Enigma
6 Rose Becker
Notas iniciais
9h35
Pela janela, via-se aquele tímido sol cada vez mais infeliz no seu intento de vencer o lençol de nuvens cinzentas que o escondia. Sempre que conseguia uma brecha por entre elas, lançava um filete de luz na sala, revelando a poeira que se acumulava na mesa. Não tardava e as nuvens logo o alcançavam; mas lá ele continuava: incansável.
Foi então que a senhora Becker entrou em passos lentos. Não andava, arrastava-se. Uma eternidade parecia ter se passado e ela ainda estava na metade do caminho. Ainda parecia muito abalada do choque que levara ao tomar conhecimento da morte de Daniel, pois temia pela vida do filho, David. O inspetor Thomas puxou uma cadeira para ela que, ao sentar-se, deu um grande suspiro. O silêncio tornava a atmosfera da saleta pesada, até que a senhora Becker pousou as duas mãos sobre o rosto e em seguida começou a chorar, quase que sem forças para tal.
– David está morto! Oh, Deus! Sim, está! – ela falou, soluçando.
Mais alguns minutos – e não foram poucos – se passaram até que o delegado Warwick fizesse com que a senhora aflita voltasse ao seu juízo (ou próximo disso); não com abraços e consolos, mas com sua voz alterada e uma crescente pressão. Vociferou uma enxurrada de pragas e chegou a afirmar à senhora que, se ela quisesse ter o corpo do filho para ser enterrado, deveria colaborar com a investigação. Parecia que o cansado coração da senhora Becker não iria resistir após tamanho disparate do delegado, mas ela conseguiu se recompor e recuperar sua postura na medida do que era possível em tais circunstâncias. Thomas estava desconcertado, sem saber como agir diante de mais uma amostra do mau gênio de Warwick. Contudo, assim que o silêncio se instaurou e a senhora Becker conseguiu conter os rios de lágrimas que estava a verter, Thomas se apressou por entre os procedimentos de início às entrevistas, passando a voz para Lucchesi.
– Senhora Becker, desejo começar a perguntar sobre a vítima, Daniel Smith... Preciso saber a respeito de sua personalidade, seus hábitos, suas companhias. Principalmente algo que por ventura a senhorita Morgan estaria a esconder a fim de preservar a memória do noivo – Lucchesi começou a incitar a senhora Becker a falar.
– Oh... Vejo... Daniel era um bom rapaz... Era um bom rapaz, sim. Sempre me tratou com o devido respeito. Não éramos tão próximos... Céus, é tão terrível que isso tenha acontecido com ele, não? – ela levou a mão ao rosto, como se estivesse em um sofrimento profundo.
– Certamente. Preciso de mais detalhes, senhora Becker. Vamos por partes. Daniel Smith tinha algum tipo de vício relacionado a bebidas alcoólicas, como a senhora teria dito? – perguntou Lucchesi.
– Oh! Não é exatamente assim. Quero dizer... Não chamaria de vício... Assim como tantos outros homens, ele sai para beber por vezes em um desses bares. Essas histórias... Elas foram-me confiadas por David.
– Seu filho David andava muito com Daniel, logo?
– Oh, sim... Sim... David era uma companhia de Daniel.
– Senhora, não há algo errado aqui? Daniel andava por bares clandestinos, lugares em que bebidas alcoólicas são vendidas ilegalmente, segundo você. Suponho que ele não tenha sido a melhor das influências para seu filho David.
– Ah... Isso... Claro... Pois David é um santo, é um menino santo! Não há força que o tire dos bons caminhos do senhor Jesus Cristo – ela falava com um sorriso bobo e fraco no rosto, como que estivesse se referindo a um filho de dez anos que jamais a desrespeitaria.
– Muito embora, senhora, Daniel foi assassinado. Tal má companhia pode ter colocado David Becker em risco – Lucchesi falava, como se medindo as palavras, ou, ao menos, o tom com que as falava, a fim de não levar a senhora Becker a uma nova crise de choros.
– Sim... Vejo que sim... Oh, Deus! Eu sempre adverti meu amado David a respeito disso! – ela deixou escapar um suspiro sofrido e muito lento, com uma expressão de quem estava a agonizar. E, então, suspirou novamente. – Mas, não, a companhia do Daniel não era de todo ruim. Veja, detetive... Meu filho David é um menino muito quieto. Quando criança, nunca foi dado a algazarras, e essa personalidade acompanhou-o n/a adolescência inteira. Seu acanhamento tornou difícil com que fizesse amizades. Sempre falei: "David, faça amizade com garotos da sua idade!". Mas sempre foi difícil para ele, coitado!... E então, cresceu assim: introvertido, absorto. Por vezes, passa horas dentro do seu quarto com livros. Meu menino gosta muito de ler! Talvez... Talvez esse comportamento dele tenha sido por causa do pai. Pois, detetive, seu pai era um homem muito mau! Era o demônio com trejeitos humanos. Está queimando no inferno agora, de certo! E mereceu o que teve! Mas, bom... Onde eu estava? Ah, sim! David, por ser tão taciturno, me agradava, de certo modo, quando saía com alguém, nem que fosse Daniel Smith. Como poderia proibi-lo de fazê-lo?
– Pois então estava incomodada com as saídas de David com Daniel, mas receava em repreender seu filho?
– É... Mas sempre instruí David para tomar cuidado com tal companhia! Não quero ser julgada uma má mãe, jamais deixei de adverti-lo. Alertei-o para que não bebesse.
` – E David atendia seus apelos?
– Sim, claro que sim... Já disse que meu menino é um anjo... Um anjo! – ela engoliu seco a dor que lhe tomava conta – E não estava a mentir! David não me desaponta, é um menino muito ajuizado. Atende sempre aos meus apelos! Quem dera se fosse assim com a Megan!
Lucchesi cerrou a mandíbula e franziu o olhar, como se inquirisse quem era Megan. A senhora Becker logo percebeu que não havia mencionado, até então, o nome da filha e, enquanto explicava, Lucchesi endireitou-se na poltrona. Thomas tomava notas apressadamente, enquanto Warwick estava extremamente focado no andamento da entrevista, não retirando os olhos castanhos escuros da jovem Becker. O delegado não desgrudava os olhos um segundo sequer da conversa. Parecia tentado várias vezes a interromper para comentar algo, repreender o ritmo lento da senhora Becker, ou fazer as perguntas que precisava ele mesmo, no seu senso de urgência. Contudo, contentou-se a ficar a assistir, ao lado de Thomas.
– Megan é a irmã de David... Oh, é uma sem juízo, há muito não tem mais domínio de si! Oh, Deus... Pois sinto vergonha de tê-la posto ao mundo. Vive a beber, me desrespeita! Quando some e só retorna muitas horas após a noite cair, então, enche-me de preocupação, pois, apesar de tudo, sou mãe. Se não fosse David para confortar-me...! Mas perdoa-a – pausou e pôs-se, então, a citar um versículo bíblico – "Pela misericórdia e pela verdade expia-se a iniqüidade", está nas Escrituras!
– "As más companhias corrompem os bons costumes" também está lá, senhora Becker – Lucchesi não demorou a responder, num tom grave e sério, como se a repreendesse. Ela congelou e não foi capaz de processar uma resposta rápida. Lucchesi voltou o foco aos hábitos da senhorita Becker, tentando extrair mais informações.
– Quanto às saídas da senhorita Becker durante a noite, para onde a jovem vai?
– Oh, detetive, pois prefiro nem tem certeza! Já faz tempo que desisti de controlá-la.
– Para onde, senhora Becker? – Lucchesi inclinou-se em direção à senhora Becker, com os braços ocupando a mesa, e falou com a voz firme.
– Ora, não sei!... Não sei mesmo! – ela afastou-se e respondeu como que aflita.
– Mas precisa ter alguma idéia!
– Ela... Sempre volta soltando disparates para todos os lados, sem o mínimo de gratidão por eu tê-la criado! Por vezes não diz coisa com coisa, fica muito alterada... – ela agora cochichava, como se aquilo fosse um grande segredo – Embriagada... É terrível!
Warwick trocou um olhar com Thomas, que, em seguida, voltou a anotar tudo furiosamente.
– A senhorita Becker teria feito uma dessas saídas noite passada?
– Sim... Por que, detetive? – ela esbugalhou os olhos – Isso... Isso tem a ver com o Daniel?
– Apenas responda as perguntas, senhora Becker. Estamos tentando situar todos – frisou o detetive – os conhecidos de Daniel na noite do crime. Vamos por partes. A que horas a senhorita Becker saiu de casa ontem à noite?
– Ora, meu Deus... Que horas, eu não sei dizer. Já era noite havia tempo. Ou talvez não, eu estava muito aflita com o sumiço do David! O tempo não parecia passar, juro por Deus. Ah! Lembro-me, contudo, que chovia, chovia muito, quando... Quando a Megan saiu. Até mesmo tentei, em vão, fazer com que ela não saísse naquela tempestade. Não tem como discutir com ela! Faz sempre as coisas que quer, na hora que quer – a senhora Becker parecia aborrecida em recordar a cena da noite passada.
– Seria, então, por volta das nove, dez horas da noite?
– Sim, creio que sim... Oh, estou tão confusa! Meu Deus!
– Concentre-se, senhora Becker. A sua filha tinha contato com Daniel Smith?
– Não, não tinha. Quer dizer, nunca conversavam. Não que eu saiba.
– A senhorita Becker se dava bem com o irmão? – Lucchesi inquiriu.
– Ora, nem mesmo parava em casa direito e, quando estava, trancava-se em seu quarto e dormia... O David repudia as atitudes da irmã severamente. E ele está certo... Ao menos um de meus filhos tem juízo! – ela disse, repudiando as atitudes da filha.
– A que horas a senhorita Becker retornou?
– Já era madrugada... Eu cochilara, e nada do David ter voltado, minha aflição era enorme. Até mesmo achei que fosse ele quando a Megan entrou, mas logo tive uma imensa decepção. Ela nem mesmo falou comigo ou olhou para mim e logo se trancou no quarto. Isso deve ter sido algumas horas antes do amanhecer.
– Portanto umas duas ou três horas da manhã, você diria? – Lucchesi tentou, novamente, estabelecer um horário mais limitado.
– É difícil ter certeza... Mas... Sim... Provavelmente.
– Vamos falar mais sobre Daniel Smith. O senhor Smith tem algum desentendimento com a noiva? Como se relacionavam?
– Ora, que pergunta... Não sei sobre a vida pessoal deles... – a senhora Becker esquivou-se.
– Senhora Becker, colabore na medida do possível. Já viu, alguma vez, o senhor Smith se desentender com a senhorita Morgan?
– Jamais os vi brigar... Que eu me lembre... Mas isso nada significa, pois pouco posso afirmar. Não era do convívio de nenhum dos dois... Minhas conversas com Ruby Morgan pouco se alongam, enquanto questão alguma eu fazia de conversar com o senhor Smith.
– O senhor Smith costumava voltar para casa tarde da noite? – Lucchesi continuou.
– Ora! Como haveria de saber isso? Não vivia com esse rapaz! – a senhora retrucou, como se a idéia de saber sobre os horários de Daniel fosse absurda e ela estivesse ofendida com a pergunta.
– Então, de pouco sabe a senhora? Maledizione, a senhora está omitindo informações. Que mais pode me dizer sobre Daniel Smith? Lembre-se... David provavelmente está a contar com a senhora – seus olhos febris buscavam com inquietação qualquer vacilação na linguagem corporal da senhora Becker. Seu sotaque italiano, combinado com uma voz hostil, tornara-se ligeiramente acentuado à medida que a velhinha se mostrava pouco útil em suas respostas. As paredes nuas daquela saleta lúgubre pareciam estar se fechando ao redor da senhora Becker, e ela sentia suas mãos suadas. Olhou ao seu redor: Warwick observava-a, acariciando o bigode, como se intrigado. Thomas estava paralisado, com a caneta tinteiro em punho, aguardando que ela prosseguisse impacientemente. A senhora Becker voltou sua atenção para Lucchesi, que também mal se mexera.
– Ora... – ela engoliu em seco – Bem...
– Sótto!
– David também me confessou... Certa vez... O senhor Smith estava cheio de dívidas, por causa do vício em jogos! Envolveu-se em uma montanha de problemas, pois tinha seu dinheiro cobrado por pessoas muito mal encaradas. Causava-me medo, obviamente, que David andasse com ele, mas já expliquei meus motivos para tal permissão previamente. E meu David foi tão bonzinho com Daniel Smith... Bom, é que, ao tentar pagar as dívidas com o jogo, o senhor Smith jogou ainda mais... E, bem, já pode imaginar o que aconteceu. A dívida tornou-se uma bola de neve... Daniel Smith meteu-se em maus lençóis. Imagine o quanto esse rapaz deve ter se sentido atemorizado... Oh, não que não tivesse força o suficiente para que se defender por si só... O senhor Smith tinha um porte muito aprumado. Mas esses homens que se alcoolizam em bares clandestinos são muitas vezes impiedosos e não perdoariam facilmente uma dívida. David quitou uma parte da dívida de Daniel. Como é generoso, esse meu David. – a senhora Becker derretia-se ao citar as qualidades do filho.
– Quando isso ocorreu?
– Foi há alguns meses...
– David recebeu a quantia de volta?
– Oh, não... Esse dinheiro meu David estava a guardar! Não era muito incômodo que Daniel atrasasse-se para quitar a dívida, pois o dinheiro não seria prontamente usado de qualquer forma. David era sim um bom amigo, embora Daniel não fosse merecedor de tamanha compaixão... Não... Não que tenha sido ruim para o David, era seu amigo, também. Mas, ora, gastou tempo e dinheiro em tais jogos, enquanto poderia trabalhar, não é mesmo? – a senhora expôs o seu ponto de vista, já mais calma.
– O valor dado por seu filho não foi suficiente para que Daniel livrasse-se da dívida por inteiro? – o detetive encontrou nas dívidas de Daniel uma possível linha de investigação e ficou muito interessado em por ali seguir.
– Não, não foi... Sua dívida era demasiado grande já àquele ponto.
– Então Daniel Smith fez grandes inimigos, ainda, suponho? – Lucchesi perguntou intrigado.
– Não, não... Na verdade, apenas um. O senhor Smith preferiu quitar aquilo que devia. Fez um empréstimo com um banqueiro local. Oh, o senhor detetive é aqui de Enigma ou da região? Pois, se sim, deve ter ouvido falar nele, um magnata, de grande influência. O senhor Adams.
– Ryan Adams? – Lucchesi inquiriu, recordando o depoimento da senhorita Morgan.
– Oh, isso, esse mesmo! Cheio do dinheiro, não é mesmo? Ou pelo menos tinha até antes da crise. Mas, mesmo assim, não deixa de ostentar com seus carros. Não é à toa que é cercado de belas mulheres jovens. Já mencionei que certa vez ele apareceu por aí, em público, com uma moça uns vinte anos mais nova que ele? Mas, então, onde eu estava? Ah, deixe-me lembrar... Ah sim, é mesmo... Então Daniel pediu dinheiro emprestado para o senhor Adams, pois, caso contrário, enfrentaria problemas com pessoas perigosas. Hipotecou, então, para o seu credor, essa residência. Apenas a benevolência do senhor Adams permitiu que Daniel permanecesse aqui durante tantos meses, pois até agora não pagou nada, foi o que me disseram. E, juro por Deus, isso é mesmo tudo que sei sobre o senhor Smith. Oh, pobrezinha... Pobrezinha da senhorita Morgan, herdará as dívidas do senhor Smith. Ou isso não irá ocorrer? Não eram casados, afinal... Ora, ela...
– Está tudo bem, senhora Becker – Lucchesi cortou-a – Por favor, fale-me agora brevemente sobre David Becker. Vá com calma e tenha foco em responder as perguntas. Desde quando está desaparecido? – o detetive Lucchesi queria evitar uma nova torrente de lamentações.
– Desaparecido! Que... Que termo! – Warwick bufou – Saiu de casa ao fim da tarde, acredito. Eu havia cochilado e, ao acordar, ele já não estava mais lá.
– Isso era comum?
– Ah, não era, não. Quer dizer, com sua irmã, sim. Mas não era do feitio do meu David fazer tal coisa. Jamais me preocuparia à toa... Ah, e fora isso, sempre, nas raras vezes que saia, beijava minha mão e pedia minha bênção. Não foi à toa, então, que me incomodou que ele houvesse saído sem nada dizer. Por isso mesmo vim até a casa da senhorita Morgan, enquanto a noite já estava prestes a cair e a tempestade formava-se. Ela me confortou dizendo, "Ora, ele deve estar com o Daniel". Acalmei-me, finalmente, pois me convenci que meu filho provavelmente não queria me acordar. Demoro muito tempo para dormir e David logo voltaria. Caiu a noite, caiu junto com ela a tempestade. Megan foi capaz de deixar-me sozinha! Tentei bloquear meus pensamentos ruins, disse a mim mesma "Ele está a esperar a chuva estiar". Mas então, David não voltou e eu fiquei muito preocupada. Entrei em processo de oração. Orei por horas ininterruptamente. Pedi que David retornasse logo. Mas, não, nada! Ele devia ter pedido minha benção. Por que?... Por que não pediu? Ah, meu Deus, tragam meu filho de volta, por favor. Tragam-me meu... Meu David, pois, senão, estarei sozinha nesse mundo. Ele é a minha única companhia. Por favor... – ela limpou as lágrimas que teimavam em lhe atravessar o rosto. Sua voz transmitia grande sofrimento.
Thomas largou a caneta tinteiro e colocou a mão sobre o ombro da senhora Becker, na tentativa de confortá-la. Tentou transmitir confiança:
– A senhora descreveu-o para o policial George, não descreveu? Nossos homens estão a realizar buscas pela mata. Ele deve estar por lá, perdido. Deve ter procurado pelo amigo e acabou perdido – repetiu-se e então ficou quieto. No fundo, apesar da sua ingenuidade, acreditava que a única forma de David Becker estar vivo era se fosse o assassino de Daniel Smith. Afinal, em tempos como esses, quem perdoaria uma dívida de meses tão facilmente, quando não era um ricaço influente? "David Becker tinha motivo, tinha oportunidade". Seu sumiço era apenas mais uma variável nessa equação que o colocava como o perpetrador. Fora isso, tratava-se de um jovem recluso e anti-social. Ora, quem sabe não tinha um transtorno de personalidade e era um maníaco homicida? Difícil de acreditar, um rapaz tão jovem...
– Como é David Becker? Não acompanhei tal descrição – Lucchesi interrompeu os pensamentos nos quais Thomas estava absorto.
– Oh, meu David tem a pele branca e muito pálida, devo dizer. Não é de se expor tanto ao sol, que, mesmo quando não tão forte, deixa-lhe a pele cheia de manchas avermelhadas. Os cabelos são pretos, escuros, liso. Tem olhos castanhos, bem claros... E estatura mediana.
– Tudo bem, senhora Becker, por agora, não há mais nada para perguntar-lhe, mas provavelmente conversaremos novamente. Gostaria de falar com sua filha, Megan Becker, o mais rapidamente possível – disse Lucchesi.
– David até mesmo lembra um pouco o Daniel Smith, mas é de feições mais delicadas e...
– Imagino que sim, senhora Becker. Isso é tudo, a senhora pode voltar para casa e avise à Megan Becker acerca do interrogatório. Ela nos poderá ser útil – Warwick interrompeu-a, já cansado da glorificação de David Becker.
– Oh, mas e quanto ao meu David? O que devo fazer? – ela levou uma unha à boca e começou a roê-la.
– Acalmar-se e aguardar. É tudo o que nós podemos fazer – disse Lucchesi firmemente, indicando a saída à senhora Becker.
10h19
Warwick fez um longo silêncio, enquanto acariciava o bigode, como se estivesse fazendo uma reflexão profunda. Com um ar aborrecido, sentenciou, zombando da senhora Becker:
– Será que ela conseguiria ser mais irritante caso tentasse? Eu... Eu... Acho... Acho que não
– Esse filho dela... David Smith. Parece ser meio estranho, não? – Thomas questionou, num tom infantil. Parecia constrangido na presença de Lucchesi, como se incapaz de mostrar tudo o que era capaz de fazer.
– O que você quer dizer? – Warwick inquiriu, enquanto Lucchesi lançava um olhar vazio.
– Ora... Esta senhora parece ser uma mãe superprotetora. Praticamente canonizou o filho em seu discurso. Deve se tratar de um fedelho mimado em calças de homem crescido, criado à base de muitos cuidados da mãe e que vive na barra de sua saia.
– Um "filhinho da mamãe?" – Lucchesi perguntou, em tom calmo, como se motivasse Thomas a concluir seu pensamento.
– Isso... Sim, provavelmente deve ser um. Deve ter algum Complexo de Édipo por causa dessa criação dele. Quero dizer... Não sou Freud, mas uma mãe falando assim do filho... Eu diria que deve haver algumas implicações perturbadoras aí – Thomas suspirou, ao fim da frase.
– Certamente, sendo criado assim, não deve ser muito estruturado. Não me surpreenderia muito se este infeliz se revoltasse e tivesse saído para matar. Deus sabe o que se passa na mente de um ser daqueles. – Warwick cuspia as palavras como uma metralhadora.
– Calmati! Sua observação, Thomas, embora óbvia, é muito válida. Não é uma família comum, basta perceber os modos da tal menina Megan. Sair em uma noite tempestuosa e voltar às tantas da madrugada? Mas estão ambos a se precipitar em suas conjecturas. Pois se David Becker tiver realmente esse comportamento – e provavelmente o tem – o comportamento de um homem mimado e dependente; eu vos digo que seria uma surpresa para mim caso ele tivesse abatido seu único amigo. Faltar-lhe-ia coragem para tal. Coragem e audácia para fazer aquilo. Foi um crime bárbaro, sórdido, repelente... Alguém com tais modos, criado de modo a ser protegido do mundo exterior, jamais seria capaz de empreendê-lo.
– Um rompante de frustração e uma subseqüente fúria animalesca podem ter causado isso tudo, por que não? Foi um crime doentio, como disse, mas quem sabe a mente desse rapaz já não era há muito uma mente doentia? E, ora, também temos a questão do dinheiro que fora emprestado. Claro que a senhora Becker maquiou a situação, propositadamente ou não, para que o filho fosse representado como um anjo. – Thomas foi incisivo.
– Claro, suas observações são excelentes, intricadas e fazem perfeito sentido para mim. Mas prefiro seguir pelo caminho mais simples. E este, para mim, é de que o senhor Becker não seja assassino algum.
– Ora... Isso é o mesmo que afirmar que o jovem está morto. Não há outra forma de explicar seu desaparecimento concomitante à morte de alguém tão próximo dele – você mesmo o disse. Há alguma ligação. E, se está crendo que David Becker não se trata de um assassino, estamos lidando com dois corpos – Warwick pressionou, falando entre cuspidas
– Que seja, pois entre assassino ou homem morto, pelo que sabemos de David Becker até agora, está mais para homem morto. Seu problema, Warwick, é o imediatismo, o gosto pelas respostas rápidas e prontas, a pressa em conduzir essa investigação para se promover. Pois nada será concluído, de fato, antes que todos os dados necessários sejam apurados. E, só então, a dedução lógica nos levará a solução desse caso. Por agora, melhor o faremos buscando as outras peças do quebra-cabeça – Lucchesi concluiu, sem deixar espaço para uma retórica, entre gestos sóbrios e controlados.
E assim se deu a continuação da investigação do assassinato do senhor Smith, com a tomada, em seguida, dos relatos de uma peculiar jovem, Megan Becker.
Fale com o autor