Encontros, desencontros e novos encontros
106 Capítulo 106:
Notas iniciais
— O que você tá rindo hein. – Ben indagou para Anita, enquanto somente á olhava depois dos dois trocarem um beijo na varanda do apartamento da mãe de Marcelo. A moça duvidosa, somente continuou com o olhar de zombaria, com que encarava a longínqua incrível e perfeita vista da praia, onde as ondas do mar se remexiam triunfantes, em um harmonioso contraste com a noite estrelada.
— A Meg, que entrou em parafuso, não entendi nada. – Anita acabou confidenciando, e uma sonora risada mesmo sem pretensão escapou junto pela situação vivida pela amiga.
— Eu desconfiei. – Ben concordou entre um suspiro de apoio à toda desconfiança da amada. – E acho que assim como o Marcelo, eu não queria muito dormir aqui fora, mais você tava ficando quase igual à Meg, tava vendo a hora que você se jogaria da janela, e de mãos dadas com ela. – o rapaz alegou, deixando sua gargalhada ser espalhada junto à singela brisa que soprava, “batendo” nos dois naquele momento. Anita o encarou de volta numa expressão boquiaberta que emana sua irritação, por toda percepção aguçada do Engenheiro. Algo no confronto a desapontou.
— Ué Ben, queria que eu fizesse o que. – ela disse hesitante, enquanto iniciava sua defesa, um tanto quanto incerta das palavras que não achava tão ligeiramente. Em busca de retomar sua seriedade Ben preferiu ficar calado, ou o bombardeio seria certeiro.
— Ela me pediu ajuda, eu fiquei sem saber o que fazer, não ia poder jogar a garota pro Marcelo, se era nítido que ela tava tentando escapar né, não sou esse tipo de amiga que vai lá, e diz te joga, para de ser idiota... – Anita defendeu-se gesticulando serena, mas ao visualizar o ar sério, extremamente falso de Ben em sua frente, revirou os olhos, irritadiça. — E ninguém precisa fazer o que não quer né, só pelos outros, eu hein. – concluiu a garota, xingando si mesma por seu desabafo repleto de opiniões, pra que ele, já que tão logo depois, se desmancharia em um sorriso leve e encantado, porque tinha que agir sempre assim diante dele, não importasse o quanto dissesse a si mesma que não faria. Era patética, estava escrito em algum lugar, só poderia, Anita julgou por segundos perdida em suas próprias conclusões.
Ao focar o olhar com maestria nele novamente, o viu com os mesmo olhares em cima de si, um fascínio misterioso e até certa sedução estavam presentes ali. – E depois se você quer mesmo saber. – Anita suspirou, como quem ignorava e disposta a encerrar o que dizia, por mais que estivesse confusa de partes do assunto, algo havia feito com ela esquecesse. – E também, não ia me sentir bem dormindo na casa dos outros com você, o que é ridículo, porque até outro dia eu tava aqui com você. – falou a arquiteta, pressentindo que não era somente pura sensação, estava beirando a insanidade, nunca tinha feito ou dito tantos atos contraditórios como nos últimos dias... E Ben era o culpado, ela estava acabando de enlouquecer por culpa dele, depois disso talvez não restasse nada que fizesse dela alguém sensata ou mesmo racional, havia perdido a batalha, quem dirá ter chances de ganhar àquela guerra, onde seu coração tomou frente na liderança dos grandes confrontos. Ele era mesmo um péssimo líder, seu coração era desenfreado e estupido, ao que tudo indicava pela forma que o olhava e sempre se sentia perto dele, era burro o suficiente para não ouvir sua mente lhe avisando do tamanho da cilada que estava... É, talvez, ela enlouquece em muito pouco tempo se continuasse assim, era algo irreversível.
— Ih ok, me sinto pior agora, eu não conheço a mãe dele, e a gente nessa situação, parece que tudo que faz é errado, pode rir tá, pode julgar. – a moça quis organizar os cabelos bagunçados pelo vento, constatando que já não conseguia segurar dentro de si o que pensava. – E eu sou assim estranha, careta, até certinha demais, a anormal, simples... – Anita não segurou toda impulsividade de maldizer a si mesma, queria esconder, mais já não conseguia ficar imune, suas últimas decisões e ações a fizeram acreditar, que estava se tornando a perfeita rainha da tolice.
Ben fitou o chão não conseguindo conter o riso abafado, e o controlou ao máximo dentro de si, que em estado de puro contentamento se manifestava. Ela preferia até distorcer, ou negar, acreditar que estava afirmando e tendo certeza o quão leviana estava sendo, mas algo o fazia querer acreditar que era muito mais que isso... Era Anita admitindo, que mesmo com todos os erros que estava cometendo, com toda sua renúncia em não querer, já não sabia o que fazer para parar o sentimento que a movia para perto dele. – E previsível o suficiente pra admitir que eu estou completamente sem freios, mais deixando claro, que eu não gosto disso, e muito menos de desistir de controlar a mim mesma. – taxou ela, sabendo que a raiva de si mesma era inerente. Não havia meios para esquecê-la...
— Eu não to rindo de nada, para com isso. – Ben se defendeu, perante a maneira bufante com que Anita o fuzilou, o tapa voraz que veio em seu braço logo depois, era o alerta que ele precisava para se defender. – Mais esquecendo do assunto por hora, sabe o pior, é que ele esperou que você ajudasse. – ele pronunciou não querendo falar dos dois naquele momento, ou caso insistisse morreria, a julgado pela raiva de Anita lhe olhando.
— Será. – a garota sorriu na dúvida, mas não podia crer que Ben não teria razão alguma, talvez tivesse e muita. — Ah gente não devia de ter ficado, acho que os dois ficaram bem mais travados pra se resolver, pra completar o desastre do dia de hoje, acabamos os dois de vela. – Anita ria da sorte, ou da falta dela, e isso que chegou a pensar no caminho voltando da casa do pai, que nada poderia sair mais desajustado que a visita que fez a Caetano e sua família.
— Na verdade foi pior, o Marcelo deve ter pensado que no outro segundo após o convite eu te arrastaria pro quarto, assim a Meg ficaria à vontade, e ele poderia jogar a conversa que quisesse, que ela não negaria. – ele não ficou ileso á própria constatação, e só soube achar graça em imaginar o tamanho da irritação do amigo pelo boicote sofrido.
— Faz sentido, no fundo ela não fez isso porque não gosta dele, só deve ter ficado insegura, acabou de vir aqui, conhecer a mãe dele, ai acaba na cama do garoto, a Meg não faria isso, não assim de primeira, sem pensar... – Anita fala defendendo arduamente sua amiga, mais que isso era compreensão pura.
— E também, ela já se desiludiu suficiente, pra ter certo receio elevado com esse tipo de relação, que mais parece uma montanha russa, de tão repentina. – compreendeu ela paciente. Conhecia Meg, quase como conhecia a si mesma, e no fundo sabia perfeitamente, quais eram os temores da loira em relação a seu envolvimento ligeiro com Marcelo. Havia ali, muito medo da mágoa que poderia lhe causar, esse pensamento não abandonava a americana, a estrangeira não era muito de se envolver facilmente e tão rapidamente com alguém, por saber, ou mesmo desconfiar habilmente de sua capacidade de se decepcionar depois... Não que isso fosse um ponto quase de seu cotidiano, mas, porém, nas poucas vezes o ocorrido havia trazido grandes estragos à Meg, sendo também algo que a incomodava e lhe entristecia bastante. Sidney era um ótimo exemplo, mas Anita preferiu deixar a confidencia só para si, do que compartilhar a mesma com Ben.
— E nem ele pensou não é Anita, se tivesse pensado, ele nem teria tentado, já saberia que o não viria fácil. – sem hesitar Ben também tenta entender o amigo. – Melhor eles se resolverem sozinhos, isso sim. – o rapaz pondera, achando que os problemas dos dois era algo só deles, não cabia ninguém julgar... Pensa ele entre sorrisos, enlaçando as duas mãos à cintura dela.
— Também acho. – Anita assentiu, retribuindo o sorriso que recebia, involuntariamente. – Mais mudando de assunto, você tá chateado comigo. – sem querer, Anita notou que a pergunta soou mais séria do que ela queria, não deveria ter a feito, uma ponta de arrependimento ficou pairando no ambiente.
— Pelo o que, por você não querer dormir comigo. – Ben usou a piada como desculpa para não responder, e só baixou o rosto rindo contra o ombro dela. — E bom, nem seria o primeiro fora que eu levaria de você nesse quesito, eu acho. – ele procura puxar da memória risonho, ao saber, desconfiar exatamente o porquê do motivo da pergunta, mas no fundo ele preferia não entender, era melhor não a pressionar, na verdade nem queria.
Os olhares dos dois se cruzando, movido a um silêncio ensurdecedor por segundos, fez Anita realmente arrepender-se de vez pela indagação, não quis cogitar que não seria impressão dela, a chateação de Ben pela conversa descompromissada do jantar, a respeito de um namoro dos dois... Em seu coração, não queria chateá-lo, mesmo que não estivesse em seus planos fazer ou obrigar-se a sentir algo que não quisesse realmente. Sua prioridade só era independente de qualquer coisa, não magoar o rapaz.
— Ops, piada velha né. – Anita fez uma expressão exagerada, ele sorriu divertido, mais preocupado com o brincar de dedos sobre a cintura dela. – Não é isso, sei lá esse negócio que o Marcelo falou, que eu não quero assumir que to namorando você. – ela afirmou, a expressão horrorizada, demostrou certa indignação consigo pela situação, até porque se àquilo não era um namoro, já havia passado há muito tempo então deste ponto. Não, não era pra tanto, Anita voltou atrás, porque mesmo, o que vinha depois de um namoro, era um casamento cheio de compromisso, ilusões de pra sempre, ela não aguentaria, ou se quer queria, jamais, nem em seus piores desejos escondidos e surreais, os quais não contava a ninguém... Sendo mais racional, não haveria maturidade alguma pra que ela e Ben chegassem a este ponto, os dois se matariam em menos de semana, no ritmo que brigavam e se odiavam inconscientemente por tudo, a relação já era um náufrago anunciado...
— Ele tava zoando com a gente Anita, só isso. – Ben não ligou muito a sorrir só, fugindo da seriedade da pergunta.
— É eu não liguei. – Anita também concordou, não era este o grande “X” da questão, mas sim a frustração dele, ou mesmo dela mesma, por estar fazendo o garoto embarcar numa falsa alegação de amor eterno, onde tudo seria maravilhoso. Algo nela lhe dava esperanças, de que eles pudessem tentar realmente, mas também vinha junto à certeza de que nada seria tão maravilhoso assim, haveriam muitos percalços, inclusive o temperamento desregrado de ambos. – Mais no fundo, você sabe que é verdade né. – Anita disse no intuito de ser sério, mas seu tom de ironia e franqueza extrema, gerou certa brincadeira em sua voz.
Ben encarou a rua se soltando dela, como se buscasse argumentos para uma justificativa. Anita, engoliu em seco a tensão que vinha se instalando. — Você sempre jogou limpo comigo, eu já sabia, quando comecei isso, certo. – Ben admitiu o que não queria, vindo novamente até ela e ajeitando os cabelos dela que eram bagunçados pelo vento.
— É mais uma coisa é desconfiar, outra é ter certeza com a prática. – Anita alegou com receio pela resposta tão racional, mais a calma no olhar dele, trouxe a si um pouco de paz. — Ben não é de propósito, é que é estranho, e ao mesmo tempo real, ih eu não sei o que pensar, na verdade talvez eu não queira pensar muito, só quero deixar acontecer sem expectativas, talvez seja melhor mesmo, pelo nosso histórico de reincidências e desastres... – Significa. – ela argumenta verdadeira, percorrendo o olhar pela plantação de arbustos de Fátima, e sua decoração descontraída na varanda, ela era com certeza uma ótima decoradora, ou menos na visão de Anita... Que ao suspirar paciente escorou-se junto dele sob a sacada.
— Eu já te disse, eu vou repetir, não é pra mim e nem pra ninguém que você tem que assumir nada, talvez eu nem veja tanta necessidade disso também, mais sim pra você mesma... – o rapaz ameniza a encarando firme, Anita preferiu olhar para o céu do que responder de supetão. – É você que tem que saber se gosta ou não de mim, se vale mesmo a pena Anita, eu posso até te amar, demostrar isso, mais uma coisa eu não posso, não posso ser responsável por impor esse sentimento dentro de você, é você que tem que ter certeza dele, que tem que se convencer dele, e principalmente, se ele é importante pra você, ou é totalmente dispensável por você. – o suspiro surpreso dela, só afirmava que não esperou tanta sinceridade do rapaz, Ben estava certo, não havia o que discursar. Ou se amava... Sentia esse sentimento com toda reciprocidade, que era demonstrado pelo outro, ou esquecia o engano... Ninguém poderia obrigar o amor a brotar, nascer em um coração...
Anita o fitou ao seu lado, possuindo em sua face certa irritação que julgou infantil, no fundo não se recordava de ter o dito algum dia, bom os dois já tinham brigado tanto mesmo, que nem ela lembraria... Mas, a sinceridade quase severa de Ben em certos momentos, era digna de raiva, principalmente, quando tudo que ela não queria ouvir, era exatamente aquilo que ele destilava com tamanha veemência.
— É estranho, porque no fundo, eu nunca parei pra pensar que um dia eu me veria vivendo uma história com você, que eu ia me permitir te amar de novo, que daria pra gente tentar concertar o que no fundo nós nunca vivemos, e se eu pensasse assim, lidar com minha realidade não daria, um amor não sobrevive a ilusão, a gente também não, mais o que eu não sabia, era que eu nunca me livrei totalmente do sentimento que eu tinha por você, eu hesitei em acreditar... – por um instante, Anita não soube onde foram parar todas suas barreiras de proteção, que a impediam de fazer tal confissão, era apenas uma melancolia desajustada tomando conta de seu ser, e as palavras passavam por sua boca, sem que ela notasse ou mesmo tentasse lutar contra aquilo, algo lhe fazia pensar que precisava, estava pronta, era hora, ou tão tardiamente, necessitava confessar aquilo que tanto fugia, e relutava com tanto insucesso.
Ben não ousou interromper, e um simples gesto de ouvir atento, foi mais do que o rapaz esperava fazer, já que a essa altura estava entorpecido pelo o que ouvia, mesmo sem esperar, simplesmente embriagado no olhar brilhante da garota, enquanto falava... — Bom era maluco demais, era até burro da minha parte, mais eu te amo, eu não posso negar, eu não quero negar. – ela confessa, mesmo aterrorizada, sabia que já não fugia daquele sentimento, não porque não queria, ou não via necessidade de o controlar, mas sim porque ele havia se tornado, e sem Anita perceber, muito mais forte do que ela, algo que seu coração sentia, além de sua compreensão.
O rapaz sorriu imobilizado perante ao que escutava, a felicidade enorme instaurada dentro dele, o fez sorrir iluminado, não administrava o misto de alegria e surpresa que as palavras da moça o causou... – Eu não estou afim, de me explicar pra ninguém, quando eu quis ninguém prestou atenção mesmo, mais de uma coisa eu tenho certeza. – ela diz uma certa perturbação lhe corroendo... Ele nota cabisbaixo, a pitada de decepção presente no olhar dela, talvez fosse reflexo de tudo que foi deixado para trás. — E se algum dia, as pessoas pudessem sentir com meu coração, sentir com as minhas sensações, o que tá guardado quase a sete chaves dentro de mim, ninguém nunca iria duvidar o quanto eu te amei um dia, ou o quanto eu ainda posso te amar hoje... – Anita se emocionou sem controlar, as lágrimas sinceras e involuntárias percorreram o rosto dela, foi impossível não sentir com todo seu coração, a imensa alegria, tanta leveza percorrendo seu corpo, pela confissão que há muito tempo estava guardada dentro de seu peito. Por toda uma vida, quem sabe, quem sabia ao certo, quanto tempo escondia aquilo até de si mesma... Não poderia e nem queria guardar aquele amor, esquecido para sempre, ele tinha que ser vivido ao máximo, até que enfim só realmente restasse uma única fagulha acesa, não estava nos planos de Anita continuar o sufocando.
— E eu espero realmente que de alguma maneira, a gente possa fazer tudo diferente dessa vez, que eu possa não te decepcionar tanto, como aconteceu lá atrás. – Ben prometeu sorrindo alegremente, passando a mão pelo rosto dela com todo carinho, em busca das poucas lágrimas que tornavam a cair.
— Eu também espero. — Anita sorriu calma, amenizando o rumo desenfreado da conversa. – E eu não te culpo sozinha por tudo que houve, você sabe disso. – ela garantiu, não porque queria poupá-lo de uma culpa maior, mas por sentir que ele não era responsável sozinho por todos os erros dos dois, cada um contribuiu de seu modo, para que o caos fosse o que reinasse no final. Anita tinha absoluta consciência disto.
— Eu posso te confessar uma coisa, às vezes quando eu olho no teu olho, eu sinto que... – respondeu Ben, por mais que hesitação tomasse conta pela pergunta que estava prestes a ser feita, mas já haviam sido ditas tantas verdades ali, não seria uma que o deixaria amargando arrependimento, não se puniria. Porque não tentar... No fundo sentia que havia algo a respeito do passado de Anita que ele não sabia...
— Que o que... – Anita não soube interpretar que o ar de dúvida dele, também escondia apreensão pelo o que sentia momentaneamente. A moça estava mais ocupada em o fitar com alegria e não pressentindo que poderia caber algum sentimento que não fosse bom e alegre naquela conversa com ar de desabafo.
— Que, você sente raiva de mim por algo que você nunca me contou, é estranho mais, parece que eu também não sei o que é. – disse ele, o torpor sentindo por Anita, fez um frio percorrer sua espinha, uma aflição a paralisou sem medidas, a arquiteta fez de tudo para não parecer incomodada, ou mesmo dando razão às palavras dele. Definitivamente, não queria estragar o momento de felicidade, falando de um assunto que Ben nem sabia que existia, mas se soubesse talvez não conseguisse conter o arraso que ele traria para sua vida, ela sabia, que o que supostamente escondia, ceifaria os sentimentos do rapaz voraz. Ele não merecia, não depois de tanto tempo, ela já havia esquecido, ele não precisava mais saber... Foi uma decisão tomada no passado, e era lá que tal decisão e o terror que ela escondia, deveria ficar, era algo irreversível.
— Que ideia Ben, e eu não sinto raiva de você, só que quando eu cheguei aqui, eu não queria mesmo ficar perto de você, só isso. – Anita alegou, estava descompensada, era nítido, sentia todo seu corpo assim, um gelo sombrio e devastador, mas quis esconder ao máximo, mas pressentiu que não conseguia, e Ben notava detalhista o nervosismo da garota.
— Eu até acredito, não seria de se estranhar tua reação. – concordou, afinal não era tão sem lógica a reação da moça. — Mais é como eu disse, desde a primeira briga que a gente teve, eu sinto que você ainda queria me contar alguma coisa. — insistiu Ben, a encarando com ternura, somente respirando pesado, a explicação que Anita teve coragem para lhe dar foi tão somente o silêncio.
— Esquece isso, é bobagem tua Ben. – Anita quis amenizar, encerrar, acabar por completo com a conversa, temeu que o rumo dela fosse doloroso, não poderia ver tanta alegria acabar com tamanho dissabor, ela não merecia tremendo desgosto, não agora que tudo estava mágico e feliz, um dos poucos momentos de paz dos dois... A menina quis esquecer, apagar qualquer pitada de infelicidade, sentida por ela ou mesma refletida na face de Ben. – Por favor. – suplica ela estendendo os braços em volta do pescoço dele a sorrir. Era o melhor convite, que ela poderia oferecer para acabar com o assunto.
— Ok, quem sabe. – Ben se rendeu diante do beijo recebido, por mais que sentisse que tal assunto, não acabava ali...
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— Só espero que não chova, não é. – Marcelo especula abaixando a sentar-se no colchão. Não conteve o tom descontente com o desfecho do jantar com os amigos e sua mãe, era impulsiva sua impaciência com a situação. Mas foi voto vencido, não havia o quê aumentar.
— Acredita, há coisas muito piores do que acordar tomando chuva na cara. – Anita contrariou com o corpo jogado na sacada, encontrando lá em baixo a rua pouco movimentada, devido a chegada da madrugada.
— É realmente isso vindo da maluca, que vive dormindo pouco, trocando a cama por computador e trabalho, realmente é difícil. – Meg riu da amiga, mas pra ser sincera, estava achando mais engraçada a cara emburrada de Marcelo lhe encarando nesse momento.
— E você hein. – Anita virou para a loira com puro deboche. – Melhorou já. – ela pergunta sorrindo. – E os meus pesadelos quando eu os tenho, com certeza não tem nada a ver com minha falta de disponibilidade pra dormir, mais também esquece né... – Anita debochou e Meg imediatamente fincou um olhar feio em cima da amiga. A arquiteta riu, deitando ao lado da amiga escondendo o rosto no travesseiro.
— Ok melhor, a gente parar de falar né. – a estrangeira concordou, vendo que mais um pouco, ela não teria motivo algum para rir, pelo contrário, viraria o motivo do deboche.
— Gente uma barata, uma barata pertinho de vocês. – Marcelo falou se erguendo e alterando o tom de voz com susto, encarando as duas meninas, mais interessadas no que viam na tela do celular.
— Aonde. – Anita levantou o rosto do travesseiro pouco interessada. – Me dá um chinelo aqui que eu mato. – propõe a moça olhando em volta, procurando por um sinal do inseto. Anita parou a prestar atenção na cena e notou algo que implicava em mentira, sem vontade de responder mais nada, a garota bufou irritada a revirar os olhos, pela atitude infantil do amigo, emudecida se jogou na cama improvisada novamente.
— Ah o Marcelo, falta de criatividade. – Meg foi sarcástica ao olhar para ele e notar nitidamente seu teatro.
— Ninguém vai correr, sério isso. – Marcelo se sentou de volta decepcionado. Nem assim conseguiria levantar seu astral. Juraria que daria certo, e as duas levantariam correndo de onde estavam.
— É perdeu a oportunidade. – Ben riu alto do amigo. Principalmente da forma como as duas meninas o ignoraram, voltando ao que faziam anteriormente.
— Cala a boca. – o outro rapaz revidou cerrando as palavras entre os dentes, não curtindo ser contrariado, só restou a Marcelo voltar a seu lugar e calado.
— Ué agora vai descontar em mim, que lindo ele. – Ben retrucou como pura ironia, o que só aumentou a insatisfação do garoto ao seu lado. Anita olhou de relance e riu.
— Será que dá pras crianças deixarem pra brigar amanhã, ou melhor, daqui a pouco, eu to cansada sabia. – Meg ordenou enfurecida, exigindo rápido que o bate boca tivesse fim, ao notar Marcelo prontamente se preparando para revidar.
— Eu já nem sinto. – Anita constatou, que se eles quisessem poderiam continuar com a briga, ela nem aguentaria ouvir por muito tempo, a cansaço estava batendo forte, e o sono era o que restaria para ela.
— Boa noite. – Anita sorriu triunfante, olhando os dois rapazes que se entreolharam insatisfeitos. Ela e a americana ficaram rindo sem querer da cara dos dois.
— Mais eu vou ter que dormir com o Ben. – Marcelo elevou o tom de voz irritado, não crendo a parte que lhe sobrou, já que as duas garotas se espalharam no colchão ao lado.
— Meu deus do céu, pronto, tá complexado o menino, Marcelo você está do meu lado, e não dormindo comigo, quer parar de usar o argumento errado pra pular pro colchão da Meg. – Ben ruboriza, pensando consigo que o final da noite nunca chegaria, e ele já via a exaustão lhe paralisando.
— Não é isso. – Marcelo baixou o rosto pirracento.
— Ah meu santo, levanta daí criança. – Anita saltou do lado de Meg, não aguentando o “lenga lenga” sem fim de Marcelo, que cerrou o olhar ainda chateado.
— Hei educada você, credo. – o rapaz reclama, da forma abrupta como Anita o puxa pelo braço para que ele levantasse.
— Pois é, educação é coisa que a gente tem, mais infelizmente perde com o tempo. – a moça bufa trocando de lado com ele. – E olha aqui, se... – Se aproveitarem da situação pra beijação sem fim, os dois vão ter certeza de que nunca passaram vergonha na vida. – ameaçou uma Anita farta, só queria silêncio para que pudesse dormir.
— Olha é porque eles tem experiência. – Marcelo não se abate tão fácil, e ensaia alfinetar os amigos, mas desiste ao perceber que não aguentaria o olhar fulminante de Anita e Ben em cima dele, ih menos ainda se eles abrissem a boca para revidar.
— Boa noite, parou agora gente. – Meg pediu diante do silêncio irritado que via no ar.
— O gente. – disse Marcelo interrompendo os avisos dos demais. E os bufos impacientes foram muitos.
— Ai Marcelo. – Ben respondeu em tom de lamento, soltando a mão de Anita que ele segurava, já com vertigem pela mania do amigo em não calar-se nunca.
— Não, calma. – Marcelo pondera olhando para os três paciente, que incrédulos devolvem o olhar sem entender. – Eu só ia dizer que eu amo vocês, vocês são chatos, mais eu amo vocês. – ele explicou com toda tranquilidade, Marcelo não podia reclamar dos amigos que tinha, eram os melhores e mais parceiros e com caráter que ele poderia desejar.
— Ai bonitinho, te dou um beijo de longe. – afirmou Anita rindo sensibilizada, jogando um beijo a ele, e junto em seus lábios um sorriso de deboche. – Mais agora dorme, dorme criança, boa noite. – pediu Anita as risadas.
— Isso ótimo, ah e a gente também te ama Marcelo, mais só pra não te deixar no vácuo. – Ben também riu, ajeitando seu travesseiro.
— Calado, claro. – Meg alfinetou não resistindo, foi mais forte que ela, no fundo queria ver a cara de chateação do rapaz voltar. – Brincadeira, pode ser falante mesmo, agora boa noite. – Meg o beijou com rapidez querendo mesmo era dormir, assim como Anita e Ben, já não se aguentava.
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— Boa tarde. – Anita, Meg e os dois rapazes disseram quase em uníssono, após escancararem a porta.
— E olha aí, chegaram. – Vitor disse meio irritado, quando viu os irmãos e amigos entrarem pela porta de casa.
O namorado de Clara nem escondeu isso de ninguém, achou um descaso a forma com que os irmãos sumiram na noite anterior, e nem se preocuparam em dar uma explicação, que ao menos convencesse, fizeram pior voltaram ao casarão já à tarde, e ao que tudo indicava, ao menos era o que se notava nos semblantes dos dois, não havia preocupação ali. Anita e Ben, assim como Marcelo e Meg, pararam diante da cena inesperada, meio sem saberem o que fazer.
— Oi pra você Vitor. – Anita falou ácida e não segurou a cara amarrada, e a maneira desafiante que encarou o meio- irmão.
— Quanta irresponsabilidade, francamente, eu perdi uma prova na faculdade hoje sabia, porque simplesmente eu não sabia que os bonitos super responsáveis, tinham sumido com o carro, até essa hora por sinal. – Vitor esbraveja, tremendamente irritado com os irmãos por todo transtorno causado a ele.
— Perdeu porque quis, porque não tem responsabilidade, quem dera ter tamanho pra chamar os outros de irresponsável. – Anita não aguentou, pelo contrário o sangue subiu em sua cabeça, se toda calma, alegria e falta de estresse de antes, lhe davam uma sensata e enorme serenidade, agora estava espumando de raiva. – Não levantou cedo, não se dignou a pegar um ônibus, um táxi, um metrô, ir andando, qualquer coisa, porque tinha que optar pelo caminho mais fácil, não. – a arquiteta não deixou barato, arrancou os óculos escuros, lançando ao rapaz seu olhar de pura ira, estava cansada dos insultos do garoto, ou mesmo da forma como ele metia-se em sua vida, como se tivesse tal direito, não suportaria mais, estava resignada, iria explodir tão rapidamente, que nem se daria conta do tamanho do estrago que protagonizaria.
— Anita. – Ben tentou intrometer-se e impedir de alguma maneira a fúria da moça.
— Não Ben, esquece... – Anita impediu que ele continuasse, e aos bufos, ela quem deu prosseguimento no que dizia, aparentemente a briga de Vitor era com ela, e não sairia tão dignamente da batalha assim, iria fazer o rapaz provar do próprio veneno. — E você só entrou nessa, porque eu te pedi pra ir comigo até São Paulo, eu pedi o carro pro Ronaldo e não você, agora se o moleque aí, que assume tudo o que faz, não quer admitir, que perdeu a prova dele por falta de empenho dele, ele não vem achando que eu vou me sentir culpadinha, por isso. – rosnou ela, sem se importar nem com o olhar penalizado de Vera, diante da briga, que só ficava mais fervente com os passar dos minutos, Vitor respirou com raiva, não aceitando de bom grado toda ousadia de Anita. – Eu trabalho, eu estudo, eu corro dia e noite, pra ter tudo que eu tenho, agora se não fico gritando, isso pra todo mundo como a vitimada da vez, não significa que não é verdade... E se no final meus objetivos vão pro ralo, não é botando a culpa em ninguém que o sucesso vai voltar... – a menina agiu descompensada diante dele. – Então, não me venha agora, moleque intrometido, achar que vai me dar lição, achando que tem cacife pra isso, porque eu sei muito bem, o que é pagar conta todo mês, a única diferença é que eu não tenho papai e mamãe por perto, pra reclamar e tapear meus insucessos e erros, quando eu preciso... Portanto, nunca julgue um livro pela capa não Vitor, você pode se surpreender com o que vai encontrar na primeira e última página, se nem interessado na história inteira você tá, ou tem maturidade pra entender. – ela não ligou se já havia perdido a linha, seus impulsos estavam no controle. – Agora tchau, porque eu não vou estragar meu dia com ninguém. – Anita ordenou mais a si mesma de que a qualquer outro, não iria se abalar, ou acabar com sua paz de espirito, não hoje... Vitor bufou calado, sendo repreendido por Clara, em relação ao que havia feito, mas nem a namorada o convenceu de algum erro cometido.
— Dona Vera, a culpa foi minha, eu acho, foi eu que convidei os dois pra jantar lá em casa, bom minha mãe, vive sozinha no Brasil, e bom ela sempre adorou encher a casa com os amigos, eu não esperava esse desfecho. – Marcelo quis exclamar, ao notar brevemente a forma impactada e magoada com que vera olhava a primogênita subindo as escadas, o rapaz sentiu culpa por aquilo. Não queria prejudicar Anita...
— Tudo certo meu filho. – respondeu a mulher, no fundo pressentiu que o problema maior, era com sua filha, alguém que ela não entendia, e começava a achar que também não conhecia, nem um pouco, Anita parecia tão taxativa às vezes, Vera estava confusa e indignada, não continha tais sentimentos desenfreados. Ben sentiu necessidade de falar com Anita, mas pensou que ir ao encontro da garota só pioraria tudo, consideravelmente... Então esperou por hora.
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