Encounter
8 Crazy On You
Notas iniciais
Capítulo VIII
We may still have time
We might still get by
But I tell myself that I'm doing alright
There's nothing left to do tonight but go crazy on you
Crazy On You — Heart
***
Havia um rapaz de cabelos compridos brincando com a ponta da própria trança, um rapaz de olhos azuis que talvez fossem verdes dirigindo e Heart tocando baixinho para eles no carro.
Ainda não haviam decidido para onde iriam naquele encontro. Caminhar na praia seria uma ótima opção, não fosse o clima. A primavera estava começando, no entanto, a ventania gelada do inverno persistia.
— Nada ao ar livre – disse Mu, analisando, através do vidro fechado, as árvores serem agitadas com furor pelo vento.
Apesar de não ser ruim ficar rodando à esmo no carro, não era lá muito prático em termos econômicos e requeria a atenção geral do motorista...
A dificuldade era não haver nenhum lugar fechado que cumprisse os pré-requisitos necessários – ou seja, em que pudessem conversar sem um monte de gente por perto –, nenhum que conseguissem lembrar, ao menos. Exceto...
— Já passou das dez? – Aiolia indagou.
— São nove e meia.
— A gente podia ir pra minha casa... A essa hora, acho que o pessoal já saiu ou está pra sair.
— Hmm... Sua casa? – Mu olhou-o de soslaio, desconfiado.
O rapaz de olhos verdes que tendiam ao azul riu.
— É uma ideia ruim?
— Não, mas...
— Olha, não vou mentir... Se me der brecha, pode crer que vou avançar em você como uma fera faminta...
— Céus! – exclamou Mu, incapaz de não soltar um riso baixinho. – Nada sutil... mas eu aprecio a franqueza.
Aiolia deu um aperto rápido na coxa dele e assegurou:
— Sinceridade sempre.
— Se é assim, tudo bem... – anuiu Mu, com um sorriso aéreo. Seu cérebro estava focado no tal avanço, fazendo com que pensasse alto: – Seria como um leão atacando um carneiro...
— Exato!
Daí, Aiolia perguntou por que logo um carneiro e Mu contou que seu signo era Áries, fazendo com que enveredassem por uma conversa sobre astrologia. O assunto virou mitologia e se transformou em diversos tópicos. A única coisa sobre a qual não falaram foi eles mesmos.
A espontaneidade de Aiolia não parava de impressionar Mu. Ele demonstrava animação, exalava liberdade; aquele tipo de companhia com quem se pode contar e se divertir. Ele podia falar sobre qualquer coisa e fazer com que Mu opinasse com boa vontade. Melhor do que falar: ele escutava.
Mu nem conseguia ficar chateado por não ouvi-lo falar da própria vida. Sabia que, se quisesse, podia fazer perguntas, mas sempre que se lembrava disso já estavam envolvidos em um bate-papo tão interessante que acabava esquecendo.
Era como se fossem amigos de longa data. E não era nada ruim.
*
Havia um rapaz de cabelos compridos curioso, um rapaz de olhos azuis-e-verdes sorridente e um grande gato preto com manchas brancas ronronando.
— Este é o Neil Peart! – Aiolia apresentou o felino que se enroscava em seus tornozelos.
O gato se esticou nas patas traseiras e apoiou-se com as dianteiras no joelho dele.
— Isso, desfia minhas calças... – reclamou, com ironia, coçando a cabeça do animal de estimação.
Durante a interação com Neil Peart, não percebeu que Mu os assistia com um sorriso admirado – em especial quando o gato ronronou alto, soltou uns miados e Aiolia indagou aconteceu tudo isso?, como se o entendesse.
Shina apareceu nessa hora, seguida por um gato filhote. Ela os cumprimentou com um boa noite meio desatento. O pequeno felino foi direto se enroscar nos tornozelos de Aiolia, igualzinho o primeiro gato havia feito.
— E este é o Keith Moon! – Aiolia apontou, dividindo a atenção entre os dois bichinhos.
— Por que tenho a impressão de que há qualquer coisa familiar nesses nomes?
— São bateristas que admiro – explicou, tirando a jaqueta e ajudando Mu a tirar o casaco. Pendurou as peças em ganchos perto da porta e levou Mu consigo para se sentarem num sofá de três lugares. Para a prima, inquiriu: – Cadê meu irmão?
— Saiu com o Clube dos Cinco – respondeu, olhando ao redor com atenção. – Por sinal, será que tem vaga no harém?
— Essa história ainda não parou?
— Não que eu saiba. Relaxa... Daqui a pouco, eles cansam dessa brincadeira.
— Hum – fez Aiolia, conseguindo, com um único resmungo, exprimir descrença e desagrado. – Por que você falou em vaga, hein? E o Seiya?
— E o Seiya é alguém que vou matar um dia desses. – Shina batucou no encosto do sofá. Sua vontade era cravar as unhas compridas nele. Conferiu atrás do móvel e encontrou o que procurava. — Ah, aí está você!
— E aquele é o Ginger Baker! – Aiolia indicou, assim que a prima ergueu o gato alaranjado nas mãos.
— Quantos gatos você tem?
— Esses três, por enquanto... – Viu Shina desabar na poltrona, mal-humorada, e estranhou. – Hey, você vai sair, né?
— Lógico! – afirmou, ofendida. – Nunca vou ficar mofando em casa, aborrecida por causa de homem. Vou sair com a Marin.
— Awn, vai explorar o outro time?
Shina contorceu o rosto em desgosto.
— Engraçadinho. Por que eu faria isso?
— Sei lá! Você já pegou o Milo, o Máscara da Morte e o Seiya... Como não deu certo com nenhum, talvez resolvesse tentar com garotas, pra dar uma variada.
— Dispenso. E não se esqueça de que eu peguei você também – acrescentou para Aiolia, mas encarando Mu. – É melhor já saber agora, certo? Pra não acabar descobrindo mais tarde e achar que fizemos sigilo disso por algum motivo obscuro.
O rapaz de cabelos compridos aquiesceu. Shina era tão direta que chegava a soar rude.
Aiolia revirou tanto os olhos que, por um milésimo de segundo, as íris verdes-e-azuis sumiram.
— Eu não me mencionei porque foi há eras. A gente tinha uns treze anos, acho. E não tentamos namorar, como aconteceu entre você e os três lá.
Shina assentiu. Graças às personalidades que possuíam, teriam se matado na primeira semana de namoro.
— De todo jeito, a Marin seria uma escolha impossível... Você sabe que ela... – interrompeu-se, estalando a língua. – Nada de garotas pra mim, okay?
E saiu da sala – dizendo que, depois de avaliar o estado lamentável da juba do primo, precisava prender os cabelos antes que Marin chegasse para buscá-la –, deixando Mu curioso sobre o que ela pretendia dizer a respeito da tal garota...
Visto o muxoxo que Aiolia deixou escapar.
*
Havia um rapaz de cabelos compridos sentado em um sofá ao lado de um rapaz de olhos meio verdes ou meio azuis, ambos voltados um para o outro, mais três gatos sem raça definida perambulando por ali.
Após uma conversa animada sobre gatos, que se tornou uma conversa abstrata sobre joias, Aiolia encostou a ponta do indicador nos brincos de Mu, expostos devido aos cabelos cor de lavanda estarem trançados, e conectou os dois assuntos com uma ponderação aleatória:
— Você tem tantos brincos quanto eu tenho gatos. – Virou um pouco o rosto de Mu, pelo queixo, e repetiu o gesto na outra orelha dele.
— Por enquanto... – Piscou, repetindo as palavras que Aiolia havia dito antes. Reproduziu o gesto de deslizar a ponta do dedo indicador sobre a pele dele. Não na orelha, mas, sim, abaixo do lábio inferior. – E você? Tem outros piercings?
— Vai ter que descobrir sozinho...
Mu apertou os lábios e estreitou os olhos.
— Imagino que isso se aplique à tatuagem que você mencionou ter ao nos conhecermos...
— Se quiser saber em qual parte do meu corpo ela está e se, além dela, tenho outras... sim. – Aiolia exibiu um sorrisinho enviesado. Abaixou a cabeça e, com a maior naturalidade, passou a mordiscar o pescoço de Mu.
O rapaz de cabelos compridos suspirou, franzindo um pouco o cenho, certo de que faziam algo inapropriado. Como não conseguiu definir o que seria, ele se deixou ser mordiscado... até que uma buzina soou, indicando que Marin havia chegado para buscar Shina, e os fez se separarem com um sobressalto.
Ela desceu as escadas em passos rápidos. Deu uma longa avaliada nos dois rapazes: estavam vermelhos, embora fosse preciso reconhecer que Mu, por ser pálido, se destacava fácil.
Demonstrando uma diplomacia atípica, Shina não fez nenhuma piada infame. Mandou beijos no ar para eles e saiu com a feição inabalada... entretanto, seus olhos verdes-claros cintilavam e Aiolia sabia que, no íntimo, ela ria.
— Caramba! Enfim sós... Achei que não ia acontecer nunca.
Não houve real espanto para Mu quando Aiolia, segurando seu rosto entre as mãos frias e um pouco ásperas, o beijou com entusiasmo. Beijá-lo ia além de provar a língua e os lábios dele. Envolvia sentir os dedos em seus cabelos, embrenhando-se por entre eles. Sentir aquelas mãos apertarem sua cintura, afagarem suas costas, alisarem seu abdômen e agarrarem suas coxas. Incluía vislumbrar sorrisos, ouvir balbucios ininteligíveis, cheirar a pele macia, sentir o calor da respiração em sua mandíbula. Era constatar que possuía um ponto sensível no pescoço capaz de causar gemidos à menor pressão...
Abstraindo o fato de que suas próprias mãos estavam bastante empenhadas em esquadrinhar as costas de Aiolia, Mu brincou:
— Por que tão apressado?
— Por que tão calmo?
Mu deixou escapar um risinho abafado e acariciou os cabelos de Aiolia, como se ele fosse um filhote que precisava ser tranquilizado.
Resignado, Aiolia fechou os olhos e se deixou afagar. Aí, teve um flash de compreensão.
— Isso é por eu não ter me redimido pela semana passada?
— Ahn? – fez Mu, confuso, penteando a franja bagunçada de Aiolia para um lado. – Pela sua desavença com o Máscara da Morte? Eu não fiquei aborrecido com aquilo.
— Mas ficou chocado – relembrou, sentindo-o deslizar a ponta do dedo por entre suas sobrancelhas. – Como posso me redimir?
Não bastasse o choque, Mu havia ficado ressabiado ao refletir o ocorrido. Então, se Aiolia estava disposto a compensá-lo por aquilo, considerou que era uma boa oportunidade para resolver o que o intrigava.
— Hmm... Que tal me contar um pouco sobre você?
Aiolia abriu os olhos, mais por Mu ter parado de tocá-lo do que por estranhar o questionamento feito.
— Não sei quase nada – Mu revelou, interpretando errado a expressão interrogativa dele. – Isto é, com exceção da sua fama, sei apenas que é um leonino de dezoito anos, que gosta de estourar plástico-bolha e de receber massagens, que detesta injustiça. Conheço seu irmão, uma prima e três gatos. Percebi que é fã de O Senhor dos Anéis...
Parou por um instante, dando continuidade em seguida:
— Mas nem imagino qual tipo de chocolate gosta ou em que posição dorme. Não sei se acredita em destino ou algo que o valha... São tantas coisas...
O rapaz de olhos azuis-e-verdes o encarou com atenção, mantendo-se em silêncio.
— Assim como você não sabe quase nada sobre mim – prosseguiu Mu. – Não sabemos muito um do outro. É normal. Nos conhecemos há uma semana. Só que não parece. Porque...
Interrompeu-se outra vez, refletindo se compensava finalizar o raciocínio. Toda aquela solicitude o fez compreender que permanecia se sentindo confortável com Aiolia e decidiu que compensava, sim.
Notando que ele esperava a justificativa, jogou as cartas sobre a mesa:
— Porque eu me sinto tão... bem com você, que as coisas parecem estar indo rápido demais. Exatamente como o Shaka falou.
A sobrancelha de Aiolia se arqueou em dúvida.
— Ah, Shaka é o loiro que saiu por último, depois da confusão no festival. Nem deu para apresentar. É o meu melhor amigo.
O rapaz de olhos verdes que talvez fossem azuis assentiu.
Houve um silêncio tão longo que Mu, com a cabeça abaixada, começou a sentir uma onda de surpresa e constrangimento. A surpresa era consigo mesmo, por ter se exposto, sendo que sempre havia sido uma pessoa hábil em controlar as emoções. O constrangimento era pela perspectiva do que poderia ouvir em resposta.
Afinal, e se Aiolia interpretasse que, por se sentir bem, Mu estava se apaixonando por ele? Ia acabar se sentindo pressionado. Ele poderia estar querendo apenas dar uns pegas... envolvimento físico, e não emocional...
O rapaz de cabelos compridos intuiu a direção de sua linha de pensamento e voltou a si. Não se arrependeu pelo que havia dito. Concluiu, com tranquilidade e clareza, que era melhor assim. Esclareceriam tudo. Se fosse para terem somente algo físico, tudo bem. Ao menos já saberia o que esperar.
— Todos.
A palavra repentina fez Mu pestanejar e erguer a cabeça.
— Gosto de todos os tipos de chocolate... – Aiolia declarou, olhando para cima e alisando o queixo com ar pensativo, franzindo a sobrancelha em uma concentração impenetrável. – Durmo largado sobre a cama, nunca acordo na posição que deitei. E não acredito em destino.
Sorriu, voltando a fitar o rapaz de cabelos compridos, e ficou sem entender o rosto corado dele. Será que havia dito algo embaraçoso?
— Não, não é nada – garantiu Mu, sem saber como explicar no que estivera pensando. Notou que ficar sem palavras era algo que acontecia com frequência em relação a Aiolia e esperou que, como das vezes anteriores, ele compreendesse seu silêncio e hesitação.
O rapaz de olhos verdes manchados de azul não o decepcionou. Aliviou o clima com uma interrogação simples:
— Hey, falando em chocolate... você já comeu brigadeiro?
— Não... É um doce?
— Sim, fiz questão de aprender a fazer com o Aldebaran; o cara grandão que segurou o Máscara da Morte, lembra? É minha especialidade culinária – reconheceu, levantando-se e estendendo a mão para ajudá-lo a se pôr de pé.
— Oh, você sabe cozinhar? – perguntou, segurando a mão dele.
— Bom... Fora o brigadeiro, eu sei usar o micro-ondas, isso conta?
O rapaz de cabelos compridos riu, balançando a cabeça em negativa.
— Imaginei. – Aiolia deu de ombros, levando Mu para a cozinha. – Estou com vontade de comer gordice. Venha! Eu cozinho e você aproveita pra me contar as suas preferências sobre chocolates e posições na cama.
— Posições na cama?
— Na cama... na mesa... no banho... Não tenho limitações. Você tirou a sorte grande!
Mu não conseguia duvidar daquilo.
*
Havia um rapaz de cabelos compridos sentado no canto de um sofá de três lugares, um rapaz de olhos verdes repletos de azul com a cabeça apoiada na coxa esquerda dele – o corpo deitado estava virado para cima, ocupando os outros lugares, as pernas apoiadas sobre o braço do sofá – e um gato alaranjado dormindo na poltrona ao lado.
— E aí, o que achou do brigadeiro? – Aiolia quis saber, com um suspiro feliz após terminarem de comer uma panela inteira do doce.
— Perfeito – admitiu Mu. Os dedos da mão direita passeavam pelos fios de ouro e bronze de Aiolia, roçando distraídos no couro cabeludo; mantinha a mão esquerda apoiada num ombro dele.
— Não mereço uma recompensa por ter apresentado tamanha perfeição? – Abriu os brilhantes olhos azul-esverdeados e pestanejou para ele, esperançoso.
Mu reprimiu um sorriso, concordando. Inclinou-se e beijou os lábios de Aiolia com tanta leveza que o fez emitir um ruído abafado de frustração. Repetiu o gesto, aumentando o nível de frustração. Na terceira vez, Mu foi segurado pela nuca, de modo que não teve outra opção a não ser a de beijá-lo forte na boca.
As reações de Aiolia foram animadas. Ele apartou os lábios rosados de Mu com a língua e aprofundou o beijo com gosto de brigadeiro. Mu já havia provado os beijos vorazes e impetuosos dele, tal como os raros beijos suaves e lentos. Já havia estremecido e suspirado por causa de todos eles, sentindo o coração acelerar e o sangue esquentar.
Porém, quando Mu resolveu mover a mão esquerda para baixo, abandonando o ombro para alcançar o tórax de Aiolia, o beijo começou a ficar diferente. Profundo, lento e... longe de ser um mero encontro de bocas, uma carícia de línguas e acidental bater de dentes... Mu podia sentir esse beijo nas células de seu corpo.
Com Aiolia foi semelhante. Ele estava fervendo de desejo, ou luxúria, ou seja lá qual fosse o nome da sensação que o dominava. Não importava! Não com Mu encontrando o caminho para seu abdômen sozinho – diferente da vez no carro dos gêmeos, em que precisou guiá-lo – e afastando a barra da sua camiseta para entrar em contato direto com sua pele.
Devagar, Mu deslizou a mão para cima, traçando os músculos abdominais, as costelas, alcançando o esterno e encontrando o pendente que, relembrou, não tinha visto. E continuou sem ver, por ora. Podia sentir o coração dele batendo sob seus dedos com força equivalente ao seu próprio. Deixou uma trilha de beijos da boca ao pescoço de Aiolia. O perfume lhe provocava tantas imagens iluminadas pelo sol que perdeu a noção do tempo. A noite se tornou um conceito distante.
O rapaz de olhos azuis manchados de verde estava dividido. Queria se levantar e jogar Mu ali no chão na mesma intensidade que queria esperar o que ele pretendia fazer. A dúvida o fez se remexer. O autocontrole ameaçava desaparecer. A única coisa que o impediu de assumir as rédeas foi sentir a palma morna de Mu voltar a se movimentar, dessa vez para baixo... com uma lentidão proposital e agonizante.
Aiolia ofegou. Cada terminação nervosa estava hipersensível, em alerta máximo. Puxou, de leve, os cabelos na nuca de Mu, bagunçando a base da trança. Afastou-o o suficiente para que pudesse voltar a beijá-lo.
Os dedos de Mu vagaram pelo umbigo de Aiolia até alcançarem o cós das calças jeans escuras, resolvendo percorrê-lo com paciência... e paralisaram sobre o primeiro botão.
Embora soubesse que tinha levado anos para aparecer uma pessoa que o deixasse confortável, que o fazia sorrir com facilidade, Mu travou incerto. Não sabia se queria que avançassem. Aliás, ele queria. Contudo, de repente ficou meio perdido e, para piorar, a pulsação acelerada em seu peito dificultava o raciocínio...
— Huh... O que foi? – questionou Aiolia, com a voz rouca e profunda. Encarava-o sob as pálpebras semicerradas, com a respiração descompassada em expectativa e as faces afogueadas em excitação.
O rapaz de cabelos compridos se encontrava em estado idêntico, se não pior. Sequer precisava conferir para saber como estava a situação abaixo da cintura de Aiolia. Não conseguiu articular nada. Sentia-se, de certa forma, desconcertado.
— Ah, como eu sou desatento – Aiolia repreendeu-se, dando um tapa na própria testa ao olhar para aqueles dedos imóveis sobre o botão de suas calças. – Você não é canhoto, certo?
— Quê? Ehrm, não! Não é nada disso – apressou-se a dizer, afastando a mão. Teve a vaga noção de que sua trança estava desalinhada e começou a desfazê-la, procurando manter as mãos ocupadas em uma falsa tentativa de ajeitar os cabelos. – Eu estou... intrigado e... Céus! Parece que seu gato está nos encarando com um interesse sinistro...
Atordoado com o comentário abrupto, Aiolia virou a cabeça para cima, tentando visualizar o gato. Teve que se sentar para conseguir.
Ginger Baker estava esparramado na poltrona. Os olhos amarelados semiabertos piscaram com languidez, como só um gato faz. Com muita dignidade, ele passou a lamber os pelos das patas. Não demonstrou o menor interesse nos humanos.
— Está intrigado com ele?
— Não, não... Acabei de reparar nele... Em todo caso, a sala não é um local adequado... Nunca se sabe a hora que as pessoas podem voltar.
— Você está certo – concordou Aiolia, o coração longe de desacelerar. Levantou-se num pulo, puxando Mu pelos pulsos para que o acompanhasse.
Teve que soltá-lo, a fim de dar alguns passos para trás e admirá-lo com os cabelos cor de lavanda cascateando pelos ombros até a cintura; os olhos verdes delineados de negro. Mu era bonito demais para ser real.
Sendo alvo de uma observação tão intensa, o rapaz de cabelos compridos considerou difícil não desviar o olhar. Sobretudo ao assistir Aiolia andar vagarosamente ao seu redor, movendo-se como... ah, sim, como uma fera faminta rondando a presa. Ficou claro que ele não estava brincando ao dizer, no carro, que faria aquilo.
Em vez de usar a energia acumulada para saltar sobre Mu, Aiolia parou atrás das costas dele. Tão perto que quase se encostou. Quase.
Mu fechou os olhos, mal respirando à medida que o escutava sussurrar direto em seu ouvido:
— Se a sala não é adequada... – Aiolia sorriu diante do estremecimento que provocou nele. – Quer conhecer meu quarto?
Continua...
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