Enigma - Segredos e Mentiras
11 Capítulo 10
Notas iniciais
– Então senhor... Pode nos contar agora por que deixou a Itália?
Edward ergueu os olhos de seu prato e encarou o dono da casa. Passados alguns minutos do início do jantar, seu corpo se habituou ao de Bella, permitindo que os bocados que mastigava passagem facilmente por sua garganta meio obstruída. Agradecia que a conversação se desse agora, quando poderia falar sem correr o risco de ficar com a voz represada. Depois de engolir o punhado em sua boca, respondeu.
– Vim da Itália há poucos anos... Dois para ser exato. Iniciei minha formação religiosa em Florença. Era meu desejo ter ficado até o fim, mas meu padrinho... Que o senhor conhecerá em breve; foi enviado para assumir uma paróquia em Washington e conseguiu que eu viesse com ele. Eu o ajudei indiretamente nos primeiros dias, pois não domina muito bem o inglês. Diante da dificuldade de se fazer entender ele acabou sendo afastado depois de alguns meses. O problema é que eu já havia retomado meus estudos e ele não quis que eu os interrompesse mais uma vez então acabamos ficando.
– Então o senhor pensa em voltar um dia? – Jasper perguntou entrando na conversa.
Antes que o padre respondesse, pôde sentir o movimento de Bella sobre a cadeira. Sem que pudesse evitar olhou em sua direção e flagrou o instante exato em que ela baixava os olhos para o prato. Ato contínuo, ele encarou o rapaz á sua frente e disse seguro.
– Não!... Já me habituei ao seu país e não sou muito afeito á mudanças.
Foi impressão sua ou ouviu um suspiro vindo da moça ao seu lado?... Por um segundo Edward se perguntou se acaso ela temeu que ele fosse embora. Não era certo, mas não pôde evitar que seu coração se aquecesse com a ideia. Como que para responder á sua indagação, Bella falou despreocupadamente, dando atenção exagerada á um camarão que não se fixava em seu garfo.
– E á nossa cidade agradável?... O senhor já se habituou?
– Certamente que sim. – respondeu após alguns segundos.
Dito isso Edward não se furtou de olhá-la uma vez que não haveria mal algum, pois seria educado fazê-lo enquanto lhe dirigisse á palavra. Não era sua intenção, mas seus olhos imediatamente foram atraídos para o decote que, de onde estava sentado, lhe permitia ver o vale entre os seios. Após um pigarro discreto, acrescentou.
– Acharia aborrecido ter que me mudar novamente.
– E também não estaria pensando em partir tendo chegado há tão pouco tempo... – Charlie concluiu.
– Era o que eu estava pensando. – disse Bella brigando com outro camarão.
Ela não queria que ele fosse; agora o padre tinha certeza. Errado, muito errado. Sentia falta dela, queria-a por perto sempre, mas ela não deveria apegar-se. Novamente com a garganta seca, Edward tomou um gole de sua água antes de voltar á atenção para o próprio prato. Juntou um bocado menor, pois seu apetite sumiu. Continuaria á comer para não fazer desfeita á dona da casa é a Bella. Novamente estava cismado, se estivessem na praia fatalmente a deixá-la-ia sozinha, mas ali, diante de todos não poderia levantar e fugir.
“Era um estúpido”, pensou com raiva. Nunca que sua ideia estapafúrdia de receber agrados daria certo. E novamente, como se adivinhasse seus pensamentos, Bella se moveu; imperceptivelmente. Apenas um leve ruído do roçar de tecido contra o assento da cadeira o denunciou. Talvez James também o tivesse ouvido, mas Edward sabia que nenhum outro naquela mesa o percebeu por estarem falando entre si sobre a sua chegada á cidade. E então, quando menos esperava, o padre sentiu o pé da moça encostar-se ao seu.
Assim como ela, Edward passou á dar maior atenção aos frutos do mar dispostos em seu prato e, com a cabeça baixa ousou olhá-la. Ela agora arrumava a comida sobre o garfo com a ajuda de uma faca; nada acontecia. Quando o pároco começava á acreditar que havia sido um mero acidente, ela moveu mais a perna e encostou toda a parte inferior contra a dele. Imediatamente a raiva que sentia de si mesmo se dissipou e assim, branda, se voltou contra ela. Como Bella ousava provocá-lo ali, á mesa? Quando não poderia esboçar qualquer reação?
Certo, o padre poderia indignar-se, mas a sua metade rendida obrigou-o á comprimir a perna ligeiramente em direção á dela. Incentivada, sem nunca desviar a atenção do prato quase vazio, Bella passou a mover o pé de forma que as partes unidas roçassem uma na outra verticalmente. Com aquela carícia lenta e pueril, o corpo de Edward passou a ser atacado por uma sequência intermitente de doses de adrenalina. Esta corria por sua coluna e recaía sobre seu membro como delicados toques.
– E como estão os preparativos para o piquenique do senhor Cullen?
Edward agradeceu que a pergunta tivesse sido dirigida á Bella; não conseguiria prever como sua voz sairia. Dona da situação, a moça falou sem maiores problemas.
– Ah... Já está tudo acertado papai. Preciso apenas falar com Jacob para pedir que nos faça um palco, no mais... é aguardar o dia.
Edward não gostou de ouvir o nome do rapaz ser pronunciado por ela, mas nem mesmo seu desagrado arrefeceu a excitação que sentia. Logo estaria verdadeiramente impossibilitado de se levantar daquela cadeira. Era imperioso que ela parasse aquele roçar dissimulado e estimulante, contudo ele desejava mais. Quem veio auxiliá-lo foi Renée que com seu pedido o livrou do dilema.
– Bella pegue outra garrafa de vinho, por favor.
A moça afastou a cadeira e se levantou prontamente, talvez a reptadora nem ao menos sentisse o mesmo que ele, somente o provocasse pelo prazer de saber que o abalava. De toda forma, se ela também se excitou com aquele resvalar de pernas, era providencial que não fosse aparente. Caso ocorresse o contrário, ele teria que inventar uma boa desculpa para permanecer sentado, pensou ao tomar outro gole d’água e discretamente secar uma gota de suor que ameaçou descer por sua testa.
Bella passou direto pela cozinha e seguiu até a porta que levava ao quintal; precisava de ar. Sentia seu rosto em chamas, mas sabia que ele não a denunciava. “Maluca, mil vezes maluca”, pensou com o coração aos saltos. Onde estava com a cabeça para esfregar a perna na dele daquele jeito descarado?... Estava no padre, sempre no padre. Aquela foi sua vingança pela ameaça que a acendeu na lanchonete e por amedrontá-la ao vacilar em responder se já havia se habituado á cidade.
Doce vingança que também a atingiu, pois seu corpo novamente vibrava enquanto partes distintas latejavam de forma preocupante. Sua vontade era que estivessem sozinhos; e que ele correspondesse daquela maneira. Com certeza não se contentaria em roçar metade de uma perna coberta, pensou voltando á cozinha para pegar a garrafa de vinho pedida pela mãe. Antes de retornar á sala, molhou e secou os pulsos na tentativa inútil de refrescar o corpo. Quando entrou na sala, evitou olhar na direção de Edward; se seus olhos se encontrassem fatalmente não conseguiria desviá-lo e então, tudo estaria perdido.
– Sirva á quem desejar. – a mãe pediu. – Tem certeza que não quer uma taça senhor?
– Absoluta... Eu não bebo, obrigada!
– Padre Embry não dispensava uma meia taça de um bom vinho do Porto. – Charlie comentou aleatoriamente.
– Já ouvi algumas estórias sobre ele. – Edward comentou vez ou outra acompanhando a moça que servia as taças com o olhar, como se não tivesse nenhum problema nisso. Mirando o anfitrião definitivamente, acrescentou. – Gostaria de tê-lo conhecido. Qual foi o motivo de sua morte?
– Nunca se soube ao certo. Talvez velhice... Foi encontrado morto em sua cama.
– Que sua alma descanse em paz! – o padre exclamou por costume.
– Desculpe-me. – James falou de sua cadeira, tão logo Bella retornou ao seu lugar, desviando a atenção do padre que se empertigava com a proximidade. – Mas eu realmente tenho a impressão que lhe conheço.
– E eu lhe digo que é praticamente impossível. – o padre retrucou levemente irritado pela interrupção de seus sentimentos. – Nunca estive nessa cidade antes.
– Talvez em Wells... – o homem insistiu. – Ou em qualquer outra cidade vizinha...
– Não. – Edward sentenciou. – Cheguei da Itália diretamente na capital de seu país e lá permaneci até completar minha formação, ser ordenado e ser enviado para cá. Esta é a primeira paróquia que assumo, então... Como vê... Não há a mínima possibilidade de nós nos conhecermos.
– Como disse, é somente impressão querido... – Rosalie repetiu amável.
Naquela noite Bella dava mérito para a irmã. Rosalie estava se portando muito bem diante de Charlie que, talvez aborrecido pela insistência do futuro genro, disse.
– Se um dia se lembrar onde pode ter visto alguém parecido com o padre Cullen, nos conte James, mas no momento não o force a ter lembranças que não existem.
E lá estava o bom e velho Charlie Swan, comandando sua casa e defendendo os que lhe agradava, mesmo indo contra alguém de sua estima. Bella adorou a intromissão, era prova de que seu pai havia se rendido ao novo padre. “Beleza!”
– Desculpe-me Charlie... Não se repetirá... Desculpe-me senhor...
– Imagine... – o padre começou diplomático. – Não se desculpe por isso... Sei como é não se lembrar de coisas que consideramos importantes... No seu lugar, eu também insistiria, apenas lamento não poder ajudá-lo.
Depois do incidente a conversa fluiu fácil e amena. Á certa altura Charlie comentou.
– Estranhei que a diocese não nos tenha informado de sua chegada senhor.
– Também achei estranho que não me esperassem, mas não imagino o que possa ter acontecido. – Edward respondeu sinceramente, não vendo nenhum problema no fato.
Aparentemente satisfeito com sua resposta, o dono da casa perguntou.
– A igreja precisa de muitos reparos?
– O telhado precisa de algumas telhas novas. – Edward respondeu. — As paredes de pintura, alguns bancos de conserto e todos eles de verniz... Também gostaria de conseguir um sino.
– Então precisará arrecadar muito dinheiro nesse piquenique.
– O que conseguirmos será bem vindo. – ele disse sinceramente. – Já havia me decidido á ajudar com minhas reservas.
– O senhor vai usar dinheiro próprio?! – o homem se admirou.
– E onde mais eu poderia usá-lo?... Decidi que comprarei as tintas, mas se precisar de algo mais...
– Fico feliz em ouvir isso, senhor e espero que consiga o suficiente.
– Mesmo que não arrecade o suficiente já ficarei feliz. – Edward retrucou lhe sorrindo antes de acrescentar em latim. – Inbenevolentiaoccurritopus. A boa vontade supre a obra senhor. – explicou.
Charlie lhe sorriu encantado e então mudou e assunto, sem mais especulações sobre as intenções do padre. Edward aproveitou para perguntar sobre a vida no mar o que deixou o capitão Swan animado com a oportunidade de contar suas vantagens sobre as pescarias que realizava.
Bella ouvia os comentários e perguntas do padre, completamente enlevada. Descobriu que ouvi-lo falando em latim era tão ou mais perturbador que em sua língua natal; perfeito. Estava de tal forma encantada que não o provocou novamente; melhor não brincar com a sorte, pensou. Quieta, Bella apenas saboreou a noite agradável onde tudo corria conforme ela desejava como se fosse um manjar dos deuses; assim como saboreou o pudim de claras da mãe.
Apesar das previsões da futura cunhada – que se manteve calada na maior parte do jantar –, seu futuro parecia doce como a sobremesa. Estavam na sala, saboreando o café brasileiro, preferido de Charlie, quando uma pitada de sal, caiu sobre tanta doçura.
– Bella comentou que o senhor costuma correr na praia ás vezes. – seu pai disse.
– Corro sim... É um velho hábito.
– Ela também me disse que ás vezes o acompanha...
– É verdade. – o padre respondeu. – Mas só nas caminhadas, sua filha me disse que prefere nadar.
– Sim, ela prefere. – confirmou Charlie olhando a filha com leve reprovação. – E o faz, mesmo sabendo que eu não gosto. Para onde ela costuma ir é muito perigoso.
– O senhor sabe que só vou até lá quando a maré está baixa. – Bella se defendeu.
– Mas ela pode subir de repente. – o pai retrucou e prosseguiu. – Mas isso não vem ao caso... O que quero dizer é... Sinceramente não vejo problemas com a amizade de vocês dois, mas não sei como os outros dessa cidade a entenderia.
Imediatamente Bella depositou o conjunto de xícara e pires que segurava sobre a mesinha ao lado da poltrona com medo de tilintá-los ou derrubá-los com o tremor que dominou suas mãos. Seu pai não faria o que ela imaginava que estava prestes á fazer, pensou alarmada. Foi Edward que tomou a iniciativa de perguntar.
– Como assim?
– Ora... Eu o conheço há poucas horas, mas acho que posso dizer sem medo de errar que o senhor é um homem íntegro, convicto da vida que escolheu para si e consciente de seus deveres com sua igreja, mas suas qualidades seriam as últimas coisas que o povo dessa cidade veria caso o encontrassem correndo ou caminhando com minha filha na praia. O senhor é um homem jovem e...
– Corta essa, pai! – Jasper o interrompeu. – Ninguém mais pensa dessa maneira, até por que quando alguém quer fazer coisa errada a idade é o que menos conta.
– Também acho... – apoiou Alice sem muita convicção.
– Senhor eu... Eu não sei o que dizer... – o padre balbuciou aturdido; não pela proximidade da verdade, mas pela possibilidade de ser proibido de estar com Bella.
– Está vendo só? – disse Renée preocupada. – Você o constrangeu!
Bella não se atreveu á falar. Conhecia seu pai tanto quanto ele a conhecia. Se intercedesse em favor próprio colocaria tudo á perder. Agora via que havia sido um erro contar sobre seus encontros; droga.
– Perdoe-me padre. – disse Charlie. – Mas sou um homem de vida simples e como disse, realmente não vejo problema algum com essa amizade que surgiu entre vocês... Acredito que jamais faltaria ao respeito com minha filha... Nem é minha intenção proibi-los de caminharem juntos...
– Então qual é a questão? – Edward perguntou sem ponderar, encarando-o seriamente.
Depois de olhar para todos os rostos inquiridores de sua família, o homem suspirou resignado.
– Quero apenas pedir que não seja rotineiro... Vocês poderiam alternar os dias ou variar os horários algumas vezes... Seria muito aborrecido para mim se começasse á surgir comentários maldosos envolvendo os dois, entende o que quero dizer?
– Claramente. – Edward respondeu lacônico.
Bendita fosse a constante reclusão do padrinho. Se Carlisle estivesse presente se refestelaria nas palavras de Charlie Swan. Contrariado, o padre evitou olhar para Bella que permanecia muda; acaso ela não se importava se não o visse mais durante as manhãs? Errou ao imaginar que ela se envolvia? Praticamente toda sua família se pronunciou menos ela; a outra metade interessada. Ou seria como imaginou á mesa; insinuava-se pelo simples prazer de provocá-lo? Começava á ficar claro que á ela pouco importava; era indiferente se o encontrassem ou não.
– Scusami... – sentindo uma dor fina e incômoda cruzar seu peito, o padre se pôs de pé. – Acredito que já tenha me estendido além da hora.
– Não vá ainda... – o dono da casa pediu também se pondo de pé, ao que foi imitado por todos os outros. – Não assim... Preciso que diga que me entendeu.
– Ah não, por favor... – Edward falou dissimulando a dor e a contrariedade, dando um ar tranquilo ao rosto. – Não pense que me aborreci com o que disse... Entendo perfeitamente sua preocupação e digo que eu mesmo já deveria ter atinado com a possibilidade de alguma maledicência.
– Sendo assim fique mais um pouco. – Renée pediu esperançosa.
– Realmente não posso senhora... Preciso voltar para casa. Amanhã levanto cedo. – e se voltando para Charlie acrescentou ainda em tom leve. – Fique tranquilo... Não me encontrarei com sua filha todas as manhãs... Isso nem ao menos aconteceu esses dias. Não é mesmo? – perguntou incisivo diretamente á ela que também estava de pé; calada.
– Sim... – Bella respondeu por fim, também olhando diretamente para ele. – Eu disse para meu pai que havia sido algumas vezes, não todos os dias.
O olhar carregado de escusa e o tom calmo, porém incerto o desconsertou; ela não era indiferente. Novamente, a mesma dor fina e inexplicável correu seu coração, contudo ela não o feriu como aconteceu anteriormente; foi algo próximo ao alívio.
– Certo! – Charlie exclamou por fim. – Acho que foi apenas preocupação exagerada da minha parte, mas gostaria que essas caminhas continuassem á não ser diárias.
Com sua irritação arrefecida, Edward se dirigiu á Charlie mais uma vez.
– Não se preocupe... – e então, na tentativa de indicar á Bella que nada havia mudado, lamentou sem realmente sentir. – Apenas receio não poder trocar meus horários, mas certamente jamais existirão motivos para comentários; maldosos ou não.
– Ah... Assim espero!... Eu gostei do senhor. Não gostaria que tivesse problemas por causa de falatórios.
– Assim como eu também não desejo criar problemas para sua família. – disse Edward apertando-lhe a mão. – Foi um prazer conhecê-lo Sr. Swan...
– Pode me chamar de Charlie. – autorizou. – E saiba que sempre será bem vindo aqui nesta casa.
– Muito obrigada Charlie. – experimentou antes de se voltar para Renée. – Senhora... O jantar estava divino, obrigada mais uma vez.
Edward se despediu de todos tomando o devido cuidado de apertar-lhes a mão somente para no final poder pegar na de Bella, contudo, quando estava prestes á fazê-lo, o pai falou.
– Acompanhe-o até o portão.
– Sim senhor. – Bella assentiu e rumou para a porta.
Talvez a concessão tenha sido para demonstrar que ele não se importava em deixá-los sozinhos; á Edward pouco importava. Depois de se despedir de todos mais uma vez, a seguiu através da porta e pelo caminho de cascalhos até a cerca de madeira. A moça seguia com os ombros eretos; a cabeça erguida. Ao chegar ao seu destino, apenas lhe deu passagem depois de abrir o portão.
– Desculpe-me pelo que houve... – ela disse num sussurro á sua passagem. – Imaginei que seria melhor contar sobre nossos encontros, afinal não são secretos...
Edward se colocou á sua frente, já na calçada e desviou os olhos na direção da casa. Não havia sombra alguma desenhada na cortina da janela da sala. Decididamente Charlie tentava se redimir. Quando teve certeza de que não eram observados, procurou os olhos dela e tranquilizou-a.
– Foi melhor que o fizesse.
Seguindo suas palavras veio o silêncio. Ele gostaria de lhe dizer algumas coisas, mas não sabia o quê. Também gostaria de tocá-la, mas não imaginava como. De repente lhe ocorreu que ela não se importaria como fizesse. Não havia comprimido sua perna á dele excitando-o praticamente diante de todos?
“Diga alguma coisa”, demandou á si mesmo. “Faça alguma coisa”.
– Boa noite senhor... – ela disse por fim voltando o rosto para olhar a mata ao lado de sua casa e, sem deixar de olhá-la prosseguiu. – É melhor não abusar da sorte. Sei que meu pai não está olhando, mas ele sabe o tempo que leva para vir até aqui e voltar...
E então, depois de encará-lo rapidamente, deu-lhe as costas e entrou. Quando ela sumiu de vista, Edward imitou-a e mirou a mata. De repente o entendimento lhe iluminou a mente somente para escurecer seus olhos. O pai não os vigiava, poderia contar-lhes os passos, mas ali, oculto pelas árvores poderia estar o motivo maior da inquietação da moça á espreitá-los. Alguém que a seguia como um cachorro segundo suas próprias palavras. Que a interceptava de forma abrupta num dia e a consolava ternamente no outro.
Antes que a irritação se transformasse em raiva e esta em ódio, Edward argumentou consigo mesmo que era inútil ocupar-se com aquele assunto. Fora o breve contratempo ao final do jantar, tudo estava como deveria. No balanço geral o saldo da noite havia sido positivo, então não deveria corrompê-la alimentando ressentimentos. Foi àquela casa com dois propósitos, pensou finalmente deixando a calçada. Para conhecer o líder comunitário da cidade e ter a dose de atenções que tanto necessitava; cedidas com acréscimo por sua filha caçula.
Livre da consternação o padre conseguiu admirar a noite; a lua. Enquanto caminhava revivia as sensações que a perna nua despertou em seu corpo e se deixou envolver por elas. Valer-se-ia daquele momento de ousadia da moça até que pudesse estar com ela na segunda, pois sabia que a bella Bella iria á praia. Com essa certeza chegou á casa. Seu padrinho já havia se recolhido ao que Edward o imitou tão logo higienizou sua boca, lavou o rosto e as mãos. Precisava dormir. Aquele outro homem que habitava nele estava satisfeito; na manhã seguinte era dia do padre cumprir seu papel.
Depois de muitas noites insones, agitadas e perturbadoras, Edward finalmente teve uma de sono seguido e pacifico. Acordou sem desejo; tranquilo. Nem mesmo a iminência de sua segunda missa, dessa vez com a audiência completa, lhe abateu o espírito. Sim, ainda se sentia culpado, desleal á sua vocação, mas não ao ponto de recriminar-se. Suas duas faces estavam equilibradas. Acreditando que, mesmo agindo errado, tudo poderia dar certo, Edward deixou o quarto para se juntar ao tutor.
Encontrou-o na cozinha, como no primeiro domingo. Preparou-se para as perguntas de como havia sido sua noite; elas não vieram. O padre se perguntou até quando duraria o boicote do padrinho daquela vez. Contudo, quando se encontrava na sacristia, preparando-se para a missa, Edward notou algo errado nas atitudes de Carlisle. Desde que o cumprimentou não recebeu um olhar enviesado; um resmungo mal humorado o que significava que o problema não era com ele.
– Vai me dizer o que está acontecendo? – perguntou ao terminar de aprontar-se.
– Estou ansioso por causa da missa.
Edward sabia que aquela não era a verdade, mas não insistiu. Não havia tempo; não se quisesse receber seus fiéis á porta como havia feito na semana anterior. Aceitando a resposta, apenas disse.
– Não fique; tudo correrá bem... Como tenho certeza que aconteceu ontem. Depois poderia me contar como foi...
– Você sabe como foi... Noite de sábado, igreja vazia, meu inglês sofrível espantando as pessoas... Agora me deixe terminar aqui e vá receber os que chegam.
Edward achou por bem não retrucar. Realmente não teria tempo e decifrar o silêncio do padrinho levaria horas. Apenas algo era certo; a rispidez nada tinha a ver com ele. Sem mais palavras, o pároco saiu para a igreja. Viu que a senhora Williams novamente cuidava da preparação do altar e que alguns de seus bancos já estavam ocupados. Após cumprimentá-la, seguiu pelo corredor lateral, também cumprimentando ou abençoando alguns pelo caminho até chegar á porta.
Não havia se passado dez minutos que assumira seu posto e já se encontrava ansioso, olhando á todo instante para a rua do outro lado da praça. Nem ao menos registrava os nomes ou os rostos dos que passaram por ele; apenas um lhe importava. Passados mais cinco minutos Edward viu a família Swan apontar no início da rua, contudo Bella não estava entre eles. Logo Charlie, Renée e Jasper o cumprimentavam.
– Bom dia padre, sua benção. – disseram quase que á uma só voz.
Estava prestes á perguntar onde estavam as duas moças, quando seus olhos foram atraídos para a pick up preta que se aproximava sem pressa. Como na semana passada, Bella estacionou bem á frente da igreja. Jasper se adiantou para ajudar Rosalie á descer, somente então Edward se lembrou; a moça não faria a irmã engessada caminhar desnecessariamente. Contendo um sorriso aliviado, ele as recebeu.
– Bom dia padre. – disse Rosalie simplesmente, mas mal á ouviu.
– Bom dia padre, sua benção. – Bella cumprimentou.
Aquele era o som que ele queria; aquela era a boca que ele esperou para ver as palavras serem proferidas. Palavras essas que – mesmo não estendendo sua mão para que ela a beijasse – faziam seus dedos formigarem e o corpo se aquecer. A família reunida entrou na igreja depois que ele respondeu á todos. À passagem de Bella, Edward também aproveitou para guardar-lhe o perfume floral; seu dia havia começado. Recebeu às outras pessoas com um sorriso renovado no rosto, o peito leve.
Quando assumiu seu posto diante da audiência e a fez levantar convidando todos á fazerem o sinal da cruz, Edward não se sentia incomodado como da primeira vez. Novamente realizou a missa mecanicamente – como se fosse um dever á ser cumprido e que estava bem preparado para fazer –, mas não sentiu o peito pesado ou oprimido. Por vezes, o padre se permitiu baixar os olhos para a moça ao lado de sua família bem á sua frente e seus olhares se cruzavam; via neles uma admiração que o envaidecia e confortava.
Num desses instantes em que pregava como se estivesse conversando com Bella, ponderou consigo que talvez, a perturbação da primeira missa não tivesse ligação com ele ou com a legitimidade dúbia de sua vocação e sim com ela. Talvez, por estar perdido em meio ao turbilhão de sentimentos novos, tenha se desesperado. Na ocasião não sabia o que esperar, não sabia como agir. Sentia-se culpado por conspurcar seu corpo, contudo agora, ainda que a culpa existisse entendia que fazê-lo era necessário. Aquele era o equilíbrio. E se aquele arranjo entre o homem e a moça dava tranquilidade para o padre cumprir sua função; talvez não fosse de todo errado.
Ao final da missa, Edward não desapareceu pela porta da sacristia como da outra vez. Foi se colocar á porta para se despedir dos que vinham lhe falar. Agora reconhecia os rostos, Sue lhe apresentou o marido; Harry. E dessa vez o padre decorou os nomes dos filhos; Leah e Seth. Outras esposas – algumas frequentadoras assíduas – também lhe apresentaram seus maridos. Ele apertava a mão de todos, sentindo o peito leve com a sensação de dever cumprido.
– Confesso que não esperava um sermão tão apaixonado vindo de alguém tão jovem. – disse Charlie ao parar á sua frente exibindo um sorriso satisfeito no rosto. – O senhor me surpreendeu e com certeza subiu ainda mais no meu conceito. Disse-me ontem que não poderia ter sido enviado é uma cidade melhor, pois eu lhe digo que “nós” não poderíamos ter desejado padre melhor...
– Obrigado! – agradeceu simplesmente.
O padre gostaria de também se rasgar em elogios, mas depois do susto que o líder comunitário lhe causou na noite anterior quando por alguns minutos o fez acreditar que não poderia mais se encontrar com Bella, não lhe alimentava tanta simpatia. Dele lhe interessava apenas o exemplo que dava á família, então rapidamente apertou a mão que lhe era estendida. Como o esperado, um á um imitou o gesto do pai então logo teve seus dedos e a sua palma comprimidos pela mão de Bella.
– Até amanhã. – ela cumprimentou simplesmente, encarando-o por um instante.
– A domani. – ele exalou ininteligível.
O restante do dia passou fácil. Edward nem ao menos se importou com o ar circunspecto do padrinho, deixando-o quieto á cismar em seu canto. A noite não foi tranquila, sonhou com Bella e como sempre acordou ardendo de desejo por ela, contudo não se aborreceu; era parte do arranjo. Vestido para sua corrida – depois de ter tomado banho, acalmado seu corpo e feito suas orações matinais – Edward seguiu para a cozinha.
– Vai para a praia? – o padrinho perguntou sem olhá-lo.
– Sabe que sim. – ele respondeu se servindo de um copo com água imaginando se naquela manhã havia algum ardil para impedi-lo uma vez que estava claro que veria a moça. Porém, o padrinho não só contrariou suas expectativas como o estarreceu ao indagar passivo.
– Pode ser perigoso ficarem em lugares desertos. Não haveria um local mais movimentado para correrem?
– Mas aquela praia é ideal justamente por não ter ninguém... – Edward retrucou sem entendê-lo, mas imaginando que a preocupação do tio fosse com o fato de ele ficar sozinho com Bella. – Não se preocupe com nada. Tchau.
Já na rua, falou com quem o cumprimentou. Como havia previsto, todos se habituaram em vê-lo passar para sua corrida sem estar usando a costumeira roupa preta. Logo se acostumariam á vê-lo conversar com a moça e tudo seria perfeito. Cheio daquele otimismo confortador, tomou a trilha do ponto onde teria que passar em frente á casa dela. As cortinas estavam cerradas como sempre àquela hora da manhã, mas Edward sabia que provavelmente Bella já estivesse á sua espera.
Até amanhã, ela disse. Aquela era a confirmação do encontro. Porém, ele começou á correr sozinho depois de alongar os músculos com os olhos cravados na trilha que havia acabado de seguir lentamente. E percorreu toda a extensão da faixa de areia – indo e vindo – sem que ela aparecesse. Á certa altura Edward nem mesmo se importaria caso ela se juntasse á ele acompanhada de Jacob, contudo, nem assim Bella foi á praia.
O que poderia ter acontecido, questionou-se ao passar diante da casa dela na volta. As cortinas estavam afastadas, mas ele não viu ninguém e como não poderia ficar parado na calçada, não esperou para ver. Melhor seria ir para a igreja, com certeza Bella apareceria para tratar de algum assunto referente ao piquenique. Não aconteceu. O dia perdeu um pouco do brilho, mas Edward se consolou, acreditando que na manhã seguinte a veria.
A esperança não foi vã. Como esperado á encontrou, porém quando terminava sua corrida. Para sua condenação, a moça usava um short curto e na parte superior do corpo um biquíni mínimo que mais revelava do que cobria os seios. Ao admirá-los, literalmente salivou como acontecia quando via uma fruta madura e apetitosa. Engolindo em seco, Edward se perguntou como o pai e o irmão permitiam que ela saísse daquela maneira. Homem nenhum deveria vê-la de tal forma despida.
Quando finalmente estava diante de si, Edward se encontrava levemente excitado, imaginando como seria prazeroso caso ela lhe beijasse os dedos exposta como estava. Contudo não aconteceria. Nem ao menos teve o prazer de tocá-la, pois ela vinha acompanhada pelo irmão.
– Bom dia padre. – Jasper cumprimentou jovialmente.
– Bom dia. – disse aos dois.
– Oi. – Bella lhe disse com um sorriso apagado; os olhos brilhando.
– O senhor já estava indo embora não é mesmo? – o irmão perguntou correndo os olhos por seu rosto suado, a camiseta molhada.
– Já.
– Então não vamos prendê-lo não é mesmo maninha? – perguntou á ela trazendo-a para junto de si e a esmagando em um abraço animado. – Hoje a maré está baixa e vamos apostar para ver quem chega primeiro á piscina.
– Está certo, não precisa me espremer... – ela pediu afastando-o; sua seriedade destoando da agitação do irmão.
– Vai á igreja hoje? – perguntou sem se importar com Jasper; precisava vê-la direito.
– Hoje não... – foi tudo que ouviu.
Edward sentiu seu peito gelar. Queria interrogá-la para saber por que não iria; o que acontecia, mas não o fez. Ele sabia o motivo do afastamento. Charlie Swan poderia desfazer-se em elogios, proclamar sua civilidade e compreensão acerca da amizade entre sua filha e o novo padre, mas não deixaria de tentar afastá-los. Edward havia “subido” no seu conceito, mas sempre seria um homem jovem – tão seriamente comprometido – que não poderia ser visto frequentemente com sua filha caçula. Entendia que a culpa não era dela, mas não pôde evitar dirigir-lhe certo rancor.
– Certo. – disse com leve rispidez. – Vejo-os por aí, então... Até logo.
Enquanto seguia pela trilha, pisando pesado, Edward experimentava uma raiva corrosiva mesclada á sua excitação. Seu lado racional tentava argumentar lembrando-lhe que o responsável por estar longe dela era o pai, mas ele não se ouvia. Aquele lado que ás vezes perdia o controle, creditava á Bella a culpa por ficar sem sua parte no arranjo. Onde estava a mulher decidida e descarada que roçou sua perna á dele em meio á um jantar familiar? Por que não disse ao irmão que apostariam corrida em outra maré baixa? Por que não deixou a todos e foi á praia sozinha? Seria assim até que todos voltassem para o mar?
– Se è così, mi sono perso! – disse em voz alta e rouca.
*Se assim for, estou perdido.
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