Enigma
11 O Bar Clandestino
Notas iniciais
CAPÍTULO 11
20h59
James prometera que enviaria um telegrama com quaisquer informações que pudesse descobrir sobre a senhorita Ruby Morgan. Lucchesi declarou urgência, mas seu amigo James, um policial federal em serviço há quase duas décadas, disse que a tarefa seria uma de suas prioridades, embora aquilo lhe pudesse levar algum tempo.
– Ele é de confiança? – Thomas perguntou.
– James? – Lucchesi suspirou – Oh, sim. Mas provavelmente irá se esquecer de fazer o que eu pedi. James certamente tem preocupações maiores – Lucchesi escrevia ferozmente num bloco de notas.
– O que ele poderá nos dizer?
– Nada muito relevante, imagino. Documentos, certidões, contas bancárias... – destacou a folha do bloco – Qualquer formalidade para a qual o nome da senhorita Morgan precisou ser fornecido. Não espero muita coisa, mas... Vale a pena tentar – o detetive se levantou, vestindo uma capa acinzentada.
– Para onde vamos? – Thomas pôs-se de pé e assumiu um estado mais alerta. Parecia ter medo do próximo passo de Lucchesi. Teria que ficar junto dele, como se fosse sua babá, impedindo que cometesse alguma atitude tresloucada.
– Blindtiger – colocou o minúsculo papel no bolso do casaco.
– Checar o álibi da senhorita Becker? – Thomas o olhava com curiosidade e um resquício de temor.
– Muito mais que isso. Nós não temos idéia alguma sobre as últimas horas de Daniel Smith e de David Becker. Eles teriam passado no tal bar? É mais que provável. Tomamos como certo que os dois se encontraram. Mas onde? Quando? Como estavam os ânimos dos dois? Consta a hora da morte como 22h30 à meia-noite. O bar clandestino poderá nos ajudar a tornar isso mais preciso. E, afinal, foi aí que o senhor Smith contraiu suas dívidas e seus inimigos. O lugar está guardando uma infinidade de informações – Lucchesi se empolgava, enquanto deixava a delegacia. Era escoltado por Thomas.
– Mas como iremos fazer isso? Não é um interrogatório comum. Quero dizer, estamos indo para um lugar que vende bebidas alcoólicas e sabe-se lá mais o que! – Thomas cuspia as palavras.
– É claro que não iremos a um bar clandestino em nome da polícia. Pelo menos, não agora. Acredito que Warwick ficará feliz em acabar com a única diversão da cidade, ele mesmo, mais tarde.
– Qual o plano, então? – Thomas lhe perguntou, com o rosto tão vermelho quanto os cabelos.
– Poderá chamar de uma investigação independente, se preferir. Precisamos de informações. E de uns drinques – enquanto Thomas o encarou boquiaberto, formulando alguma objeção, Lucchesi tomou-lhe as chaves da viatura e feriu-lhe, em seguida, com um tom sarcástico e seco – Não se preocupe, eu dirijo. Só promete manter a mamãe fora disso.
21h18
Lucchesi havia dirigido com destreza por ruas estreitas, sulcadas e que ainda estavam cobertas com muita lama. A região se localizava na periferia da cidade e eles poderiam se arriscar em dizer que não havia nada, senão a floresta, cortada por aquela estrada de terra. Lucchesi estacionou a viatura numa parte de vegetação rasteira no acampamento. Mesmo com isso, duvidava que gado fosse criado ali. Thomas saltou do carro com um ridículo chapéu Fedora, que lhe dava um ar infantil. Se a intenção era se misturar ao local, bancando um gângster, certamente só atrairia mais atenção. Lucchesi preferiu, contudo, ficar em silêncio, e assim eles apenas ouviam o cochicho do vento enquanto caminhavam pela margem da floresta, em completa escuridão.
A estrutura era um casarão que parecia estar caindo aos pedaços, entalhado no meio da mata. Fora possivelmente construído no século passado e arquitetura era de uma simplicidade enfadonha e de um tremendo mau gosto. As árvores encobriam-lhe parcialmente.
Com um gesto, Lucchesi fez Thomas parar a caminhada e se vestiu de um semblante que denotava concentração.
– Barulho de pessoas conversando – o italiano disse, em tom baixo, mas com uma dicção claríssima.
– Parecem... Abafados. Muito difícil de ouvir.
– Como se estivessem vindo do subterrâneo.
Thomas parecia completamente inseguro, enquanto Lucchesi andava confiantemente em direção ao casarão. Pôs a mão na maçaneta e tentou abrir a porta.
– Trancada.
– O melhor é voltarmos. Estamos despreparados – a voz de Thomas mal podia ser ouvida.
Lucchesi ignorou-o e abriu caminho por entre as árvores. Thomas o seguia, tentando fazer o menor ruído possível enquanto afogava os sapatos no solo lamacento.
Era quase impossível ver aquela porta, na parte lateral da construção. Na realidade, o que chamou a atenção de Lucchesi foi a maçaneta. A entrada, por sua vez, era da mesma cor que a parede ao redor e se camuflava com o restante. Perguntou-se se a luz do dia teria lhe ajudado. Apontou e seguiu em frente, resguardado por um amedrontado Thomas.
– Está tudo bem. Vamos entrar. Mantenha a mão com que atira livre... Pra garantir – Thomas o olhou em pânico, mas, então, Lucchesi deu uma risada seca.
– Vá ao inferno, Lucchesi.
– Benissimo, mas antes disso, eu preciso solucionar um homicídio. Não estrague tudo. Preciso que se misture ao ambiente, entendeu? Ninguém suspeitará de nada com esse seu chapéu, nisso eu posso apostar.
Thomas apenas acenou positivamente. Lucchesi tentou a maçaneta, delicadamente, mas nada. Fez certa força, e, aí sim, a muito custo, a porta rangeu ao abrir. Ninguém teria pensado que Thomas já serviu ao Exército americano ao ver seus ânimos naquele momento. A idéia de ter que encarar um ninho de homens infringindo a Lei Seca, sem apoio da força policial, fazia-lhe querer urinar em suas calças. Esgueirou-se com seu par de olhos claros, tentando enxergar o interior. Avançou, incerto.
Lucchesi só sabia que estava em um lugar muito estreito e longo. Um corredor, talvez? Nada podia ser visto: cegueira total. Mas podia ouvir. O barulho que tinha antes ouvido aumentou. Pessoas pareciam conversar, mas ainda era muito indistinto, abafado. Definitivamente, estava vindo debaixo.
– Vem de um porão. Temos que chegar lá.
Tateou em busca de maçanetas. Encontrou umas duas ou três à sua esquerda, mas estavam trancadas.
– Esse lugar é muito estreito! Estou me sentindo preso – Thomas grunhiu em um tom choroso – Vamos sair daqui. Não posso... Mas que droga!
– Cale essa boca agora – Lucchesi o deteve, segurando seu braço.
Então, Lucchesi teve uma idéia: deveria haver alguma porta nas extremidades do corredor. Preferiu seguir em frente que passar por Thomas. Andou às escuras até encontrar o final. Era, de fato, uma porta. Conseguiu encontrar a maçaneta. Abriu facilmente.
Uma escada de uns vinte degraus, protegida por corrimão do lado esquerdo, surgiu diante de Lucchesi e Thomas. Julgando pela animação lá embaixo, era onde o bar clandestino funcionava. Ninguém sequer os notou. Havia somente umas dezenas de homens feitos e mal-encarados que mais pareciam animais, segurando garrafas envolvidas por sacos de papel. Algumas cinco mulheres, todas acompanhadas, também bebiam e se vestiam sem muitos pudores. O salão não era tão espaçoso, mas, surpreendentemente, era esbanjador. Uma tapeçaria pesada revestia o chão, enquanto o cômodo era todo envolvido por um papel de parede cheio de estampas. Os assentos eram de frente para um balcão de madeira robusta. A maioria da clientela se concentrava mesmo era em torno de uma mesa de roleta e uma imponente mesa de bilhar.
Lucchesi e Thomas sentaram-se ao balcão.
– Vou começar com um desses licores caseiros – o italiano disse ao atendente, acomodando-se com sua capa cinza. Quem lhe atendia era um homem no alto de seus sessenta anos de idade, de rosto muito enrugado e de pele gasta pelo sol. Era esquálido e aparentemente fraco, mas a voz alta conservava muita energia.
– O senhor querer licor? – ele perguntou num forte sotaque latino.
– Sí, dos botellas – ele pediu antes mesmo que Thomas, que parecia ter medo que alguém o reconhecesse, pudesse protestar.
O velhote voltou com duas garrafas em mãos e as vestiu com um saco de papel. No fundo do balcão, um jovem rapaz, muito alto, com porte de um fuzileiro naval, atendia os clientes energicamente. Ele também era latino e possivelmente era o filho do velhote. Um lucrativo negócio de família, pensou Lucchesi, ao saber o valor das bebidas. Tinha um sabor detestável e se arrependeu por não ter pedido algo que fora traficado, ante a bebida caseira. O preço seria exorbitante, mas não teria que beber aquilo.
– Qual o nome do senhor? – Lucchesi perguntou, ao detê-lo enquanto ele devolvia o troco – Por favor, fique com isso.
– Pode chamar eu de senhor Gómez – disse, desconfiado.
– Dante Ferrari – o nome que soava mais latino pareceu agradar o atendente, por um pequeno segundo. Fechou uma carranca logo em seguida na pele tostada do rosto. Thomas se surpreendeu com a rapidez de raciocínio de Lucchesi ao pensar em um nome falso. O detetive italiano era de Nashville, mas ligeiramente conhecido nas redondezas, em todo o condado de Berrien. Pelo menos, todos já tinham lido sobre o grande poder de raciocínio do detetive Filippo Lucchesi em notas de jornal. Thomas, por sua vez, também morava fora da área de Enigma. Servira ao Exército e estava há pouco tempo na força policial.
– Quem indicar para você o lugar? Eu não ver você aqui antes!
– Daniel... Daniel Smith – disse, enquanto fazia uma careta ao tomar um gole do licor.
– Não presta – Gómez lançou um olhar de reprovação – Mas agradecer a ele – pediu. Uma tarefa complicada, pensou Lucchesi.
– Oh, por que não? Por que o senhor Smith não presta?
– Ele ser ladrão! Ladrão! – esbravejou e o discurso era acompanhado por uma série de gesticulações – Comprar uma garrafa de uísque comigo anteontem. Muy cara! Dinheiro, cadê? Senhor Smit vir aqui ontem, comprar mais uísque com seu amiguinho, não pagar. Carlito bater nele se ele aparecer sem dinheiro – apontou para o rapaz musculoso. Thomas observava, em silêncio, bebendo o licor em goles, apesar do gosto. Aquilo ajudaria com os nervos, após a sensação de claustrofobia. E, afinal, era a melhor forma de se camuflar no ambiente, pensou.
– O senhor Smith veio aqui, ontem, junto do senhor Becker, eu entendo?
– Isso.
– Que horas, exatamente?
– Vai saber. Logo no início da noite. Eu não prestar atenção. Eu ter que trabalhar, trabalhar.
– Estava chovendo quando eles saíram?
– Se eu pensar agora... Sim. A infeliz da irmã dele encher meu tapete de lama quando entrar. Carlito ter que limpar tudo depois! Como se fossemos escravos, escravos! Esses americanos não ter noção de educação, nenhuma! – o velhinho batia furiosamente contra a madeira do balcão.
– Megan Becker encontrou o irmão aqui?
– Não! – o senhor Gómez falou em desapontamento, como se Lucchesi fosse um idiota por não ter entendido – Ela chegar algum tempo depois. Lá pra meia noite. Eu não ter noção de tempo! Eu não ficar observando quem entrar e quem sair e em que horas eles fazer isso. Não ser da minha conta! – ele passava uma flanela violentamente no balcão enquanto falava. Lucchesi não escondeu o semblante surpreso, mas logo se recompôs.
– Claro que não, senhor Gómez. Como estavam os dois, Daniel e David, ontem à noite?
– O que você quer dizer, como os dois estar? Estar na mesa de bilhar, estar conversando – apontou para a mesa.
– Mas pareciam estranhos, talvez? – Lucchesi sugeriu, tentando parecer casual.
– Claro. Senhor Becker estar sempre estranho, esquisito! E senhor Smith ser ladrão, eu já dizer!
– Por que diz isso, senhor Gómez? Por que David Becker está sempre estranho?
– Cara amarrada! Senhor Becker não ter amizades, só senhor Smith. Coitado do senhor Smith. Ele ter que agüentar senhor Becker lamuriar, reclamar, lamuriar.
– Por que o senhor Smith não simplesmente ignora o senhor Becker?
– Ora! Virar as costas para senhor David depois que ele pagar um monte de dívidas do senhor Daniel? Senhor Daniel ter que carregar senhor David para todos os lados, afinal, ser seu único amigo – ele falava rapidamente e pronunciava tudo de modo confuso. Thomas se esforçava para entender.
– Daniel Smith gostava muito de bilhar, eu calculo?
– Viciado. Ele apostar dinheiro no jogo. Mas ser uma desgraça com o bilhar. Não saber jogar, entende? Ele perder muito dinheiro, dinheiro que não ter! E aí tentar ganhar mais dinheiro para pagar as dívidas de antes. Tentar ganhar mais dinheiro pelo jogo, pelo bilhar. Mas aí perder mais dinheiro ainda! Uma bola de neve, como vocês dizer.
– Daniel Smith ainda tem muitas dívidas?
– Ah, não! Ele pagar todo mundo. David ajudar ele, eu já dizer isso! E conseguir mais dinheiro com um banco. Ficou livre e finalmente ele desistir de jogar bilhar. Pelo menos ele não apostar mais nada. Suas únicas dívidas ser comigo agora. As garrafas de uísque, também já dizer.
– Por que David o ajudou?
– O senhor David ser carente. Ele fazer qualquer coisa por senhor Smith. Ele pensar que senhor Smith ser seu pai. Louco! Louco! Coitado de o senhor Smith ter que agüentar esse maníaco. Ou talvez ele merecer no fim das contas!
– Um tipo maníaco homicida, o senhor diria?
– Mais um tipo maníaco suicida, eu dizer!
– E a irmã, também é assim?
– Senhorita Becker? Uma vadia! Vem aqui com vestidos mostrando as pernas, ela não ter pudor algum.
– A senhorita Becker deixou o lugar quando?
– Quando? Ora, ela não ficar muito. Ela chegar tarde, mas segunda-feira eu fechar mais cedo. Eu fechar 1 hora e 30 minutos. Ela só sair essa hora. Ela ser uma das últimas a sair! Não ser moça de família, moça de respeito! Mulheres americanas ser assim! – Lucchesi deixou escapar uma risada cansada, enquanto passava a mão pela barba grisalha por fazer. Estava intrigado: por que a senhorita Becker teria mentido? De fato, ela fora ao bar, mas bem após o horário que afirmou ter ido. – Por que estar perguntando tantas coisas?
– Apenas puxando uma conversa. Mais uma garrafa de licor, por favor – pediu, dispersando, assim, as preocupações do esquálido atendente. Thomas nem prestou atenção. Seu olhar desbotado seguiu para a mesa de bilhar, em torno da qual marginais dos mais diversos calibres, embora muito bem vestidos, testavam suas habilidades no jogo. Um homem barbudo deixava seu cigarro num cinzeiro, enquanto observava um outro, muito branco, que, muito concentrado, tentava encaçapar duas bolas coloridas de uma só vez. Falhou, e a frustração tomou conta de seu rosto angular. Parecia nervoso e irritado. O barbudo deu um sorriso muito tímido, estendeu a mão, recebendo algumas notas de dólar do rapaz que de tão branco parecia doente, mesmo sob a luz fraca do bar.
– Alguns amigos de Daniel Smith – disse para Lucchesi e indicou com a cabeça o lugar que os dois homens jogavam bilhar.
23h12
Thomas parecia um pouco alto após aquela garrafa. A bebida tornou-o enérgico e mais descontraído. Mesmo assim, parecia hesitar quando se aproximou com Lucchesi da mesa de bilhar. Era de impressionar a palidez do rapaz que continuava tentar, em vão, obter sucesso no jogo. Suas veias, vistas a menos de um metro de distância, pareciam saltar da pele. O cabelo loiro era bagunçado e lhe atrapalhava a visão. O barbudo tinha um aspecto sinistro, olhos avermelhados. Como se estivesse há três dias sem dormir, pensou Thomas. O inspetor não suportou quando aqueles olhos de besta o encararam e então abaixou a cabeça.
Após mais de um minuto analisando a mesa de bilhar, fez uma bola azul colidir contra mesa e parar ainda mais longe da bola vermelha que restava.
– Com licença – Lucchesi pegou o taco sem mais cerimônias, movendo-se para o outro lado da mesa. Analisou a mesa por um breve espaço de tempo, passando a mão pela barba grisalha, como se estivesse em uma reflexão profunda. Atacou a bola branca com uma pontaria precisa. Ela colidiu contra uma vermelha, que foi encaçapada.
– Um ponto – Lucchesi anunciou em uma voz grandiosa.
– Não valeu – o barbudo disse, mas o albino tinha um sorriso ainda mais branco que ele mesmo no rosto.
– Que pena – Lucchesi disse, lançando um olhar de consolo ao albino – Sendo assim, que tal uma rodada, senhor...?
– Weatherby – respondeu. Colocou as bolas de volta à mesa, em seus devidos lugares, como um sinal de que aceitou o convite.
– Ferrari – o italiano declarou em uma voz grandiosa.
– E seu amigo? – perguntou, mas Thomas nem se moveu – Ele fala?
– Pode me chamar simplesmente de Robert – disse com a voz entrecortada. Já havia calculado um nome falso àquela altura, embora nem fosse assim tão necessário. – Eu... Não sou bom em bilhar.
– Poderá então jogar com o John – murmurou o barbudo senhor Weatherby, se referindo ao rapaz albino. Iniciou a rodada contra Lucchesi. Conseguiu encaçapar uma bola vermelha.
– Calculo que Daniel Smith e David Becker jogam muito contra você – Lucchesi disse, enquanto Weatherby largava o taco depois de, por somente alguns centímetros, não levar a bola a uma das bocas da mesa de bilhar. Thomas e John assistiam, bem como, a certa distância, um rapaz bem apessoado com uma loura platinada que deixava à mostra um excelente par de pernas.
– Sim. Daniel, excelente rapaz. Conhece-o, então? Mas esse David... Esse cara é uma mocinha! Devia sair com saias. Não, ele não jogava contra mim e tampouco conversávamos. Quase ninguém conversava com ele, na verdade. Exceto Daniel. E eu apenas sei a respeito de David pelo que me contava o rapaz, Smith. Enfim... Mas a irmã, a senhorita Becker... Bela moça, muito jovem – disse o senhor Weatherby. Lucchesi fez uma bola vermelha colidir com a outra e as duas seguiram na mesma direção, sendo finalmente encaçapadas.
– Eu conheço os dois, mas muito vagamente. David só ficava assistindo, então?
– Só assistia. Torcia por Daniel – Lucchesi fez uma péssima jogada, quase sem olhar para a mesa, tendo que passar a vez para o senhor Weatherby – David Becker financiava-o. Sempre que Daniel perdia, era David quem entregava o dinheiro ao adversário.
– Acredito que tinha dinheiro guardado – disse John secamente, apoiando a mão branca na mesa. – Não há outra explicação, esse Becker não tem onde cair morto. Uma família sem um homem para geri-la é uma família desestruturada. O senhor Becker, o pai, digo, foi-se há muitos anos, os dois eram garotos ainda. Eu também me mataria se vivesse com a senhora Becker – o senhor Weatherby, ao fim do discurso do albino, conseguiu encaçapar uma bola vermelha.
– Suicídio? – Thomas deixou escapar. Weatherby foi inútil ao atacar uma bola verde. Não pareceu se importar.
– Ah, ele era dos velhos tempos! Henry, seu nome. Acho que tinha tanto desgosto da esposa e dos filhos que compensava tudo com a bebida. Morreu há uns quinze, doze anos, eu acredito. Um tablete vazio de Veronal foi encontrado ao seu lado – e então Lucchesi encaçapou mais duas bolas vermelhas.
– Que história! Quem encontrou o corpo? – Lucchesi perguntou. Ele sabia como estimular o discurso do senhor Weatherby. O detetive escolhia uma bola colorida. Pela posição favorável, encaçapou uma bola amarela antes da resposta do senhor Weatherby. Ganhava de 6 a 2.
– O filho, David. Foi ao quarto do pai; ele e a senhora Becker, dizem, não dormiam juntos; pela manhã. Isso mexeu com a cabeça do garoto até hoje – deu um gole na bebida e conseguiu levar à caçapa, sem dificuldade, a bola amarela que, por muito pouco, tinha escapado da mira de Lucchesi anteriormente – Lucchesi atacou a bola branca com força demais ao tentar encaçapar uma bola marrom que se encontrava em uma difícil posição. A bola branca rolou até a caçapa e, devido à falta, o detetive perdeu quatro pontos. Não perdeu o ar arrogante, mesmo assim.
– Mexeu com ele, como? – Lucchesi perguntou enquanto Weatherby analisava a mesa. O barbudo simplesmente ignorou a pergunta por um bom tempo e, cheio de concentração, se movia pela mesa, buscando ver o jogo de diferentes ângulos. Inclinou-se e, numa pontaria precisa, fez a última bola vermelha rolar até chegar a uma das bocas da mesa. Agora o jogo seria decidido entre as bolas coloridas. Weatherby voltou a atenção a Lucchesi.
– Era tão raro que saísse de casa – pausou, finalmente – Por um lado, a amizade com Daniel lhe ajudou. Mas, entenda, o filho de Henry é uma pessoa difícil de lidar. Não conversa, é muito tímido, fechado. Mas isso é só um lado. Daniel reclamava muito que David falava-lhe sobre morte constantemente. Acho que o suicídio do pai foi mesmo um grande trauma. David confessou-o que queria morrer da mesma forma que Henry. Era um jeito sereno e calmo de ir para a Providência. Palavras dele – Weatherby volveu os olhos diabólicos à mesa de bilhar novamente. Aquela bola verde estava numa posição muito infeliz. Fez a bola branca colidir contra ela. Usou a força necessária, mas o ângulo para qual apontou não foi bom. A bolinha verde zarpou longe de uma das caçapas laterais, para seu desgosto.
– Perturbador! – John disse, entusiasmado. Lucchesi notou que Thomas era quase moreno ao lado do albino. Tentou estudar a posição das bolas, só que o discurso do rapaz lhe atraía a atenção – Se ele não tivesse uns, o que, cinco anos na época, eu não duvidaria que tivesse matado o pai – John declarou. Lucchesi mirou numa bola, mas ela colidiu contra a forte madeira e acabou indo para outro ponto da mesa.
– Não diga bobagens, John. Daniel tinha mesmo muita paciência, afinal – disse o senhor Weatherby. Pausou, observando o italiano. Lucchesi aproveitou para, finalmente, levar a bola verde à caçapa. A posição da mesma após a jogada de Weatherby havia se tornado muito mais favorável. O barbudo continuou, após observar a belíssima jogada de Lucchesi – Daniel tratou David muito bem ontem. Convenceu-o a beber um bocado. O menino não era muito dado a álcool. Mas fez bem para seus nervos. Parecia feliz ontem, pensando agora. Daniel realmente conseguiu animá-lo. Estavam conversando ali, em frente ao balcão, e David pareceu rir em certo ponto. Algo muito raro para alguém de seu temperamento.
– E a senhorita Becker esteve aqui também, ontem à noite, não é mesmo? – Lucchesi perguntou. Movia-se ao redor da mesa de bilhar, procurando o melhor modo de atacar a bola marrom.
– Megan... Oh, sim. Perguntou pelo irmão, pois a senhora Becker estava desesperada a sua procura. Mas ele havia saído já há muito tempo. Saiu junto de Daniel. Foi o que eu a disse. Eu estranhei que já não tivesse chegado, mas a senhorita Becker pareceu não mais se importar. Deve ter ido para outro lugar antes disso Vai fazer logo esse strike ou o quê? – Lucchesi bateu na bola branca. Ela colidiu contra a marrom, e a marrom contra a azul. No fim das contas, a marrom foi para a direção oposta a que pretendia, colidindo contra a madeira de uma das laterais da mesa. A azul foi direto para a caçapa. Mais uma falta, custando-lhe cinco pontos. O senhor Weatherby recolocou a bola em seu lugar original.
– Que estranho, não é mesmo? Ela ter vindo aqui logo após o irmão perguntando por ele. Onde mais ele estaria? – Lucchesi disse.
– Não foi assim também. Quero dizer, do jeito que você fala parece ter sido em questão de poucos minutos – Weatherby falava, desviando um pouco a atenção da mesa –. Daniel e David saíram do bar pelas 9 horas e 30 minutos. Talvez antes ou depois. Enfim, o que é estranho é que nesse tempo todo David não tenha chegado a sua casa. Porque a senhorita Becker deve ter chegado já pela meia noite, talvez antes, talvez depois. Realmente uma bela moça.
– E não só isso – o albino John falou, apoiado na mesa – Ontem as coisas estavam estranhas mesmo. Por que eles saíram naquele temporal? Poderiam ter esperado. Eu deixei em coisa de um quarto de hora depois. Deve ter sido mais que isso, o snooker faz o tempo voar! Mas eu não podia ter esperado mais. Já Daniel e David poderiam ter esperado mais, não é mesmo? Principalmente tendo que caminhar até a outra ponta da cidade. Pena eu não ter visto a senhorita Becker – Lucchesi lançou um olhar para o senhor Weatherby, esperando que ele comentasse as afirmações do companheiro. Weatherby conseguiu levar a bola marrom até a caçapa sem muita dificuldade.
– Tenho uma péssima noção de tempo, principalmente jogando snooker. Mas, de fato, a senhorita Becker chegou bem depois. Três horas depois, por aí. Mas para quem isso importa, não é mesmo? – Weatherby discursava sem tirar os olhos vermelhos do bilhar. A bola azul não foi encaçapada por muito pouco. Passava a vez à Lucchesi, de quem ganhava por 7 a 0.
– Não importa... Não importa a ninguém – disse Thomas, em tom nervoso – Mas por que se arriscou naquela chuva, John? – suavizou com uma risada, tentando, com seu jeito estranho, deixar a frase do modo mais casual possível.
– Ah, claro – John disse, após alguns segundos – Lembro porque eu devia estar em casa às dez horas e meia da noite. Ordem da esposa – o olhar de Thomas se dirigiu a aliança do albino – Cheguei até mais tarde, para ser sincero... Maldito snooker! Lembrando agora, eu mesmo vi...
– Mamma mia! – Lucchesi cortou o albino no meio de sua frase. Acabara de ganhar cinco pontos encaçapando a bola azul. O senhor Weatherby parecia aborrecido.
– O que ia dizer, John? – Thomas trouxe o albino, que observava a mesa, de volta a realidade. Lucchesi se concentrava na bola rosa.
– Ah, claro. Eu estava dizendo que eu mesmo vi Daniel Smith ontem à noite, quando voltava para casa – Lucchesi largou o taco e olhou para o albino em surpresa.
– Entenda, sou de Unionville. Alguns quilômetros a nordeste daqui. Pouca coisa para se fazer por lá. Para sair de Enigma, tenho que passar pela estrada principal, de bicicleta – John disse orgulhosamente – Daniel Smith mora na margem da estrada.
– Obviamente – Lucchesi conseguiu encobrir a expressão de surpresa – Onde você o viu, àquela hora, na chuva?
– Ferrari? – o senhor Weatherby chamou-lhe atenção e o italiano deu uma fraca tacada na bola branca prestando a mínima atenção no jogo. A bola rosa pouco se moveu.
– Onde mais? Ele estava em sua casa, conversando na entrada com uma moça. Sei que é sua casa, pois já lhe dei uma carona. A moça era muito bonita, por sinal. Provavelmente esposa do senhor Smith. Devia tê-la visto, Weatherby! Não sei como Daniel a conseguiu. Logo ele, que se morresse hoje, não teria onde ser enterrado. Compreensível, com a crise. Mas ela era uma deusa, isso sim! – disse John. Thomas não sabia se ria da ironia da afirmação do albino ou se continuava espantado pelo o que ele estava a dizer. Aquilo significava que a senhorita Morgan havia visto Daniel a menos de uma hora de sua morte. Significava que, afinal, ela sabia muito mais do que afirmara. Poderia ser a assassina! Não, não pule para conclusões precipitadas, Thomas pensava.
– Você está falando, eu acredito, da noiva dele, senhorita Morgan. A que horas foi isso? Quero dizer, é uma hora estranha para conversas fora da própria casa, não? – incentivou Lucchesi.
– Droga! – esbravejou o senhor Weatherby. Ele havia cometido uma falta: a bola branca estava na caçapa, o que significava menos quatro pontos. Lucchesi ganhava por 5 a 3.
– Dez da noite, eu calculo. Não, foi mais que isso – Lucchesi mirou a bola branca, que rolou até chegar à bola rosa. Esta bateu contra a madeira na lateral da mesa, mas ganhou força para chegar à caçapa do lado oposto da mesa – Ah, não. Foi um quarto de hora após as dez da noite, de certo. Eu só cheguei à minha casa meia hora depois. Acredito que há uma explicação. A senhorita Morgan provavelmente estava o esperando, porque já era bem tarde. Ela parecia mesmo brava – disse e, em seguida, riu ao invocar a memória.
Agora só faltava a bolinha preta. Lucchesi olhava para a mesa, atônito. Estava, na verdade, era fascinado. "Ruby Morgan, eu peguei você", ele parecia pensar. Só restava agora a bolinha preta. Se cometesse uma falta, daria uma chance para o senhor Weatherby ganhar quando jogasse. Mas poderia ganhar o jogo se tivesse a pontaria precisa.
Ah, Ruby Morgan, uma mulher assim tão bonita não pode ser confiada! Lucchesi friamente alinhou o taco, até estar seguro da mira. Olhou para cima e lançou a seu oponente um sorriso arrogante. Ruby, é tão difícil de acreditar! Prolongou o movimento e atingiu a bola branca, que imediatamente impactou a preta. A bola preta rolou suavemente sobre a mesa de veludo verde. Será você mesmo, Ruby, perfeita Ruby, ou esse rapaz se enganou? Ia perdendo a força conforme se aproximava da caçapa. Mas dá para confiar no rapaz albino? Todos prenderam a respiração quando a bola parou, empoleirada, à borda da caçapa. Ruby, Ruby... E então a bola rolou para a escuridão.
Lucchesi largou seus pensamentos mais profundos por um instante.
– Parece que o senhor perdeu – Lucchesi disse com um sorriso presunçoso.
– Verdade – o barbudo fingiu não se importar – É a vez de John... E seu amigo, seja lá como se chama.
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