Encounter
14 Don't Worry Baby
Notas iniciais
Capítulo XIV
I don't know why
But I keep thinking
Something's bound to go wrong
Don't Worry Baby — The Beach Boys
***
Havia um rapaz de olhar solene intrigado após abrir a porta de sua casa, pois suas visitas eram um rapaz com uma cicatriz na testa e um rapaz de apelido duvidoso.
— Por que estão aqui?
— Depende... Uns dizem que é obra do criador do universo... Outros argumentam que é um esquema complexo de evolução... – respondeu Ikki, desatento. – Há quem afirme que resultamos da aglomeração aleatória de partículas de probabilidades e...
Shaka fechou os olhos, os cílios estremecendo.
— Quero saber por que estão aqui na minha casa.
— Está na hora do chá das sextas – pontuou Ikki, como se fosse óbvio, avançando pela porta e fazendo com que Shaka fosse para o lado, deixando-o passar.
— Não é por que a Dita e o Mu não estão aqui que a tradição não deva ser mantida, certo? – Máscara da Morte complementou, entrando em seguida.
De braços cruzados, tentando se lembrar da razão para ter deixado o portão destrancado, Shaka observou aqueles dois seres obtusos se acomodando em seu sofá com a maior liberdade.
— Não faz sentido. Primeiro, vocês não fazem parte da tradição... acabaram nela de penetra nem sei como; segundo, vocês dois sequer gostam de chá.
— Verdade! Faça um café pra gente então – Ikki resolveu, prático.
— Não sou sua empregada – Shaka replicou, sentando-se na poltrona com a coluna ereta. – Se você quer café, vá e faça, já conhece o caminho para a cozinha e sabe onde encontrar tudo mesmo.
— Uma pena. Aposto que você ficaria ótimo em um uniforme de empregada... – Ikki refletiu, levantando-se. – Ah! E não é assim que se trata as visitas.
— Convidei vocês? – Shaka arqueou uma sobrancelha loira, desprezando a história do uniforme. – Aproveite e traga meu chá.
— E eu, por acaso, sou seu servo?
— Deveria... Considerando minha incontestável superioridade moral e intelectual, seria uma honra me servir.
O rapaz com a cicatriz na testa trincou os dentes e seguiu para a cozinha, sem se dignar a replicar ou olhar para trás, reclamando qualquer coisa sobre os chás de Shaka serem alucinógenos, porque era a única justificativa para tanta presunção.
— Hmmm... – fez Máscara da Morte, abrindo um sorriso enviesado para Shaka. – Não sabia que o nível de intimidade entre vocês era tão alto, pra ele saber onde estão as coisas na sua cozinha e ter a liberdade de mexer nelas...
Shaka deu de ombros com altivez.
— Melhor do que aguentar o gênio ruim e o mau comportamento dele.
O comentário somente serviu para deixar Máscara da Morte confuso.
— Espera! Ainda estamos falando do Ikki? Porque, agora, você soou como se estivesse falando daquele pirralho do Aiolia.
O rapaz de olhar solene fez um muxoxo. Quantas vezes teria que repetir que aqueles dois eram farinha do mesmo saco? Ambos geniosos, briguentos e inadequados, para dizer o mínimo.
— Hmm, ok, o pirralho é inadequado pro Mu. E o Ikki seria inadequado pra quem?
— Para qualquer pessoa que se preze – Shaka alegou com azedume, voltando a fechar os olhos.
Máscara da Morte reparou que ele fazia aquilo com frequência, por motivos diversos. Resolveu se levantar.
— Sei. Bom, melhor eu ir. Detestaria ficar segurando vel-...
— Sente-se – Shaka demandou. – Você não veio aqui pela tradição? Que seja! Vai ficar até o fim.
O rapaz de apelido duvidoso olhou para o rosto de Shaka e, de repente, achou melhor obedecer. Aqueles olhos muito azuis estavam abertos e o encaravam com a potência de um holofote. Máscara da Morte não sabia o que ele poderia fazer se o contrariasse... e não estava com disposição para tentar descobrir.
*
Havia um rapaz de olhos azuis-ou-verdes sentado no chão, diante da janela da sala, um rapaz com uma tatuagem de escorpião andando em círculos atrás dele e um rapaz de vibrantes cabelos vermelhos sentado na poltrona, lendo um livro com um gato enorme deitado sobre seu colo.
A noite havia acabado de principiar, no entanto, não importava. Se fosse dia, a atmosfera continuaria a ter uma textura densa e carregada. Milo poderia jurar que nuvens sombrias se acumulavam ao redor de Aiolia. Se o tocasse, era capaz de levar um choque. Seus tênis se arrastando pelo chão eram o único som; o silêncio preenchia a sala feito neblina.
O efeito geral era comprometido apenas por um gatinho tentando escalar as costas de Aiolia.
— Dá pra desfazer a carranca e contar qual é o problema? – Milo exigiu, exasperado. Estava desconcertado com a abrupta mudança de humor de Aiolia. Quer dizer, ele andava animado naqueles tempos, mas de um dia para o outro...
Tinha feito todas as questões possíveis, como: Discutiu com o Aiolos? O Mu te deu um fora? Está ansioso por causa do campeonato no final do semestre? Tem que ser o Aiolos! O Clube dos Cinco violentou o coitado? São os pokémon novos? Horrendos, né?
Depois de dez minutos de especulação infrutífera, Milo estava aflito.
— Você engravidou o Mu?
Camus abandonou o livro e encarou o namorado, tamanho o absurdo.
Milo encolheu os ombros.
— A gente lê de tudo na internet...
— Que tipo de sites você...? – Camus interrompeu-se, balançando a cabeça. – Esquece, melhor não saber.
Aiolia bufou. As garrinhas de Keith Moon se cravaram em sua camiseta para que não caísse de seu ombro.
— Não engravidei ninguém, imbecil! – Até porque, mesmo que aquilo fosse possível, seu progresso sexual com Mu não tinha chegado tão longe. Ainda. – E pare de me encher o saco... Faça um carinho no Ginger Baker que você ganha mais.
Milo olhou para o gato alaranjado, deitado de barriga para cima no sofá. Ginger Baker o olhou de volta, balançando a cauda com languidez. Ostentava um ar malévolo, do tipo que diz vem cá pra ver o que te acontece...
— Isso é uma armadilha – constatou, apontando para o gato. – Não adianta, pulguento, um golpe não funciona duas vezes comigo!
Ginger Baker piscou os olhos amarelados com toda dignidade e, indolente, rolou o corpo para um lado, dando as costas para Milo.
— Ora, seu-!
Antes que Milo pudesse vociferar seja lá o que fosse, a porta da sala se abriu e Shina entrou na casa.
— Shina! – Alegrou-se, correndo até ela. Segurou-lhe as mãos e pediu: – Diga que sabe qual é o problema desse ilustre animal que você chama de primo, por favor!
— O quê? Ah... – Sem nem precisar olhar para Aiolia, ela desvendou o mistério: – Ué, o Mu viajou ontem. Aiolia deve estar chateado pela perspectiva de ter que esperar vários dias pra se reencontrarem.
— Esse mau humor todo é por isso? – Milo estava prestes a pular nas costas de Aiolia e dar uma chave de pescoço nele.
— Você não entende... É o Saga – Aiolia esclareceu, com uma voz que parecia vir das profundezas de uma caverna. – Ele foi ao mesmo bagulho que o Mu... e com a Hilda!
Tinha ficado tão entretido em aproveitar a companhia de Mu antes que ele viajasse – e tão indignado com a probabilidade de ele esbarrar no pseudo-ex—, que até tinha se esquecido de que o tal congresso seria interessante para alguns de seus amigos.
— É? Ah, claro, eles são todos de áreas relacionadas. Faz sentido. O que tem de errado?
— Durante o tempo em que eles estiverem sóbrios, nada. – Os olhos verdes que talvez fossem azuis fitaram Milo de forma significativa.
O rapaz com a tatuagem de escorpião fez uma cara de putz, ferrou... e desabou na frente dele.
Camus observou a fisionomia preocupada dos dois sem compreender a situação. Era um evento acadêmico.
— Quem bebe nessas ocasiões?
Shina, Aiolia e Milo se entreolharam e, sem embaraço, levantaram as mãos.
— ...
— Aí que está, Camus – explicou Milo, com um dedo em riste. – Por ser uma coisa de estudos, a gente fica tão exausto que, quando acaba, só quer tomar algo e relaxar...
— Não é o estilo do Saga e da Hilda.
Foi a vez de Aiolia explanar que até podia não ser, mas que, havendo a oportunidade, eles acabariam bebendo. Adoravam um vinho! O que complicava era que não tinham boa resistência ao álcool e, o que era pior, sofriam tamanha mudança de personalidade que dava para chamá-los de perigosos.
— Creio que o Mu te falou que é capaz de se cuidar.
— É, mas ele estava se referindo ao infeliz lá... o pseudo-ex. Quem é o tal Myu perto do Saga?
— Ninguém! – o rapaz com a tatuagem de escorpião concluiu de imediato. – E olha que nem conheço o sujeito.
O rapaz de olhos azuis-e-verdes reclamou que Milo não estava ajudando. Ele, por sua vez, perguntou o que diabos Aiolia queria que fizesse. E, como era de se esperar, eles se engajaram em uma discussão homérica que fez Camus supor que Aiolia havia voltado ao seu estado normal. Isto é, de uma maneira ou de outra, Milo tinha ajudado.
Shina sentou-se no braço do sofá, próxima ao rapaz de vibrantes cabelos vermelhos, e interrogou os dois briguentos:
— Vocês têm certeza de que não são um casal? Vocês brigam tanto que parecem um. Estou desconfiando que o Camus e o Mu são seus amantes.
Ultrajado, Milo repudiou até mesmo a mera ideia, afirmando que eles seriam incapazes de namorar. Em contrapartida, Aiolia garantiu que, se fosse o caso, ele teria castrado Milo por se atrever a ter um amante. Ah!, retrucou Milo, se tivesse um amante a culpa seria do próprio Aiolia por ignorá-lo, para não mencionar que o gato dele o detestava, ou seja, ninguém o valorizava naquela casa! Espera aí!, Aiolia rebateu, era de conhecimento geral que Ginger Baker não gostava de ser tocado, portanto, Milo estava exagerando...
E assim por diante. Aquele tipo de discussão acontecia há anos.
Shina colocou uma das mãos perto da boca e cochichou para Camus:
— Não é esquisito ver seu namorado tendo uma DR com outra pessoa?
Acariciando atrás das orelhas de Neil Peart, que permanecia em seu colo, Camus respondeu impassível:
— Já me acostumei.
Aqueles dois tinham sido daquele jeito a vida inteira e, por certo, continuariam até que a morte os separasse.
— Cale-se, Aiolia! É sexta à noite, vamos sair! – bradou Milo em tom decisivo, levantando-se do chão e puxando-o pelos braços para que o acompanhasse.
Assustado com a movimentação, Keith Moon correu para longe deles, indo buscar conforto no colo de Shina. O rapaz de olhos azuis mesclados de verde desvencilhou-se do amigo ao ficar de pé.
— Não estou com disposição pra nada – resmungou, pegando Ginger Baker para aninhá-lo ao seu corpo.
O gato esfregou a cabeça alaranjada no abdômen dele, ronronando tão alto e com tanta satisfação que Milo se sentiu ofendido. O pulguento não gostava de ser tocado, mas tinha suas exceções... e logo Aiolia, que mau gosto!
— Eu não perguntei se você está disposto ou não. Largue essa fera em miniatura e vamos! – Espalmou as mãos nas costas de Aiolia, empurrando-o rumo à porta. – É legal ter consideração pelos seus amigos, sabia? Se o Saga e a Hilda forem beber vai ser no último dia do bagulho lá, e não hoje. O Mu vai ligar no seu celular, se precisar falar com você.
E pensou que, se alguém fosse assediar o Mu, Aiolia não poderia fazer nada, visto que estava a quilômetros de distância dele. Ficou quieto. Ele já estava com uma cara bem emburrada sem ter de lidar com esse fato.
*
Havia um rapaz com uma bandana vermelha andando de costas porque havia um rapaz de poucas palavras avançando em sua direção com uma determinação inabalável. Era tarde da noite.
— Ehrm, sobre o que você quer conversar, Shura? – Deu outra passada para trás. Estava alcançando a porta fechada do próprio quarto, o que significava que, em breve, seria encurralado. — Aquela brincadeira de harém não é minha culpa, sabe? Continua aborrecido com isso?
Shura parou de andar.
— Não.
— Ah, não? – Aiolos respirou aliviado.
— Estou aborrecido com você. – E voltou a andar de encontro ao rapaz de bandana vermelha.
— Puxa, me sinto bem melhor... Obrigado! – Aiolos estalou a língua, indignado tanto pela informação nada reconfortante quanto por suas costas terem batido contra a porta, ao dar um novo passo para trás. – O que eu fiz para você querer me matar?
— O que você não fez... e quem falou em morte? – Shura apoiou as mãos aos lados do rosto dele, cercando-o. – Você sabe que eu gosto de você.
A resposta fez Aiolos iluminar-se de contentamento.
— Eu também gosto de você! – E sorriu daquele jeito que fazia Aiolia dizer que, se a vida fosse um shoujo mangá, surgiriam flores e brilhos atrás do irmão nesses momentos.
— De mim e de um monte de gente, eu sei.
— Não é bom? Hey, acho que tive essa conversa esses dias... – Aiolos apoiou um dedo sob o queixo e lançou um olhar para cima, todo reflexivo, antes de bater as mãos e exclamar: – Sim, foi com o Mu! Ah, te contei que ele é meu cunhado agora? Não dá para acreditar que meu irmãozinho está tão crescid-...
— Shh... – fez Shura, encostando o indicador sobre os lábios dele. – Suas táticas de evasão não vão funcionar comigo.
As sobrancelhas de Aiolos se franziram sob as mechas da franja castanha. Ele se mostrou muito confuso, todavia, Shura o conhecia desde a infância e, por isso, não deu créditos àquele semblante. Sabia que nem dez por cento da confusão e do nervosismo que ele demonstrava era real.
Sua certeza aumentou ao vê-lo abrir o característico sorriso cristalino e indecifrável. Shura deslizou o dedo para o queixo de Aiolos, levantando-o. Aproximou o rosto do ouvido dele e murmurou:
— Preste atenção ao que vou dizer.
Foi com satisfação que Shura observou a pele do rapaz de bandana vermelha se arrepiar sob sua respiração.
— Wah! Não tão perto! – Aiolos se remexeu, esticando o pescoço para trás. – Aí é sensível demais...
— Sim, eu descobri em uma época em que nem você sabia... lembra?
Cada uma de suas palavras foi direcionada ao ouvido dele, fazendo-o mover a cabeça várias vezes seguidas... até que o segurou com firmeza pelo queixo, mantendo-o parado.
— Que maldade! Huh, você não ia dizer algo...?
Shura assentiu e mordiscou o pescoço dele, pertinho do lóbulo da orelha.
As costas de Aiolos se arquearam, o movimento fazendo a porta vibrar e a mão de Shura soltá-lo. Ele emitiu um som chiado por entre os dentes e cerrou os olhos com força. Voltou a abri-los ao perceber que Shura tinha abandonado seu pescoço.
O rapaz de poucas palavras o observou em silêncio por um instante. Era inegável que Aiolos possuía olhos incríveis, meio verdes e meios azuis. Não obstante, naquela hora, eles estavam quase negros por causa das pupilas dilatadas.
Se aquilo não fosse um bom sinal, o que seria?
Mesmo sabendo que deveria ter cuidado, pois qualquer ato impensado poderia estragar tudo, não foi com delicadeza que puxou Aiolos para si pela parte de trás do pescoço. Foi meio rude o modo como seus lábios pressionaram os dele. Houve um ruído de surpresa e, então, as mãos dele se apoiaram em seu tórax.
Aquele era o ponto decisivo, impossível de prever, em que Aiolos o empurraria ou não.
— Hey, vocês! – gritou Kanon, terminando de subir a escada.
A aparição inesperada quase fez Aiolos atravessar a porta, ao escapar dos braços de Shura com um empurrão brusco.
— Opa! Interrompi alguma coisa? Digam que sim!
Kanon olhou da expressão assassina de Shura para a forma como Aiolos tinha se apoiado contra a porta, respirando rápido com a mão sobre o coração, o rosto avermelhado.
— Um dia desses... Eu vou morrer de susto... – Aiolos inspirou com sofreguidão, sentindo como se houvesse um centauro pisoteando seu peito dolorido. – Daí, todos se arrependerão!
Lançou um olhar zangado para os amigos e saiu de perto deles, batendo os coturnos nos degraus, com força desnecessária, ao descer a escada.
— Aw... Ele vai ficar emburrado por eras... – lamentou Kanon, cruzando os braços. – Quer dizer que vocês aproveitaram que a Pandora e eu estávamos cozinhando na inocência, e meu irmão e a Hilda estão longe daqui, pra ficar de safadeza, é?
A única réplica do rapaz de poucas palavras foi seu olhar cortante.
— Não adianta me olhar assim... Mesmo que eu não tivesse aparecido, Aiolos acabaria escapando. É o que ele sempre faz... – Kanon abriu um sorriso digno do gato de Cheshire. – Pense positivo: já que ele não fugiu por conta própria, continua sendo a sua vez.
— Não estou jogando nada.
Kanon piscou para Shura e virou-se para descer a escada, dizendo:
— Não seria tão divertido se estivesse...
*
Havia um rapaz de cabelos compridos sonhando acordado e um rapaz com uma pintinha charmosa lendo os horários das palestras em um papel. Estavam tomando café da manhã no hotel.
Enquanto Afrodite decidia qual assistiria naquele período, Mu suspirou.
Era a segunda vez que ele suspirava em menos de quinze minutos. Afrodite tinha feito vista grossa da primeira, mas não ia apenas assistir àquilo. Até entendia que ele estava com o coração extasiado, contudo, não era motivo para ficar por aí com ar de bobo. Fitou Mu de viés por cima do papel.
O rapaz de cabelos compridos nem tinha comido direito. Arrastava pedacinhos de fruta pelo prato, o olhar perdido no horizonte. Tinha um sorriso bastante sutil nos lábios, sem causa aparente.
— Por que eu achei uma boa ideia dividir o quarto de hotel com uma pessoa apaixonada? – Afrodite indagou-se, com a voz arrastada.
O espanto pela crítica repentina fez Mu pestanejar, voltando a si. Seu rosto se contraiu, como se o amigo tivesse falado em um idioma que não dominasse e precisasse traduzir as palavras. Um calor se espalhou por suas faces. Estava devaneando?
— Oh, me desculpe! Sei que devo estar parecendo um tolo, mas a sensação é tão... – Apoiou a mão sob o queixo, os olhos esverdeados brilhando. – É verdade aquilo que dizem sobre o frio no estômago... Eu não acreditava...
Afrodite franziu o nariz levemente arrebitado, lembrando-se de ter visto Mu ao celular pouco antes de saírem do quarto. Depois de quase três meses, era de se imaginar que aquela fase tivesse se amenizado – não que Afrodite entendesse dessas coisas –, entretanto, Mu continuava tão suspirante e feliz quanto no início. Ou mais. Um tédio! Onde estavam as discussões inflamadas? As revelações chocantes? As viradas teatrais?
— Espero que você repita o que acabou de dizer na frente do Shaka. Adoraria ver a reação dele.
Ao que tudo indicava, Shaka andava descontente o suficiente, pensou Mu, recordando Afrodite da foto que Máscara da Morte mandara para eles na tarde anterior. Era uma selfie, com Shaka e Ikki discutindo ao fundo, acompanhada de uma mensagem dizendo que estavam em plena hora do chá tradicional.
A lembrança da foto fez o rapaz com a pintinha charmosa esboçar seu sorrisinho maldoso.
— Falando no Shaka – prosseguiu Mu, afastando o prato. – Por que será que ele se preocupa tanto?
Como tinha gastado algum tempo pensando no assunto, Afrodite externou sua hipótese sem titubear:
— Em parte, deve ser porque você foi uma criança... frágil.
— A minha saúde era frágil. E foi há uns dez anos! – Mu protestou, fazendo beicinho sem perceber.
— Não importa. Não para ele, que cresceu cuidando de você.
— Eu compreendo isso. Porém, a implicância dele é com o Aiolia em específico. Shaka nunca ficou tão incomodado com alguém.
Em silêncio, Afrodite dobrou o papel que tinha em mãos e cruzou os dedos sobre a mesa.
— Ah, certo... – Mu suspirou de novo, desta vez por cansaço. – É lógico que não, afinal, eu nunca tinha me envolvido com ninguém. E aconteceu justo com uma pessoa famosa pela agressividade.
— Ademais – Afrodite retomou seu raciocínio inicial –, deve ser projeção.
Antes que Mu pudesse cogitar o que ele queria dizer com aquilo, Afrodite fez um aceno. Ao olhar para trás, viu que Saga e Hilda estavam se aproximando.
Eles tinham um ar tão magnificente e eram tão bonitos que as pessoas nas mesas vizinhas também se viraram para contemplar – as mesmas que haviam admirado Afrodite e ele chegarem, embora Mu não tivesse reparado. Se não os conhecesse, vê-los andando lado a lado, Hilda com um braço entrelaçado no de Saga, faria Mu pensar que eles eram um casal.
Até onde sabia, eles não eram. E o importante era que ambos transbordavam cortesia. Foi fascinante observar o comportamento de Saga e Hilda ao se sentarem à sua mesa para tomarem o café juntos: a combinação ideal de cumplicidade e deferência.
Não fossem os episódios em que os vira alcoolizados e alterados, Mu acharia absurdas as dezenas de advertências que Aiolia dera, ao avisá-lo que aqueles dois iriam ao congresso. Em todo caso, não achava que aconteceriam contratempos. Como Camus, ele não via razões para alguém resolver beber em um evento acadêmico.
Enfim, os quatro tiveram uma refeição tranquila e, após programarem o dia, saíram do hotel. Na verdade, Mu mal começou a caminhar para fora do local, pois andava atrás dos demais, digitando no celular, quando foi chamado por uma voz conhecida.
— Mu? Ora, que agradável surpresa estarmos hospedados no mesmo lugar.
Era Myu. E estava acompanhado por um rapaz desconhecido.
— Que sorte encontrar você aqui. – Myu sorriu, educado e satisfeito.
O rapaz de cabelos compridos mordeu o lábio inferior. Sorte para quem? Ele os cumprimentou com sua polidez habitual, olhando de um para o outro.
Myu fez as apresentações. Seu amigo se chamava Lune, e os dois, como era de se esperar, estavam ali por causa do evento universitário.
Pensando em Aiolia – em como contaria aquilo a ele sem causar um rebuliço – Mu não reparou que Lune seguia segurando a mão que estendera para cumprimentá-lo por alguns segundos além do necessário. Só estranhou quando ele colocou a outra mão sobre a sua, inclinou-se e questionou em voz baixa:
— Você possui parentesco com o Shion?
Continua...
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