Encounter

17 I Believe In You


Notas iniciais
Dessa vez até que voltei rápido, hein? :D Bom, Fausto é um personagem, de uma lenda alemã, que fez pacto com um demônio para conseguir o que queria. Daí a expressão "barganha faustiana". Fausto é bastante conhecido pelo poema de mesmo nome escrito por Goethe. Agradecimentos ao Orphelin, o carneiro-beta coloridíssimo de ciúmes, pelas revisões~

Capítulo XVII

Why does no one understand
Why I need to make a stand
I need to hear I believe in you
Why won't someone say these words
Are they really so absurd?
I Believe In You — Twisted Sister

***

Havia um rapaz de cabelos compridos desejando estar em casa, a quilômetros dali. Não bastasse ter que lidar com um Saga ébrio, agora teria que lidar com um pseudo-ex? Com certeza tinha transgredido alguma ordem divina, em outra vida, para ser castigado nessa.

Pelo sorriso educado, Myu aguardava uma réplica para o cumprimento que fizera. Sem disposição suficiente para retribuir, Mu balbuciou:

— Boa noite, Myu… – Seu olhar deslizou para trás dele, notando que o recém-chegado não estava sozinho. – E… Zelos?

A impressão de Mu foi a de que o próprio Myu ficou intrigado ao se virar, como se ele não esperasse que Zelos estivesse ali. Por sua vez, Zelos estava concentrado em Hilda.

— Ora, se não é o capacho número um da Pandora. – Saga indicou Zelos com desdém, estava falando com Hilda. – Ou esse papel é do Radamanthys e esse é o puxa-saco oficial da Pandora?

Ela contraiu uma sobrancelha, demonstrando não ter a menor ideia. Zelos, em contrapartida, não se mostrou perturbado pelos títulos. Não que fizesse diferença, porque Saga estava atento a Myu.

— Eu já vi você por aí com o pessoal do Radamanthys.

Pela feição cautelosa de Myu, Afrodite poderia dizer que ele também já vira Saga por aí e não tinha sido na versão racional.

— Poucas vezes, sim. É raro eu sair. – Myu se justificou, adicionando: – Não sou responsável pelo que eles possam ter aprontado.

A única questão na cabeça de Mu era: por que esses dois estão conversando? Deveria ter sido uma simples troca de cumprimentos, com Myu saindo na sequência. Teria Afrodite informado a Saga que ele, Mu, saíra com Myu no passado e, por isso, Saga estava puxando conversa de propósito para perturbá-lo? Ou ele estava falando por falar, naquela lógica bêbada incompreensível?

— É mesmo? Junte-se a nós e explique melhor. – Saga esboçou um sorriso torto e gesticulou para uma cadeira vazia na ponta da mesa, perto de Mu e Afrodite. Então, apontou para Zelos. – Você, não. Pode ir.

O rapaz de cabelos compridos não escutou se Zelos replicou, nem percebeu Myu olhá-lo em busca de uma confirmação sua para se sentar. Àquela altura, não seria capaz nem de dizer o que estava jantando, visto que identificar sabores e aromas se tornou complicado devido à apreensão.

— Mu? – Myu apoiou a mão sobre a dele.

— Sim? – Esquivou-se, observando que ele tinha se sentado.

— Desculpe, eu…

Durante a tentativa de Myu para encontrar as palavras certas, Zelos fez careta para Saga e contornou a mesa para abordar a única garota entre eles.

— Senhorita Hilda… Tem notícias da senhorita Pandora? Poderia dar um recado para ela?

— Ela não gosta de recados.

A face e a voz de Hilda estavam tão frias que o interesse de Saga em Myu evaporou. Sua expressão mimetizou a dela ao dizer para Zelos:

— Falei para você cair fora.

Zelos se afastou, não sem soltar grunhidos contrariados, girando o pescoço várias vezes para espiá-los.

— Aquele sujeito é tão estressante, não é? A Pandora tem cada fã… – Saga fez seu melhor ar solidário, empurrando a taça de vinho pela mesa, para perto dela. – Por sinal, vi alguns membros do seu séquito de admiradores pelo congresso, minha cara!

Hilda bufou de leve, como se estivesse resignada a suportar tolos. Contudo, Saga reparou, o gelo no rosto dela não tinha derretido.

O rapaz com a pintinha charmosa estava atento a Myu. Tentando, pelo menos. Era entediante vê-lo se perder para dizer o que queria. A serenidade exterior de Mu, entretanto, não enganava Afrodite: ele estava perturbado.

Desconfiava de que havia algo errado com Mu. Imaginara que ele se sairia melhor em lidar com Saga…

A concentração de Afrodite se dispersou. Portanto, ele foi o primeiro, após Saga, a ver Hilda levar a taça aos lábios.

Por mais que Afrodite não quisesse se intrometer, considerou aquele um momento adequado para retribuir o chute que Mu tinha lhe dado antes para capturar sua atenção.

Myu estava se explicando, sobre não ser sua intenção atrapalhar, quando Mu sentiu o golpe. Seu olhar foi direto para Afrodite, que estava virado para o lado. Mu seguiu o olhar dele.

— Hilda!

Tarde demais. Ela tinha virado a bebida toda em um único gole.

Ah, céus! Mu quase enterrou a cabeça nas mãos. Mais essa! Que barganha faustiana teria que fazer para escapar dali?

— O que foi? – Myu se deteve para não tocar nele outra vez.

Gesticulando na direção do banheiro e sem se dignar a olhar para Saga, Mu se levantou e atravessou o restaurante. Quem sabe já estivesse no inferno e fosse esse o problema.

*

Havia um rapaz de olhos azuis-e-verdes encarando um rapaz de olhar solene. A impressão de Marin era a de estar vendo dois oponentes medindo um ao outro.

— Ehrm, Aiolia…?

Chamá-lo foi uma má ideia. Fez com que Shaka se conscientizasse de sua presença e a analisasse de cima a baixo. Estaria tentando ler sua alma?

— Se está pensando em contar ao Mu que me viu andando à noite com uma ruiva misteriosa – Aiolia falou com descaso –, nem precisa se dar ao trabalho, Shaka. Ele conhece a Marin e sabe que ela é minha amiga.

Para alívio de Marin, Shaka fechou os olhos. A sensação foi a de um holofote que houvesse sido apagado.

Ele voltou a abri-los no instante seguinte, focalizando em Aiolia.

— Para sua informação, não possuo o menor apreço por intrigas. Se você for tão inadequado como eu acredito que seja, vai se colocar em encrenca com o Mu por conta própria.

— Ah, você ia adorar, não é?

Daí em diante, Marin perdeu o fio da meada. Era nítido que Mu era o centro da discussão – o motivo era obscuro. Ela guardou suas teorias, não ousaria interferir. Por outro lado, estar perto deles era desconfortável. Shaka era intimidante e Aiolia era… bem, ela precisava se distanciar dele.

— Hum, rapazes? – Deu passos largos para longe. – Rapazes! Com licença, eu preciso ir.

— Espera, Ma-!

Ela não esperou e, para evitar que Aiolia continuasse a escoltá-la, interrompeu a fala dele com um não se preocupe, obrigada! e disparou pela calçada.

Aiolia bagunçou os cabelos da nuca, esquecendo-se da presença loura ao seu lado.

— Não me diga que é tão estúpido quanto aparenta ao ponto de não perceber que aquela garota gosta de você.

A voz de Shaka era arrastada e a raiva de Aiolia reacendeu de imediato.

— Eu sei, seu entojado! Não tem o que fazer. – Abaixou a cabeça, desolado. Aí, ergueu o queixo para Shaka. – E não venha me dizer pra largar o Mu e ficar com ela.

Foi a vez do rapaz de olhar solene se exasperar.

— Não se atreva! O Mu não merece ser largado. Ele que precisaria largar você. – Ergueu a mão, para que ele não o interrompesse, e prosseguiu: – Não fique sendo tão afável com essa moça.

— Você quer que eu a trate mal?

— Não. Estou dizendo que é improvável ela superar com você exagerando na afabilidade.

O rapaz de olhos verdes quase azuis tocou o piercing em seu lábio inferior. Não tinha refletido por aquele ângulo. Queria compensar Marin sendo legal com ela. Era o correto a se fazer. Nem se estivesse solteiro poderia ficar com ela. O que havia entre eles era pura e simples amizade. Era como funcionavam.

Apesar disso, não precisava de conselhos daquele intrometido!

Shaka! – Ikki chegou em alta velocidade e, por consequência, interrompeu a nova explosão de Aiolia. – Por que você saiu andando na frente? Não podia aguardar? Tem certeza de que eu sou o impaciente?

— Absoluta – Shaka garantiu, lançando um último olhar de aviso para Aiolia, e saiu andando com um aceno lacônico à guisa de despedida.

— Hey!

Hey digo eu! – Aiolia entrou na frente de Ikki. – Por que está andando com esse maluco?

— Fomos ao teatro.

Teatro?

— Teatro – repetiu Ikki, com o tom de voz a desafiar qualquer um que se atrevesse a criar caso. – Vai dizer que você nunca teve que fazer o que não te interessava por causa do Mu?

Aiolia assentiu. É lógico que sim. Por exemplo, ele assistia àqueles filmes dramáticos e antigos chatíssimos, sem nenhuma ação, porque Mu os adorava. Em compensação, Mu assistia aos filmes de ação sem reclamar. A paz reinava – até subirem os créditos e um criticar a escolha do outro.

— É tipo a Lei da Troca Equivalente no namoro… – Aiolia interrompeu-se, boquiaberto. – Aw, cara, não vá me dizer que estão namorando!

— Não. – Como a descrença no ar era evidente, acrescentou: – É complexo, deixa pra lá.

Ele contou aquilo mirando o caminho que Shaka percorrera, deixando Aiolia confuso sobre para quem era aquele deixa pra lá. Ikki dava mostras de ter desanimado em seguir o loiro.

Aham… – Aiolia coçou uma barba imaginária, do jeito que Milo costumava fazer ao analisar algo que o intrigava. – Vocês parecem íntimos… Acha que a antipatia dele comigo pode ser por ele estar a fim do Mu?

— Quê? Não, claro que não. Eles são melhores amigos há eras. Shaka é prático e abomina enrolações. Se ele gostasse do Mu desse jeito, já teria dito a ele.

A afirmação soava sensata. Aiolia refletiu um pouco e bateu as mãos.

— Ele pode estar a fim de mim?

Não era uma hipótese em que apostaria. Seu objetivo era pentelhar Ikki.

Nunca! Enlouqueceu? Não tem a menor chance de acontecer.

Os olhos azuis-ou-verdes cintilaram.

— Por quê?

— Ora! Você é briguento, genioso e…

— Você também é. Não impediu vocês de irem ao teatro juntos…

— Não importa. Shaka não é para suas patas!

— Aff, nem quero. Só estava tentando descobrir qual a birra dele comigo.

— Acho… – Ikki cutucou a cicatriz que possuía na testa. – Acho que é porque vocês têm coisas em comum… – Balançou a cabeça em negativa. – Sei lá! Vou indo ou o azedume dele comigo vai piorar.

Ele se afastou, deixando Aiolia horrorizado. O que poderia ter em comum com aquele ser arrogante?

*

Havia um rapaz de poucas palavras parado, com os punhos apertados, ao lado da cama em que um rapaz de bandana vermelha se encontrava deitado com um gato enorme enroscado sobre o tórax.

A única luz era a da lua, entrando pela janela aberta. O perfil de Aiolos parecia nobre e triste enquanto a admirava. Shura sabia que, seja lá o que fosse que Kanon e Pandora haviam aprontado, não era o que o estava perturbando.

Ele também sabia que se arrependeria de perguntar se havia algum problema. Não obstante, inquiriu mesmo assim.

— Nenhum. – Aiolos soltou um breve suspiro, sem desviar o olhar da janela. – Estou bem.

Aiolos

— Okay, é que está tarde e eu queria tanto uma taça com vários sabores de sorvete, cobertura de chocolate e aquelas coisinhas coloridas felizes…

Shura trincou os dentes. Detestava concordar com a versão alcoolizada de Saga em qualquer circunstância, porém, começava a acreditar que ele estava correto ao dizer que um dia desses matariam Aiolos.

— Ainda que eu não duvide que você queira um sorvete, creio que não é isso que está te incomodando.

— Não é um sorvete qualquer! Não tem sorveteria aberta a essa hora. E se eu fosse uma garota e estivesse grávida? Meu filho ia nascer com cara de sorvete! Meu pobre bebê…

— …

Se Aiolos fosse uma garota, Shura ponderou, jamais engravidaria porque a teriam eliminado na infância. Ele desandou a falar incoerências e era inútil pressioná-lo. Aiolos era impossível de encostar na parede; incapaz de dar respostas objetivas e claras. Shura desistiu de dirigir-lhe perguntas e passou a dar ordens:

— Levante-se!

O rapaz de bandana vermelha fungou, limitando-se a fazer carinho em Neil Peart.

— Não me obrigue a tirar você daí.

— Não é fácil sair debaixo de doze quilos de gato!

Um meio sorriso se abriu no rosto de Shura. Sentou-se na cama e inclinou-se sobre Aiolos.

— Quer dizer que você não vai se levantar?

— Vou! Vejamos… – Aiolos se remexeu, tentando fazer Neil Peart acordar e sair de cima de seu tronco.

Dormindo, imperturbável, o felino preto e branco ronronou tão alto que o cérebro de Aiolos criou associações com geladeiras. A próxima ideia seria rolar o gato para o colchão. Shura se adiantou e espalmou as mãos ao lado de seu pescoço, encurralando-o.

Aiolos pestanejou e baixou o olhar para Neil Peart. Faltavam meros centímetros para que o coitado fosse prensado entre seus tórax.

— Se fosse o Ginger Baker, estaríamos cobertos de arranhões – comentou, seu raciocínio se perdendo em divagações sobre os gatos.

Shura estreitou os olhos e, tomando cuidado para não esmagar Neil Peart, aproximou-se de Aiolos até que as pontas de seus narizes se tocassem.

— Huh… – fez Aiolos, estrábico e impossibilitado de se movimentar. Considerando rude soltar exclamações com Shura tão próximo, relembrou em um sussurro: – Temos que ir. Meu irmão está esp-…

— Eu sei.

O rapaz de bandana vermelha avaliou os traços compenetrados de Shura e sorriu.

— Estou bem – assegurou, movendo a cabeça algumas vezes para que seu nariz roçasse no dele de leve.

Shura assentiu devagar.

Aí, alguém espirrou. Shura endireitou-se, seu olhar retalhando a porta do quarto. Aiolos precisou de alguns segundos para entender que o espirro não tinha vindo do gato.

Ouviu-se um murmúrio do outro lado da porta. Depois outro. Depois silêncio – o silêncio contido feito por duas pessoas tentando ficar despercebidas.

O rapaz de poucas palavras levantou-se da cama, batendo os coturnos no chão. O silêncio se transformou em um rebuliço de ruídos abafados se afastando. Ele revirou os olhos e escancarou a porta.

Keith Moon, o único ser vivo ali, miou para ele.

— Ué. Foi você que espirrou? – Aiolos indagou ao gatinho, abaixando-se para pegá-lo no colo, alheio ao olhar incrédulo que Shura lhe direcionava.

— Você só pode estar brincando.

Com Keith Moon aninhado em um dos braços e Neil Peart no outro, Aiolos soltou uma risada rouca e repleta de alegria. Shura o observou descer as escadas. Seus ombros relaxaram diante daquele som, livrando-se da tensão até então ignorada.

Droga. Não dava para matar uma pessoa que ria daquele modo.

*

Havia um cachorrinho peludíssimo correndo atrás de um rapaz de aspecto amigável que, por sua vez, se apressava atrás de um rapaz de aparência imponente, tentando convencê-lo a mudar de ideia.

— Vamos, Shion, deixe o Mu se cuidar sozinho. Ele tem dezenove anos, lembra?

— Dezenove é quase quinze, que é quase onze. – Shion fez um gesto de dispensa, terminando de fechar uma pequena mala de viagem.

— Você está sendo absurdo. – Dohko se sentou na cama, olhando ao redor em busca de inspiração.

O quarto era rústico – com madeira, tecidos naturais e algumas plantas – e minimalista. Não havia muito a se contemplar.

— Você tinha dezoito na época que conheceu o Lune e lidou com ele sozinho.

— O que não te impediu de interferir – Shion pontuou, conferindo em sua checklist de viagens no celular se providenciara o necessário.

— Eu era jovem e possessivo. Você não acreditava que eu fosse ficar sentado assistindo àquele cretino te assediar, não é? – Dohko abriu a mala e começou a desfazê-la. – O Mu é seu irmão. É diferente.

Shion deu um tabefe na mão dele, empurrando-o para o lado, e reorganizou a bagagem.

— Talvez.

Talvez nada. Você sabe que é diferente.

Shion o olhou com dureza. Dohko o olhou em desafio. As vontades opostas tiniram feito pratos musicais e o ar entre eles se adensou. Hamal – que estava acostumado com aquele tipo de cena e não gostava de ser ignorado – latiu, pulando nas pernas de ambos.

— De qualquer forma, quero descobrir o pretexto de Lune para estar nesse congresso sem relação com a área dele.

Dohko meneou a cabeça com relutância, afinal, era suspeito. Será que não dava para Shion tentar contatar Lune em vez de ir?

— Tentei. Foi em vão. – O rapaz de aparência imponente voltou ao celular e, agitando um dedo em advertência para Dohko se manter afastado da mala, procurou um número específico.

— E para quem vai telefonar?

— Aiolia.

— Shion! Você combinou com o Mu que não envolveria o Aiolia – recordou, tentando afanar o aparelho dele. – Aliás, você mal deixou opções para o coitado.

— Eu vou pedir para o garoto cuidar do Hamal. Os dois se adoram. – Shion desviou-se, mantendo o celular fora de alcance. – A não ser que você pretenda ficar em casa…

— Hah! Boa tentativa. Não tem a menor chance de você ir sozinho ao lugar em que aquele cara está.

— Imaginei. – Deu uns tapinhas na cabeça de Dohko. – Vá se preparar.

— Nenhuma possibilidade de eu te convencer do contrário?

Shion considerou por um segundo.

— Não, acho que não.

— Então, coloque-se no lugar do Mu. Você não explicou a ele a causa para o Lune ser problemático e não quer deixá-lo se virar sozinho. Já pensou que o Mu pode estar sentindo que você não confia nele? – Encaixou um dedo no passador de cinto das calças de Shion, puxando-o para se sentar na cama.

— Não tenho a intenção de sugerir que o Mu não é confiável. Estou tentando ser um bom irmão mais velho – Shion esclareceu. – Estou sendo injusto em querer cuidar do meu irmão caçula?

— Não. Apenas não pode exagerar. Ele nem pediu ajuda.

— Quando ele pedir, pode não dar tempo.

— Quem ouve você falando pode concluir que o Lune é um assassino, um estuprador ou algo do gênero. Vamos, Shion, você ensinou o Mu a enfrentar diversas complicações, incluindo as que o Lune possa criar.

O rapaz de aparência imponente se deixou cair de costas na cama e suspirou.

— E eu achando que você tinha melhorado com a idade… O Dohko das antigas iria ao congresso e resolveria a situação com menos tato.

— É, e você odiaria. Logo, sim, eu melhorei.

— Será que o Aiolia vai melhorar? Sabemos da tendência dele ao caos.

Shion vinha aceitando a presença de Aiolia como uma espécie de catástrofe natural.

— Um dia, lá pelos duzentos anos, que é o chute dele para minha idade, por que não?

— Que ancião você…

— Você é outro velho, Shion! – Dohko riu e deitou-se ao lado dele, afastando-lhe uma mecha de cabelo da testa.

De súbito, veio à mente que Shion tinha o hábito de concordar sem ceder. Em geral, Shion concordava porque era a coisa diplomática a se fazer. Era uma tática para ganhar tempo até poder decidir o que realmente faria. Por essa razão, Dohko questionou com cautela:

— Posso confiar que você não vai escapulir no meio da madrugada para ir até o Mu?

— Você crê que eu faria uma coisa adolescente dessas, mas me chama de velho?

— A senilidade pode levar a comportamentos estranhos…

— Senil? – Shion pôs-se de pé, pegou a bagagem e saiu do quarto. – Está decidido: quero distância de você! Venha, Hamal…

O cachorrinho foi, sacudindo o rabo felpudo.

Rindo, Dohko os arrastou de volta ao quarto. Colocou um Hamal agitado no chão e fez Shion se sentar.

— Você não pode ir sem me responder.

A face imponente de Shion prometia sofrimento eterno.

— Se ele pedir ajuda, eu irei. Se ele não puder me pedir ajuda, eu vou ficar irado com você.

Quanto a essa última parte, Dohko não tinha a menor dúvida. Confiava em Mu o bastante para arriscar.

*

Havia um rapaz com uma tatuagem de escorpião e um rapaz de vibrantes cabelos vermelhos caminhando rumo à praça.

— A gente tem que ir? O Aiolia deve estar bravo porque sumi. Vai querer me punir. É o nosso acordo.

— Se você não for, ele vai te punir em dobro, não?

Milo estalou a língua. Que injustiça!

— Eu sumi um pouquinho porque você chegou e…

Camus parou de andar.

— Não estou te culpando! Nem reclamando! Estou elaborando minha explicação…

— Ele não está.

Ah, tinham chegado à praça. Milo vasculhou o local cheio de gente. Nenhum sinal de Aiolia.

— Putz, que droga. Fica aqui, caso ele apareça – pediu, falando por cima do próprio ombro, pois estava se dirigindo ao bar do outro lado da rua. – Vou investigar se o pessoal ali sab- ouch!

Milo virou-se para frente e colidiu com a pessoa que vinha em sentido oposto.

— Aff, olha por onde anda!

— Um dos pivetes do Aiolos.

Agh. Era Radamanthys. Milo encarou aquele inconveniente com um quê de incredulidade.

— Não sou um pivete, nem sou do Aiolos, mas as duas opções seriam melhores do que ser o cãozinho obediente da Pandora.

O semblante de Radamanthys se fechou. Não gostava que falassem de Pandora e Milo tinha consciência disso. E daí? Ela vivia colada em Aiolos desde que Aiolia e Milo eram pequenos, o que significava que, ao conhecer a garota, Radamanthys nem tinha noção de que ela existia.

— Nunca precisei obedecer para ter a atenção dela… – Milo comentou com insolência.

Por atenção, ele queria dizer que tinha conversado várias vezes com ela. Radamanthys não entendeu dessa maneira. Seu punho agarrou a gola da camiseta de Milo, puxando-o para si.

O rapaz com a tatuagem de escorpião espelhou os movimentos dele, ambos se segurando pelas roupas. Dava para ver que Radamanthys estava enfurecido. Enfurecido pra caramba. Excelente! Milo estava com um estado de espírito disposto a brigar.

— Milo. – O tom de Camus era repreensivo. – Venha… Acabei de ligar para o Aiolia. Ele não está distante daqui.

Radamanthys esboçou um sorriso maldoso e empurrou Milo com força, soltando-o. Camus avançou para segurar um braço do namorado, impedindo-o de rebater.

Milo.

Lançando um último olhar fulminante para Radamanthys, Milo deixou-se guiar para longe dele.

— Quem é o cãozinho obediente agora, pivete?

Camus sentiu os músculos de Milo se enrijecerem e reforçou o aperto, acelerando o passo.

— Você não é tão agressivo quanto o Aiolia. Sei que consegue se conter.

— Eu me contive – rosnou, esforçando-se para não se soltar de Camus e revidar. – Não meti um soco no maldito na hora em que ele trombou em mim com aquela monocelha ridícula!

— Se você não notou, ele não estava sozinho. Dois amigos dele estavam no bar.

Camus não precisou dizer o óbvio: as probabilidades insinuavam que Milo levaria a pior.

— Legal. Você faz um cara se sentir forte, Camus…

Não ser tão agressivo quanto Aiolia não significava que Milo gostava de desaforos. Sequer seria a primeira vez que brigaria com o grupinho de Radamanthys, embora nas outras vezes estivesse com Aiolia.

Hum, duvidava que Camus fosse aprovar.

*

Havia um rapaz de cabelos compridos encostado em uma das paredes do corredor que levava aos banheiros do restaurante. Poderia fugir sem arruinar a sua dignidade? Achava que não. Teria que retornar, terminar o jantar e tentar partir sem maiores dificuldades.

Para se animar, estava apreciando a foto no contato de Aiolia no celular. Será que era uma boa ideia ligar?

Mu queria muito conversar com ele, era sempre tranquilizante… Aí, teria que explicar o porquê de estar acordado, sendo que tinha dito que ia dormir cedo… o que levaria Aiolia a especular sobre o estado de Saga e Hilda… o que levaria a Myu… a confusão… Mu teve dúvidas se acabaria a conversa reconfortado ou com uma dor de cabeça pior.

Seria menos exaustivo se dissesse a Aiolia que ele tinha razão, que era perturbador aguentar Saga e Hilda bêbados, sem falar em tolerar Myu enquanto Afrodite não se manifestava? Se pedisse que Aiolia o tirasse daquela situação, o que aconteceria?

Um calafrio cruzou a espinha de Mu. Seria um pandemônio se Aiolia chegasse. Precisaria da ajuda de Aiolos para acalmá-lo. Com Aiolos viriam Shura, Kanon e Pandora. Shion poderia surgir, acompanhado por Dohko. E Milo tinha o dom de aparecer do nada! Caos, pânico e desespero. Mu teve a terrível percepção de que acabariam a noite na cadeia.

Suspirou para o contato de Aiolia. Não era prudente arriscar, não importava o quanto quisesse falar com ele.

— Está tentando se comunicar por telepatia?

Mu sobressaltou-se. Hilda estava ao seu lado e ele não conseguiria dizer desde quando. Sem dar espaço para que pudesse replicar, ela sibilou um tente assim e pressionou o dedo na tela de seu celular.

— Hilda!

Pela segunda vez na noite, era tarde demais. Ela tinha entrado no banheiro feminino, soltando sua característica gargalhada ébria alarmante – quantas taças de vinho já teria bebido? –, e o celular estava chamando Aiolia.

É evidente que, com o universo conspirando contra Mu naquela noite, Aiolia atendeu antes que pudesse encerrar a chamada.

— Mu? Que sorte, eu estava morrendo de tédio! Opa, o que há? Você não ia dormir?

— Oh, olá, Aiolia – disse Mu, soltando a respiração que nem percebera ter prendido. – Eu… tive que cancelar esse plano. O Afrodite insistiu para jantarmos fora… – Bom, era verdade. Mu emendou depressa: – Ahn, por que o tédio?

Se o distraísse, ele não faria indagações, certo? Mu o escutou com cuidado, em busca de ganchos para assuntos que concentrassem a conversa em Aiolia, e não em si mesmo.

— Você encontrou o Shaka? Puxa, diga que não discutiram.

— Nada além do usual. Viu, tem algo rolando entre ele e o Ikki?

— Não que eu saiba. É difícil compreendê-los.

— Hmm Enfim o Afrodite não vai se aborrecer por ficar sozinho?

O rapaz de cabelos compridos dedilhou os três brincos que possuía.

— Não, ele… está com a Hilda…

— A Hilda? Calma aí, o Saga também, né? Eles?

— Aiolia! Ouça, eu queria muito, muito mesmo, conversar com você. Nós podemos não focar neles?

— Mu

— Por favor? Amanhã eu explico, prometo.

Houve uma longa pausa do outro lado da linha. Mu se flagrou puxando os brincos a ponto de sua orelha doer. Por fim, veio um chiado indecifrável – que supôs ser Aiolia bufando –, seguido pela voz contrariada:

— Aposto que tenho motivos pra ficar furioso, mas okay, Mu. Você está bem, né?

— Sim. – Ali, falando com Aiolia, estava ótimo. – Obrigado.

— Bom, se você não quer falar do que está acontecendo aí, não faz sentido eu ficar falando daqui.

— Vamos conversar sobre nós.

— Boa ideia. O que você está vestindo?

Sorrindo, Mu ajeitou as próprias roupas.

— Desista, espertinho. Continuo desinteressado em qualquer tipo de indecência que não seja presencial.

— Naah, valeu a tentativa. A perseverança é uma virtude!

O rapaz de cabelos compridos teve que rir.

Nesse momento, Hilda saiu do banheiro, os lábios pintados com um batom escuro. Mu se preparou para a malícia que sairia deles à toa – ela somente lhe deu uma piscadela cúmplice ao passar.

Os próximos minutos voaram. Mu poderia ficar a noite inteira conversando bobeiras com Aiolia e estaria satisfeito. No entanto, Afrodite o encontrou e ficou parado à sua frente de braços cruzados, deixando claro que Mu tinha que desligar.

— Preciso ir. Falo com você amanhã, OK?

— Okay Se cuida, hein?

Finalizada a ligação, a felicidade de Mu sumiu ao fitar Afrodite.

— O que foi? Eles destruíram a mesa?

— Não. Suponho que o Myu vá acabar traumatizado. Por mim, tanto faz. – Afrodite estudou a fisionomia tranquila de Mu com intensidade.

— Ahn… algo errado?

— É o que eu ia te perguntar, Mu.

— Esse jantar está todo errado, não?

Afrodite arqueou as sobrancelhas, não dava para afirmar se ele estava concordando ou discordando.

— Quero que me diga o que há de errado com você, Mu.

Continua

Notas finais
O Afrodite resolveu se manifestar, brace yourselves D: E Porradamanthys apareceu ♥ Que tal este capítulo? :3 Muito obrigada para quem continua me acompanhando e mandou reviews no último capítulo: Suh Domingues, PCHolmes, Angélica, Wolf White, ScarletHolmes, Orphelin, reiminia, Néfer Diamond e Svanhild ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.