Encounter

13 Givin' A Little Bit More


Notas iniciais
Gente, cuidado com quem passa atrás de vocês enquanto estiverem lendo... já começa ~um pouco picante~ e tal... -q Agradeço ao Orphelin, o carneiro-beta, pelas revisões³³³

Capítulo XIII

I've never done that before
I'm always givin' a little more
When I'm with you
Givin' A Little Bit More — ABBA

***

Havia um rapaz de cabelos compridos inconformado porque um rapaz de olhos azuis que talvez fossem verdes estava prendendo seus pulsos com as mãos, impedindo-o de tocá-lo.

Para piorar, Aiolia alternava beijos suaves, mas intensos, por sua boca, bochechas e garganta. Seu desejo e excitação se misturavam aos dele com perfeição.

— Lembre-se do que eu falei... – Aiolia ronronou no ouvido de Mu, próximo aos brincos. – Confie em mim... e não me toque...

E o soltou.

O impulso inicial de Mu foi o de alcançá-lo. Teve que reunir uma força de vontade gigantesca para cerrar os punhos e mantê-los parados acima da cabeça.

— Continue assim, Mu...

Dava para discernir o riso no timbre dele.

E, durante o tempo que se seguiu, os lábios, a língua e os dedos de Aiolia não pararam de provocar o autocontrole de Mu. Causavam-lhe uma ansiedade crescente. Sobretudo, ao se combinarem para brincar com seus mamilos, naquelas carícias certeiras que lhe arrancavam sons constrangedores. Para não falar naquele piercing gelado em contato com sua pele tão quente.

A frequência cardíaca de Mu perdeu o ritmo quando Aiolia passou a mordiscá-lo, uma das mãos descendo pela lateral de sua cintura até parar no cós de suas calças.

Botão e zíper foram abertos. Aiolia ergueu-se para tirar os jeans pelas pernas de Mu, que, ocupado em tentar recuperar o fôlego, mal percebeu que seus sapatos foram atirados juntos para longe.

— Quase lá... – Aiolia murmurou, brincando com o elástico que circundava aqueles quadris estreitos, estalando-o de leve.

O rapaz de cabelos compridos mordeu o lábio inferior, suor despontando em suas têmporas. Aiolia tinha a maior paciência do mundo para provocá-lo. Era inacreditável! Os dedos frios e um pouco ásperos abandonaram o algodão e se moveram para a parte interna de sua coxa, fazendo um arrepio intenso estremecer seu corpo.

— Tenha calma, Mu... – pediu Aiolia, beijando um ponto acima do umbigo dele.

Calma?! — proferiu em voz alta, fazendo-o rir. A respiração, quente e irregular, de Aiolia sobre sua pele aumentava seu prazer. E, com as carícias na coxa, tinha a convicção de que cairia se não estivesse deitado. – Ninguém nunca... me disse para... ter calma...

Era um absurdo ter que ouvir aquilo logo da única pessoa que conhecia que era tudo, menos calma.

— Eu não pareço calmo pra você? – Ele beijou, dessa vez, uma parte abaixo do umbigo de Mu.

E continuou descendo. Céus, continuou descendo! Não era como se Mu nunca tivesse imaginado que aquilo aconteceria. Só que eles jamais haviam chegado nem perto. Ele gemeu, os dedos se enterrando no travesseiro para se impedir de tocar Aiolia, ou de arrancar aquele tecido incômodo que restava entre eles.

Afinal, sabia que Aiolia não permitiria – ele não pararia com as provocações tão cedo. Mu podia sentir os dedos dele resvalarem por sua virilha… tão próximo… mas não o suficiente.

Aiolia não demorou a subir a boca de volta para seu abdômen, percorrendo seu tórax, detendo-se em seus mamilos para extrair gemidos embaraçosos, até parar de vez sobre os seus lábios.

— Aiolia...

Tudo era tão incrível. E, por consequência, tão intenso que Mu ficava atordoado. Era difícil se acostumar com a intensidade que sentia ao ser tocado por Aiolia. Chegava a ser assustador perceber o quanto estava sendo ardente.

— Assim mesmo... – Aiolia sussurrou contra os lábios dele. – Quero te ouvir dizer só o meu nome, ok?

O rapaz de cabelos compridos entreabriu os lábios para fazer alguma observação – você é tão leonino! —, porém, Aiolia alcançou sua língua com a dele, e acabou esquecendo.

Em instantes, estava nu. Ao mesmo tempo em que era constrangedor estar desse jeito, enquanto Aiolia não havia tirado nada do que vestia, havia algo de excitante no modo como sabia e sentia que ele o olhava sob a fraca iluminação proporcionada pela lua.

Aiolia apartou as pernas de Mu para que pudesse ajeitar seu corpo sobre o dele. Ambos ofegando pelo atrito entre seus baixos-ventres.

Foi aí que as mãos de Mu se moveram por conta própria, puxando Aiolia pela nuca para que pudesse beijá-lo. Ele riu, satisfeito com sua impaciência, e afastou suas mãos.

— Ahh, Aiolia... – protestou.

— Isso, meu nome acompanhado de gemidos é ainda melhor...

De vingança, Mu ergueu os quadris contra os dele, fazendo-o trincar os dentes e beliscar sua coxa em repreensão.

Ao menos, Aiolia deu o beijo que ele queria. Um beijo que se estendeu pelo trajeto que criou da boca ao umbigo de Mu, circundando-o com a língua, sempre acariciando a parte interna das coxas dele. Levantou uma delas e substituiu o toque dos dedos pelo dos lábios.

Soou alto o gemido que Mu soltou ao levar uma chupada que prometia um hematoma enorme naquela parte de sua pele. Foi um gemido de contentamento, e não de dor, que se transformou em vários outros sons de deleite na primeira vez que a língua de Aiolia o tocou no ponto mais sensível de seu corpo.

Era uma pressão quente que ele movia ora devagar, ora com agilidade, causando um prazer indescritível e bem capaz de levar Mu à perda total de sua sanidade, como tudo o que Aiolia estava fazendo.

Daí em diante, Mu se encontrou reduzido a gemidos e suspiros. Reduzido a querer mais devido à sensação que surgia entre suas pernas e dominava seu abdômen e suas coxas, espalhando-se pelo resto de seu corpo. Não tinha um adjetivo que definisse aquilo. Ele ofegava e queria mais, muito mais...

*

Havia um rapaz de cabelos compridos exausto e um rapaz de olhos verdes que pareciam azuis curioso.

Sem precisar conferir, Mu tinha certeza que suas faces úmidas de suor estavam avermelhadas. Seu lábio inferior estava inchado pelas incontáveis mordidas que deu nele. Seu coração não recuperara o ritmo normal. A respiração ofegante fazia seu abdômen se mover com rapidez. E ele não conseguia pensar com clareza.

— Isso foi... – balbuciou, sem nem saber o que pretendia dizer.

— Arrebatador? Sublime? O suprassumo do extraordinário?

Mu soltou uma risada sem fôlego, virando-se com languidez porque, por algum motivo, Aiolia tinha se sentado no chão, ao lado da cabeceira da cama – o queixo apoiado no colchão.

— Sim... – concordou, sem conseguir visualizar, mas imaginando com facilidade, o sorriso orgulhoso de Aiolia. Encostou as pontas dos dedos no rosto dele, acariciando a bochecha macia.

— É? Que máximo! – congratulou-se Aiolia, espalmando as mãos no colchão. – Eu nunca tinha feito isso...

O rapaz de cabelos compridos pestanejou. E, em seguida, pestanejou de novo.

— Huh? Você está dizendo que nunca...?

— Com caras, não. Minha curiosidade nunca chegou tão longe.

Não foi de imediato que Mu realizou aquelas palavras. Curiosidade...?

— É, e não achei tão difícil. O esquema foi fazer o que eu gosto de receber. Funcionou, hah!

Apesar de não ter nenhuma experiência anterior no assunto para poder comparar, na sincera opinião de Mu, tinha sido a melhor coisa que Aiolia lhe proporcionara até então. Portanto, deixou que o ego leonino dele inflasse até a estratosfera e sentou-se na cama.

— É desconcertante ser a única pessoa no quarto com nada além dos cabelos para se cobrir... Já posso tocar em você?

— Lógico! – Levantou-se do chão em um pulo e se inclinou sobre Mu com tamanha impetuosidade que o fez cair deitado.

O rapaz de cabelos compridos o empurrou com suavidade para o lado, deitando-se parcialmente sobre ele.

— Quer dizer que não foi tão difícil?

— Não, mas admito que fiquei meio atrapalhado em alguns momentos.

— Nem percebi... – confessou Mu, admirado por ter ficado tão absorto. – Hmm... Posso fazer? Creio que compreendi como...

— Aww, você é tão sexy! – O rapaz de olhos azuis-e-verdes arrepiou-se. – Você pode tudo, Mu!

— Exceto te tocar, quando você decide que não devo... – ressaltou, os dedos explorando o torso dele, por cima da camiseta.

— Ahh, você ficou tão entretido que, dessa vez, meus dedos nem te fizeram se retrair, todo tenso... Tivemos um grande progresso. Acho que valeu a pena, né?

— Valeu. Não que eu não devesse deixar você assim... – Pressionou a mão contra o zíper dos jeans dele, fazendo-o estremecer.

— Seria maldade... – Aiolia sussurrou entredentes, receptivo ao aperto. – Ah, mas, ahn, você não precisa fazer o que eu fiz, se não quiser, viu? Eu...

— Se eu não quisesse... – Mu mordiscou o queixo dele. – Não teria perguntado...

E a única razão para perguntar, em vez de fazer o que queria direto, era saber que Aiolia gostaria de ouvi-lo pedir por aquilo. Teve a impressão de que estava deixando escapar alguma coisa, entretanto, não tinha condições de analisar nada àquela altura.

*

Havia um rapaz de cabelos compridos sendo recebido por um rapaz com uma bandana vermelha enquanto três gatos de raça indefinida encontravam-se pela sala da casa.

— Sente-se, Mu – Aiolos sugeriu, sentando-se em um sofá e gesticulando para que ele o acompanhasse. – Ou pode ir direto para a cozinha, se preferir. Meu irmão está fazendo brigadeiro com Pandora e Hilda. Ele disse que você estava chegando, mas elas ficaram insistindo...

— Vou aguardar por aqui, obrigado. – Mu sorriu, acomodando-se na poltrona.

Neil Peart, o maior dos gatos, correu para se enroscar nos tornozelos dele. O pequeno Keith Moon preferiu subir no colo de Aiolos. Ginger Baker, por sua vez, continuou esparramado no chão como um tapete de pelos alaranjados, limitando-se a dar uma olhada desinteressada em ambos.

— Se eu pudesse, te mostraria fotos do meu irmão na infância. Ele era uma coisinha fofa e mordível! – contou Aiolos, os olhos brilhando.

— Oh, eu gostaria de ver. O que te impede?

— Ele ia querer arrancar meu couro... e basta o Shura querendo isso.

Reconhecendo que o argumento era válido, Mu observou o semblante frustrado do rapaz com a bandana vermelha. Por ser raro conversarem sem que aparecesse alguém querendo a atenção dele, não tinha se tornado tão amigo de Aiolos quanto de Aldebaran e Camus. No entanto, ponderou que tinham proximidade para perguntar se o aborrecimento de Shura ainda era por causa daquela história de harém.

— É! Dá para acreditar? Como se fosse minha culpa o Máscara da Morte ter surgido com esse boato. Faz uns dois meses e o pessoal não se cansa de brincar... É impressionante!

— Parece que o Shura gosta bastante de você... – comentou Mu, com um tom suave.

— E eu gosto dele! – Aiolos replicou. Fez uma pausa, assistindo ao gatinho bater uma pata na tatuagem de flecha em seu antebraço, e continuou: – Também gosto dos gêmeos! E da Pandora e da Hilda! E do meu irmão! E da Shina e...

Ouvindo-o desenrolar uma lista de pessoas que gostava, Mu percebeu que teria que ser um pouquinho mais objetivo.

— Aiolos, você gosta de alguma dessas pessoas de um jeito diferente? Digo, de um jeito especial?

— Sim, sim, do meu irmão!

Ahn?

— O fato de sermos irmãos e amigos é especial, né? Ah, e tem meus pais e...

Percebendo que poderia arriscar quantas perguntas quisesse que Aiolos, com toda a cortesia, responderia de forma vaga e prolixa, Mu lançou um olhar penetrante a ele.

O rapaz com a bandana vermelha retribuiu seu olhar com o sorriso cristalino e luminoso daqueles que haviam elevado ao status de arte a capacidade de ocultar as próprias emoções.

Ou, talvez, fosse impressão de Mu...

Ele ficou se indagando sobre o quanto daquela eterna postura inocente de Aiolos – com olhos idênticos aos de Aiolia – seria real, e o quanto de tudo aquilo seria uma espécie de... fachada.

Uma única batida, forte e seca, na porta os interrompeu.

— Falando no Shura... – Aiolos levantou-se para abrir a porta, levando Keith Moon consigo.

Decidido a deixá-los a sós, Mu resolveu ir para a cozinha checar se Aiolia estava terminando de fazer o doce.

Lá, deu de cara com uma cena inusitada: Pandora acariciava o abdômen de Aiolia. Mu arfou, estagnando na entrada do cômodo, com os olhos arregalados. Levou alguns segundos para notar que Hilda estava inclinada na direção de Aiolia, acompanhando, com o olhar, o movimento que a mão pálida e delicada de Pandora fazia nos músculos dele.

Precisou de outros longos segundos para perceber a consternação de Pandora e para notar que ela parecia estar examinando o abdômen dele, e não o acariciando. Indiferente à análise, o próprio Aiolia não demonstrava preocupação com nada.

— Que safadeza é essa aqui? – perguntou Kanon, surgindo por trás de Mu e dando o maior susto em todos. – Por que ela pode tocar em você, Aiolia? Achei que você tinha dito que não era pra ninguém ficar te alisando agora que você está saindo com o Mu...

— Não é! – reafirmou Aiolia, dando um passo para longe das garotas à medida que ajeitava a barra da camiseta. – E ela não estava me alisando!

Kanon apoiou um braço ao redor dos ombros de Mu, causando-lhe um novo espanto.

— E aí, você acredita nele?

O rapaz de cabelos compridos, que antes da aparição de Kanon estava tentando se decidir entre dizer algo ou se aproximar do trio, olhou para Aiolia e sorriu, confirmando.

— Você o conhece há anos, melhor do que eu... E tanto o Afrodite quanto o Ikki disseram que ele não consegue mentir...

— Não consegue mesmo. Ele te contaria se resolvesse pular a cerca! Chato, né?

— Chato? Não para mim... Ah, achei que era o Shura que tinha chegado.

— Chegou comigo e com meu irmão – Kanon esclareceu, retirando o braço dos ombros de Mu para estendê-lo à garota de longos cabelos escuros. – Você pode me alisar se quiser!

Pandora piscou um olho cor-de-violeta, estalou um beijo no rosto de Aiolia, agradecendo pela ajuda, e saiu da cozinha arrastando Kanon junto. Sorriu para Mu ao passar por ele. Hilda seguiu os passos dela, levando o brigadeiro.

Vendo-se sozinho com Mu, o rapaz de olhos verdes manchados de azul fez um gesto para que ele se aproximasse.

— Ela estava checando se estou bem – justificou, apressado, após estalar um selinho nos lábios dele.

— Acredito. A dúvida é: por quê? Aconteceu algo? – indagou Mu, levantando a camiseta dele em busca de seja lá o que fosse que Pandora estava conferindo.

— Ah, uma briga com aquele idiota. Ele me acertou... E levou a pior! – Aiolia ergueu uma colher. – Quer que eu faça brigadeiro pra você?

— Quero, por favor. E não entendi nada do que você falou. Que tal contar desde o princípio e dar alguns detalhes? – Mu sugeriu, cutucando o abdômen dele. Parecia perfeito.

— Okay, tem esse cara, o Radamanthys, que é doido pela Pandora. E ela, como você deve ter reparado, prefere ficar atrás do meu irmão.

— E como você entra nessa história?

— É o Aiolos, Mu. Não adianta alguém tentar brigar com ele. Não vai dar em nada. Daí, o Radamanthys vem me provocar. Acho que na esperança de me dar uma surra e conseguir alguma reação do meu irmão. Não sei. O cara é estranho, pode perguntar ao Ikki. Eles tiveram altas brigas na época que o Ikki estava saindo com a Pandora.

Aquela informação deixou Mu intrigado. Ikki tinha um histórico com Pandora? Será que Shaka sabia daquilo?

— Enfim – Aiolia continuou, movendo-se pela cozinha para preparar o doce –, aconteceu no início da semana. Na hora, ficou dolorido. Agora, está tudo normal. Eu expliquei pra Pandora, mas ela quis checar e tal.

— No início...? Por que você não me contou?

— Sério que você quer saber dessas coisas corriqueiras? São tão irrelevantes pra mim que nem me passa pela cabeça comentar com você.

— É que eu me preocupo com você.

— Relaxa, Mu! Tem pouca gente por aí capaz de sustentar uma briga comigo, sendo que quase todos são meus amigos. Ou seja, não brigo com eles.

— E esse Radamanthys é uma dessas raras pessoas capazes e que não é seu amigo, certo?

Aiolia assentiu, concentrado no brigadeiro, sem perceber que deixara Mu pensativo.

*

Havia um rapaz de cabelos compridos confuso, um rapaz de aparência imponente descontente e um rapaz de olhos azuis que tendiam ao verde com uma expressão culpada.

Tendo acabado de descer as escadas para a sala, Mu não estava entendendo por que seu irmão parecia tão insatisfeito com Aiolia. De fato, Shion o segurava pela parte de trás do pescoço de tal forma que, por um louco momento, Mu achou que Aiolia começaria a se debater, silvar e tentar arranhar, como se fosse um gato selvagem.

Um rapaz de aspecto amigável se adiantou, vindo da cozinha, para especular o que estava acontecendo:

— Qual é o problema aqui?

Shion piscou, sem chegar a desviar a atenção de Aiolia ao replicar:

— O problema, Dohko, é este jovem atrevido que o Mu chama de... – Relanceou um olhar duvidoso para o irmão. – Ficante?

— Ehrm... – fez Mu, fixando o olhar em Aiolia.

Ele devolveu o olhar com uma piscadela cúmplice. E, sem pressa, meio refletindo em voz alta, compartilhou uma ideia que vinha contemplando nos últimos dias:

— Acho que depois de tudo e todo esse tempo, já dá pra dizer que somos namorados... Não acha, Mu?

O queixo de Mu caiu.

No fundo, apesar de também achar aquilo, não supôs que Aiolia seria o primeiro deles a falar sobre o assunto, de maneira tão simples, tão sincera e tão surpreendente. Seu rosto esquentou e, suspeitando de que sua voz falharia se tentasse dar uma resposta verbal, limitou-se a fazer que sim com a cabeça várias vezes.

Aiolia abriu um sorriso radiante e voltou-se para Shion.

— Que tal, cunhadinho?

O rapaz de aparência imponente estreitou os olhos para ele, balançou a cabeça e o empurrou na direção de um sofá, soltando-o.

— Pois bem, Dohko – Shion retomou a palavra, inabalado –, este jovem atrevido, que o Mu chama de namorado, estava se comportando como um gato de beco, brigando pelas ruas.

Sentando-se ao lado de Aiolia, Mu estava tão feliz com a recém-esclarecida situação entre eles que levou um minuto para entender o que o irmão estava dizendo. Seu estômago contraiu. Oh, céus... É claro que sabia que, uma hora ou outra, Shion tomaria conhecimento sobre a tendência agressiva de Aiolia. Todavia, presumira que aconteceria por ouvir alguém falar disso. Jamais teria imaginado que Shion o veria brigando!

— Foi tão legal, Mu! – Aiolia complementou. – Nem chegou a ter briga. O Shion apareceu com esta aura sinistra dele, mandou os dois malucos irem embora e eles obedeceram de imediato! Acho que eu teria ido também, se ele não tivesse me agarrado e me arrastado até aqui...

— Se eu soubesse que você estava se envolvendo com uma força do caos personificada, teria colocado objeções, Mu.

— Não precisa ofender... – Aiolia retrucou, apoiando a mão no joelho de Mu e fitando o rapaz de aparência imponente com o máximo de inocência possível. – Eu sou um cara legal. Pode perguntar ao seu irmão...

O rapaz de aspecto amigável reprimiu uma risada. Shion o fitou com austeridade.

Aproveitando a deixa, Aiolia se explicou:

— Poxa, eu estava defendendo uma amiga daqueles dois malucos que resolveram se engraçar com ela... Eu não saio comprando brigas à toa e, muito menos, fico vendendo brigas.

— Relaxa, Shion! – Dohko deu um tapinha nas costas dele. – O garoto é apenas enérgico e prático em lidar com as dificuldades. Eu costumava ser assim, lembra?

O olhar de Shion foi de Dohko para Aiolia e desviou-se para cima. Sua breve pausa reflexiva resultou em um muxoxo.

— É verdade... Você começou a melhorar somente depois de velho...

Velho! — Dohko repetiu sorrindo, não sem certa indignação. – Como um vinho excelente, eu espero...

O rapaz de aparência imponente abriu um sorriso que não confirmava nada.

— Caramba, quantos anos vocês dois tem? – Aiolia quis saber, emburrado. Havia percebido que Dohko tinha o costume bizarro de falar como se fosse séculos mais velho do que sua aparência indicava, igual Shion fazia. – Porque, pelos meus cálculos, vocês podem ter qualquer coisa entre dezoito e duzentos e sessenta e um anos...

O sorriso de Shion aumentou ao trocar um olhar com o rapaz de aspecto amigável.

— Sou tão velho quanto minha alma... – Aí, o sorriso sumiu. – Em breve, teremos uma conversa sobre seu mau comportamento, jovem Aiolia.

Com isso, Shion se encaminhou para a porta de entrada, apanhou a guia para levar Hamal para passear e saiu. Dohko acenou para os dois rapazes que permaneceram na sala e foi atrás dele.

Aiolia afundou no sofá. As últimas palavras de Shion tinham soado bem categóricas, o que eliminava toda possibilidade de argumentação. Deixara explícito que o que tinha dito era o que aconteceria, sem escapatórias.

— Oh-owh, estou encrencado, Mu?

— Está! – afirmou, batendo com uma almofada na cabeça dele.

Ouch! O que foi que eu fiz?

— E ainda pergunta... – Revirou a almofada sobre o colo e clareou a garganta. – Ele te viu brigando, mas não parece ciente de que você tem toda uma fama por causa disso. E que amiga você estava defendendo?

— A Marin.

— Hum...

O rapaz de olhos azuis-ou-verdes o segurou pelo queixo e roubou um beijo ligeiro.

— Graças ao Shion, eu cheguei cedo pra te encontrar. Você está pronto?

— Estou. Antes, tem algo que preciso te mostrar. – Mu pegou uma folha de papel sobre a mesinha de centro e estendeu-a para Aiolia.

— Isto é da universidade? Congresso?

— Eu chamaria de evento complexo. Não será na nossa universidade. Ela está divulgando, desde o semestre passado, para os cursos relacionados. O meu é um deles.

— Ah, entendi. Meu curso vai ter algo do tipo... – Aiolia lembrou, procurando a notícia no celular para descobrir a data.

— Para mim será semana que vem, então... Não estarei na cidade na sexta e no sábado.

Inconveniente, pensou Mu. Aqueles eram os únicos dias em que se encontrava com Aiolia. Fez uns cálculos rápidos. Era sábado, o que significava que ficaria a semana que iria principiar inteira sem vê-lo e os dias da semana seguinte até chegar na sexta-feira. Doze dias.

— Dezenove dias – Aiolia corrigiu, mostrando o celular para Mu. – O meu bagulho vai ser na semana depois da sua...

— Ahh, sério? – Mu leu a informação. – Puxa, não podiam ser na mesma semana? Mal oficializamos o namoro...

— Né? Justo agora que temos aperitivos novos no cardá-... Ouch! — exclamou Aiolia, ao levar três almofadadas, nada afetuosas, na cabeça. – E o loiro achando que seria eu a parte violenta nesta relação...

— Por sinal... – ponderou Mu, ignorando a observação como se não tivesse feito nada. – Nossa data de namoro será hoje? Ou deveríamos considerar o dia em que nos conhecemos? Não nos separamos desde então...

— O que te fizer feliz...

— Ah, entendo... Para você, tanto faz. Hoje é apenas o dia em que você comunicou ao meu irmão que somos namorados. Não faz sentido celebrar, não é?

— Ué, você queria um pedido com aliança de compromisso e tudo? Posso providenciar...

O rapaz de cabelos compridos enrubesceu.

— Não, não precisa. Não é para tanto. E nem é seu estilo.

— Ah, não sei, não. Já que você vai ficar cercado de acadêmicos tarados em potencial, não é uma má ideia colocar uma aliança enorme no seu dedo...

Mu o encarou com olhos tão gélidos que fez Aiolia pensar que a amizade dele com Camus não era uma boa influência. Preferia levar almofadadas.

— Ew, é brincadeira... – Aiolia o abraçou pelos ombros. – Sorria pra mim!

Ele ficou esfregando a bochecha na de Mu até que a expressão fechada dele se desfizesse em um sorrisinho mal contido.

— Você é tão bobo! O que faço com você?

— Oh, temos muito a fazer hoje. Muito mesmo – garantiu Aiolia, lançando a Mu seu olhar de fera faminta. – Os dezenove dias pela frente não serão fáceis. Precisarei de boas recordações... Outro dia, a gente sai. Hoje, ficamos por aqui.

Mu meneou a cabeça, concordando, e rodeou o pescoço dele com os braços. Ao aproximar os lábios, Aiolia inclinou a cabeça para trás em um impulso, soltou-se e ficou de pé.

— Hey! Espera! – pediu, afastando a franja dos olhos com rapidez. – Aquele seu pseudo-ex vai nesse evento?

Pseudo...? Ah. Não sei... – Franziu o cenho, tentando se lembrar do curso que Myu fazia. – Hmm, é, suponho que vá.

— Hah! Era só o que faltava!

— Aiolia, vai ter centenas de pessoas e a área dele é diferente da minha. Acho improvável nos esbarrarmos por lá.

— Falando assim, quase parece difícil te identificar em uma multidão... – Aiolia segurou uma longa mecha daquele cabelo cor de lavanda, esfregando a ponta na bochecha de Mu.

— Se acontecer... Não confia em mim?

— Não confio nele. Pra não falar em todo e qualquer infeliz que eu nem preciso ver pra saber que vai babar em você.

Mu levantou-se também e ergueu o dedo indicador diante do rosto de Aiolia.

— Vou te contar uma coisa... – Tocou a ponta do nariz dele. – Eu sei me cuidar.

Aiolia arqueou uma sobrancelha.

— Quer dizer que você vai dar porrada?

— Huh... Não. – Mu apertou de leve o nariz dele. – Prefiro resolver as coisas de modo diplomático. Agressividade não é a reposta para tudo.

Aiolia bagunçou os cabelos da nuca. Em sua experiência, agressividade funcionava em quase cem por cento das vezes. No entanto, não contestou.

— Okay, Mu. Não que a ideia do sujeito rondando você, com seu amigo loiro sempre disposto a encher sua cabeça com as preferências dele, me agrade.

— Oh, Shaka é de outro curso. Ele não vai.

Aiolia abriu a boca para soltar um que ótimo, ou algo do tipo, entretanto, Mu continuou:

— Estarei com o Afrodite.

Aquilo deixou Aiolia em dúvida. Com Afrodite era impossível ter segurança de algo. Ele adorava um revés dramático – desde que não o envolvesse. Não obstante, considerando que estava de caso com Máscara da Morte, dava para dizer que ele não se interessava pelos tipos corretos. Logo, Afrodite não teria moral para destilar desaprovações, como o loiro faria.

— Hey! – Mu bateu as mãos para chamar a atenção dele. – E como você lida com suas... fãs?

— Que fãs?

Embora, em geral, as pessoas ficassem com receio pela mera chegada de Aiolia em algum lugar, Mu andara reparando que a maioria delas era homem. Alguns o admiravam, como um modelo a ser seguido, contudo, a maior parte dos admiradores de Aiolia era composta de garotas. E não o admiravam por quererem ser como ele. Talvez sonhassem com o dia que ele iria defendê-las...

— Eu estava pensando... Deve ter algumas mais incisivas que vão atrás de você... Como você lida com elas?

Aiolia deu de ombros.

— Não estou preocupado que venham te assediar enquanto estivermos distantes – Mu prosseguiu frente àquele aparente descaso. – Deve acontecer direto.

Se fosse se preocupar com alguém disposto a bolinar Aiolia, não seria com garotas random – seria com certos integrantes do Clube dos Cinco após algumas doses de álcool, ou, em especial, com a tal amiga ruiva –, porém, preferiu guardar os pensamentos para si.

— Fiquei curioso. Garotas não devem fazer você reagir com hostilidade, certo?

— Sem chance. Eu sou um lorde, Mu.

— E o que me diz, milorde?

Aiolia voltou a dar de ombros.

— Basta falar que não quero. Garotas não costumam tentar agarrar a gente à força, como um cara poderia tentar fazer com você.

— Que bom que eu sei me cuidar – reiterou Mu, cruzando os braços.

— Que bom que você sabe se cuidar – Aiolia concordou, espelhando a posição dele.

Eles se encararam em silêncio por um longo período.

— E que bom que eu sou o escolhido! – Aiolia declarou, erguendo um braço triunfante no melhor estilo Freddie Mercury.

— Aff! – fez Mu, abrindo as mãos como se pedisse forças, e saiu andando a passos apressados rumo ao quarto. – Se você ousar fazer aquelas metáforas geeks medonhas outra vez, vou te empurrar pela escada.

— Que injustiça! Não tenho culpa se sou tipo o Bilbo e seu anel me escolheu! – Aiolia correu atrás dele, não levando uma portada na cara por um triz. – Whoa! Parei, foi mal! Temos muito a fazer hoje, lembra? Vem cá...

Agitou as sobrancelhas, com nítida lascívia, e se inclinou para beijá-lo.

Respirando fundo, com o ar de alguém que está sendo explorado, Mu se deixou envolver. Fazer o quê? Dezenove dias eram um tempo imenso. Como passariam por eles?

Continua...

Notas finais
Palmas para o Aiolia pelo "pedido de namoro" mais romântico do mundo... /SQN Eu espero muito que vocês tenham gostado do limezinho neste capítulo, até porque no próximo o Aiolia e o Mu estarão separados :~ Em compensação, teremos Afrodite, Milo e mais um pessoal querido (ou detestado... -q) ^^ Obrigada pelas reviews: Suh Domingues, Taia, Sakykah, arianinha, Diana Lua, Orphelin, Ysoga, Suh, Bloody Rose e Svanhild ♥