Encounter
16 And Then…
Notas iniciais
Capítulo XVI
From the top to the bottom and then
I'll have faith, or I prefer
To think that things couldn't turn out worse
And Then… — Depeche Mode
***
Havia um rapaz de cabelos compridos pensando se iria sobreviver ao jantar. O restaurante era bonito, diversos aromas deliciosos preenchiam seu olfato. À mesa, na sua frente, sentava-se o rapaz com a pintinha charmosa. Ao lado dele estava Hilda. Portanto, um Saga distante da sobriedade ocupava o lugar justo ao seu lado.
Por quê? Sério! Afrodite poderia, pelo menos, ter feito a gentileza de ocupar aquele espaço. Mu não estava com um bom pressentimento quanto àquela noite. Respirou fundo... e capturou a atenção de Saga, até então vidrado na garrafa de vinho.
— Está sonhando acordado com nosso caro Aiolia?
Nosso? Foi o único pensamento que teve tempo de cruzar a mente de Mu antes que Saga se inclinasse em sua direção, apoiando o braço no encosto de sua cadeira, e sorrisse, causando-lhe calafrios.
Em vão, Mu buscou apoio em Afrodite. Ele parecia distraído ao examinar a decoração do local. Precisou chutá-lo de leve para conseguir alguma reação.
Afrodite fitou o semblante de súplica de Mu e reagiu com uma mera contração facial, indicando que nada daquilo fora proposto por ele – embora assumisse ser o responsável por convencer Mu a participar do jantar.
Enquanto isso, Hilda estava absorta no cardápio e não se deu conta do que acontecia.
Os dedos de Saga passearam, despretensiosos, pelo ombro de Mu.
O rapaz de cabelos compridos deu um pulo, seu corpo se curvando para frente de modo a escapar do toque. Teve que pensar depressa:
— Ahn, falando no Aiolia, Hilda comentou que vocês o conhecem desde que ele era bebê. Eu queria saber, hmm, bem, como ele era nessa época?
A sobrancelha direita de Saga se arqueou um milímetro. Não tinha graça falar sobre alguém que não estava presente para ter um ataque – e os ataques de Aiolia eram épicos.
— Ele era igual é hoje. Menor, claro. E, às vezes, mordia. – Levou o dedo indicador à bochecha de Mu, traçando um círculo invisível na pele macia. – Você gosta quando ele morde?
— Ehrm… – O rapaz de cabelos compridos se desvencilhou, tentando não corar. As pessoas nas mesas próximas teriam escutado tamanha indecência?
Não. O som ambiente consistia em várias conversas simultâneas, tilintar de copos e talheres. Ninguém demonstrava estar atento a eles. Exceto Afrodite e Hilda. Agora eles estavam dispostos a observar a conversa.
Mu proferiu um ruído desarticulado, impedindo Saga de persistir, e indagou:
— E quanto a você, Afrodite, como conheceu o Aiolia?
O rapaz com a pintinha charmosa franziu o nariz levemente arrebitado.
— Digamos que eu estava atraído pelo irmão dele.
O queixo de Mu caiu. Essa seria a razão para as críticas absurdas que Máscara da Morte vivia fazendo sobre Aiolos...?
— No entanto – Afrodite prosseguiu –, você deve ter percebido, é complicado se aproximar do Aiolos.
Mu contemplou de viés os dois membros do Clube dos Cinco presentes. Hilda sorriu. Saga se fez de desentendido.
— O Aiolos é um bolinho de canela precioso demais para esse mundo, temos que cuidar dele. – E soltou uma gargalhada que, por fim, despertou a curiosidade dos desconhecidos ao redor. – Um dia desses, vamos matá-lo…
Resolvendo não questionar o significado da declaração duvidosa, Mu comprimiu os lábios, ponderando se conseguiria tirar a garrafa do alcance de Saga sem que ele notasse.
— Hmph, se a dificuldade fosse apenas lidar com os cães de guarda do Aiolos… – Afrodite colocou uma mecha de cabelo para trás da orelha. – Enfim, não compensava gastar a minha beleza com essa história.
Aquilo fez Mu sorrir sem querer.
— Se era por causa da aparência, por que você não tentou o Aiolia? Quer dizer, eles são quase idênticos…
Afrodite revirou os olhos azuis. Depois do quid pro quo que vivera cuidando de Aiolia – na noite fatídica em que o rapaz passara mal na praça por ter bebido de estômago vazio –, só conseguia enxergá-lo como uma criança. Além disso…
— Não são todos que tem a sua sorte de ter conhecido o Aiolia solteiro.
— Ah. – Mu tomou por foco o garçom, torcendo para que fosse sua a refeição que ele estava carregando.
Ficou óbvio para todos que ele não queria continuar o assunto. Todos, menos Saga. Ele não entendeu – ou fingiu que não entendeu, de forma bastante talentosa – e especulou:
— É? Quem o Aiolia estava pegando?
Mu fechou as mãos sob a mesa. Não queria ter conhecimento daquilo. Como Aiolia tinha ficado somente com pessoas que eram amigas dele, Mu conheceria quem quer que fosse. Seria perturbador. E desconfortável. E, céus, por que o garçom estava demorando tanto?
Afrodite balançou a cabeça, indicando não se recordar. Aquela história tinha uns dois anos e, o mais importante, ele não costumava reparar nas relações alheias – exceto se fosse conveniente.
— Ah! Acho que era- Ouch!
— Quanta maldade, Saga – reprovou Hilda, beliscando o dorso da mão dele.
Mu fez uma expressão agradecida para ela e pôde respirar aliviado. Por alguns segundos.
Saga não tardou a resmungar:
— Você sóbria não tem graça, minha cara. Aqui, tome um pouco.
— Não! – Mu interferiu, causando uma nova onda de curiosidade no restaurante. Não importava. A perspectiva de ter de lidar com uma ébria Hilda era pior. – Ehrm… Amanhã temos palestras cedo, lembra?
Ela hesitou. Não tinha lhe ocorrido consumir álcool até Saga segurar a taça de vinho diante de seu rosto. A fragrância amadeirada começava a afetar seus sentidos…
*
Havia um rapaz de olhos tão azuis quanto verdes sentado sozinho em um dos bancos da praça movimentada. Contrariedade exalava de cada fio daquele cabelo castanho-dourado, Marin reparou ao se sentar perto dele.
A lua brilhava no céu escuro, longe da fumaça dos cigarros; rock clássico e conversas vinham do bar meio decadente do outro lado da rua. Indiferente a esses detalhes, Aiolia digitava no celular com uma agilidade impressionante.
— Hey! – Ela bagunçou-lhe os cabelos já revoltos por natureza. – Aborrecido?
Aiolia bufou para o aparelho, guardando-o no bolso da jaqueta, e contou a ela como Milo ficara pentelhando para assistirem a um show de uma banda desconhecida qualquer, dessas de garagem, e como tinha sido uma experiência terrível. O vocalista era incapaz de cantar. Ficava gritando feito uma banshee drogada, estragando todo o esforço musical dos colegas. Ao menos, não precisaram pagar para entrar, pois não conseguiram ficar nem cinco minutos aguentando aquilo.
Sem terem um plano B, decidiram ir para a praça. Entretanto, Camus surgira, sabe-se lá para quê, e desparecera com Milo há cerca de meia hora. Meia hora! O resumo da ópera: Aiolia estava entediado até os ossos. Metade das pessoas interessantes que conhecia estava fora da cidade, em congresso, e a outra metade ainda não tinha surgido.
— Meu irmão e os escudeiros dele são enrolados feito mulher pra sair... – Aiolia tirou o celular do bolso, rosnando. – Ops, sem ofensas, Marin. Você é sempre prática.
— Desculpe por não ser interessante.
— Qual é, Marin, você chegou agora. Não vale. O caso é: o Milo me encheu o saco pra sair e sumiu, sendo que eu poderia ter ficado em casa conversando com o Mu pela webcam, como eu estava fazendo.
A garota ruiva deu tapinhas consoladores no braço dele, meio brincando, meio sem saber o que dizer. Ou sabendo, mas não querendo dizer nada.
— Está sério mesmo então…
Ele assentiu com alegria, o pensamento distante. Ela abriu um sorriso triste e desviou o olhar. Após uma longa pausa para reflexão, acrescentou:
— Bom, vou indo.
— Você acabou de chegar!
— É que… sua prima está atrasada e… – Marin levantou-se do banco de súbito. – Vou descobrir a razão!
Aiolia imitou o movimento dela.
— Ué, você vai pra minha casa?
— Hmm… Espera, a Shina tinha dito algo sobre o Seiya… Vão sair, acho… Tomara que não se matem. – Deu passos largos para trás. – Vou indo para casa, ok?
— Eu te acompanho.
Ela reprimiu um suspiro. Não morava longe da praça. Não queria as gentilezas dele. O que o motivava era o tédio por não ter o que fazer. Nada tinha a ver com a sua companhia em si.
— Não se incomode. Em breve, seu irmão e os demais vão chegar e…
— Vamos! – Espalmou a mão entre as escápulas de Marin, empurrando-a sem força, e pôs-se a andar ao lado dela. – E se aparecem os malucos que mexeram com você naquele dia?
— Duvido. Ficaram aterrorizados com o irmão do Mu. E, em todo caso, eu posso me cuidar, sabia?
Aiolia fez um muxoxo. Ele sabia. O problema era seus impulsos se lembrarem disso na hora que se irritava.
— Ora, vejam quem está por aqui.
Impossível não reconhecer aquele timbre arrogante de voz. Aiolia levantou a cabeça de imediato.
— Você!
O rapaz de olhar solene fechou os olhos, os cílios estremecendo pelo déjà vu: aquele insolente era incapaz de chamá-lo direito.
— Meu nome é Shaka.
*
Havia um rapaz com uma bandana vermelha sentado no sofá, usando o celular para tirar fotos de seus três gatos espalhados pela sala. Estava tão tranquilo quanto não deveria estar, considerando que tinha acabado de ler uma dúzia de mensagens furiosas do irmão.
— Hey, pessoal, vocês vão demorar? O meu irmão vai mandar áudios nos apressando.…
— Você não parece preocupado… – Kanon se esgueirou por trás do sofá e apoiou os cotovelos no encosto, inclinando-se para sussurrar contra a pele do pescoço de Aiolos: – Eu estou pronto...
— Wah! – Aiolos atravessou a sala com uma velocidade que teria surpreendido um relâmpago. Cobriu a área afetada com uma das mãos e fez careta. – Por que vocês insistem em molestar meu pescoço se eu canso de falar que é sensível?
— Você respondeu a própria pergunta… – Kanon tentou reaproximar-se com cautela, como se ele fosse um animal arisco.
— Sai pra lá! – O rapaz com a bandana vermelha disparou na direção da escada, esbarrando em Pandora no caminho. Por reflexo, ele a segurou pela cintura, impedindo-a de cair.
— Whoa! Por que a pressa? – Ela pestanejou e apoiou as mãos nos ombros dele, aconchegando-se como quem não queria nada.
— O Kanon atacou o meu pescoço, sendo qu-…!
— Oh, assim? – Pandora ergueu-se nas pontas dos pés e deslizou os lábios sobre a pele abaixo da orelha dele.
Um arrepio correu pela coluna de Aiolos e, sem pensar, ele a soltou – não a derrubando por pouco. Ainda sem pensar, pegou Neil Peart no colo, segurando-o como se o enorme gato preto e branco fosse um escudo peludo.
Pandora e Kanon se entreolharam. Neil Peart miou baixinho.
— Aio-…?
— Nem vem você também, Shura! – Apontou um dedo em advertência para o rapaz que terminava de descer a escada e, passando por ele, subiu os degraus aos saltos, levando o gato junto.
— O que pretende fazer? – Pandora arriscou ao vê-lo chegar no topo da escada.
Aiolos franziu a testa, como se tentasse calcular o determinante de uma matriz quadrada de cabeça. Devagar, recostou-se no corrimão, numa atitude trágica, e declamou:
— "Farei tais coisas – quais, ainda o ignoro – que hão de ser o terror de toda a terra".
Com essa, ele sumiu no segundo andar.
A porta do quarto bateu. Um longo silêncio preencheu a sala.
Shura cruzou os braços, seu olhar cortante se fixando na dupla remanescente. O ar ficou carregado de hostilidade.
Baseando-se no fato de que Aiolos tinha acabado de fazer uma citação shakespeariana sem nenhum motivo aparente, Kanon abriu os braços com veemência e afirmou:
— Sagitarianos são todos estranhos…
A postura do rapaz de poucas palavras não mudou.
— É sério, pode perguntar por aí.
— Nem tanto… – Pandora tentou soar tranquilizadora. Uma proeza complexa com Shura a encarando daquele jeito.
Para seu alívio, ele grunhiu e deu as costas, indo para o quarto de Aiolos.
Com a imaginação elaborando um plano que tinha tudo para ser grandioso, Kanon se sentou no sofá e fez carinho em Ginger Baker.
O gato alaranjado ronronou e, em seguida, tentou esfolar a mão dele.
— Aff, seu duas-caras. Tem certeza de que seu dono não é meu irmão?
Ginger Baker balançou a cauda com languidez, fingindo que não era com ele.
— Por sinal, o que o Saga estará aprontando?
— Atente-se ao que você pode descobrir já. – Kanon piscou um olho para a garota, indicando o caminho tomado pelos outros dois.
A sala presenciou um novo silêncio conforme Kanon e Pandora subiam para o segundo andar de mansinho.
Ginger Baker notou o pequeno Keith Moon segui-los e não deu a mínima. Permaneceu esparramado no sofá… e fora da linha de fogo.
*
Havia um rapaz de cabelos compridos vivendo o sábado mais longo de sua vida. Ele era dotado de infinita paciência, diziam, por ter de lidar com o temperamento de Shaka, a obtusidade intencional de Afrodite e as decisões inexplicáveis de Shion.
Contudo, essa mesma paciência não estava sendo eficiente contra um Saga embriagado. Que dirá seria contra um combo de bêbados formado por Saga e Hilda! Ao vê-la titubear perante a taça de vinho, ele interviu com rapidez:
— Não é uma boa ideia beber hoje, não concorda, Hilda? – Queria dar uma bronca em Afrodite por ficar assistindo a tudo sem se pronunciar.
Por outro lado, considerando a queda de Afrodite por um revés dramático, era preferível que ele ficasse quieto.
— Um pouquinho não vai atrapalhar. – Saga agitou a taça de leve na frente do nariz da garota, com ar de convencimento e a confiança dos bêbados de fato.
— Bem… – Hilda levantou a mão, a hesitação desaparecendo.
Como ela tinha baixa tolerância ao álcool, um pouquinho extrapolava o suficiente. A única opção de Mu foi um gesto indelicado: segurou o punho de Saga e o puxou. A bebida rubra oscilou, não se derramando na mesa por um triz.
— Na verdade, pode atrapalhar, sim. Você pode acordar com dor de cabeça, por exemplo, o que afetaria a sua permanência nas apresentações de amanhã. – A voz de Mu ecoou calma e racional, com nuances de autoridade apreensiva, porém incontestável. Do jeitinho que aprendera observando Shion.
Com um suspiro profundo, Hilda assentiu devagar, abanando o rosto corado com a mão, e se concentrou na refeição.
Saga limitou-se a estreitar os olhos, deixando evidente para o rapaz de cabelos compridos que não se tratava de uma derrota. Seu recuo era um procedimento tático.
Os quatro foram servidos e o jantar teve início em um silêncio apreciado, apesar de Mu precisar se manter alerta. Afinal, Saga continuava bebendo. Naquele ritmo, até terminarem, as coisas podiam acabar se complicando de vez.
Nesse momento, Saga se virou para ele e sorriu. Céus! Nenhum ser humano deveria ter um sorriso tão desconcertante, sugestivo e insano. Não inspirava confiança. Nenhuma.
— Acabou de me ocorrer, Mu…
— Hum.
— Não é excêntrico o Aiolia se manter silencioso? Só a respiração se altera, ele nunca deixa escapar nem um mísero gemido…
O garfo de Mu parou no ar, a caminho da boca. Ele quase inquiriu como você sabe?, mas intuiu que acabaria ouvindo algo que não queria. A única maneira de escapar era não se deixar atrair para essas armadilhas. Bastava não replicar e estaria a salvo.
— Não deixe o Saga entrar na sua mente – alertou Hilda, com a voz firme e o rosto irradiando cortesia. – Ele não poderia saber isso. É um chute para induzir você a revelar a verdade, Mu.
O rapaz de cabelos compridos piscou. Puxa, ele conseguiu dar um chute certeiro!
Como se tivesse ouvido seu pensamento, Afrodite comentou:
— Eu chutaria o mesmo. Aiolia é tão barulhento, em geral, que deve ser silencioso em algo atípico.
Saga parou de fulminar Hilda, por ela ter se atrevido a interferir, e voltou a se animar:
— Por essa lógica, por você ser sempre tão quieto, podemos assumir que deve fazer o maior escândalo, hein, Mu?
O fluxo de sangue no rosto do rapaz de cabelos compridos se intensificou, fazendo com que os sinais em sua testa se misturassem ao vermelho de sua pele, tornando-se indistinguíveis. Devia se dedicar a terminar o jantar. Depressa.
Mal segurou o talher e teve que soltá-lo. Uma sombra se projetara sobre a mesa.
— Olá, Mu!
— Myu?!
Continua…
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