Notas iniciais
Oie... Espero que gostem... Boa leitura!

Com um suspiro exasperado, Edward descartou o grande livro com os registros de batismos ao lado. Tentava se inteirar da rotina do padre anterior, mas não conseguia o mínimo de concentração. De tempos em tempos, sua mente se dividia entre a cena vivida em seu quarto e a da praia. Em todas elas a imagem da moça lhe provocava um calafrio distinto assim como lhe incutia uma nova culpa; todas contraditórias. O problema era ter nada que pudesse fazer para acabar de vez com tais pensamentos. Como não voltou á praia, há três dias não a via e nunca mais se encontraria com ela intimamente, então seu corpo deveria se habituar á necessidade que agora sentia dela.

Não a teria por perto nem mesmo como amiga, o que igualmente lhe obrigava á se acostumar com a falta. Falta essa agravada ao não tê-la entre os fieis que lotaram os bancos de sua igreja naquela manhã. Durante todo dia na sexta e no sábado se preparou para encontrá-la ao menos nas missas dominicais de forma que sua ausência logo na primeira delas o causou uma decepção inesperada e inquietante.

Deveria ser agradecido que ela o atendesse prontamente, contudo aquela metade que ainda ansiava vê-la não lhe ouvia. Impaciente, Edward se pôs de pé e passou a andar pela sacristia, ainda cismava com os sentimentos que não conseguia nomear ou sufocar quando duas batidas leves na porta chamaram sua atenção. Ao se voltar deparou-se com Charlie e Renée Swan. Por um segundo seu coração se negou uma batida ao antever o rosto da moça á lhes seguir, contudo, ao perceber que estavam sozinhos, voltou á bater; aceleradamente.

– Boa tarde! – Charlie começou entrando sem ser convidado. – Viemos fazer uma visita ao seu tio.

O jovem padre cogitou vetar-lhes, contudo acreditou ser infantilidade de sua parte. Nem ao menos haviam trazido sua filha caçula e uma vez que Bella cumpria sua parte no pedido, deveria fazer a sua e conviver pacificamente com todos; arcar com sua decisão. Depois de lhes sorrir, informou.

– Meu padrinho está na casa.

– Então acho melhor darmos a volta... – Renée falou já seguindo para a saída.

– Não é necessário. – Edward assegurou. – Venham por aqui.

Enquanto os guiava pelo corredor que os levaria até a casa, explicou.

– Ele está no quarto... Vocês podem esperar na sala. Logo ele virá.

– Não queremos incomodar... — Charlie falou incerto.

– Não incomodam. – Edward exclamou. – Ele precisa mesmo sair do quarto, assim como se distrair. Levarei somente um minuto, esperem.

Depois de dar-lhes passagem e lhes indicar o sofá, o padre seguiu rumo ao corredor. Encontrou seu tio deitado sobre a cama a mirar o teto, pensativamente.

– O senhor tem visitas. – anunciou.

Após um resmungo baixo e ininteligível, perguntou laconicamente.

– Quem?

– O senhor e a senhora Swan.

– Os pais da Bella. – Carlisle disse o óbvio com desgosto aparente.

Edward nada comentou sobre suas últimas palavras, pois qualquer confirmação era desnecessária. Depois de um suspiro explicou também o que era evidente.

– Eles vieram ver como o senhor está.

– Você poderia ter dito que estou bem e pronto. – o padre mais velho resmungou voltando o rosto para encarar o afilhado. – Não queria estreitar os laços justamente com eles.

– Deixe de bobagens. – Edward pediu seriamente. – Eles nada têm a ver com o que aconteceu entre mim e a filha.

– Não repita isso. — o padrinho ralhou, sentando-se na cama com certa dificuldade. – Não houve nada entre vocês dois.

Edward não poderia responder àquilo então somente pediu.

– Desculpe-me, não repetirei, mas o que disse á válido. Os pais da moça não têm culpa de nada.

– Se tivessem educado a filha como se deve ela não ficaria por aí agindo feito uma...

– Carlisle! – Edward interrompeu bruscamente.

O padrinho o encarou inquiridoramente com o cenho franzido por um instante antes de suavizar o semblante e falar sentido.

– Nunca me chamou assim... Não com esse tom. O que está acontecendo com você Eddie?

Aquela era uma das tantas perguntas que ficariam sem resposta, pois Edward não sabia o que havia acontecido á ele. Agora, mais do que nunca, queria ter conhecimento próprio de sua vida. Queria saber quando se perdeu no caminho, pois não poderia ser somente culpa do assédio de Bella. Cada vez mais custava á crer que fosse tão fraco ao ponto de renegar sua vocação por uma moça leviana e caprichosa. Fosse como fosse, aquele não era o momento para especulações e jamais poderia permitir que o padrinho se referisse á ela de forma vilipendiosa.

– Desculpe-me... Apenas não se refira á moça se valendo de palavras depreciativas. – disse brandamente, aproximando-se para ajudá-lo á levantar.

– Faço isso. – o tio resmungou de mau humor. – Não sou nenhum invalido, afinal...

Edward nada disse, apenas afastou as mãos e deixou que o padrinho se levantasse por sua própria conta. Tão logo Carlisle calçou seus sapatos, passou por seu afilhado resmungando.

– Não entendo essa mania de visitar convalescentes... O próprio nome já diz... A pessoa está "convalescendo"... Precisa de descanso.

– Vou me lembrar disso quando o achar novamente á cuidar das plantas. — Edward retrucou, achando certa graça na carranca do tio. Ao chegarem á sala Carlisle desanuviou seu semblante carregado para cumprimentar suas visitas. O casal Swan se levantou para aperta-lhe a mão.
– Senhor Cullen... Foi realmente uma lástima o que aconteceu. Como se sente hoje?
– Estou me recuperando. Obrigado por se preocuparem.

– Como não nos preocuparíamos? Isso que aconteceu foi abominável. Fico feliz que nada mais grave não tenha acontecido.

– Realmente foi um susto e tanto. – Edward comentou sem desviar os olhos do rosto de seu tio.

– Sim, mas não quero que fiquem pensando nisso... Já passou. – Carlisle pediu.

– Tem razão. – Charlie emendou. – Viemos para vê-lo, não recordar-lhe momentos ruins.

– Obrigado!

– Bom... – o líder comunitário começou se dirigindo ao padre mais novo. – Pronto para o início das obras?

– Completamente. – assegurou; na verdade a ansiava como forma de distração certa.

– Que bom... – Renée exclamou. – E com o dinheiro arrecadado será possível fazer todos os reparos?

– Infelizmente não uma reforma completa, mas os mais urgentes, sim... – Edward respondeu verdadeiramente satisfeito. – Desde a troca de telhas danificadas até a pintura das paredes e o verniz nos bancos.

– Ah! – Charlie exclamou ao se lembrar de algo; logo comentou. – Por falar em pintura, nossa filha nos contou que vai restaurar as imagens da capela.

Imediatamente Edward procurou pelos olhos do padrinho enquanto mudava o peso sobre seus pés, incomodado, ignorando o filete enregelado que percorreu seu coração ao ouvir o nome da moça. Não poderia nomear os sentimentos do padrinho, mas imaginava quais eram. Sem dúvida nada nobres como a saudade que já sentia.

Disgraziata. – Carlisle resmungou contrariado.

– O que ele disse? – Renée perguntou á Edward, interessada.

– Eh... Ás vezes meu tio se atrapalha com as palavras. – o jovem padre explicou encarando-o repreensivo. – Mas ele não disse nada especial, só uma exclamação italiana por ter se esquecido. O que ele quis dizer foi que Charlie fez bem em nos lembrar.

– Precisamente. – o padrinho murmurou. – Peça que ela venha buscar as imagens amanhã. Ela poderá restaurá-las durante a reforma.

– Farei isso senhor, Bella...

– Se me dão licença... – Edward o interrompeu tentando manter a voz estável. – Preciso voltar á igreja. O que decidirem estará bem para mim... Se não os vir mais hoje, dê minhas lembranças aos seus filhos.

Sem esperar resposta o padre se precipitou para a porta que o levaria de volta á igreja. Sentia-se sufocar somente por imaginar que pudesse ver a moça na manhã seguinte. Ao sentar-se em sua cadeira já na sacristia, imaginava várias formas de não estar na igreja pela manhã, somente para descartar todas elas no segundo seguinte. Viviam na mesma cidade e o quanto antes ele se acostumasse com a presença feminina melhor. Abrindo o livro de registros, o padre se recriminou por ter fugido da conversa. Deveria ter se mantido firme e ao menos especulado quanto Bella precisaria para o material que utilizaria. Se ela se mantinha no seu lugar, ele deveria fazer o mesmo e ser funcional; covarde.

– O que há Bells? – Emmett perguntou segurando a mão disposta sobre a mesa. – Parece estar no mundo da lua.

– Desculpe Emm... – a moça pediu tentando sorrir para o amigo. – Mas eu avisei que não seria uma boa companhia. Só aceitei vir aqui por causa de Rosalie.

– Justamente por isso eu agradeceria se você se mostrasse um pouco mais apaixonada. – ele retrucou olhando para a moça citada que disfarçadamente os observava por detrás do balcão da Blue Moon.

– Desculpe-me meu amorzinho. – Bella replicou resignada. Antes que o amigo pudesse reagir, pegou a colher disposta na grande taça de sorvete e, depois de servir uma quantidade considerável, ofereceu á ele. – Sorvete na boca?

Sem se deixar abater o amigo separou os lábios para receber a sobremesa. Depois de capturar o sorvete sorriu para Bella.

– Isso foi interessante... Que tal um beijinho?

– Não sei se eu faria tantas demonstrações de carinho em público, caso estivéssemos namorando de verdade. – Bella comentou incomodada com a possibilidade de beijá-lo na frente de tantas pessoas, tentando convencer á si mesma que sua reserva não era por estar tão próxima á igreja.

– Tudo bem, hoje você realmente não está no papel. – o rapaz loiro anuiu, contudo lhe sorrindo pediu. – Mas ao menos continue com o sorvete. Rosie está te fuzilando e com o rosto tão vermelho que talvez venha aqui estapeá-la.

Ao comentário Bella foi obrigada á rir. Disfarçadamente procurou a irmã com os olhos. Logo constatou que o amigo tinha razão. A moça estava vermelha como um pimentão e agora mal desviava os olhos da mesa onde se encontravam. Ao menos para alguém as coisas estavam funcionando, pensou procurando algum alento. Se continuassem á inspirar tais reações em sua irmã, logo alcançariam seu objetivo. Bastava se empenhar em seu papel de namorada apaixonada, afinal Emmett não tinha nada á ver com seus problemas. Ainda sorrindo, reclinou-se sobre a mesa e ofereceu seus lábios para o rapaz. Aproveitando a deixa, Emmett também se reclinou e depositou um beijo leve na boca rosada.

– Esme. – ambos ouviram a voz trêmula de Rosalie. – Depois explico, mas preciso sair...

Antes que a dona da lanchonete pudesse reagir, sua funcionária já havia retirado o avental e, depois de deixá-lo sobre o balcão, saiu porta afora sem nunca olhar para trás. De onde estavam, Emmett e Bella lhes acompanharam a saída, com olhar curioso e levemente divertido. O sorriso da moça, porém, morreu imediatamente ao flagrar a figura vestida em preto que se dirigia á igreja até sumir em seu interior. Com as pernas sensíveis á visão e o coração fundo no peito, Bella se perguntou quais as chances do padre ter presenciado toda encenação.

– Juro que eu pensei que ela viesse tomar satisfações. – Emmett comentou ainda divertido, sem perceber a mudança de humor de sua amiga.

– Rosalie não é assim. – Bella comentou automaticamente, sua cabeça ocupada em apaziguar as sensações incomodas que corriam seu corpo e reviravam seu estômago.

– Infelizmente... – o amigo lamentou. – Eu queria que ela tomasse alguma atitude logo... Enquanto a provocamos ela continua com aquele...

Quando o rapaz loiro se interrompeu, Bella se obrigou á dar-lhe atenção. Nada poderia fazer para ajudar-se, assim como não poderia fazer nada caso Edward os tivesse visto e ainda, mesmo com reações físicas tão acentuadas deveria não se preocupar com o fato. Não eram nada um do outro, o padre a havia dispensado sem remorsos. E mesmo que ainda o quisesse conquistar, não lhe devia satisfação. Deveria ocupar sua mente com romances menos complicados. Com um suspiro cansado, Bella tomou a mão do amigo e apertou encorajadora.

– Não se preocupe com James... Acredito que nós nos beijamos mais em nosso namoro de mentira do que eles no noivado de verdade. Rosalie mal o suporta.

– Vou acreditar no que diz. – ele retrucou contrafeito. – Ainda assim ela nunca o larga!

– Pelo o que vi aqui hoje, acho que logo acontecerá... Vamos ter calma, certo?

– Certo! – Emmett concordou igualmente resignado, se servindo de mais sorvete.

Antes que pudesse lhe dizer qualquer outra coisa, Esme se aproximou da mesa ocupada por eles e perguntou diretamente á moça.

– O que houve com sua irmã?

– Não sei. – Bella respondeu inocentemente. – Vi o mesmo que você. Ela pediu licença e saiu.

– E não vai atrás dela? – a mulher indagou incrédula. – Não ficou preocupada?

– Se fosse algo que necessitasse de ajuda ela teria vindo até mim... Acho que logo ela volta, não se preocupe.

– Está bem. – Esme falou, então repentinamente olhou dela á Emmett e sorriu para mudar completamente de assunto. – E vocês dois?... O namoro é sério?

– Seriíssimo. – Emmett confirmou com um sorriso luminoso.

– Acho que formam um lindo casal. – ela elogiou antes de pedir ao rapaz. – Posso roubar sua namorada um instante?

– Sim... Mas devolva logo. Ainda temos que ir ao cinema.

Reprimindo um muxoxo desanimado, pois não estava com ânimo para passeios longos com namorados de mentira, Bella se pôs de pé e seguiu Esme até o balcão. Ao pararem, a mulher segredou.

– Estive pensando sobre o que me disse na quarta á noite.

– Ah sim?... – Bella comentou como se recordasse algo mais do que seu quase desvirginamento pelo padre. Não desejava parecer indelicada com alguém que lhe serviu de álibi tão prontamente. Como invariavelmente fazia ao não se lembrar de assuntos importantes, deixou que a interessada lhe colocasse á par sem notar seu esquecimento. – E daí?

– Daí que decidi fazer como me disse e ir visitar o senhor Cullen.

Ao nome o coração da moça sofreu uma breve parada. Tão logo entendeu que Esme se referia ao tio, não ao sobrinho, seus batimentos voltaram ao normal. Imediatamente toda a conversa sobre o tema lhe veio á mente.

– Se é o que deseja, vá... Não vejo nada demais. – encorajou.

– Sim, mas eu queria que me retribuísse o favor. – a dona da lanchonete falou esperançosa. – Não conseguiria ir sozinha. Uma coisa cumprimentá-lo ou trocar sementes no portão outra bem diferente é entrar na casa dele. Como você é amiga do padre pensei se não poderia ir comigo.

Visitar Carlisle – o tio carrancudo – na casa em que morava com Edward? Sua mente gritou a pergunta alarmada. Já havia conseguido fugir de tal compromisso quando seus pais a convidaram naquela tarde. Parecia uma peça do destino que fosse chamada uma segunda vez. Novamente seu coração parou e então voltou á bater aceleradamente. Estava mergulhada em uma saudade desesperada. Vê-lo minutos atrás somente a agravou e agora não sabia se teria coragem de encará-lo. Diante da possibilidade, a moça sentiu suas pernas perderem a consistência como se já estivesse diante de Edward. Precisava escapar da obrigação. O padre deveria vir á ela, não o contrário.

– Esme eu...

– Por favor. Bella... – a mulher pediu implorativa. – O que lhe custa me acompanhar?

O que poderia dizer; pensou desanimada. Para todos os efeitos era amiga do padre. Não havia motivos para recusar, então conformada, perguntou.

– Quando deseja visitá-lo?

– Terça eu posso arrumar algum tempo pela manhã. Poderíamos combinar ás oito horas?... Será muito cedo?

Bella sabia que não. Pelo menos para Edward e á essa hora muitas vezes já voltava de sua corrida na praia. Com certeza seu tio possuía os mesmo hábitos ainda que não corresse.

– Terça ás oito horas estarei aqui. – confirmou.

– Obrigada, agora volte para seu namorado.

Visivelmente agradecida, a mulher a deixou para atender as mesas. Ainda com as pernas sem muita firmeza, a moça voltou para junto de Emmett que se levantou para recebê-la.

– O que ela queria? – perguntou enquanto passava o braço por seus ombros e a levava em direção á porta. – Ainda queria saber de Rosalie?

– Não... Era um assunto dela. Tem problema se eu não comentar?

– De forma alguma. – ele exclamou. Ao chegar á calçada a conduziu até seu carro. – Pronta para nosso cinema?

– Eu realmente não sou uma boa companhia hoje Emmett... Poderíamos ficar na minha casa.

Como se a notasse pela primeira vez, o amigo a deixou exatamente á sua frente sempre mantendo o braço sobre seu ombro. Com a mão livre a fez olhá-lo, erguendo seu rosto pelo queixo carinhosamente.

– Sério. O que há Bells?... Há dias está desanimada. Já havia sentido ao telefone, mas agora vejo que é algo importante... Quer dividir?

– Não Emm... – ela lhe sorriu. – É coisa só minha. Nenhum plano mirabolante pode me ajudar. – então, se lembrando da colocação de Kris, acrescentou. – Somente um milagre.

– Está me deixando preocupado... – ele disse acariciando-lhe o rosto ternamente. – Sabe que pode contar comigo para qualquer coisa, não sabe?

– Sei sim. – e como não queria nem poderia envolver o amigo em sua história de amor impossível, forçou um sorriso e disse. – Eu é que sou exagerada e não deveria dar tanta importância ao que não podemos mudar.

– Não sei se concordo com isso, pois acho que tudo nessa vida é passível de mudança, mas vou respeitar...

– Ótimo!... E para provar que era somente exagero, vamos ao filme!

O amigo ainda a encarou por um tempo considerável, antes de beijar-lhe levemente na bochecha e concordar com um sorriso.

– Vamos ao filme!

Horas depois, ao ser deixada em frente ao portão, Bella se sentia agradecida pelo amigo a distrair – mesmo que por pouco tempo – de seus problemas com o padre. Tudo o que mais precisava era de momentos de diversão despretensiosa como aquele que Emmett acabou de proporcioná-la, onde pouco houve espaço para Edward e nenhum para Jacob; que ao que tudo indicava, havia desistido também de aborrecê-la por causa de seu “namoro”. Com o espírito mais leve, entrou em casa para se juntar á família. Jasper como sempre não estava; havia ido ver Alice. Rosalie, aparentemente recuperada do rubor facial e presenteando-a com educada indiferença, conversava com seu noivo ao passo que Charlie e Renée se encontravam na cozinha; ele á estudar uma carta náutica, ela á organizar a louça recém utilizada.

– Boa noite! – a moça cumprimentou ao se juntar á eles.

– Boa noite. – disseram em uníssono, então somente sua mãe prosseguiu. – Como foi o filme?

– Interessante. – ela disse sem muito entusiasmo.

– Emmett a devolveu cedo. – Charlie comentou, deixando a carta de lado.

– Amanhã ele trabalha cedo. – ela explicou indo se servir de um pouco de suco de laranja. Verdadeiramente não era sua intenção consciente fazê-lo, mas tão logo encheu seu copo com o liquido amarelado, se pegou indagando. – Como foi a visita ao senhor Cullen?

– Muito boa! – sua mãe respondeu prontamente. – Ele é uma pessoa encantadora.

A moça duvidava, mas não contrariaria a opinião superficial de Renée. Enquanto bebericava seu suco, se policiou para não perguntar diretamente por Edward. Tal cuidado foi desnecessário, pois logo seu pai comentou.

– O padre Cullen que me pareceu um pouco abatido, mas não quis perguntar se estava doente. Se fosse o caso ele nos diria.

– Abatido? – Bella indagou sem pensar.

– Sim... – o pai confirmou como se a partir de seu comentário murmurado, entendesse que ela desejava prolongar a conversa. – já o vi mais animado. Principalmente com a reforma da igreja.

– Talvez seja isso. – Bella atalhou. – Preocupação antecipada com as obras. Qualquer reparo é sempre um transtorno.

– Pode ser. – pai concordou duvidoso antes de avisar. – Ficou acertado com o senhor Cullen que você comece o reparo das imagens ainda amanhã.

A moça precisou de toda sua concentração para não cuspir o suco que acabava de colocar na boca. Ao engoli-lo, pigarreou e tossiu levemente. Havia se esquecido completamente das imagens e de seu oferecimento. Deveria mesmo ser peça do destino que insistia em colocá-la na igreja quando havia decidido ficar algum tempo afastada.

– Amanhã vou ajudá-lo no centro comunitário. – o lembrou.

– Está dispensada. – o pai retrucou. – O que tem á fazer é mais importante, não? Pareceu que estava gostando do serviço quando me contou, acaso mudou de ideia?

– De forma alguma, só não queria atrapalhá-lo. – defendeu-se.

– Não irá... Não terá muito o que fazer, afinal todos vão ajudar na reforma.

– Então amanhã inicio a restauração. – ela confirmou com um sorriso brando. – Agora se me derem licença, vou subir...

Tão logo foi dispensada, a moça rumou para seu quarto. Ao encontrar a sala vazia, soube que a visita de seu pretenso futuro cunhado havia terminado. Particularmente Bella desejava que fosse a última, que sua irmã mordesse a isca de Emmett definitivamente e a desobrigasse do logro. Infelizmente a moça conhecia Rosalie o suficiente para saber que não seria assim tão fácil. Ao chegar ao quarto, seguiu até o banheiro para fazer a assepsia bucal e lavar o rosto para se livrar dos restos da maquiagem leve que usava. Quando a irmã mais velha se juntou á ela, já se encontrava deitada. Sem nada dizer, Bella a observou se trocar e entrar sob os lençóis.

– Você está bem? – arriscou perguntar.

– Tenho que estar, não? – Rosalie perguntou sem entonação especial. – Tudo está perfeito na família perfeita.

– Não sei nada sobre perfeição... Nem de você. Hoje saiu correndo da lanchonete. Já se desculpou com Esme?

– Sim... Assim que saiu com seu namorado eu voltei.

– Olha... Eu não...

– Tudo bem Bella... – Rosalie exalou derrotada. – Eu disse que o que importa é que você fizesse Emmett feliz, mas vê-la com ele está me matando. Tanta melação é mesmo necessária?

– Não é... E gostaria que me desculpasse. – disse sinceramente; não gostava de ver a irmã sofrer, pois agora sabia bem o que ela sentia ao ficar afastada de quem amava. Com um suspiro, arriscou. – Rosie... Se me disser duas palavras... Se me pedir, eu saio de cena. Desmancho meu namoro com Emmett se isso á faz infeliz.

– Deixe como está Bella. – a irmã pediu. – Não posso interferir na vida de Emmett quando não sei o que quero fazer... O padre Cullen disse que eu deveria expor o que sinto á papai; que deveria terminar meu noivado...

– Você falou com o padre?! – Bella se sentou subitamente sem ar.

– Sim. – Rosalie admitiu sem reservas. – Eu precisava falar com alguém neutro e quem melhor que um padre?

Qualquer outro seria melhor; Bella pensou alarmada, se perguntando o quanto a irmã havia dito. E quando.

– Pode me dizer o que falou?... Independente de aprovar meu namoro ou estar... sentida comigo, ainda sou sua irmã e sempre vou estar aqui para você.

– Eu deveria saber disso, Bella... – a irmã comentou também se sentando. – Mas eu estava com tanta raiva de você que... achei melhor aceitar o oferecimento do padre e me confessar.

– Então foi o padre quem lhe deu a ideia?

– Não da confissão. Ele apenas se ofereceu para me ouvir, mas eu me senti mais segura me confessando. Então combinei em ir á igreja na quarta feira pela manhã, logo depois que nos encontramos aqui na porta de casa quando ele estava indo para sua corrida.

– Entendo... – a moça murmurou intimamente. A cabeça fervilhando. Edward também já havia se oferecido para ouvi-la, ao que recusou veementemente, pois ele era o tema central de seus infortúnios. Ao que tudo indicava o italiano apenas exercia sua função de padre, nada mais. Então porque algo lhe soprava ao ouvido dizendo que aquela confissão da irmã não havia sido benéfica para ela. Sem pensar, repetiu a pergunta.

– Vai me contar o que disse?

– A verdade no momento... Que a odiava por estar com alguém que amo.

Era aquilo que precisava ouvir para concluir seu plano com Emmett, mas tudo que lhe vinha á mente era a provável curiosidade do padre acerca de seu namoro.

– E o padre me condenou por isso?

– Não. – a irmã respondeu alheia ao seu real interesse. – O senhor Cullen disse apenas que você estava tentando se prevenir das imposições de papai, mesmo que de forma desleal.

A moça não sabia o que pensar; era muita informação para uma única noite. Ainda sem perceber, indagou.

– Então o senhor Cullen sabe detalhes de meu namoro com Emmett?

– E sabe sobre Jacob... – Bella pôde notar o tom de escusa na voz da irmã. – Não sei por que ele me perguntou onde Jacob se encaixava nessa história e... como eu estava com raiva acabei contando.

Tentando disfarçar a súbita fraqueza, Bella se deitou contra o travesseiro e mirou o teto. Seu coração acelerava e ora praticamente parava ao imaginar tudo o que Edward poderia estar pensando dela naquele momento. Não era de admirar que não acreditasse quando lhe disse que gostava dele; como poderia. Fechando os olhos, perguntou.

– E o que disse exatamente.

– Contei-lhe minha teoria sobre o relacionamento de vocês dois.

Ótimo; que o rapaz era apaixonado por ela que somente o maltratava por apreciar seu assédio devotado, mas que no fundo nutria algum sentimento por ele. Inferno. A moça se perguntou como a irmã pôde fazer tal coisa. Agora lhe parecia que os muros erguidos pelo padre eram intransponíveis e realmente somente um milagre a ajudaria; mil vezes inferno.

– Bom... – ela exalou por fim. – Ao menos serviu para alguma coisa, não?... Mudou seu tratamento comigo depois de conversar com o padre, não foi?

– Foi sim... Suas palavras me deram o que pensar. Ás vezes acho que devesse conversar com papai e tentar desmanchar esse noivado.

Com seu relacionamento com Jacob e o compromisso mentiroso com Emmett lhe pesando nos ombros, Bella comentou repentinamente mordaz.

– Então pense com carinho e tome as rédeas de sua vida, Rosie... Depois disputamos Emmett no palitinho.

– Não teve graça. – Rosalie retrucou séria.

Nada naquela conversa tinha graça. Agora creditava maior valor ás palavras de Alice. Ao que tudo indicava o padre apenas se rendeu á ela por ter as reações normais de um homem quando provocado por uma promíscua; nada tinha á ver com sentimento. Como havia sido ingênua. Talvez fosse o caso de tentar se explicar, contudo de nada importaria se a vontade de Edward fosse apenas aplacar o tesão que lhe causava. Imediatamente ao pensamento Bella se sentiu cansada; mental e fisicamente. Naquele instante a frase de Scarlet cabia á perfeição, pensaria á respeito de tudo aquilo na manhã seguinte. Apenas uma coisa era certa em sua cabeça. Ainda não estava preparada para encontrar com o padre.

– Rosalie, você se importaria de me fazer um mega favor amanhã cedo?... Faço qualquer coisa em troca.

– O que é? – a irmã perguntou interessada; ainda séria depois de sua gracinha inoportuna.

– Poderia ir á igreja pegar uma das imagens para que eu inicie a restauração?

– Por que não vai você mesma? – ela indagou especulativa.

– Faço qualquer coisa de verdade Rosie, se você apenas fizer o favor... Sem perguntas.

– Bom... Não entendi o pedido, mas diante de tal oferecimento, vou sem mais perguntas... Posso pegar qualquer uma ou...

– Qualquer uma que queiram mandar... Se conseguisse trazer todas de uma vez seria ainda melhor.

– Tudo bem... Vou ver o que posso fazer. Quanto ao pagamento, vou pensar em algo... e se lembre que você disse “qualquer coisa”...

– Não vou me esquecer... Obrigada! – então, encarando a irmã depois de vários minutos, acrescentou. – Estou feliz que estamos mesmo bem... Saiba que a amo e a única coisa que me importa é vê-la feliz. Boa noite Rosalie.

– Boa noite Bella. – ao se virar para tentar conciliar um sono que não viria a moça pôde registrar o tom embargado de sua irmã. Queria seguir-lhe o exemplo e chorar, contudo não conseguia. O turbilhão que revirava seu peito e fervilhava suas ideias não lhe dava margens para o choro, apesar da tristeza e do desespero crescente. Ao que tudo indicava meter-se na cama do padre seria mais fácil do que tentar se infiltrar em seu coração. Agora a tarefa lhe parecia árdua e dolorosa sem muitas chances de êxito, contudo ela não se via recuar diante dos obstáculos apresentados. Com um suspiro profundo, a moça apertou os olhos e se obrigou á desligar-se dos pensamentos; amanhã teria um longo dia.

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SPOILER:

Ao entrar no cômodo, como todos os dias desde a quinta quando deixou de ir á praia, se lançou ao chão e iniciou uma serie de flexões. Como muitas coisas sobre si mesmo, não entendeu a forma de substituição que subitamente lhe ocorreu, mas ainda que em poucos dias, apreciava o subir e descer de seu corpo tanto quanto apreciava correr. Seus braços ainda doíam pelo esforço ininterrupto e diário, contudo Edward os flexionava até a completa exaustão. Enquanto se exercitava não pensava na cobra tentadora. Naquela manhã – até onde conseguiu contar – fez quase duzentas flexões. O pároco perdeu-se muito antes em sua contagem quando a presença invasora tomou sua mente de assalto indiretamente pela lembrança das palavras de seu tio.

– Amanhã Bella virá buscar as imagens... – Carlisle disse de má vontade tão logo o afilhado retornou á casa depois de considerar seus afazeres na igreja encerrados. – Foi o que ficou combinado com o pai.

– Ouvi antes de sair. – Edward retrucou tomando o caminho do corredor; precisava de um banho que o fizesse esquecer o que havia visto na lanchonete.

– Espero que não tenha uma recaída. – o padrinho comentou aumentando a voz para ser ouvido, obrigando o padre á girar nos calcanhares e retornar á sala.

– Agradeceria se parasse com esse tipo de comentário.

– E eu agradeceria muito mais se parasse de ser tão sensível á essa moça. Alega ter perdido o interesse, mas eu vejo como fica á simples menção do nome dela.

– Então pare de dizê-lo. – Edward ordenou antes de dar as costas ao tutor e rumar para o banheiro.

Ao entrar refreou o desejo de bater a porta. Realmente não deveria ser tão suscetível á ela, mas não mandava em seu corpo e mente. Como não os comandou durante a noite, ou pela manhã que sempre o encontrava excitado mesmo que insone; ou naquele exato momento em que erguia do chão com os braços e costas doloridos e fazia o caminho de volta ao banheiro para banhar-se. Como invariavelmente fazia, tentava dizer á si mesmo que a expectativa que tomava seu coração era somente pelo início das obras em sua igreja e não com a visita agendada contra sua vontade.

Seu banho foi breve, assim como o tempo que gastou para aprontar-se, mínimo. Ás sete horas já se encontrava em sua igreja, com suas orações matinais concluídas e á espera dos primeiros trabalhadores; todos locais deixando-o á vontade com o conhecimento geral.

– Bom dia padre! – disse Carl, tão logo entrou na capela depois de estacionar um pequeno caminhão ás suas portas. – Trouxe os andaimes de aço que sempre usamos no reparo do galpão. Quando der o sinal verde começamos.

– Pois já o tem. – Edward disse subitamente se sentindo ansioso com o início dos trabalhos.

– Então com sua licença senhor... – o grande homem pediu, antes de sair, porém se voltou e avisou. – Alguns dos rapazes ficarão aqui para iniciar os reparos nos bancos... Será barulhento.

– Não tem importância. – tranquilizou-o com um sorriso. Talvez o martelar e serrar incessante ocupasse os espaços vagos em sua cabeça traiçoeira, pensou enquanto seguia Carl até a entrada da igreja para olhar em direção á rua que levava a trilha da praia.

Com as mãos nos bolsos de sua calça, Edward ficou á observar os homens descarregarem as grandes armações e recostá-las contra a parede lateral da pequena igreja. Pela agilidade empregada, poderia supor que realmente eram experientes no trabalho que executariam. Manteve-se tão absorto na ação que teve um leve sobressalto ao ouvir a voz feminina atrás de si.

– Bom dia senhor Cullen!

Antes mesmo de se voltar tentava identificar e administrar a decepção por não ser a moça certa.

– Bom dia Rosalie.

– Sua benção padre!

Ao abençoá-la sentiu seus dedos reclamarem um contato que não mais teriam. Respirando profundamente, indagou logo em seguida.

– O que faz aqui tão cedo?... Acaso veio para conversarmos?... Se foi para isso, hoje eu...

– Não senhor. Sei que hoje os trabalhos começam. – ela o interrompeu apressadamente; então acrescentou segura. – E não preciso mais perturbá-lo com minhas lamúrias. Já me ajudou o suficiente.

– De verdade? – o padre nutria certa dúvida, afinal ela alegou amar aquele que sua irmã languidamente alimentou bem diante de seus olhos; e dos dele, pensou contrafeito.

– De verdade. – ela confirmou. – Acho que vou fazer como me disse e conversar com meu pai. Estou juntando coragem... De toda forma o que mais me atormentava era o sentimento ruim por minha irmã e esse já passou.

– Passou? – indagou com o cenho franzido.

– Bom... – ela começou receosa. – o que digo aqui ainda fica sob o segredo da confissão?

– Fica. – Edward a tranquilizou, queria saber o que se passava.

– Bom... Então reafirmo que passou sim... É incomodo, mas vejo como Emmett este feliz ao lado de minha irmã. E é isso que me importa. Também não sei se acredito que Bella o esteja usando, ela sempre foi sua amiga, não o magoaria dessa maneira. Quero vê-lo sempre contente... E também... Vê-lo. Nesses últimos dias tenho estado perto de Emmett mais vezes do que nos últimos meses.

Como padre deveria entender e enaltecer tal amor desapegado; como psicólogo acreditava que a moça á sua frente precisava de ajuda para trabalhar sua total falta de amor próprio e estima; como homem sua vontade era sacudi-la para tentar acordá-la de tamanho torpor. Perguntava-se como poderia se conformar em presenciar os carinhos que a pessoa amada fazia á outra somente pela oportunidade de “vê-la”. O conceito lhe parecia absurdo e sem fundamento, contudo não era de sua conta, pensou resignado. Apenas tentava sufocar o desejo que sentia por uma das partes citadas então não deveria se aprofundar em um assunto que cada vez mais perdia seu interesse. Na verdade apenas uma coisa importava por isso falou.

– Se encontrou paz nesse pensamento... Apenas faço votos que tenha coragem de conversar com seu pai o quanto antes... – mudando o peso de seu corpo em suas pernas, perguntou novamente. – Se não veio para conversar o que veio fazer?

– Vim buscar as imagens que Bella precisa restaurar.

Á explicação, o coração desavisado do padre involuntariamente enregelou; Bella não viria.

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Notas finais
Espero que tenham gostado.... Por, favor, me contem... Bjus