Enigma
8 Ryan Adams
Notas iniciais
CAPÍTULO 8
11h58
Ryan Adams, sem dúvida, gostava de ostentar. Vivia em uma casa de arquitetura terrivelmente moderna, no outro lado da pequena cidade, próximo a uma área comercial e da própria delegacia. Os jardins bem cuidados, o carro Ford preto e polido quase que exposto a quem quisesse vê-lo e a construção imponente não deixavam espaços para dúvida sobre a personalidade daquele homem.
– Isso é uma futilidade! Não devemos importuná-lo com isso – resmungou Warwick saltando da patrulha.
– Eu entendo que vocês dois são coleguinhas. Mas precisamos brincar de descobrir o assassino, coronel. E o senhor Adams pode nos ajudar – Lucchesi falava com um sorriso sarcástico bem à mostra. Isso causou mais um rompante de fúria do delegado Warwick, com uma série de palavrões e pragas fortes demais para sequer serem mencionadas. Warwick arfava. Ele estava muito mais acostumado com o trabalho por trás da sua mesa na Delegacia. E pouco trabalho tinha.
Foi o próprio Ryan Adams quem atendeu a porta, com certa surpresa ao encontrar Warwick ali. O delegado repetiu umas dez vezes que aquilo era apenas uma formalidade e que a cumpria com "grande pesar por tomar seu tempo valioso".
Logo ficou claro que ele não tinha criados, ou, ao menos, algum permanente; para tomar conta daquele casarão. E também ficou claro que o tempo dele não era tão valioso assim. O rádio estava ligado e ele se encontrava em roupas casuais. Impressionava, contudo, a decoração do cômodo. Os móveis eram caros, mas ligeiramente antigos e carentes de limpeza. A tapeçaria pesada revestia quase toda a sala. As paredes, por sua vez, eram ornamentadas por quadros provavelmente de pouco significado para o senhor Adams, mas que deviam ter lhe custado muito dinheiro. De resto, aqueles muros eram todos cobertos por papel de parede. Uma janela grande que dava para o jardim estava aberta, fazendo entrar o vento gélido e clareando o cômodo. Os homens se acomodaram nos sofás aconchegantes a convite do próprio senhor Adams.
– Não esperava tal visita! Do que se trata, meu amigo? – o senhor Adams perguntava bem relaxado, para falar a verdade. Não o incomodava tanto a presença do detetive e do inspetor.
Warwick hesitou um pouco ao responder, como se pensasse no melhor tom e na melhor ordenação das palavras. Lucchesi resolveu então usar da mesma falta de tato que ele usara nas outras entrevistas e falou sem titubear:
– Trata-se do assassinato de Daniel Smith, seu cliente – Warwick parecia querer matar Lucchesi apenas com o olhar, mas o detetive tampouco lhe deu atenção, apenas estudando a reação de Ryan Adams.
– O senhor Smith? Assassinato? – o olhar era de surpresa, e parecia genuíno. Não demonstrou grande intimidação com o tom de Lucchesi. – Bem, como eu posso ser útil?
– Vamos lhe fazer algumas perguntas. Seremos breves – Thomas assegurou-lhe e lhe deu instruções formais, em seguida. Logo a entrevista se desenvolveu.
– Sim, o senhor Smith tem uma dívida comigo. Uma dívida de oito meses. Ele fez um empréstimo de uma quantia um tanto elevada e ofereceu sua residência como garantia... Preciso mostrar-lhe o contrato?
– Não, não será necessário, senhor Adams. Mas é meio curioso, um atraso tão grande desse. O senhor é bem generoso, não é mesmo? – o detetive Lucchesi inclinou-se para frente. Ryan Adams não se mostrou nem um pouco incomodado, contudo.
– De fato. Eu o venho pressionando há algum tempo. Ele parece realmente interessado em encontrar trabalho, mas devo entender que a situação em que se encontra é bem delicada. Tento ser, então, paciente. E, bem, a senhorita Morgan... É preciso certa coragem para mandar uma dama como aquela para a rua! Tenho sido o mais generoso que pude durante esses meses.
– É afeiçoado por Ruby Morgan? – a expressão de Lucchesi era de malícia.
– Não me entenda mal, detetive. É apenas uma moça muito bonita. E, bem, sou um cavalheiro! Não há nada aí... E, bem, a senhorita Morgan é noiva. Ou era – deu uma risada seca.
– De fato, não tinha muitos motivos para gostar do senhor Smith, não é mesmo? – Warwick parecia pronto para interromper a qualquer segundo, incomodado com as insinuações de Lucchesi.
– Indiferente – acendeu um cigarro e tragou fumo – Só queria meu dinheiro. Eu poderia ficar com a casa a qualquer minuto. Sem necessidade de assassinar ninguém. Nem mesmo por uma jovenzinha. Tudo dependia de mim.
Lucchesi não se incomodou com a fumaça do cigarro e manteve a postura:
– Onde estavas, senhor Adams, ontem à noite, por volta das 22h?
– Deixe-me ver – soltou outra nuvem de fumaça em direção ao detetive Lucchesi – Ora, sim! Fui ao cinema. Fui ao cinema em Tifton. Tem um ótimo filme em cartaz, o senhor deveria assisti-lo. Devo ter chegado à casa por volta após a meia-noite – disse, forçando tranqüilidade.
– Excelente, excelente, senhor Adams! Por favor, anote isso, Thomas – Lucchesi olhou para o policial sardento, que nem precisava ter recebido ordens para tal, já que anotava tudo rapidamente – Com certeza a informação será averiguada.
– Isso já basta, Lucchesi! – a voz grave de Warwick tomou conta do ambiente e interrompeu o tom acusador do italiano. A postura confiante de Lucchesi se desmanchou por um segundo.
– Mas estou apenas... – ele tentou retrucar, mas foi interrompido.
– Já perturbamos demais o senhor Adams. Não há mais nenhuma razão para discutirmos isso – Warwick levantou-se e Thomas achou prudente fazer o mesmo, fechando seu caderno de anotações. Lucchesi foi deixado a ver navios, enquanto Warwick se despedia do amigo e, seguido por Thomas, se dirigia até a porta. Ryan não teve nem mesmo tempo de acompanhá-lo até a saída, e, num rompante, Lucchesi saiu do cômodo.
– Mas eu não posso acreditar nisso! Se eu estou sendo pago para fazer uma investigação, o senhor delegado não tem o direito de me interromper dessa forma! – Lucchesi esbravejou, alcançando o inspetor Thomas e Warwick no amplo jardim do casarão. O italiano perdia o autocontrole pela primeira vez. O coronel parou e se virou, encarando o detetive.
– Lucchesi, eu que coordeno essa investigação. Isso pode ser uma brincadeira para você, um pequeno passatempo. Mas, não! Não é para mim. Aconteceu um assassinato brutal, algo que a gente não vê nesse condado há um bom tempo. É o nosso trabalho descobrir quem o cometeu. É muito sério para mim. Não vou permitir mais nenhum desrespeito – Warwick se tornou assertivo.
– Não é uma brincadeira para mim. Eu só tenho meus métodos. Precisarão confiar em mim. Já para o senhor, coronel Warwick... Isso é um jogo de interesses puro. Não quer manchar sua imagem com o senhor Adams, é isso o que está temendo. Pois se quer mesmo descobrir quem é o assassino de Daniel Smith, ao menos me deixe trabalhar. Não foi para isso que me chamou, afinal?
– Vamos... Vamos trabalhar em equipe. Todos nós temos o mesmo objetivo aqui. –Thomas interrompeu a discussão – Isso é só o início de uma investigação. Ela estará condenada se os dois não aprenderem a se ouvir.
– Estou de acordo – disse o delegado Warwick, se virando para o detetive Lucchesi em seguida – Mas, ouça bem, eu não tolerarei mais seu mau comportamento a partir daqui.
Alcançando a rua, os três entraram na viatura policial. O motor voltou à vida num rugido. O detetive Warwick seguiu pela estrada lentamente, enquanto Lucchesi refletia consigo mesmo se Ryan Adams era tão simples quanto aparentava ser.
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