Notas iniciais
Cicatrizes alguns escondem, outros se orgulham e poucos honram as suas.

Fechei a porta e senti um alivio no meu coração estava cansada e queria minha cama, nada melhor do que dormir nesse momento, mas e “se” eu dormisse e sonhasse novamente com aquela moça acorrentada novamente? Como seria ter que aguentar a tortura de novo? Eu quero ajudar ela, mas... Mas não sei como, isso me causa uma dor agonizante como se estivessem travando uma adaga no meu coração, me deitei em minha cama e comecei a refletir sobre tudo que vivi, todos meus novos amigos, e o meu destino incerto, vi uma sombra refletindo pela janela, a silhueta de uma moça, aos poucos senti meus olhos pesarem, tentei me manter acordada, mas quando percebi já estava dormindo. E novamente eu ouço a moça falando comigo, a voz dela se tornou familiar, era como se eu já tivesse escutado sua voz, era uma voz gentil, calma, trazia uma paz ao meu coração, ela ainda estava acorrentada, mas desta vez sozinha, eu consegui me aproximar dela, mas o rosto estava embaçado, como se eu estivesse tendo que usar óculos, ela me olhou já com um olhar cansado e aconchegante e falou:

– A marca permanecerá escondida, até que seja reclamada minha irmã, temo que isso aconteça logo, eu tentei proteger você, mas fracassei minha magia não é algo que pode esconder um cheiro tão forte quanto o seu.

Eu estava preocupada, não consegui entender ao que ela se referia ou o porquê ela se culpava tanto, e não entendi o porquê ela tanto me chamava de irmã. Mas senti algo como se ela soubesse mais de mim do que eu mesma. Abaixei-me de encontro a sua face e disse:

– Vou encontrar uma forma de te tirar daqui, eu prometo. – Não consigo me imaginar dizendo aquilo com tanta confiança, mas falei.

Naquele momento ouvi a voz daquele homem, ele estava se aproximando, ele me veria, meu coração começou á acelerar, eu entrei em pânico, a moça me olhou e disse:

– Estarei te esperando, querida irmã.

E de repente eu acordei com um barulho infernal no chalé 11, todas as crianças estavam correndo de um lado pro outro, não sei se o banheiro tinha quebrado, mas era uma fila enorme, acho que tínhamos cinquenta crianças ocupando o chalé, o que era estranho, pois tem chalés que estão completamente vazios... Troquei-me rapidamente e me juntei a eles na fila, caminhamos até o refeitório e estava uma movimentação estranha, consegui ver uma garota ruiva falando, mas não consegui escutar o que ela tanto dizia e então Eveeh e uma garota esbelta de cabelos negros, olhos castanhos gritaram:

– SILÊNCIO!!! – As duas falaram ao mesmo tempo, por incrível que pareça tinham o mesmo comportamento, pareciam irmãs.

Então a menina ruiva aumentou o tom e falou:

– Pessoal nós filhos de Afrodite, estamos preparando uma festa de dia dos namorados para todos do acampamento, aqueles que namoram e bem... Os que não namoram, podem vir também, nós arranjaremos sua alma gêmea em um piscar de olhos, e a presença é obrigatória, então nada de não virem. Obrigada a todos, e um beijo da Mama para vocês.

Ouvi uns murmurinhos de adolescentes por todos os cantos, senti uma agonia no estomago, acho que essa festa não é pra mim, mas como é obrigatória a presença devo ir. Todos voltaram as suas atividades de costume, e eu acabei caminhando com junto a uma garota do chalé de Hermes, ela tinha o cabelo tingido de azul, um olhar penetrante e um ar de quem pode roubar um coração sem que você espere, o nome dela é Stephanie, mas como todos eles prefere ser chamada pelo apelido Steph, hoje meu treinamento seria com ela, estávamos indo para o local de treino até que Eveeh caminhou até nós e disse:

– Ora, ora olha o lixo que se esqueceram de levar...

A Steph está parada, como se quisesse evitar briga, mas de toda forma empunhou sua adaga e falou:

– Não quero confusão, aliás, o que eu não quero é ser acusada por quebrar seu nariz e te mandar novamente pra enfermaria, então acho melhor você medir suas palavras ao falar comigo.

Eveeh desviou do nosso caminho, parecia que ela estava evitando falar comigo depois do que houve no caça, e foi andando, Steph voltou a sua face normal, como se não tivesse sido ela que empunhou aquela adaga, como se fosse outra personalidade dela. Ela sorriu pra mim como se estivesse dizendo “Está tudo bem”, e seguimos ao nosso rumo.

Ela jogou uma adaga para mim que ao mesmo tempo apanhei no ar, e vi Beatriz e Caique sentados nos observando, e do outro lado o garoto asiático e o loiro também observando, me senti incomodada com a situação, era como se eles esperassem que eu os impressionasse, era como se estivessem assistindo um espetáculo de circo e eu fosse a aberração, mas não pude me distrair nem um pouco. Steph me deferiu um golpe que se eu não tivesse me desviado rasgaria minha blusa e aprofundaria minha barriga, eu tentei desviar, mas ela falou:

– Você quer aprender a lutar ou a se defender?

Eu a encarei e disse:

– Os dois.

E ela olhou com um ar irônico e falou:

– Ambos são importantes, mas você deve se lembrar de que a melhor defesa é o ataque. Por isso não baixe a guarda e não confie em ninguém, quando você está lutando, qualquer um pode se tornar seu inimigo.

As palavras dela soaram como sinceras, mas ao mesmo tempo me lembrei que ela foi reclamada por Hermes, o que não é lá algo que você almejaria em alguém, a não ser que fosse filha de Hera, isso sim é pior.

Ela foi avançando em minha direção com um olhar feroz, e me desferiu golpes e golpes em seguida, eu pude ver um fio ruivo de meu cabelo caindo ao chão, ela não era a mesma pessoa, ela estava diferente, seu olhar tinha sede de sangue, ela começou a rir num tom que me deu calafrios, e eu fiquei com medo, ela empunhou a adaga e naquele momento senti que morreria se ninguém a detivesse teria picadinho de mim para a fogueira dessa noite, a adaga dela estava na direção de minha garganta, acreditei que morreria e então fechei os olhos e ouvi uma voz.

– Stephanie chega, acabou se acalma.

E ela voltou a si, e pude ver a garota de boné roxo olhando nos olhos dela, e por incrível que pareça a adaga caiu ao chão.

–Me desculpe Lore, não foi minha intenção. – Steph falou aquilo como se não soubesse muito bem o que tinha acontecido.

– Tudo bem, eu estou bem, só levei um susto. – Disse tentando disfarçar.

– O treinamento acabou por hoje, vá descansar um pouco Lore. – E ela falou aquilo se apoiando na garota de boné roxo, que se não me engano se chama Mariana.

Levantei-me e fui andando até o estábulo, e lá encontrei uma menina acariciando um dos pégasos, e eles pareciam estar sonolentos, ela me fitou e disse:

– Você andou tendo uns sonhos estranhos esses dias?

Como ela sabia aquilo? E porque os pégasos estavam estranhos? Eu me recuei e falei:

– Sim, mas como você sabe?

Ela me olhou analisando minha expressão e disse:

– É fácil, sou filha de Hipnos, meu nome é Giovanna, e tenho o dom de descobrir o sonho de qualquer um só de olhar pra pessoa, e também posso tornar pesadelos reais... Prazer te conhecer Lorena.

Fiquei perplexa em como alguém pode possuir dons assim, era como se ela roubasse algo que eu queria esconder, não se pode nem sonhar mais que até isso tem gente que sabe, imagine se eu tivesse sonhado com Ed Sheeran, ou com o Robert Downey Jr? Ela saberia tudo, já estava um pouco sonolenta com a presença dessa garota, mas então eu falei:

– Pra-prazer, desculpa, mas já vou indo, tenho que limpar essa sujeira depois do treinamento. – Sorri e caminhei aceleradamente para longe dali, senti uma pessoa que não pode nem ao menos possuir segredos, que eles seriam descobertos por qualquer um dali. Aquela menina parecia uma pessoa meiga e gentil, mas eu não me senti confortável com uma pessoa invadindo algo que eu estava escondendo de todos, era meu interior me falando para sair dali antes que ela descobrisse alguma coisa á mais sobre mim.

Cheguei perto do lago e vi aquela mesma garota ruiva, se não me engano seu nome é Mama, ela não estava sozinha e sim com um garoto e eu não consegui ver muito quem era, mas parecia familiar só que ele estava de costas, o vi falando algo no ouvido dela e os dois se beijaram, era um cenário de filme de romance, aqueles que você fica esperando a mocinha ficar com o garoto bonito da história, e então consegui ver quem era o garoto, era o Ro, sim o Rodrigo filho de Dionísio, ele e ela estavam trocando beijos, como eu não quero ficar observando aquela pegação sai andando, como se não tivesse visto nada.

Passei em frente ao chalé de Deméter, onde vi uma garota de cabelos curtos e negros, com uma cicatriz na mão, ela conversava com o garoto asiático e o loiro, eles calaram-se no instante que eu andei na frente deles, era como se eu fosse uma celebridade ou uma aberração, não soube distinguir o que aconteceu naquele momento, mas senti olhares frios vindo em minha direção.

Fui andando um pouco mais e me deparei com Lipe, Jo e Lua. Eles estavam conversando sobre desenhos e filmes, algo que achei legal, mas estava um pouco exausta para conversar com eles.

Consegui chegar ao chalé 11 onde Sofia estava sentada na varanda, ela parecia estar esperando alguém e disse:

– Ah, Lore você finalmente chegou, quero conversar com você.

Notas finais
E aos poucos vou me conhecendo, e percebendo quem realmente sou.