English Boy
27 Capítulo 27
Finalmente a semana de provas chegou ao fim e, para o alívio de muitos, estávamos no último sábado do primeiro semestre arrumando nossas malas para as férias. Não vou dizer que estava tão animado quanto os outros alunos. Lógico que amo minha família, mas eu acabava me sentindo deslocado ao regressar da escola. A vida trouxa era bem diferente da que me adaptei ao longo dos anos, além disso, eu ainda não podia usar magia fora da escola, a qual me fazia muita falta.
Eu estava sozinho no meu quarto, com o malão aberto e enfiando nele tudo que achava que precisaria em casa. Danilo havia organizado sua mala no dia anterior e, provavelmente, estava em algum canto com Iara. Normalmente, eu deixava para fazer essa tarefa em cima da hora porque achava entediante ter que encontrar meus pertences pelo quarto.
Escutei duas batidas rápidas na porta. Olhei na direção dela e pude ver o livro, que colocamos para deixá-la meia aberta, posicionado exatamente como Danilo havia posto mais cedo.
ꟷ Ta aberta. ꟷ falei o óbvio e autorizando o visitante entrar.
A porta foi empurrada revelando James segurando o livro roxo que emprestei a ele.
ꟷ Devolver. ꟷ ele disse sacudindo o livro.
Sorri para sua tentativa de falar português, parecia que sua atual meta era formar a maior quantidade de frases que conseguia.
ꟷ Acabou de ler? ꟷ perguntei ao garoto que permaneceu parado no batente da porta.
ꟷ Não ainda.
ꟷ Me devolve depois então.
Dobrei uma camisa e coloquei dentro do malão. Minha atenção continuou focada na tarefa diante de mim e tentei fingir que a presença dele, parado que nem bobo na porta, não estava me deixando desconfortável.
Depois daquele dia onde perdemos a paciência um com outro, as coisas voltaram ao “normal”... um pouco. Os estudos na biblioteca seguiam suspensos, mas pelo menos estávamos conversando como antes. Como amigos. Entretanto, não vou mentir, eu me sentia cada vez mais estranho com ele por perto. Eu só implorava ao acaso, ou seja lá o quê rege o universo, que não acontecesse outro momento constrangedor entre a gente como aconteceu na festa.
ꟷ Pensei que...gosta de… ꟷ James falou novamente atraindo o meu olhar. Fiquei confuso, sem entender o que ele tentava me dizer. ꟷ Ficar com ele na casa ꟷ finalmente ele se lembrou das palavras que estava buscando e terminou a frase.
ꟷ Pode terminar primeiro. ꟷ Insisti sobre o livro.
Não precisei olhar para saber que James continuou parado na porta, dava para ouvir o movimento da madeira contra as dobradiças de metal denunciando sua presença. Fora isso, eu podia sentir seu olhar queimando na minha pele, mas essa sensação não passava da minha imaginação. Afinal, olhares não podem queimar de verdade. Tentei me concentrar no que fazia sem parecer afetado.
ꟷ Trouxa! ꟷ a exclamação veio de repente.
Isso definitivamente atraiu minha atenção e eu encarei James, me sentindo perdido no sentido daquelas palavras direcionadas a mim.
ꟷ O quê?
ꟷ Seus roupas, nunca te vi vestido assim antes… ꟷ ele explicou sorrindo com a minha confusão ꟷ Combina com você.
Abaixei a cabeça reparando no que estava vestindo. Naquela manhã eu peguei qualquer coisa que vi pela frente, por isso não me lembrava o que envolvia o meu corpo.
Minha calça jeans era levemente manchada, minha camiseta cinza estampada (um desenho genérico de dragão), meus sapatos eram brancos com uma faixa vermelha ao redor. Eu sempre ficava à caráter antes de voltar ao Mundo Trouxa, pois aparentar ser um adolescente normal ao pegar o ônibus para minha cidade ajudava não chamar atenção.
James também estava vestido trouxamente, pelo que vi ao olhá-lo de relance. Jeans, camiseta e tênis. Mas diferente de mim às vezes ele se vestia assim na escola com a capa por cima ou não. Ele não se importava em parecer trouxa.
Digamos que no meu caso era uma espécie de defesa ou camuflagem estar o mais próximo possível do Mundo Mágico quando se descobre fazer parte dele. Não que eu tivesse vergonha da minha origem...só que todos os nascidos trouxas pareciam agir dessa maneira, então tudo bem.
James entrou no quarto, deixando sua própria mala na entrada e sentou na cama de Danilo. Dessa vez, senti o olhar dele nas minhas costas.
ꟷ Lucas? ꟷ me virei para lhe dar atenção ꟷ Quando eu falei que precisaria ficar na escola durante as férias, não é verdade. Meus pais querem que volto para casa porque Coira… você sabe.
ꟷ Uau, aprendendo mentir?
ꟷ Não tão bem, se for ver já estou me confessando. ꟷ James sorriu sem graça ꟷ Mas eu menti pra eles, os meus pais, disse que queria ficar para fazer um curso de verão. Em cartas é mais fácil fazer isso... Enfim, decidi que vou para casa do Danilo.
ꟷ Ok. Seus pecados foram perdoados, meu filho. ꟷ falei como se fosse um padre uma vez que ele decidiu se confessar para mim. Meu sorriso evidenciava a brincadeira e acho que ele entendeu, pois sorriu de volta.
ꟷ É só que... eu deveria ir, mas não consigo. Quero ficar por aqui, ir na casa de Danilo e...talvez eu esteja fugindo mesmo. ꟷ James continuou parecendo um tanto aflito.
ꟷ Fugindo do quê? ꟷ precisei perguntar, porque não estava entendendo o que ele queria dizer.
James me deu um olhar intenso como se estivesse pensando sobre algo. Aguardei que ele falasse, mas isso não aconteceu. O garoto apenas deu de ombros e suspirou:
ꟷ Não sei.
Se ele não parecesse triste eu teria brincado com fato dessas simples palavras soarem tão fluente naquele momento. No entanto, escolhi o silêncio e continuei arrumando as minhas coisas. Foi quando notei que faltava um dos meus sapatos, um all star azul escuro de cano alto. Procurei embaixo da minha cama e não estava, tão pouco estava no meu armário. Atravessei o quarto até o armário de Danilo, pois ele costumava pegar minhas coisas.
ꟷ Como é seu família?
Parei minha busca com as mãos apoiadas nas portas abertas do armário e me voltei para James. Seus braços estavam jogados para trás no colchão, apoiando o peso do corpo, enquanto seus olhos prendiam em mim casualmente.
ꟷ Eles são só... trouxas. ꟷ respondi sabendo que eles não eram apenas isso, mas não encontrei algo interessante para dizer ꟷ Não tem nada demais.
Fechei o armário de Danilo e dei uma volta daquele lado do quarto, procurando ao redor. Um lugar ainda faltava ser verificado, assim, dei um passo até a cama do meu amigo, apoiei no colchão e ajoelhei para olhar embaixo. James estava no meio do caminho, então, eu empurrei as pernas dele pelo joelho.
ꟷ Licença. ꟷ pedi, mas não com muita educação.
Enfim, lá estava meus sapatos. Me estiquei para pegá-los e os puxei, estavam cheios de poeira. Vai saber a quanto tempo ficaram lá embaixo. Sentei nos meus calcanhares e dei uma batidinha na sujeira que cobria um dos sapatos.
Me concentrei tanto no trabalho de tirar a poeira que por alguns segundos esqueci de James ao lado, até ele sussurrar alguma coisa incompreensível. Pisquei e olhei para cima onde ele me encarava de volta.
ꟷ O quê disse?
ꟷ Nada. ꟷ ele desviou o olhar e se remexeu parecendo desconfortável.
Eu podia jurar que seu rosto estava corado e não consegui entender o porquê. Fala sério! Eu não fiz nada. Minhas sobrancelhas se curvaram com confusão no meu rosto e isso, pelo jeito, arrancou uma risada silenciosa dele. Então, foi a minha vez de sentir as bochechas esquentarem. Levantei o mais rápido que pude, voltei para o meu lado do quarto e joguei meu all star dentro da mala.
Respirei fundo com a percepção de que nada demais aconteceu e eu estava me deixando constranger sem motivo.
ꟷ Gosto da história. ꟷ James disse e eu me virei para ver que ele falava do livro ꟷ Mas é um pouco...triste. Eles são crianças e faz horríveis coisas…
ꟷ São garotos de rua. ꟷ respondi sem muito interesse, não queria prolongar um assunto no momento. Naquele horário deveríamos estar a caminho do almoço.
Finalmente fechei o ziper da minha mala. Tudo em ordem. Com um feitiço deixei o malão mais leve para arrastá-lo pelos corredores e escadas do Aloja. Desci apressado até o Centrinho, James atrás de mim o tempo todo, onde Danilo estava jogado em um sofá. Meu amigo fechou a cara assim que me viu.
ꟷ O que foi? ꟷ perguntei quando cheguei perto dele.
ꟷ O que estava fazendo que demorou tanto?
Sua expressão irritada e seu tom nervoso me pegou de surpresa. Vasculhei a memória em busca do que fiz de errado. Eu só estava arrumando minha mala no quarto com a presença ilustre de James. Oh por Merlin, Danilo não acha que...
ꟷ Nada! ꟷ respondi apavorado demais.
Imediatamente, como se fosse lavada com água, a expressão severa de Danilo desmanchou. No lugar surgiu confusão com a minha reação e ele buscou James ao nosso lado, questionando. Ambos me encararam sem compreender e talvez eu tenha visto um micro sorriso puxado nos lábios de James. Não tenho certeza, pois, se ocorreu, foi muito rápido.
ꟷ Quer dizer, eu estava arrumando minha mala. ꟷ tentei outra respostas e acalmando meus nervos.
Para minha sorte, Danilo estava disposto a ignorar minha reação para voltar ficar irritado comigo.
ꟷ Os outros já saíram pro almoço, estamos atrasados! ꟷ e ele retomou sua expressão brava.
ꟷ Por que não foi com eles, uai? ꟷ rebati com a mesmo tom agressivo.
ꟷ Porque eu disse ontem que iria te esperar aqui embaixo, esqueceu?
Senti um balde água fria. Logo percebi que não ia ganhar essa discussão, porque eu estava errado. Acho que me lembro vagamente do aviso de Danilo soando na minha cabeça um pouco antes de dormir, na noite anterior. Seria mais fácil lembrar se eu tivesse prestado atenção nele. Mas eu estava distraído com reflexões e preocupações de como seria o meu aniversário trouxa invadido pela presença de bruxos.
ꟷ Desculpa, eu esqueci. ꟷ pedi envergonhado.
ꟷ Porra, Luca! Às vezes você precisa sair desse mundo da lua, pelo menos para me ouvir.
Bufei revirando os olhos, porque eu estava arrependido e Danilo não iria perceber. Meu amigo conseguia ser tão insensível quando ficava irritado.
ꟷ Desculpa! ꟷ pedi outra, e última, vez ꟷ Mas você poderia ter ido lá me apressar.
Ganhei um resmungo nervosos como resposta de Danilo. No instante seguinte, ele estava puxando seu malão para fora do Centrinho. Só cabia a mim e James segui-lo.
Em um vislumbre rápido do rosto cheio de sardas, pude ver que James ria. Isso porque, ele sempre achava engraçado minhas discussões com Danilo. Bastardo! Dei a ele um olhar de repreensão e James, pelo menos, tentou disfarçar sua diversão.
Após o almoço, nós três fomos para a Trilha Principal, passando pelo lago na frente da escola. A trilha era quase uma ponte de madeira larga que ia do palácio até o local de pouso dos balões. As caiporas nos espreitavam dos topos das árvores e as crianças mais novas iam correndo na frente dos mais velhos, animadas com as férias.
Haviam vários zepelins nos aguardando, todos destinados às regiões do Brasil. Geralmente os zés dos outros países saiam depois do café da manhã, portando, eles já estavam bem longe àquela altura.
Quando chegamos na área de pouso, conseguimos encontrar os outros facilmente. Faltava pouco tempo para os zés decolarem, por isso Danilo se apressou em despedir de Iara com vários beijos. Então, entendi sua irritação comigo, se chegássemos muito atrasados não daria tempo para toda aquela demonstração de afeto que eles faziam desde o quarto ano.
ꟷ Blé! ꟷ Naldo, ao lado do casal se agarrando, fez cara de nojo ꟷ Com licença! ꟷ com um aceno para nós, ele se afastou em direção ao balão destinado ao Rio.
Tião estava cabisbaixo e suspirava o tempo todo por ter que voltar para casa. Tentei animá-lo ou consolá-lo, mas não surtiu efeito. Tião apenas me abraçou sem resposta e caminhou feito um condenado para seu zé.
ꟷ Ei, não ganho um beijo de despedida?
Duas mãos delicadas tocaram os meus ombros me fazendo virar levemente, Lina estava ali apenas para se despedir de mim, já que ela iria para Nova Oxóssi esperar seus parentes buscá-la.
Eu sorri para minha namorada, envolvi meus braços em sua cintura e me abaixei para depositar um beijo em seus lábios. Nós não faríamos um show como Iara e Danilo, exibicionismo nunca foi característica nossa. Entretanto, senti uma coisa estranha percorrer o meu corpo, como um mal estar. Por isso a afastei mais rápido que normalmente faria.
ꟷ Ele não me deixou ir na sua casa. ꟷ Lina lamentou brincando com o silk em relevo da minha camiseta.
Eu sabia que por “ele”, Lina queria dizer o seu pai. Realmente não passou pela minha cabeça que Lina teria permissão para me visitar aquele ano.
ꟷ Tudo bem.
ꟷ Te mando seu presente. ꟷ ela fez carinho na minha cabeça, bagunçando o meu cabelo. Isso me fez sorrir, mas senti novamente o mal estar.
Assim que as despedidas acabaram, eu, Danilo e James entramos no nosso balão. Esse era o zé destinado a nos levar para a cidade mais agitada e louca em território nacional, na minha opinião.
Sentamos perto, os três. Deixei James ficar na janela, pois ele estava muito contente por andar de balão. Dado o aviso final e todos os alunos abordo, os zés decolaram. Cada um seguindo sua direção, eles enfeitaram o céu como baleias de metal nadando nos rios aéreos amazônicos.
As nuvens, junto com um feitiço impressionante de invisibilidade, eram responsável por despistar os trouxas com maestria. Os zepelins eram indetectáveis. Conforme nos afastamos do Castelinho era possível vislumbrar sua arquitetura de pedras douradas brilhando mesmo na luz do dia. Até que o zé atravessou uma bolha mágica e Castelobruxo simplesmente desapareceu no horizonte dando lugar à visão de uma floresta densa e contínua.
Danilo e James conversaram bastante o caminho todo. Eles falaram principalmente da praia, que ficava perto da casa do meu amigo. Danilo morava no litoral de São Paulo e ele não parava de tagarelar sobre sua família e os lugares (bruxos) que levaria James para conhecer. Eu quase sentia inveja dessa atenção, quem me dera estar em outro país conhecendo coisas novas na companhia de alguém tão atencioso quanto Danilo.
Enfim, ao invés de conversar com os meninos acabei dormindo a viagem toda até chegarmos no aeroporto. A parte bruxa dele, era calma e sossegada, um contraste com o fluxo agitado em sua parte trouxa.
Trouxas eram sempre mais frenéticos e numerosos, correndo de um lado pro outro arrastando suas malas de rodinhas pelo grande aeroporto internacional. O lugar vivia lotado de gente, assim como, aquela metrópole transbordava pessoas.
James olhava tudo ao redor com curiosidade. Escutei ele comentar com Danilo algo sobre Londres, mas não pude ouvir direito já que estava longe dele. Nós três fomos andando em direção a saída, onde encontramos os parentes de Danilo..
Um casal bem jovem aguardava meu amigo. Eles eram: seu primo, Murilo, acompanhado pela esposa, Amanda. Se não me engano eles haviam se casado a pouco tempo. Danilo foi cortês e apresentou James, educadamente, aos seus familiares.
ꟷ Prazer, James. ꟷ Murilo cumprimentou o garoto.
Antes que eu me despedisse deles, pois obviamente eu deveria seguir meu próprio rumo, Murilo se virou para mim.
ꟷ Alguém vem te buscar, Lucas? ꟷ havia um toque de preocupação .
ꟷ Não, vou na rodoviária pegar o ônibus.
Costumava ser assim minha relação com os Oliveiras, eu era quase um membro extra anexado à família. Nada a reclamar, eles sempre me ajudaram a adaptar ao Mundo Bruxo desde o ínicio.
ꟷ Precisa de alguma coisa? ꟷ Murilo perguntou uma última vez.
ꟷ Não, tá de boa. ꟷ dei um sorriso agradecido.
Poder aparatar até minha casa seria um sonho. No entanto, eu não gostava de aproveitar demais da boa vontade dos parentes de Danilo. Além disso, existia um sentimento único para mim de pegar o ônibus, chegar na minha cidade e encontrar meu pai me aguardando com seu Uno 96 na rodoviária. Ele me daria um abraço apertado, faria perguntas incansáveis e, talvez, até parássemos em uma pizzaria fazendo pedido para viagem. Sem dúvida eu apreciava isso, tanto, que valia a pena passar por mais sete horas viajando em um ônibus.
ꟷ Tchau! ꟷ Danilo se jogou em mim dando um abraço bem forte que eu retribuí.
Quando meu amigo finalmente me soltou, James tomou seu lugar me abraçando também. De início fiquei surpreso, mas logo correspondi sem deixar a oportunidade passar. Fazia um tempo que não ficávamos tão próximos, pois, desde a festa junina acabamos evitando contato físico.
ꟷ Tchau! ꟷ ele disse perto da minha orelha e eu arrepiei com sua voz.
ꟷ Tchau, Jay. ꟷ sussurrei ainda dentro do abraço.
Pode parecer que ficamos por constrangedores segundos abraçados, mas na verdade foi rápido. Não deu tempo de ser embaraçoso e não houve diferença aparente entre os abraços que troquei com ambos os meninos. Isso aparentemente, é claro. Tenho certeza que consegui disfarçar e ninguém notaria, que, quando James se afastou, meu coração estava mais acelerado que um catavento rodando.
Em um último contato visual, ele sorriu com seus dentes perfeitos e eu sorri de volta.
Pois bem, sete horas de viagem eu falei? Certo, tudo que contei sobre a recepção do meu pai, aconteceu quando cheguei na minha cidade. Só não estava em meus planos ter passado sete horas inteiras com a cabeça apoiada na janela do ônibus pensando, sem parar, naqueles dentes perfeitos.
Definitivamente, eu tinha um problema.
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