Notas iniciais
Oie... Bom dia!... amores, obrigada pelos reviews, demorei mas att as respostas. =) Agora mais um capítulo, espero que gostem! BOA LEITURA!

Depois daquela manhã, Edward viu Bella todos os dias, mas era como se não a visse de fato. Ainda na noite de terça, coincidiu de estar conversando com Sam em um dos extremos da praça – de onde tinha a visão de uma das entradas da cidade –, quando avistou a pick up. O padre percebeu que um carro vermelho a seguia e, antes que chegassem á praça, buzinou duas vezes e tomou outro caminho. A moça retribuiu o cumprimento e seguiu até passar por eles – também buzinar em cumprimento – e desaparecer na rua que a levaria até sua casa. Edward não precisou ver para saber quem ocupava o carro vermelho. Depois de acenar para a pick up em movimento, Sam falou pesaroso.

– Jacob nunca se cansa.

– Perdão? – Edward murmurou aéreo ainda á olhar o final da rua.

– Cometei que Jacob nunca se cansa de seguir a caçula de Charlie.

Sem temer parecer indiscreto por comentar a vida alheia, falou.

– Essa não é a primeira vez que comentam essa perseguição.

– Porque é notória e antiga. – o homem moreno explicou ainda em tom de pesar. – O garoto é caidinho por ela desde que o pai veio para a cidade. Jake devia ter uns quatro anos... Coisa de criança, sabe?

– Acho que sei. – ruminou a resposta, considerando que agora não havia nenhuma nota de infantilidade na forma como se tratavam.

– Pena que o tempo passou e ele não saiu dessa, pois está claro que a menina é somente sua amiga.

– Pobre rapaz. – novamente Edward mascou as palavras com desagrado. Então uma questão lhe escapou. – O que ele faz da vida? Digo... Estuda? Trabalha?...

– Até onde sei Jake terminou o colegial ano passado, mas não foi aceito em nenhuma universidade. Ele vive á fazer bicos como mecânico para os moradores aqui e em uma oficina lá em Wells. Acho que lá ele só vai para poder voltar com ela. – acrescentou apontando o final da rua, indicando a moça.

– Entendo... E o pai dela não se opõe?

– Os pais são amigos e acho que não se deram conta que o interesse do rapaz é sincero. Ainda os vêem como duas crianças...

Uma criança super desenvolvida sob a influência de seus hormônios que espreita a outra e a segura possessivamente em um dia para no outro abraçá-la como um homem abraça uma mulher. Não conhecia o pai de Jacob, mas o colocava na mesma conta de Charlie Swan; ambos cegos. Talvez ainda considerassem uma brincadeira inofensiva caso os flagrasse aos beijos e semi-despidos em um canto qualquer. Azedo, repudiando a imagem que projetou em sua cabeça, considerou que não deveria ter tido acesso á tanta informação. Alegando, uma dor de cabeça persistente que ganhava força, o padre se despedir de Sam e rumou para a casa anexa á igreja. Naquela noite foi difícil conciliar o sono.

Na quarta correu com a moça, contudo com Jasper entre eles á monopolizar a conversa. Não trocaram mais do que dez palavras, frustrando assim o desejo do padre de esclarecer algumas dúvidas levantadas após a conversa com o dono da casa de iscas. Na esperança de vê-la á noite, vagou pela praça até encontrar alguém para conversar e esperar. Por volta das sete horas, como na noite anterior, a pick up preta surgiu seguida pelo carro vermelho. Após as duas buzinadas se separaram. A ansiedade da vigília se transformou em despeito.

De nada adiantava esperar quando tudo que via era dois carros; não a via. Bella não tinha tempo para procurá-lo, somente para seu amigo de infância. Assim como Sam, a moça havia negado qualquer envolvimento, mas naquela noite Edward começou á acreditar que mantinham um romance secreto. Nem ao menos conseguiu dormir. Na quinta pela manhã encontrou-a novamente quando já estava de saída, também com o irmão. O padre chegou á casa com o humor pior que o do padrinho. Os diálogos eram breves e educados e só. Irritava-o ter que ouvir confissões, aconselhar ou ter que olhar para alguém que não fosse “ela”.

Naquela noite nem Bella ou Jacob passou pela praça no horário esperado e quando o padre se lembrou das benditas aulas de dança, enfureceu-se. Acreditou ter conseguido a explicação para a mentira tão bravamente mantida. Aquele era o dia que eles se permitiam ficar juntos, acobertados pela desculpa do curso semanal. Ao novamente imaginá-la com Jacob, dessa vez em algum motel de beira de estrada, aquele Edward interessado experimentou um ódio crescente e maligno que cegou até mesmo sua porção benevolente.

Quando deu por si estava em seu quarto, furioso, andando de um lado ao outro. Não sabia nem ao menos se havia se despedido decentemente da pessoa com que conversava; não se importava. Seu coração reclamava no peito. Como ela podia? Dissimulada!... Libertina!... E ele? Como ficava?... Também precisava dela. Cego, foi até sua cômoda e tomou seu chicote. Segurava-o pelas extremidades das correias juntando e separando as mãos para que as tiras de couros se separassem e ao se juntar produzissem o estalido.

Queria poder bater em alguém. De preferência nela... Na Messalina que o deixava naquele estado. E a Jacob queria partir ao meio; despeitado pelo rapaz ter tudo dela quando ele não tinha nada. Novamente não dormiu apenas se jogou sobre a cama e ficou á imaginar o cachorro perseguidor recebendo muito mais do que toques e carinhos discretos. “Vendo” o casal fazer coisas que ele apenas poderia sonhar.



Bella chegou á sua casa exausta; física e emocionalmente. Sentia falta de Edward que naquela noite nem ao menos pôde ver na praça pelo adiantado da hora. Nunca imaginou que um dia desejasse aquilo, mas agora não via a hora de seu pai e o irmão voltarem para o mar. Jamais poderia adivinhar o quanto eles lhe atrapalhariam a rotina. Na manhã de segunda foi obrigada á ir até a cooperativa com o pai que alegou estar saudoso de sua companhia. Como aquele era um passeio comum entre os dois, não pode se negar. A visita ocupou toda sua manhã.

Na terça, quando estava prestes á seguir para a praia o irmão a interceptou dizendo que a maré estaria baixa e reivindicou um tempo com a irmã avisando que ela estava intimada á nadar com ele. Até ali tudo bem, pois ainda poderia inventar uma desculpa para caminharem com Edward, contudo, Jasper demorou minutos preciosos para se arrumar e já na trilha, parava á todo momento reparando em algum detalhe novo na paisagem antiga e imutável. Quando se encontraram com Edward ele já estava de saída e por algum motivo, irritado. Á noite o viu na praça com Sam. Cumprimentou por reflexo, pois ele não a veria no interior da cabine escura.

O mesmo se deu na quarta, daquela vez correram juntos e, apesar da tagarelice do irmão, eles praticamente se mantiveram em silêncio. A moça sentia sua falta; queria falar-lhe, tocar-lhe, mas não podia. Novamente o viu á noite, mas seria inútil cumprimentá-lo. Desejava mais do que um simples aceno, contudo tinha que voltar para casa, pois seu pai ainda reclamava sua companhia alegando que já ficaria sem ela na noite de quinta. Como não queria causar polêmicas que lançassem ainda mais o foco sobre si, ela o atendia.

Ao que parecia a saudade era tanta que naquela manhã teve que ficar á mesa do café até que ele se desse por satisfeito com sua companhia e a liberasse para sair com o irmão. Novamente encontrou com Edward deixando a praia. Cada vez mais sentia falta dele; seu coração se espremia ao vê-lo e suas pernas bambas pareciam implorar que fosse até ele; sem poder. Diante do irmão e de todos tinha que demonstrar que nada acontecia. Que não estava irritada e triste com aquele distanciamento. Como não podia desabafar em casa, descontou nas colegas de palco. Com seu humor azedo, conseguiu até mesmo ser grosseira com Kris.

– Não quero saber como sua vida é infeliz... Pare de se vender á esses escrotos que tudo melhora. – retrucou rispidamente quando a colega veio lhe contar sobre as esquisitices de um dos clientes da noite anterior.

– A estrelinha está azeda hoje! – Tanya exclamou e sua cadeira retocando a maquiagem, pois logo subiria ao palco. – Faturou pouco?

A moça não lhe respondeu; estava mais preocupada em com a amiga.

– Ah... Me desculpe, Kris... Evidente que me preocupo. Justamente por isso sempre á incentivo á parar de se prostituir, mas entendo que é seu meio de vida e não tenho nada á ver com isso. Estou... nervosa, mas não deveria descontar em você.

– É falta de macho. – Tanya falou. – Reconheço os sintomas... Talvez esteja na hora de deixar de ser “virgem”.

– Se é “você” que reconhece os sintomas eu não posso contestar, afinal deve sofrer dessa falta sempre... – Bella retrucou também sem mover de sua cadeira. – Pelo que me consta não tem um macho há anos, só esses velhos babões que pagam mixaria para você fazer milagre com seus pintos mortos.

– Posso ser milagreira, mas não sou uma santinha hipócrita como você. – a loira se enfureceu e se virou para ela. – Nem sei como podem acreditar nessa conversa fiada de que é virgem.

– Inacreditável seria se fosse alguém drogada, velha e caída como você á alegar o mesmo...

– Vadia! – Tanya exclamou afastando a cadeira para avançar em sua direção.

Bella também se pôs de pé, pronta para acabar com aquela cara mal pintada e descarregar nela toda sua frustração, contudo, como sempre, todas as outras se colocaram entre elas para impedir a briga.

– Calma garota. – Kris pediu segurando-a.

– Deixem a santinha vir... – Tanya ordenou aos gritos.

– Ninguém vai brigar aqui hoje. – disse uma das garotas aumentando a voz além das delas. – Que droga... Será assim sempre?... Qual é o problema com vocês duas?

As duas mulheres se encararam sem responder. Após alguns minutos, Tanya livrou o braço que uma moça segurava e voltou á sua cadeira.

– Não vou me sujar com essa vaca dissimulada.

Bella não respondeu. Apenas livrou também o seu braço e, depois de mais uma vez se desculpar com Kris, voltou ao seu lugar para terminar de retirar a maquiagem. Aparentemente, enquanto frequentasse a casa noturna teria seus desentendimentos com Tanya, mas naquela noite não deveria agredi-la nem mesmo verbalmente. A dançarina tinha razão. De certa forma padecia da falta citada maldosamente. Ter ficado longe de Edward agravou a paixão que sentia por ele; dormia mal, acordava pior.

Não tinha ânimo nem mesmo para brigar com Jacob que, sempre que se encontravam, agora insistia para saber o que ela e o padre conversaram depois que os deixou, pois tinha certeza que ela havia chorado por causa dele. Como ela nunca respondia, o rapaz se mostrava cada vez mais inoportuno. Apenas naquele aspecto era bom ter o pai por perto, pois com Charlie na cidade, o rapaz tendia á ser mais discreto. Bella só não conseguia se livrar dele em Wells.

Naquela noite Jacob assistiu a apresentação com a expressão carregada. Geralmente se mantinha distante do palco, mas naquela fez questão de ficar bem próximo, com os braços cruzados; encarando-a. Apesar de ser quase comum, ela não gostava de ficar naquele clima com o amigo. Ele não era mal e sempre a atendia, como Jessica maldosamente comentou. A prova era ter aceitado ajudar com a montagem do palco para o leilão. Seria mais fácil admitir o que ele já havia adivinhado, mas Bella não se sentia á vontade de falar sobre seus sentimentos recém descobertos pelo padre para mais alguém além de Alice.

Com um suspiro exasperado Bella depositou sua bolsa sobre uma cadeira de seu quarto e vagou para o banheiro. Precisava de um banho de água norma que a relaxasse. Relembrar toda a semana, com seus desencontros, desentendimentos e frustrações agravou sua tensão. Cinco minutos depois saiu debaixo no jato d’água com os ombros ainda doloridos. Nada ajudaria. Novamente rolou na cama e na manhã de sexta levantou resoluta. Não iria á praia, mas também não cederia ás chantagens emocionais. O piquenique seria no dia seguinte, então, nada mais justo do que ter uma última reunião com o maior interessado.

– Bom dia! – cumprimentou á todos que estavam á mesa.

Beijou a mãe, o pai. Bagunçou o cabelo de Jasper e beliscou a irmã antes de se sentar.

– Quanto bom humor! – Rosalie comentou enquanto a moça começava á se servir.

– E por que não estaria? – Bella perguntou. – O dia está lindo... Todos nós estamos aqui reunidos... O que mais eu poderia querer?

– É verdade. – a mãe lhe sorriu contagiada.

– Bella, hoje ficarei com a pick up. – disse o pai tomando um gole de café. – Eu e seu irmão precisamos ir á Wells comprar algumas tintas para a pintura do barco. Aproveitaremos para levar Rosalie ao médico. Quero vê-la logo fora desse gesso.

– Tudo bem... Só me digam se chegarão á tempo ou se eu preciso ir de ônibus á tarde.

– Se não se importar eu preferia não marcar horários para voltar... Quero escolher com calma e ver onde encontro o melhor preço, essas coisas.

– Vou de ônibus então...

– Jasper pode buscá-la... – a mãe opinou.

Quando a moça ergueu os olhos para o irmão e viu seu olhar suplicante, o liberou do encargo.

– Não precisa. Passa um ônibus quinze minutos depois do término da aula... Ficarei bem!

– Não quer ir com a gente? – o pai ofereceu. – Pode fazer companhia á sua irmã.

– Não. – ela disse decidida – Se pudesse eu até iria, mas o piquenique é amanhã e tenho que cuidar dos últimos detalhes.

– Vai estar com o padre Cullen? – Charlie perguntou despretensiosamente.

– Só se for estritamente necessário. – ela respondeu no mesmo tom falsamente indiferente. – O que tenho á tratar é com as meninas que ficaram encarregadas da decoração. Como eu disse, detalhes.

– Ah... Se o vir, dê-lhe os meus cumprimentos.

– Se o vir darei. – ela disse dando atenção ás panquecas que a mãe lhe serviu.

Após a saída de todos, Bella contou meia hora e então, depois de se despedir da mãe e pegar o caderno de Rosalie, rumou para a igreja. Havia tanto tempo que não fazia aquele caminho que suas pernas tremiam desde a sua porta. Enquanto cruzava a praça seu coração pulsava tão forte que ela temia que este falhasse de vez. Ao cruzar as portas da igreja acreditou por um segundo que fosse preciso se sentar, contudo se ordenou á ser forte. Qualquer parada em seu caminho seria um minuto á mais longe de Edward.

Naquela manhã os bancos não estavam tão ocupados. Com os maridos e pais em casa as assanhadas não tinham tempo para irem á igreja com a mesma freqüência, pensou maldosamente. Mas então, enquanto seguia para a sacristia ela percebeu que havia acontecido o mesmo com ela e se permitiu sentir certa simpatia por aquelas que também foram privadas de ver o padre.

Preparou-se mentalmente para o choque habitual, contudo nada poderia prepará-la para encontrá-lo sozinho depois de tanto tempo. Tudo que pode fazer foi ficar parada á entrada da sala, segurando nem sabia como o caderno. Depois incontáveis segundos, Edward ergueu os olhos em sua direção. Impossível não notar as olheiras fundas, o ar abatido, a sombra escura de uma barba não feita. Como ele apenas a encarasse sem nada dizer, Bella obrigou as pernas á funcionarem e finalmente entrou até parar próximo á mesa.

– Bom dia! – sua voz saiu num sussurro.

– Bom dia...

“Onde estava seu buongiorno”, pensou saudosa.

– O que deseja? – Edward perguntou voltando á olhar para o livro á sua frente.

– Eu vim... – “o quê?”. Não havia pensando na desculpa. – Eu vim...

– Veio o quê, Bella? – ele perguntou sério, encarando-a.

– Vim... Vê-lo. – disse por fim. Por que não diria se aquela era a verdade?... Sem desviar os olhos dele, viu quando as sobrancelhas se uniram em sinal de estranheza.

– E por que faria isso?... Qual a razão em vir me ver?

– Porque têm dias que não nos vemos...

Assumindo um ar desentendido, o padre comentou secamente.

– Estranho... Com exceção á segunda feira, nós nos encontramos todos os dias.

– Sim, mas nós não... Conversamos direito...

“Por que ele não facilitava?”, pensou desconsertada.

– Então tem algo á conversar comigo agora?

Diante do comportamento estranho e frio, a moça falou o que lhe veio á cabeça.

– Queria lhe pedir desculpas novamente pelo constrangimento que meu pai o fez passar durante o jantar. Se soubesse que ele fosse reagir daquela maneira jamais teria dito sobre nossas caminhadas na praia.

– Se bem me lembro, eu lhe disse na ocasião que não havia problema. Que fez bem em contar, afinal... Como você mesma salientou, nossos encontros não são secretos.

– Sim... O senhor disse... – subitamente enfraquecida pelo desconforto, pediu. – Posso me sentar?

– Se for breve... – ciciou indiferente.

Sem conseguir adivinhar o motivo de ser tratada daquela maneira, perguntou sem pensar.

– Afinal qual é seu problema Edward?

Ao se calar, Bella desejou ter mordido a língua e quando os olhos azuis faiscaram em sua direção, ela soube que teria sido melhor se o tivesse feito.

– Não me lembro do dia que lhe dei tal intimidade.

– Senhor eu...

– Mas eu lhe digo qual é meu problema. – Edward a cortou se pondo de pé para aproximar-se; sua atitude contida, porém agressiva fazia com que parecesse maior á moça. – Meu problema é que não tenho tempo para gracinhas... Nem para jogar conversa fora. – sibilou se acercando dela. – Não tenho tempo para ficar á disposição de alguém que resolveu me atormentar.

– Senhor eu não...

– Vou perguntar apenas uma vez... – rosnou á sua frente. – Você tem alguma coisa á tratar comigo sobre o evento de amanhã?... Falta alguma coisa?

– Acho... – ela começou novamente sem raciocínio. – Acho que não falta nada... As meninas estão cuidando da decoração, todos os outros já confirmaram suas doações e Jacob já deu sua palavra que montará o palco, então...

– Então... – ele novamente á interrompeu, baixo e mordaz. – Se já está tudo acertado com todos inclusive com seu “amigo” Jacob, você não tem nada á fazer aqui.

– Mas...

– Até amanhã Bella!... – disse lhe dando as costas não para voltar á mesa, mas para seguir até a porta de acesso ao corredor que interligava a igreja á casa; ao passar, fechou-a ruidosamente.

Depois de sua saída Bella ainda permaneceu parada onde estava sem saber como se mover. Não entendia o que havia acabado de acontecer ali, somente sentia a dor em seu peito e os olhos queimando feito fogo. Percebeu que chorava apenas quando sentiu algo úmido e leve correr em seu colo. O padre havia sido grosseiro com ela desnecessária e inexplicavelmente. Foi preciso que se sentasse até que recuperasse a força das pernas e contivesse todas as lágrimas. Já deveria estar acostumada, pois á muito tempo sabia que o padre era bipolar. Quando se curasse de seu mau gênio viria sorridente e com aquela fala cantada dele como se nada tivesse acontecido.

Na ocasião veria como o trataria, pensou se recuperando do torpor. Não havia feito nada que justificasse tal tratamento então não sofreria por ele. Deixando o caderno que ainda segurava sobre a mesa, Bella secou o rosto como podia. Passou as mãos pelos cabelos como se estivessem bagunçados e se levantou. Nunca havia chorado por homem nenhum; chorou duas vezes por Edward Cullen, mas estava decidida á não deixar acontecer novamente. Ele era louco?... Ela era louca e meia!



Edward andava de um lado ao outro em seu quintal sorvendo o ar aos bocados na tentativa e acalmar-se. Havia feito o certo e precisava ser forte. Sua dependência por Bella estava indo longe demais. A prova era aquele sentimento daninho em seu peito. Aquele que desde a noite passada sabia reconhecer e nomear. Padecia do mais puro e genuíno ciúme. Deu-se conta que o ressentimento dirigido á ela não passava daquele sentimento vil e inoportuno quando, pouco mais da meia noite, ouviu duas buzinadas ao longe. Mesmo sem terem sido respondidas, ele sabia que Bella esteve com Jacob.

Confirmar que o casal esteve até àquela hora em um encontro secreto o feriu como jamais poderia acontecer. Pensou arrogantemente durante o jantar com os Swan que ela não poderia se apegar, mas quem estava muito mais do que apegado era ele. Reconhecer mais um dos sentimentos que não tinha permissão de sentir o fez perceber que nunca conseguiria ter paz. Apenas se enganava recolhendo os restos do todo que Jacob recebia.

E não era um moleque para ser igualado á um; ser rebaixado á um. Justamente por isso – enquanto as malditas buzinadas ecoavam na sua cabeça – que resolveu virar o jogo á seu favor. Se o pai da moça boicotava seus encontros, o ajudaria fazendo a própria parte. Talvez estivesse ali a oportunidade de se livrar daquela dor incomoda e persistente em seu peito antes que fosse tarde demais.

Não queria mais sentir o mesmo que sentiu ao ouvi-la dizer o nome do outro como havia feito há pouco na sacristia. Não queria mais perder noites de sono ou sonhar com ela como aconteceu nas primeiras horas daquela manhã. Quando novamente possuiu a moça vendada, depois de açoitá-la. Não queria mais despertar dolorosamente duro e profanar sua mão ungida.

O padre tinha dificuldade em controlar a parte dele que desejava voltar até ela e lhe pedir desculpas. Tinha que se acostumar é viver sem migalhas. Se convencer de que era somente o líder espiritual da moça e sua família, nada mais. Quando estivesse curado, talvez até á aconselhasse a parar com as mentiras e assumir seu compromisso. Até lá deveria cumprir tão somente o seu papel.



– Não vai reclamar comigo hoje? – Jacob perguntou quando a moça se aproximou sorrindo.

– Hoje não! – ela disse animada. – Estive pensando se não gostaria de me levar para tomar alguma coisa.

A feição do rapaz mudou bruscamente.

– O que disse? – inquiriu incrédulo.

– Em palavras mais compreensíveis para um pirralho como você, disse que quero que você me leve para beber alguma coisa... Cerveja, refrigerante, água...

– Você nunca aceita meus convites. – ele comentou desconfiado.

– Estou aceitando um hoje, tardiamente... Tem problema? – ela começou a se irritar. – Vai me acusar também de estar tomando seu tempo?

– O quê?... – Jacob perguntou confuso; então subitamente exclamou. – Não!... Ah... Vamos, então.

– Bom menino! – ela elogiou com um sorriso.

– Cadê a caminhonete? – Jacob perguntou quando começaram á caminhar.

– Está com meu pai... Vim de ônibus.

“Em uma longa e triste jornada”, pensou entristecida.

– Ah... Está explicado! Está tão boazinha assim porque quer carona...

Consultando o relógio ela comentou indiferente.

– Passa um ônibus para Sin Bay daqui á cinco minutos... Não preciso de você para me levar para casa... Se não quer sair...

– Não Bells... Foi mal. – Jacob se desculpou alarmado. – Tem algum lugar que queira ir?

“Sim, ir para a igreja, agarrar o padre e dizer ao idiota que estou apaixonada por ele”, como não podia...

– Qualquer lugar está bem... – disse em voz alta. – Desde que tenha bebida... Minha garganta está seca.

– Então vou te levar num lugar legal. – o rapaz anunciou animado.

– Ótimo... Preciso de lugares legais essa noite.



– Acorda Bella! – alguém gritou ao seu lado.

Ela tentou abrir os olhos, mas eles estavam pesados e o esforço fez sua cabeça doer.

– Ai!... Para que gritar?... Para que essa luz na minha cara? Desliga isso, merda!

– Mamãe não gosta que fale palavrões e essa luz se chama sol... Esqueceu que dia é hoje?

– Vou me lembrar se você parar de gritar... – disse voltando á se enrolar.

– Não estou gritando... – disse Rosalie puxando a coberta. – Você está de ressaca.

“Ressaca?!”

Agora a irmã tinha toda sua atenção. Abrindo os olhos lentamente, Bella se sentou sobre a cama e olhou em volta. Sentia a boca seca, a língua grudada em seu palato e a cabeça maior do que ela deveria ser; doía. Gradativamente ela se lembrou. Havia saído com Jacob para beber... E pelo jeito havia feito muito isso.

– Como vim parar em casa?

– Está perguntando para mim?... Eu nem vi você chegar. Só sei que foi tarde, pois eu subi bem depois da meia noite. Papai estava uma fera com você... Dizia á todo momento qual a razão de se ter um celular quando não o deixava ligado.

– A bateria acabou no meio da tarde.

– Diga isso á ele e é bom ter uma boa desculpa... Ah... Se lembre que hoje é o piquenique... Você marcou com todos ás dez e já são nove e meia.

“Ah, o maldito piquenique”. Se fosse do seu feitio deixar as coisas pela metade devolveria a responsabilidade para Rosalie. Como não era, pulou da cama e se arrastou até o banheiro. Estava com a cara péssima, mas nada que um bom banho e aspirinas não resolvessem. Depois de arrumada, desceu as escadas e foi até a cozinha, sentia uma sede de naufrago. Enquanto bebia água diretamente da garrafa com a porta da geladeira aberta, seu pai entrou na cozinha.

– Ora, ora... Posso saber á que horas chegou mocinha? – perguntou sem rodeios.

– Tarde... – ela disse se voltando para ele com ar consternado depois de guardar a garrafa e pegar uma maçã. – Desculpe-me por não ter avisado, mas me encontrei com algumas amigas do tempo de faculdade e a conversa rendeu...

– E vocês foram beber... – ele completou.

– Sim... Bebemos um pouco então a hora passou sem que eu percebesse. Acabei perdendo o último ônibus e tive que esperar até que alguma delas me trouxesse... Pode me perdoar?

– Ah... Tudo bem! – ele exclamou por fim. – Você é jovem... Também merece se divertir, mas da próxima vez avise que vai demorar.

– Não terá próxima vez, prometo! – ela disse se aproximando dele para beijá-lo.

– Não tem compromisso agora pela manhã?

– Tenho e já estava de partida.

Rolando a maça na mão, Bella saiu. A claridade incomodou seus olhos, então, tão logo se refugiou no interior da cabine da pick up, colocou os óculos de sol que ficava no porta-luvas. Guiou sem pressa, sua cabeça ainda esperando o efeito da aspirina, doía ao mais leve tombo dos pneus nas pedras do calçamento. Quando ela chegou ao jardim da cooperativa todos já estavam em atividade. Satisfeita por não terem ficado lhe esperando, ela deixou a caminhonete e seguiu até eles.

– Bom dia! – até mesmo sua voz lhe incomodava. – Desculpem meu atraso.

– Tudo bem Bella. – disse Sue se aproximando depois que todos os presentes lhe cumprimentaram. – Jacob avisou que você demoraria então comecei á organizar tudo por aqui... – então, como se estranhasse os óculos, perguntou preocupada. – Você está bem?

– Estou com um pouco de dor de cabeça... Logo passa.

Tão logo Sue a deixou, imediatamente ela olhou na direção de Jacob. Com um sorriso debochado no rosto ele lhe acenou depois de uma piscadela e voltou á martelar o que seria o palco. Estava sem camisa, todo cheio de si. De repente a algo na atitude dele a perturbou. Não se lembrava do que havia acontecido. Certificando-se que sua aproximação não seria reparada, Bella foi até ele.

– Bom dia “meu amor”! – ele disse parando o serviço e erguendo o corpo.

– Não sou seu amor. – retrucou rispidamente. – E que negócio é esse de ficar dando recados em meu nome?

– Apenas disse á Sue o que sabia... – ele deu de ombros. – Que você iria se atrasar... E se atrasou. Qual o problema?

– O problema é que eu disse á meu pai que saí com umas amigas... Como será se ele descobrir que “você” sabia do estado que cheguei.

– Calma Bells... Só disse á Sue que “achava” que você demoraria, pois a vi chegar tarde á cidade. – e então lhe piscou novamente. – Não contei nosso segredo.

– Que segredo?! – ela perguntou alarmada.

– O mesmo que você não contou ao seu pai... Que saímos para beber... O que mais?

– Foi só isso Jake?... – ela começou preocupada. – Só bebemos?

Não sentia nada estranho com ela, mas como poderia saber se notaria a diferença caso eles... Nem se atrevia á pensar.

– Claro que foi só isso “meu amor”... – ele a tranquilizou.

Contudo, Bella não confiava nele. Sabia que Jacob possuía um boa dose de tesão acumulado por ela e que poderia muito bem ter se aproveitado de sua embriaguez. O sorriso convencido e a altivez desmentiam suas palavras.

– Você não se atreveria a transar comigo quando eu estava tão bêbada não é mesmo Jake? – ao fazer a pergunta olhou em volta para se certificar que ninguém os ouvia.

Jacob lhe seguiu o olhar e então, encarando-a respondeu.

– Não estou tão desesperado... Mas se quer mesmo saber o que aconteceu ontem á noite no meu carro, devo lhe dizer que você beija muito bem mesmo estando “tão bêbada”. Agora me deixe fazer meu trabalho. Se esse palco fosse só para o padre esquisito eu deixaria um ou dois pregos faltando, mas como você o usará, vou deixá-lo bem firme.

A moça já não o ouvia. Sua mente somente gritava que não podia ser verdade. “Havia beijado Jacob”... Seu estomago se fechou, mas ela nem ao menos teve tempo de passar mal. Logo começaram á lhe requerer a atenção ao que ela tratou de atender para ocupar a cabeça. Depois de uma hora de atividade, Bella já havia se desculpado e culpava Edward pelo que havia feito; culpava-o até mesmo pela dor de cabeça, agora branda, porém persistente. Se ele não a tivesse tratado daquela forma não teria tomado a atitude desesperada de beber para tirá-lo de sua cabeça.

Naquela brincadeira quem havia saído no lucro era Jacob que vez ou outra olhava em sua direção e tomava a liberdade de piscar para ela. O rapaz a exasperava, mas não tanto quanto o padre. Onde estava com a cabeça para se apaixonar por ele, justo por ele?!... Que não bastava ser inalcançável pela vocação que abraçou; tinha que ser também o mais necessitado de cuidados psiquiátricos entre todos os homens da face da terra. Ela não estava só apaixonada e perdida... “Estava era fodida!”

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SPOILER:

Rosalie apenas confirmou com a cabeça. A moça ainda ficou olhando a irmã se afastar lentamente. Agora sabia como Rosalie se sentia e se pudesse, arrancaria aquela angustia do peito dela. Ninguém que estava apaixonado deveria sentir aquele incomodo; não era justo. A irmã, mais do que qualquer outra pessoa, não deveria. Era boa filha, cordata... Merecia ser feliz, Bella pensou ainda observando-a enquanto se aproximava de Jessica.
A garota insuportável não decidia como decorava o palco recém entregue por Jacob, valendo-se de sua ajuda. O rapaz a colaborava prestativamente, mas vez ou outra ainda olhava na direção de Bella. Como fez naquele exato momento lhe flagrando o olhar. Imediatamente ela baixou o seu e voltou á ajeitar a mesa; não queria que ele confundisse as coisas.
– Se a ideia é manter segredo, acho que não deveriam se olhar com tanta frequência. – Bella ouviu a voz suave e cantada ao seu lado; próximo ao ouvido.
Nesse momento, apesar da raiva que nutria por ele, todos seus pelos se eriçaram. Após alguns segundos, se obrigou á reagir e pegou a toalha disposta sobre uma das mesas, somente para ocupar a mão, então se voltou para encará-lo.
– Não sei do que está falando “senhor”...
– Costumava me receber melhor. – ele comentou e, depois de perscrutar-lhe o rosto, acrescentou. – Está horrível... A noite não foi boa?
“Por sua causa a noite foi péssima!”, gritou em sua cabeça. Como estava sem os óculos, sabia que ele poderia ver seus olhos inchados. Contudo, Edward não poderia falar nada da aparência dela. Agora que o via de perto confirmou que a barba continuava por fazer, ele ainda estava abatido e com olheiras sob os olhos azuis. Também poderia dizer que a aparência dele estava horrível, mas ela não se comoveria. O padre se apresentava com a mesma expressão deplorável na manhã passada e ainda assim passou por ela como rolo compressor.

Notas finais
Bom... Espero que tenham gostado... qlq coisa, me contem... =) E na semana que vem finalmente chegamos ao piquenique para arrecadação de fundos para as obras... Vamos ver o que rola!... rs Bjus em todas... Bom Feriado!