Enigma
10 Autópsia
Notas iniciais
18h33
A autópsia chegou ao Departamento de Polícia de Enigma após alguns minutos e é reproduzida integralmente abaixo:
Enigma, Geórgia
4 de março de 1930
Vossa Senhoria, através deste venho informar que realizei um exame post-mortem preliminar dos restos mutilados do jovem identificado como Daniel Smith (encontrado esta manhã no pequeno bosque situado nas redondezas de Turner Lane).
1. É difícil precisar com um grau de certeza o horário da morte. O rigor mortis, isto é, o enrijecimento dos músculos, já havia se estabelecido quando cheguei à cena do crime, por volta das 8h30. O mesmo foi aumentando durante a execução do exame. Leva-se em torno de seis a doze horas para que essa rigidez se estabeleça. O corpo já estava relativamente frio, em processo de algor mortis. Medições da temperatura retal e comparação com a estimada temperatura ambiente levam-me a crer que cerca de oito a dez horas haviam se passado desde a morte. A vítima estava excessivamente pálida. Restos da última refeição do indivíduo foram encontrados espalhados pelo intestino delgado, indicando que a vítima alimentara-se cerca de 4 à 6 horas antes do assassinato. Desse modo, sou da opinião de que o crime fora cometido entre 22h30 e 0h da manhã. Esses valores podem variar para mais ou para menos.
2. Nas costas da vítima, há uma descoloração típica do resultado de livor mortis. Quando essa região foi levemente pressionada, a pele ao seu redor tornou-se vermelho-arroxeada. Isso ocorre porque o corpo parou de bombear sangue e, com a ação da gravidade, este sangue passa a se concentrar nas regiões mais baixas do corpo. Este é um forte indício de que o corpo foi mexido após a morte, estando de cabeça para cima num primeiro momento. Contudo, o perpetrador o posicionou de modo que estivesse de rosto voltado ao chão. Esta peculiaridade pode, num campo psicológico, revelar que o assassino sentiu remorso, não conseguindo encarar a vítima após a morte. Esse remorso poderia revelar que o assassino é conhecido da vítima. O livor mortis também corrobora a hipótese de que a morte se deu no horário acima estabelecido (ver item 1).
3. A panturrilha e o tornozelo da vítima apresentavam cortes provocados não pela arma do assassino, mas pela vegetação do local. Podem ser observadas muitas dilacerações em decorrência da mata. A vítima foi perseguida pela área até ser pega. Contudo, um fato interessante é que não há sinais de luta. A vítima não apresenta feridas resultadas da tentativa de se defender das facadas na região abdominal. É comum em casos como esse que a vítima posicione as mãos frente à faca, resultando nas feridas defensivas.
4. A razão dessa curiosidade acima pode se sustentar no fato de que o jovem Daniel Smith foi golpeado bruscamente na cabeça. Ele parece ter recebido dois fortes golpes. Um se deu na região parietal. Não foi aplicada com tanta força, mas a região é delicada e há algumas chances de ter havido perda de consciência. Foi provavelmente usado algum objeto pesado feito de madeira, que seria facilmente encontrado naquela região. O golpe foi dado por trás. A outra pancada foi na região temporal, acima da orelha direita. O assassino, então, usou uma arma oportuna para nocautear a vítima, não havendo orquestrado o assassinato inteiramente.
5. Devido à extensão das mutilações na região abdominal, que foi praticamente inteiramente aberta e posteriormente eviscerada; é difícil determinar qual tenha sido a facada fatal. Contudo, as particularidades do assassínio levam-me a crer que, ao atingir o estômago ou a bexiga, rompeu-se a aorta abdominal, importante artéria. O dano a essa artéria causou hemorragia intensa imediatamente, levando, em segundos à inconsciência. A morte se deu alguns segundos a minutos após isso.
6. Daniel Smith sofreu muitas facadas na cavidade abdominal, ferindo vários órgãos. O fígado foi penetrado com a lâmina da faca diversas vezes. Outros órgãos que sofreram dilacerações foram o estômago e um dos rins. Após a cavidade abdominal ser aberta, o intestino foi retirado à mão e remexido pelo agressor.
7. O perpetrador esfaqueou muito mais vezes que o necessário para causar a morte, uma prática que é conhecida como overkill. As bordas de algumas dilacerações estão secas e sem sangramentos, indicando que tais ferimentos foram feitos post mortem. Há dilacerações do tipo na face do rapaz.
8. As facadas parecem ter sido dadas da direita para a esquerda, de modo que o assassino seja provavelmente destro. Ainda acerca das facadas, a arma usada foi provavelmente uma faca robusta, reta e bastante afiada, de cerca de 8 polegadas de comprimento (aproximadamente 20 centímetros). Suponho que a largura possa chegar a 2 polegadas (ou cerca de 5 centímetros). A lâmina era de boa qualidade. A faca é provavelmente usada para caça de animais.
9. O assassino deve ter tido seus trajes sujos de sangue, e suas mãos e braços também devem ter ficado cobertos.
10. Os objetivos eram a mutilação e a humilhação da vítima. O assassino é provavelmente homem e não tem conhecimentos de anatomia relevantes
11. Não há indícios da prática de sexo com a vítima. Contudo, as facadas excessivas podem ser equivalentes ao ato sexual para o perpetrador. Se este for o caso, podemos estar lidando com um homem que possui alguma espécie de distúrbio sexual.
Sem mais para o momento, permaneço ao inteiro dispor do ilustríssimo senhor para quaisquer esclarecimentos que se façam necessários,
Andrew Bundy,
Chefe da Equipe Médico-Legal
– Então, o que acham? – foi Thomas quem perguntou após ler uma das cópias. O sol começava a se pôr e tingia a sala do delegado Warwick de dourado, antes de inundá-la em total escuridão. Lucchesi observava pela janela a estrada quase deserta, margeada pelas árvores e umas dezenas de casas relativamente espaçadas pelas gramíneas formavam um vilarejo. A cidadezinha era aninhada pelas montanhas e a floresta se adensava quanto mais longe da estrada o olhar podia alcançar.
– Um monte de baboseiras! – Warwick jogou sua cópia na mesa. – Nada além do que já sabíamos. Mas nos servirá ainda como mais evidência contra David Becker – a afirmação arrancou o olhar vazio de Lucchesi da janela e fez com que ele se virasse imediatamente para o delegado.
– Como isso é uma evidência contra o senhor Becker? – perguntou o detetive.
– Alguns detalhes muito interessantes. O horário da morte é totalmente compatível com o desaparecimento do jovem. Como eu disse, não é nada que não sabíamos. Há evidências que após o overkill, o assassino sentiu remorso. Não conseguiu encarar o que fez, encarar a vítima e fez a questão de posicioná-la de um outro modo. O próprio ov/erkill dá indícios de uma personalidade desequilibrada. Indica que o assassino agiu por impulso, sob emoção, e isso também é compatível com a arma oportuna. Provavelmente houve algum desentendimento entre os dois jovens.
– O senhor está olhando a situação do modo como acha mais conveniente e assim está se cegando para o restante – Lucchesi afirmou.
– Ou o senhor, detetive, que está se negando a perceber o óbvio – Warwick levantou-se, recolheu o paletó do respaldo da poltrona e o vestiu – De qualquer forma, divirta-se por aqui, Lucchesi. Fique à vontade, o escritório é seu pelas próximas – olhou para o relógio no alto da parede à sua frente – bem, 22 horas e meia. Thomas, fique aqui com Lucchesi e ajude-o no serviço.
– Como assim? – Thomas perguntou sem entender a saída repentina do chefe – Warwick, mas que diabos?
– Lucchesi precisará de alguém para acompanhá-lo. E duas cabeças pensam melhor que uma. Ajude-o, Thomas – falou incisivamente, e seu tom deixava claro que a função de Thomas era muito mais evitar que Lucchesi fizesse alguma besteira que ajudá-lo – Eu tenho algumas entrevistas para dar. Não precisa se preocupar, Lucchesi, nada será dito sobre David Becker. Até o próximo fim da tarde, quando você falhar na sua busca sem sentido, ao menos – e assim Warwick marchou até a porta.
– Está livre para partir, se quiser – Lucchesi disse, sentando na poltrona e reclinando sua cabeça sobre o respaldo da mesma. Exalou um forte suspiro.
– Receio que sou obrigado a permanecer aqui – disse Thomas em um tom de contragosto e sentando-se na cadeira à frente da grande mesa – O que pretende fazer? Qual é o próximo passo?
Lucchesi virou o rosto, pegou o lampião de querosene que estava sobre a mesa e riscou um fósforo para acender o fogo. Aumentou a altura do pavio e a luz pálida e bruxuleante logo iluminou pobremente a sala.
– Precisamos ligar para a cidade vizinha, Tifton – Lucchesi finalmente respondeu, numa voz profunda e tranqüila.
– Tifton? Para que? – indagou Thomas.
– É necessário saber se o álibi de Ryan Adams bate.
– Está colocando o senhor Adams sob suspeição? É altamente improvável...
– Thomas – interrompeu Lucchesi – é apenas uma questão de averiguar tudo. Não posso tomar a palavra do senhor Adams como verdadeira apenas porque ele é influente ou está muito acima do peso para cometer um crime como esses. Vamos fazer nosso trabalho.
– Como quiser.
– Faça uma ligação para Tifton. O cinema possui sistema de telefonia? Não importa, peça os seus companheiros de polícia de lá investigarem se não for possível contatar o cinema diretamente.
19h48
Contatar o próprio cinema foi possível, mas pareceu levar horas até que o operador conseguisse realizar a chamada. A figura de Ryan Adams é bem reconhecida, e o seu carro luxuoso não passou despercebido. Desse modo, dois funcionários da bilheteria do turno da noite foram categóricos ao afirmarem que "o senhor Ryan Adams" estava lá, entre as 22 horas e 30 minutos e a meia noite, acompanhado de uma bela moça. A distância entre as duas cidades é de cerca de 20 minutos e, assim, ficou claro que seria impossível que Ryan Adams tivesse cometido o crime.
– Chegou a suspeitar dele? – perguntou Thomas, notando o olhar pensativo de Lucchesi após a chamada.
– Ryan Adams me chamou a atenção, sim. Não é estranho como ele arrastou a dívida que Daniel Smith tinha com ele? Eu não tive dúvidas que, de fato, ele queria algo com a senhorita Morgan – Lucchesi ajustou o pavio do lampião novamente – Não o culpo, afinal, Ruby Morgan é uma belíssima mulher. De fato, não via a situação muito além disso. Quero dizer, não esperava que houvesse alguma relação entre o assassinato e o senhor Adams. Apenas um procedimento de rotina. Podemos, sim, riscá-lo da lista de suspeitos. Ryan Adams apenas emprestou o dinheiro para o falecido e dificilmente não teria tomado a residência que foi hipotecada se não fosse por Ruby. Como sempre, a fascinação por moças jovens e bonitas...
– É assim que funcionará? Riscará cada pessoa conhecida do senhor Smith da lista de suspeitos até o próximo pôr-do-sol e quem sobrar, excetuando David Becker, é o assassino? – Thomas transparecia o desdém em seu tom, mas guardava ali grande curiosidade pela forma como Filippo Lucchesi conduziria sua investigação.
– Há um método, mas para isso, precisamos de organização. Talvez eliminar algumas possibilidades seja um bom ponto de partida para esclarecer alguns pontos.
– Se é assim, quem é o próximo?
– A senhorita Morgan.
– O que? – os olhos de Thomas saltaram em surpresa – Está tão claro que o assassino é um homem!
– Mas, ora, Thomas, seu problema é tomar tudo como verdade, só porque lhe repetiram isso incansavelmente. Você está trabalhando comigo a partir de agora. Nosso objetivo é chegar à verdade, e para chegar à verdade, é necessário que se raciocine bem. Não se pode raciocinar bem quando já se é preconceituoso, quando sua mente já chegou a uma conclusão. Você então precisa de uma mente livre, afiada e sagaz, não uma mente crente, uma mente que segue autoridade. Faça um esforço e tente seguir outra linha de raciocínio.
– Posso tentar isso, mas as coisas estão muito claras para mim... Tudo bem... O que há de errado com a senhorita Morgan?
– O comportamento dela! Não achou estranho? – Lucchesi indagou, fitando o rosto curioso de Thomas, iluminado pela luz fraca do lampião de querosene.
– Confesso que sim. Num primeiro momento, achei explicável, digo, pensei que ela só não queria demonstrar fragilidade. Já havíamos discutido isso. Mas após ler a autópsia e analisando a situação novamente, tenho uma noção diferente. Ela parecia, como posso dizer? Indiferente?
– Pois você esteve com ela por muito mais tempo que eu e Warwick. É a pessoa mais indicada para inferir isso. O que mais foi capaz de notar? Continue – o semblante de Lucchesi carregava-se de ansiedade e ele ouvia com interesse.
– A senhorita Morgan disse que era um acontecimento terrível, incrível, ou qualquer coisa que o valha. Mas, sim, parecia extraordinariamente calma – Thomas disse.
– E isso é muito incomum. A forma como ela se manteve controlada é algo que eu nunca vi antes em uma mulher que perdeu o noivo ou o esposo. Ruby Morgan não transparecia emoção. O que mais consegue lembrar? Qualquer peculiaridade... Qualquer coisa estranha sobre Ruby Morgan que o senhor pode ter notado enquanto estava com ela? – a pergunta de Lucchesi fez Thomas forçar a mente. Por algum tempo, nada parecia chamar-lhe atenção.
– Ah, sim! Não deve ser nada, mas... Surpreendeu-me um pouco quando a senhora Becker estava na porta, ela perguntava sobre o filho. Ruby aumentou o tom de voz em algumas oitavas e começou a tratar a senhora de um modo muito ríspido.
– Como assim? – Lucchesi instigou-o.
– Ela parecia achar a presença da senhora Becker extremamente desagradável. Não estava confortável com ela ali.
– O que podemos depreender desse comportamento?
– Não percebo coisa alguma. A senhorita Morgan não gostava daquele comportamento lento e melancólico da senhora Becker, talvez?
– Pode perceber tudo, Thomas, mas é muito tímido para fazer suas observações. A relutância da senhorita Morgan só pode ser assim explicada porque ela está escondendo informações. Algo que a senhora Becker não pensaria duas vezes em contar na presença da polícia! – o jovem Thomas teve seu entusiasmo aumentado conforme Lucchesi destrinchava seu pensamento.
– De fato, a senhora Becker começou a falar sobre o vício do Daniel em bebidas. Agora me lembro bem da reação da senhorita Morgan. Não a vi tão desconfortável assim nem no interrogatório. Parecia receosa
– Receio... – Lucchesi refletia – Se tinha algum temor, qual seria esse? Obviamente, algo relacionado com a sua presença, com o que você poderia pensar. E como isso iria influenciar a investigação.
– E o que é essa coisa que Ruby está escondendo, Lucchesi?
– A verdade, Thomas, está à sua frente. É tudo questão de consciência. Não entende? Para algo – o que quer que seja – ser compreendido, precisa ser notado. Quando somos capazes de perceber algo, isso se torna real para nós. Quanto mais alguém é capaz de perceber, estar ciente de seus arredores, mais consciente essa pessoa torna-se. Você presenciou comportamentos, ouviu declarações. O problema é que boa parte disso foi simplesmente passado pela sua mente. Ou seja, você não percebeu tudo, deixou muitos fatos passarem sem atribuir a eles nenhuma noção de importância. Mas é tão simples, na verdade... – Thomas ouvia atentamente – Ruby Morgan queria encobrir os vícios do noivo, mas por quê? Não era uma questão de preservar a memória do amado. Falar sobre os vícios significaria falar das dívidas que Daniel adquiriu. Significaria falar de dinheiro. Lembra o quanto a senhorita Morgan parecia relutante em tocar nesse assunto?
– Percebi, durante o interrogatório, que as perguntas relacionadas às finanças a incomodavam. Por outro lado, a senhora Becker não encontrou pudores em falar sobre Ryan Adams, sobre como Daniel devia dinheiro a David. Isso que ela temia... Assuntos financeiros. E então, por que era tão delicado para ela?
– Descobrir isso é desvendar o mistério, Thomas.
– Ruby Morgan é uma assassina? – Thomas olhava para Lucchesi com espanto, como se o detetive já tivesse todas as respostas.
– Eu nunca o afirmei. Ela pode ser. O legista não foi categórico quando disse que o crime não poderia ter sido cometido por uma mulher. Isso nos deixa, sim, Ruby Morgan na lista de suspeitos. A senhorita Morgan é uma jovem saudável, capaz de empreender tal assassinato. Bastaria ter sido aplicada uma considerável força, algo não impossível para essa jovem, e o senhor Smith estaria derrubado e abatido. Ruby Morgan não tem um álibi, vivia uma vida infeliz enquanto estava presa a Daniel Smith. Foi a primeira a chamar a polícia, algo que muitos assassinos fazem, como que para despistar. E o senhor Smith estava a uma distância bem considerável da estrada, me surpreende que ela o tenha visto com tanta facilidade. Por fim, a senhorita Morgan deu claros sinais de incômodo a medida que a polícia adentrou o mundo pantanoso do seu noivo. Perceba, eu não quero pular para conclusão nenhuma. Seria um pouco complicado relacionar Ruby com o chapéu encontrado na mata, de qualquer forma. Mas estou, sim, inclinado a suspeitar dela e talvez continuarei desse modo até que todo o assunto seja esclarecido.
– Mas se sua intenção era riscar pessoas da lista de suspeitos, como irá checar Ruby Morgan? Vai simplesmente passá-la e ir buscar evidências que inocentem as outras pessoas?
– Há muito a ser feito. Nosso problema é que Ruby Morgan está nos privando de informação. E o que nos resta a fazer é buscar essa informação
– Como faremos isso?
– Eu não tenho muito tempo e não posso desperdiçá-lo. Poderia investigar a fundo, se tivesse. Darei um tiro no escuro. Ligarei para um amigo em Washington, James.
– Washington?! – Thomas perguntou com surpresa, como se a palavra fosse de um outro idioma – Está maluco? Warwick já considera inadmissível que a cidade mais populosa do condado tenha jurisdição sobre o caso, ele provavelmente teria um acesso se os federais se envolvessem.
– O FBI não pegará o caso – Lucchesi riu secamente, considerando a idéia absurda – James me deve um favor. Ele pode conseguir informações valiosas sobre a senhorita Morgan... Extra-oficialmente – Lucchesi frisou.
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