Enigma
7 Megan Becker
Notas iniciais
CAPÍTULO 7
10h32
A caminhada fora muito infeliz, pois a chuva da madrugada fez o caminho lamacento. A propriedade da senhora Becker situava-se a cerca de trezentos metros da propriedade de Daniel Smith, seguindo por aquela vereda margeada pelos carvalhos de troncos apodrecidos. Cortando a floresta, lá estava uma fazenda remota, rodeada por cercas de madeira. A casa da fazenda era rústica, de janelas bem proporcionadas que mais pareciam olhos vazios.
Um pequeno e simples estábulo se encontrava próximo da casa. Contudo, engana-se caso creia que ali se encontravam fortes e robustos cavalos. Não havia uma criatura viva ali, somente se considerarmos os camundongos e abelhas. Contudo, o bom observador encontrava ainda resquícios do passado. O tintinar das embocaduras de metal podia ser ouvido, numa caminhada próxima daquilo que antigamente era a casa de uns poucos cavalos. Além disso, o nome de cada cavalo estava pintado em vermelho, numa letra infantil, acima de cada tenda: todas vazias. Selas e arreios estavam ali por perto.
Podia também notar-se um modesto celeiro no final da propriedade que, embora antigo, parecia ainda ser muito usado para guardar os cereais ali produzidos, servindo para o próprio sustento dos Becker.
A brisa soprava enquanto o delegado Warwick, o detetive Lucchesi e o inspetor Thomas se dirigiam a casa, observando detalhadamente os arredores da fazenda. Era interessante ver como, ao longe, a floresta de carvalho se adensava, tomando conta das colinas que tocavam o céu, ostentando sua selvageria natural, uma floresta rica, forte e altiva; mas, ao redor da habitação, a selva se reduzia à apenas jardins, algumas plantações e um campo plano coberto por gramíneas. Ainda assim, algumas árvores faziam parte da imagem da várzea, uma com as cordas que sustentavam um balanço simples de madeira presas a ela.
Os três homens notavam que aquilo era um mundo abandonado. Aquele lugar um dia fora muito ocupado e totalmente cuidado, mas agora era negligenciado, ansiando por um jovem proprietário capaz de dar nova vida àquela promissora propriedade. Ou, quem sabe, uma empresa empreiteira que comprasse a terra e ali fizesse uma mansão de luxo estilo Tudor, perfeita para ricaços misantropos?
A casa, de dois andares, era peculiarmente interessante, certamente fora construída no século passado. Apesar de resistir bravamente ao teste do tempo, tinha certa beleza. Uma escadinha de madeira de somente três andares levava à varanda da frente. Lucchesi foi até a porta e bateu com a aldrava. Megan Becker espiou, descortinando a janela e olhando através do vidro empoeirado. Lucchesi fingiu que não havia percebido tal feito e permaneceu aguardando por uma resposta na porta. Warwick torcia a ponta do bigode com os dedos e Thomas tentava limpar furiosamente a lama que tomou conta da sua calça. Foi quando uma jovem de pele muito branca abriu a porta. Cabelos ondulados de cor castanha lhe caíam até o ombro, emoldurando-lhe o rosto oval, fazendo uma bonita combinação. Eles eram cobertos, em parte, por uma boina de uma cor mais clara. Não tinha nada especial, mas, não obstante, era um tipo atraente. Ela esfregou os olhos como se tivesse sido acordada com muito custo há pouco tempo, o que provavelmente aconteceu. Contudo, sua aparência não denotava descuido. Bem asseada, ela usava um vestido de cor escura, com uma costura mais presa na cintura, que ia até a altura do joelho. Também usava luvas de um tecido muito fino. Não parecia nada com a descrição dada pela mãe, a bem da verdade, mas sim uma jovem de muitos bons modos.
– Os senhores são da Polícia? O que desejam? – ela parecia confusa com a situação. De certo, a senhora Becker pouco fez para lhe explicar os recentes ocorridos.
– Senhorita Becker, queremos fazer umas perguntas sobre Daniel Smith e seu irmão, David – o inspetor Thomas anunciou clara e pausadamente.
– O que aconteceu? – sua voz demonstrava ansiedade.
– Em resumo, Daniel Smith foi encontrado assassinado hoje de manhã aqui perto. E seu irmão está desaparecido – o coronel Warwick falou secamente, sem tato algum, e o seu jeito direto de reportar o que havia ocorrido desconcertou Megan por um segundo. E, se havia ainda algum resquício de sono nela, já tinha sido espantado.
– Meu Deus! Isso explica... Daniel Smith está morto? Mas não poderei ser útil. Não o conheço tão bem.
– Non ti preocuppare, certamente conhece seu irmão – Lucchesi falou, escondendo um sorriso ao notar o nervosismo que pouco a pouco ia tomando conta da senhorita Becker. Ela agora esfregava insistentemente o nariz com a palma da mão, num gesto típico de insegurança. – E nem está tão incomodada com ele estar desaparecido, está?
– É claro que estou!
– Não pareceu ter dado por falta dele.
– Isso não é tão difícil... Meu irmão mal deixa o seu quarto. E, muitas vezes, nem eu deixo o meu. E, bem, não somos tão próximos. Deduzi que ele já tinha voltado para casa... É por isso que minha mãe está chorando tanto – ela forçava um tom de naturalidade.
– Queira nos convidar para entrar para que conversemos melhor – Lucchesi disse enquanto se aproximava da porta, de modo a desconcertar a senhorita Becker com a pouca distância. Ela, sem ter a chance de responder ao pedido, afastou-se instintivamente dele, abrindo caminho para que ele entrasse. Seguiram o inspetor Thomas e o delegado Warwick.
A sala de estar era até mesmo ampla, mas as janelas cortinadas deixavam todo o ambiente imerso na escuridão e, fora isso, o cheiro de mofo era repugnante. Thomas logo solicitou para que as janelas fossem abertas. A pintura estava desgastada e descascando em alguns pontos. A mobília era muito modesta e um tapete largo cobria o chão. Um crucifixo se encontrava pregado no alto de uma parede. Em muitas coisas se assemelhava à casa de Ruby Morgan e Daniel Smith. O assoalho, por exemplo, rugia todo a cada passo, como se a madeira antiga não mais fosse capaz de suportar nem mesmo um passo. Contudo, tratava-se de uma residência muito maior. Uma escada no canto do cômodo levava para o andar superior e, ao seu fim, próximo a uma janela, uma abertura levava ao que provavelmente devia ser a cozinha.
Warwick e Thomas acomodaram-se num sofá e Lucchesi preferiu ficar frente a frente com a senhorita Becker. Logo, os dois sentaram em poltronas em lados opostos. Megan parecia mais confortável ou, ao menos, conseguira controlar seu nervosismo. Thomas deu rápidas orientações à Megan e em, seguida, apoiou seu bloco numa pequena mesa à sua frente para tomar notas da conversação entre Lucchesi e Megan.
– Queira explicar-me, senhorita Becker, o que sabe sobre Daniel Smith.
– Não temos muito contato com o senhor Smith. Nesse ponto não posso lhe ser útil. Quero dizer, apenas de vez em quando, o vejo passar por aqui... Seguindo por essa estrada, chega-se ao centro da cidade, o senhor deve saber.
– Tem alguma idéia do que o rapaz buscava nessa área, senhorita Becker?
– Não, não faço idéia alguma de onde vinha ou ia, tampouco de seus hábitos – ela disse, soando um pouco reticente. Guardava informações para si, de certo.
– A senhorita vai muito à periferia de Enigma ou a outras comunidades adjacentes?
– Bem... Não creio que os senhores vieram aqui para saber sobre onde ando – ela criou coragem para reclamar daquela pergunta, mas Lucchesi manteve a firmeza e sobriedade da sua postura e deixou mais claro o que estava a insinuar:
– A senhorita saiu ontem, por volta das dez horas da noite, não é mesmo? – foi aí que Megan Becker estremeceu e inclinou-se para trás. Suspirou de um modo exagerado, enquanto torcia os dedos das mãos que repousavam em seu colo.
– Saí ontem à noite... Mas, é tão estúpido – coçou as orelhas e refletiu um pouco antes de prosseguir – Fui a um bar... Um bar clandestino – falava como uma criança confessando à mãe que havia feito algo terrivelmente errado. A rebeldia de Megan Becker encontrava seus limites, afinal. Contudo, pouco interessava à polícia se ela havia bebido ou não, como ela tanto se preocupava – ou queria demonstrar que se preocupava. Seria o mundo de Megan tão pequeno a tal ponto?
– Muito interessante para uma jovem como você. Mas vou deixar essa questão de lado, senhorita, se continuar a cooperar – Megan enrubesceu, enquanto ajeitava os cachos que lhe batiam nos ombros – A que horas, exatamente? E seu desejo por álcool não poderia esperar ao menos a tempestade chegar ao fim?
– Foi às dez horas da noite, acredito. E, bem, poderia, sim... Não era esse o problema, porém. O que aconteceu foi que não agüentava mais ficar aqui em casa. Minha mãe estava insuportável! Quero dizer... Desculpem-me o termo. Falava sobre bons e maus costumes e como meu irmão era muito mais bem educado que eu. Rogou pragas contra mim pelo o que me pareceu uma eternidade, pois demorava dez minutos em cada frase durante o seu sermão! Disse-me que não saberia o que fazer se David não retornasse e Deus a deixasse somente comigo. Achei aquilo tudo um do seu exagero, logo eu menosprezei a preocupação dela e ignorei o que ela falava contra mim. Ela sempre exagerou... Sempre exagerou quando se dizia a respeito do David. Era tratado com mais delicadeza que eu mesma – fez uma pausa – Enfim, eu resolvi sair de casa, ao perceber que minha mãe não pararia até que caísse no sono ou David retornasse.
– Teria encontrado Daniel Smith ou seu irmão no caminho?
– Oh! Claro que não. Se for isso que insinuava... Não, sem chances! – ela rejeitou a idéia com certo horror – Mas perguntei por David no bar, apenas para limpar minha consciência. Disseram-me que ele esteve lá, com Daniel, pouco tempo antes. Mas acredito que possa ser mentira.
– Numa cidade tão pequena quanto esta, senhorita Becker, estou supondo que é o mesmo bar que o senhor Smith freqüentava.. E não tão raro, creio, seu irmão aparecia lá junto dele. Estou errado? – Lucchesi continuava falando relaxadamente, levando a conversa de maneira quase artística, como se esta fosse apenas uma dança em que ele comandava os passos e Megan apenas seguia o ritmo proposto por ele. E o fazia com maestria, pois, aos poucos, a senhorita Becker foi contando tudo o que sabia de uma forma gradualmente mais relaxada e sóbria.
– Em parte, sim... Quero dizer, o senhor Smith realmente ia muitas vezes ao tal bar. E creio que meu irmão tenha desfrutado de sua companhia algumas vezes. Mas, entenda, detetive, tenho hábitos de coruja! Poucas vezes esbarrei com o senhor Smith ali e, em nenhuma delas, ele estava acompanhado de David. Quando saíam, não o faziam tão tarde. E eu, por contrapartida, ia muitas vezes ao bar horas após o cair da noite. Não raro eu retornava perto do amanhecer – ela confessou.
– Como era a amizade de seu irmão com Daniel?
– Não me importava tanto com isso, mas diria que David o via de maneira quase paternal. O senhor já deve saber a essa altura que nosso pai morreu quando éramos criança. Que Deus o tenha! David, de qualquer forma, nunca foi próximo dele, e não raras vezes era castigado por seu comportamento preguiçoso – pela sua expressão, Megan não parecia discordar das atitudes do falecido – Daniel, porém, não entendo tão bem o que o unia ao David. Apenas tenho uma teoria, porque era uma amizade entre duas pessoas totalmente opostas.
– Por que isso, senhorita Becker?
– O senhor delegado deve ter notado que o meu irmão não é de comportamento tão social. David passava trancafiado em seu quarto por muitas horas, mesmo quando acordado, entre leituras; ou então ajudava nas plantações, para agradar à minha mãe. Já o senhor Smith... Era muito chegado em bebidas, e, como ouvi falar, em jogos de azar, o que o colocou em problemas. Como percebe, eles não têm nada em comum, nenhuma afinidade. Um introvertido demais, enquanto o outro era expansivo, tinha gosto de viver. E são as afinidades, afinal, que unem duas pessoas. David idolatrava muito o Daniel, como pude constatar em diversas conversas. E aí – é só minha opinião – por isso mesmo quitou uma das dívidas dele. Assim achava que conseguiria conquistar a amizade do senhor Smith, de modo a ter o pai que nunca teve. Ou ao menos ter ao seu lado uma companhia que fosse. Após ter contribuído com tal ajuda, daí em diante os dois passaram a andar mais juntos, tendo David conseguido o que queria. Mas... Era tão artificial. Creio que o senhor Smith apenas fazia-lhe companhia porque aí se criou um senso de obrigatoriedade, compreende? – Megan Becker não mais tentava incorporar gestos elegantes e fingidos. Agora apenas era guiada por Lucchesi, sem sentir-se tão pressionada.
– Está dizendo, então, que, para Daniel Smith, andar com seu irmão era um fardo?
– Por serem de personalidades tão desconformes, creio que tenha sido algo próximo disso. Ainda mais por David ser sorumbático por natureza. Não parava de se queixar da vida por um segundo! Nem mesmo eu, para ser honesta, me propunha a ouvir suas lamúrias. Deus! Daniel Smith deve ter sofrido.
– Por que, após um tempo, o senhor Smith não tentou se afastar, então, se você crê que tenha sido tão penoso assim? – Lucchesi perguntou, interessado.
– Creio que, provavelmente, detetive, esse tal senso de obrigatoriedade, de se manter amigo de David permaneceu. Do jeito que é meu irmão, ele mesmo devia atormentar o senhor Smith lembrando-o de tal favor. E, além disso, Daniel Smith provavelmente não teve sorte arranjar empregos por aqui perto, naturalmente, com a crise. Ou seja, um inútil. Se não estava em uma situação pior, isso se devia ao David. – seus olhos brilhavam com uma astúcia incomum às jovens daquela idade.
– Inútil? – Lucchesi perguntou.
– Ele mal trazia dinheiro para casa... Estava sem emprego, faltava-lhe dinheiro, mas não lhe faltavam as bebidas. Sem querer ser uma fofoqueira, mas, a bem da verdade, muitos dizem por aí que o senhor Smith é um preguiçoso, um acomodado. E, bem, o senhor sabe bem como as mulheres são perdulários. Ainda mais uma como a senhorita Morgan...
– O que a senhorita está insinuando?
– Apenas imagino que a senhorita Morgan não estava tão satisfeita assim. Ela, tão jovem e também uma senhorita de feições bonitas. Sem contar que dizem que veio de uma família de classe alta. Ou uma família com melhores condições que as quais ela se encontra agora e que se encontraria em toda uma vida com o senhor Smith, que seja. Poderia encontrar um rapaz muito melhor, digo, alguém com dinheiro. Algum rapaz que lhe daria conforto, roupas e jóias. E é natural que mulheres bem afeiçoadas como ela busquem isso, não é? Não que eu esteja afirmando que ela seja interesseira e fútil, apenas que ela se conformou e ficou presa à tão pouco, um homem de nenhum prestígio. Colocando em melhores termos, se resignou a uma vida inteira de privações, enquanto poderia facilmente trilhar um caminho que lhe garantisse um futuro bem melhor – a jovem Megan opinou. O inspetor Thomas parecia refletir profundamente enquanto escrevia com rapidez. Lembrou-se de sua conversa anteriormente com o detetive Lucchesi acerca da relação entre Ruby e Daniel. Lucchesi, porém, não deixava transparecer uma simpatia muito grande, embora, em seu íntimo, concordava bastante com o raciocínio da senhorita Becker.
– A família da senhorita Morgan é rica, é mesmo?
– Pelo menos é o que dizem... Mas, ora, eu realmente pouco sei. Não creio que sejam exatamente ricos, mas que possuam alguma pequena fortuna acumulada que os permite viver bem. Dizem que ela; a senhorita Morgan; largou muitas coisas em Moultrie... Os pais dela moram em Moultrie. E ela resolveu viver com Daniel Smith quando noivaram. Os pais não ficaram tão satisfeitos, não há surpresa aí.
– Por que acha que a senhorita Morgan teria largado tudo para viver com alguém com Daniel, se diz que ela não estava tão satisfeita também?
– Ora, detetive Lucchesi, se for para pensar, o mais coerente, para mim, seria certa ingenuidade, junto com o calor das emoções, talvez. A senhorita Morgan parece muito bem ser do tipo de pessoa emotiva, que age por impulso. E, ora, com um pedido de noivado de um rapaz que ela gostasse, não custaria muito para ela pôr de lado todos os problemas e contratempos de lado. Mas, de certo, com os anos e com a crise, ela voltou à consciência. Sem contar que deve sentir falta da vida de mimos que os pais a garantiam.
– Saberia me dizer os hábitos da senhorita Morgan?
– Receio que não. É raro vê-la... Quero dizer, não há muito para fazer aqui... Quando a via, ela estava acompanhada de Daniel Smith.
– Como se relacionavam?
– Sinceramente, nunca me chamou atenção. Pouco me importo, para ser honesta. Mas jamais os vi brigar. Porém, já lhe disse o que penso sobre os dois. E não vejo como posso ser mais útil que isso – ela falou de modo conclusivo.
– Já foi bastante útil, senhorita Becker. Algumas questões ainda estão em aberto, contudo... Bem... – Lucchesi refletiu – Senhor Ryan Adams. O que sabe sobre esse sujeito? – o delegado Warwick parecia desaprovar a pergunta.
– Oh, o senhor Adams. Ele bancou a outra parte da dívida de Daniel Smith, se não me engano. É muito rico, mas – falava mais baixo, agora – ouvi dizer que se trata apenas de ostentação. Perdeu muito dinheiro com a Grande Depressão, claro. Foi bem afetado.
– Senhorita Becker, eu precisarei que me passe a localização correta do tal barzinho que a senhorita e o senhor Smith freqüentavam – falava em tom irônico, enquanto Thomas fazia malabarismos para tomar nota de tudo que os dois conversavam. A senhorita Becker achou prudente esperar aquele atrapalhado inspetor ruivo recuperar o fôlego antes de descrever – meio que a contragosto e com uma boa dose de desconfiança – o endereço do blindtiger. Lucchesi não pode deixar de notar o semblante apreensivo da senhorita Becker. O que ela também escondia?
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