentida já no primeiro jantar na casa dos Swan. Tudo coincidência ou...

O padre subitamente estacou. Seria possível que sua ida para Sin Bay tivesse sido sorrateiramente tramada por Carlisle junto aos seus amigos bem colocados na diocese com o propósito particular de se juntar á uma antiga...? Ainda não conseguia nomear o que estava escrito em tinta permanente bem no meio de sua testa. Fora um estúpido em não ver.

Acaso não fora o próprio padrinho que lhe alertou que padres não tinham amigas? Como justamente ele teria uma tão íntima? Por esse motivo o número dela constava num celular secreto. Ao juntar todos os pontos, o que revirava seu estômago ganhou força o obrigando á urrar de revolta extrema.

– Hipócrita! – bradou.

Seu padrinho, aquele perante o qual se sentia diminuído por não lhe seguir o exemplo de retidão, sobriedade e comprometimento, era tão hipócrita quantos tantos outros. Igual ou pior que sacerdotes pederastas e pedófilos, que infestavam as sacristias, pois estes, talvez enganassem apenas á si próprios. Ou aos leigos ignorantes que sequer sonhariam com o fogo infernal que os faziam arder sob suas batinas.

No dia do juízo todos seriam julgados por seu Criador, mas até lá não ludibriariam um ente dito querido com sua perfídia. Ente esse que era consumido pelo mesmo fogo abrasador. Que se martirizava por se considerar uma fraude e era obrigado á sufocar o que sentia diante de olhos reprovadores e palavras restritivas. Carlisle não tinha o direito de lhe negar uma saída quando ele mesmo se valia dela.

Edward ainda não sabia o que faria em relação ao seu padrinho, mas soube imediatamente o que faria por si. Havia todo o seu senso de dever e seus votos – sua maldita consciência que lhe cobraria ações futuras –, mas na verdade não era menos pérfido que seu tio. E já que também seria julgado pelos erros que seu tutor indigno não possuía moral para absolver após sua confissão, valer-se-ia dos mesmos métodos. Havia alguém á disposição para livrá-lo da agonia. Alguém da mesma cepa apodrecida; tão amoral quanto todos os envolvidos naquela trama. E muito bem disposta á ser o que Esme Platt era para o velho padre...

Una amante!

A palavra libertadora lhe trouxe um sorriso aos lábios. Sim... Se tantos tinham o melhor dos dois mundos, ele também o teria. Já estava irremediavelmente conspurcado para ser o cordeiro do mundo; nem nunca possuiu tal soberba em sê-lo para se privar do que há muito desejava. Lidaria com seu tio farsante depois; conhecer-se-ia depois. De preferência entre os braços e pernas da caçula perdida dos Swan.

No momento pouco lhe importava que fizesse parte de uma lista. Domaria seu ódio pelo rapaz moreno, ignoraria o loiro usado e se deixaria usar como ela sempre demonstrou desejar. Seria uma troca prazerosa sem compromissos, pois assim como Carlisle, viveria uma vida dupla; alimentando a decepção revoltante do padre e concedendo satisfação ao homem cada vez mais indócil.

Tomada a decisão seu quarto o sufocou. Nem ao menos sentia o leve latejar em sua mão. Precisava sair; mover-se. Enquanto voltava á igreja – encarando-a com outros olhos – lamentava não ter descoberto antes. Tanta dor poderia ter sido evitada e não estaria á carregar no peito aquela ansiedade nova e incômoda em estar com Bella novamente quando então a obrigaria á tomar-lhe a benção. Talvez lhe afagasse os cabelos enquanto os lábios macios estivessem em seus dedos para demonstrar que as provocações seriam correspondidas. Ante a expectativa seu corpo galvanizou-se.

Ao acessar a igreja, sentiu um leve desconforto. Como se toda instituição que representava condenasse sua decisão, mas se manteve firme no propósito. O que não é visto não é sentido. Desde que fosse tão dissimulado quanto aquele que lhe cobrava boa conduta e ocultasse sua concupiscência sob a fachada de sacerdote exemplar, não mais rolaria em sua cama ou se satisfaria em sua própria mão. Seria o arranjo perfeito para todos.

Logo Carlisle estava ao seu lado quando parou próximo á um dos homens que lixavam os bancos.

– Sente-se melhor? – perguntou mirando-lhe o rosto.

– Perfeitamente. – disse apenas.

– Seu almoço está sobre o fogão caso tenha fome.

– Obrigado, mas continuo sem apetite. – encarando o padrinho o liberou. – Pode ir descansar... Ainda não deve se exceder.

– Farei isso... Até mais tarde.

– Até.

Edward o seguiu com o olhar até que desaparecesse na porta da sacristia. Se não tivesse ouvido as vozes jamais acreditaria na maledicência de quem visse alertá-lo. O velho padre seguiu alquebrado, cabisbaixo; a imagem da convalescência. Tal desfaçatez só se era adquirida com anos de prática, mas que daquele dia em diante não mais o enganariam.

Ainda saboreando o gosto amargo da decepção, Edward se voltou ao trabalhador e puxou um assunto qualquer. Era preciso distrair a mente conturbada e expectante. Naquele dia não mais veria Bella e nem tinha perspectiva de quando estariam juntos novamente. Àquela hora ela já teria ido para Wells; teria que ser paciente. Ou criar suas próprias oportunidades?

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Notas finais
Bom... espero que estejam gostando e ansiosas pelo livro assim como eu... Por favor, me deixem saber... Bjus