Encontro de Almas- volta às origens
6 Confraternização de professores
Foi um alívio quando a tarde finalmente terminara, eu estava emocionalmente esgotada e queria ir pro meu apartamento, me livrar das roupas apertadas e simplesmente me atirar no sofá, assistir algo bobo na televisão um filme ou série, mas obviamente, meus colegas eram legais de mais para permitirem que eu fizesse isso.
Estava entregando a lista de alunos na secretaria e pronta para me dirigir ao portão da escola, quando ouvi passos vindo em minha direção virei, e vi Carmela acenando, um sorriso radiante nos lábios, acenei de volta.
“Ai! Graças a Deus tu não foi embora ainda!” Pude ouvir alívio em sua voz animada.
“Algum problema?” Perguntei tensionando, será que eu havia feito algo errado?
“Não, problema nenhum, tu foi ótima hoje!” Disse ela com um grande sorriso. “A gente tá indo pra um barzinho na cidade baixa, todo mundo. Então estamos te intimando pra ir junto conosco.” Comentou ela.
“Segunda feira?” Perguntei surpresa.
“Bem ainda é férias, pros alunos.” Ela deu de ombros, “a gente não precisa vir de manhã cedo, nem dar aulas, aparentemente eles querem fazer uma confraternização pra nós as novatas na escola.”
“Espera, tu também é nova aqui?” Perguntei, nem notara que estava indo com ela.
“É, eu transferi pra cá, eu e a Ana, a gente trabalhava em uma escola de freiras.” Ela suspirou, pude ver a tristeza no olhar dela. “Teve um caso grave de Homofobia, só nós e mais duas alunas ficamos ao lado da aluna que foi o alvo, nós e a mãe da aluna fomos na SEC, fizemos um escândalo, eu tava pronta pra iniciar um protesto na frente da escola se nada funcionasse, tinha até os cartazes prontos, a mãe transferiu a aluna, as melhores amigas foram com ela, e nós viemos pra cá por ser mais inclusiva.” Contou ela, senti meu coração afundar.
“Isso que eu chamo de lealdade.” Comentei baixinho.
“Pois é, foi meio que a gota d’água sabe?” Contou ela. “O que aconteceu com a Julinha... foi a gota d’água, eu tinha que aguentar calada o racismo velado, e a discriminação porque eu venho da comunidade, sabe?” Contou, eu assenti. Pude entender perfeitamente o que ela queria dizer.
Carmela era linda mulher Afro-Latina, pelos seus quarenta anos de idade, os longos anéis pretos do cabelo caíam levemente em suas costas, os olhos espertos mostravam a experiência de vida dela, muito mais que os currículos, ela tinha mais de vinte anos de experiência como professora, formada como socióloga na faculdade e na vida, ela era uma das pessoas mais carismáticas, acolhedoras e divertidas que eu conhecera, Ana não ficava muito atrás, mas um pouco mais contida que a Carmela, mesmo que tivessem a mesma idade;
“Eu teria feito o mesmo que vocês, por essa aluna, também pela minha própria segurança.” Comentei, olhando firme para a minha colega.
“Era uma escola católica, mas parecia o inferno.” Carmela admitiu e paramos em frente aos carros no estacionamento dos professores.
“Ah, tu contou pra Rubi porque saímos daquele antro do capeta?” Perguntou Ana rolando os olhos amendoados.
“Sim, mas não cheguei na pior parte.” Admitiu abrindo a porta de trás do carro para eu entrar, estava tão mergulhada na história dela que nem lutei, apenas sentei no banco de trás.
“Tem uma pior parte?” Eu exclamei completamente incrédula.
“Sempre tem né?” Ana bufou furiosa. “A aluna foi forçada por uma colega a se assumir para a escola inteira, após ser pega fora da escola beijando uma colega.” Ela apertou as mãos em punhos eu ofeguei. “A Irmã Alva, professora de Ensino Religioso, jogou bíblia na cara da aluna, literalmente.”
“É, sem exagero, a lente do óculos dela rachou, poderia ter cegado ela.” Contou a Carmela.
“Era como um filme de terror, a aluna perdeu ou recreio como punição, em vez de lanchar ela teria um mês de estudo bíblico, uma criança ainda.” Ana rosnou. “Apenas a família sabia sobre ela, nem mesmo as melhores amigas sabiam ainda, ela não estava pronta pra isso.”
“Julia teve o suficiente, quando ela um dia desmaiou na aula de educação física por não ter lanchado, os pais estavam pasmos quando nós chamamos, eles sabiam o que acontecera, mas não sabiam da punição. Eu nunca vi a mãe dela tão furiosa.” Carmela contou. “Naquela mesma tarde, nós três decidirmos ir à SEC, fizemos um plano de ação para não expor muito a Julia.”
“Qual escola?” Perguntei. “Assim eu passo longe.”
“Nossa Senhora das Águas.” Contou a Ana.
“Ótimo, não é meu caminho para casa.” Disse aliviada. “Se fosse, eu iria lá e teria uma conversinha sobre a lei contra homofobia, e direitos para pessoas LGBT’s, eu fui criada na Igreja evangélica, saí depois de me assumir.”
“É eu posso entender perfeitamente a tua raiva agora.” Comentou a Ana.
“Pois é e depois disso, eu entrei para a Wicca.” Contei.
“Umbanda.” Comentou a Carmela, assenti gargalhando.
“As freiras demoníacas provavelmente te odiavam.” Comentei as duas gargalharam tão alto quanto eu.
“Tu não tem ideia, e ela incentivava ainda mais o ódio tocando O Rappa em sala de aula no baixo.” Ana contou e eu choquei minha mão com a da Carmela em um high five.
“Eu queria ser uma mosca!” Comentei rindo.
“Aquelas freiras não tinham ideia da realidade na comunidade, eu sou professora de sociologia, tinha que ensinar aos alunos, certo?”
“Com certeza, imagino que os alunos te amavam.” Assumi.
“A excruciante maioria, quando a gente saiu, todo mundo do ensino médio se revoltou.” Contou a Ana. “A gente teve que contar porque, eu não faço a mínima ideia se sobrou algum aluno do segundo e terceiro ano lá.”
“Eu ouvi pela mãe da Julia, que eles estão considerando fechar o ensino médio, pois os únicos que tem, são aqueles que eram da oitava série ano passado, então só vai ter o primeiro ano, e depois que os pais ficaram sabendo por que a gente se mandou... bem eles não ficaram exatamente felizes.” Contou a Carmela com um sorriso travesso.
“Mesmo sendo escola católica?” Perguntei surpresa.
“Pra tu ver, mas nem todos os alunos de lá eram cristãos, e a Julia não era a única estudante homossexual, então faz sentido, a escola tinha uma boa reputação quanto ao ensino.” Comentou a Ana.
“Entendi, Deuses... é inacreditável que no ano 2012 ainda tem questão de preconceito contra homossexuais.” Comentei sentindo meu coração afundar.
“Pois é, mas ainda bem que a escola que trabalhamos agora é inclusiva, tem inclusive eventos e aulas dedicadas ao mês do orgulho, semana da consciência negra, entre outros, lá é completamente diferente do que em escolas religiosas.” Disse a Carmela com um sorriso leve.
Ana estacionou o carro em frente a um dos bares, a rua estava toda iluminada, podia ver várias pessoas caminhando nas calçadas, conversando alto, a música se misturava com sons de risadas, me senti contagiada pela animação.
“Gurias, antes de irmos... eu não sou exatamente assumida na escola, a Diretora Soraia sabe de mim, agora vocês.” Comentei, esperando que elas entendessem o que eu queria pedir sem dizer em alto e bom som.
“Não te preocupa, nós não somos, mas sabemos que é um ato de agressão forçar alguém fora do armário.” Contou a Carmela. “A situação da Julia, nos ensinou muito sobre diversidade sexual e identidade de gênero.”
“Pois é estudamos muito para fazer um bom caso contra a escola na Secretaria de Educação, eles estão sob investigação, ver se não houve outros casos de preconceito contra alunos e outros professores.” Ana me contou.
“Que bom, não quero que a escola feche, mas eu espero que eles aprendam algo com isso.” Comentei.
“Nós também.” Disse a Carmela.
“Vamos?” perguntou a Ana.
“Claro, vamos sim.” Disse eu me livrando do cinto de segurança e abrindo a porta do carro.
Entramos no barzinho, tinha música ao vivo, estes são meus favoritos, pude ver que muitos adultos e jovens, até menores de idade estavam aproveitando a música boa, socialização petiscos boa conversa, pude ouvir as risadas altas. A energia era tão contagiante, que fiquei feliz de não ter negado o convite. Muito melhor que me isolar em casa, quando tenho colegas tão especiais e poderia me divertir com eles.
Fiquei chocada quando vi que o Zé também estava lá, o Zé é um professor bem mais velho uns sessenta anos, com os cabelos grisalhos quase brancos, ele era um arqueólogo aposentado que decidiu largar as tumbas e ensinar os vivos, jovens e cheios de energia.
Nos juntamos a eles. “Finalmente, as novatas chegaram!” Celebrou Sérgio sorridente.
“Eu tive que procurar a Rubi por toda a escola para arrastar ela conosco.” Contou a Carmela.
“Exagerada! Eu tava na secretaria, entregando a lista dos alunos que foram hoje.” Comentei.
“Sim, mas até eu chegar lá!” Carmela reclamou fazendo um muxoxo. “Até achei que tu já tinha ido embora.”
“A ideia era essa, mas a conversa estava envolvente, acabei me distraindo, quando dei por mim nós já estávamos dentro da carro.” Zombei.
“Então gurias, o que vão querer beber?” Perguntou o Alberto, depois de engolir um gole que ele havia acabado de sugar do canudo em seu copo de batida de morango.
Era meio engraçado ver um professor alto e grandalhão tomar uma bebida considerada feminina por muitos. O Zé e a Soraia bebiam canecos de cerveja, enquanto o Sérgio uma long-neck e o Antônio um copo de cuba, a princípio pensei que fosse coca cola, mas o cheiro de rum entrou diretamente no meu nariz.
“Acho que vou acompanhar o Alberto.” Disse a Ana com um sorriso leve.
“Eu certamente vou para a cerveja.” Comentou Carmela.
“Acho que vou pedir um gin com tônica.” Comentei, um sorriso leve nos meus lábios.
“Então Rubi, o que te fez escolher a educação?” Perguntou Antônio curioso, o sorriso leve dele, e o carisma, me lembravam alguém, mas não podia nomear.
“Ah, meus pai queria que eu fosse para o direito, trabalhar com ele, minha mãe queria que eu casasse com um ‘bom partido’ e fosse dona de casa, acabar amarga, rígida e conservadora como ela” Contei e pude ver a Carmela e a Ana assentindo compreensivas, assim como a Soraia. “Então letras começou como um ato de rebeldia, depois para provar pro meu pai que eu não precisava de Nepotismo pra me dar bem na vida, e concluiu como um amor cego pela profissão, o estágio foi como um bálsamo, e eu percebi que era exatamente o que eu queria.” Contei pra eles.
“Eu foi quando meu irmão mais novo nasceu, ele é intersexual, sabem? Eu estava na administração na época, último ano, os médicos ofereceram a opção de fazerem a cirurgia, de designação sexual.Agora depois de 15 anos ele está sofrendo porque o genital parece errado.” Ana contou. “Eu decidi que estudaria ao máximo para não só entender, mas ajudar de alguma forma.”
“É extremamente errado fazer a escolha pelo recém-nascido.” Eu exclamei, eles assentiram. “Eles podem ter uma crise de identidade violenta.”
“Não só isso, no caso do meu irmão, que foi criado como menina a vida toda, ele não só teve crise de identidade, mas também ele não tem taxa hormonal alguma no corpo dele, e como ele recém fez quinze anos agora, apenas recentemente que ele iria começar a reposição hormonal.” Comentou a Ana.
“O bullying que esse guri não deve ter sofrido, não tá no script.” Comentou o Alberto bufando.
“Sim, como levou anos para começar a reposição hormonal, as glândulas mamárias nunca desenvolveram, o útero e ovários são atrofiados e não são funcionais, impedindo menstruação, não tem pelos pubianos, na escola tiveram que permitir que ele usasse o banheiro dos professores por não ter neutro, eu convenci meus pais a transferirem ele para a nossa escola agora.” Contou a Ana.
“Os teus pais aceitaram a ideia da redesignação de gênero?” Perguntei
“Essa é a pior parte, eles chamam ele de Fernanda, enquanto ele quer ser chamado de Rafael.” Contou a Ana.
“Tu é a única que apoia.” Disse Antônio, Ana assentiu, eu pude ver a dor no olhar dela.
“Esse mundo precisa abrir mais a mente, não me surpreenderia se acabasse mesmo, como os Maias previram.” José comentou furioso.
“Ah é, de acordo com o calendário Maia, acaba este ano, né?” Comentou o Professor Diógenes de Física soltando uma gargalhada zombeteira.
“Bem talvez eles tenham errado, eu também não acredito que acabe agora, mas havia muita sabedoria entre os Maias, Incas e Astecas.” Comentou o José, muito passional por história e arqueologia.
“Eu sou um cara da ciência, mas devo concordar que os povos antigos eram extremamente sábios.” Concordou Diógenes.
“Verdade, até porque os elementos Químicos não são algo atual, existem desde que o mundo é mundo.” Disse a Luciane, professora de Química.
“É impressionante como tudo está conectado, podemos conectar Sociologia até com Química.” Brincou Carmela.
“Sim, visto que foram as sociedades antigas que fizeram as primeiras descobertas dos elementos que podem ser encontrados em laboratórios modernos, nos dias de hoje.” Comentou a Ana.
“Verdade, e a culinária, não é nada além de misturar vários ingredientes para ter um resultado, assim como Química.” Comentou Luciane.
A conversa seguiu animada, conversando sobre nossas vidas, o amor que temos pelas nossas áreas, e o que nos fez escolher tais áreas, além do clima divertido de confraternização misturado com a energia contagiante do bar.
Era tarde quando a Carmela e a Ana me deixaram em casa, quase duas da manhã, eu não bebera muito, para não acordar com enxaqueca no dia seguinte, eu fico completamente inútil depois de uma bebedeira, demora para que consiga me recuperar, então me contive.
Tomei um longo banho e fui me deitar, amanhã seria mais uma longa tarde de matrículas. Deitei em minha cama, e no que eu fechei os olhos, a lembrança da aluna que eu conhecera hoje na matrícula voltou com a velocidade da luz.
“Julia... uma aluna misteriosa, bastante madura para a idade, e parece ter uma alma antiga.” Sussurrei abrindo os olhos e encarando o teto. “Espero poder me dar bem com ela.”
Um sorriso sonhador brincou em meus lábios, pensando nos alunos que eu havia conhecido hoje, Pedro, Julia, Andréia, Luana e Luciana, amanhã teriam mais que seriam da mesma turma deles, estava curiosa e empolgada para conhecer todos eles.
Pensei até em chamar o Flavio e a Regina, meu dois melhores amigos para nos encontrarmos final de semana, com o final das férias agora em fevereiro e toda a preparação para o início das aulas , não tive muito tempo para passar com eles ainda.
‘Melhor dormir, ou amanhã não acordo antes do meio-dia.’ Pensei, fui acalmando meus pensamentos, a respiração acalmando, o corpo relaxando, os olhos começaram a pesar e finalmente peguei no sono.
A noite foi povoada de sonhos com uma vida que eu não vivera ainda, uma voz sem rosto, uma figura coberta com uma sombra que me abraçava, e um pomar lindo, com árvores robustas e frondosas, frutas maduras e aparência saborosa, uma casa de dois andares em um sítio.
Eu não fazia ideia o que aquelas imagines do sonho significavam o que isso queria dizer, a voz falava, mas meu cérebro não assimilava, escutei o alarme, me tirando do torpor, minhas bochechas estavam molhadas e minha garganta ardia.
Meu corpo estava pesado demais para levantar, aquelas imagens lentamente foram desaparecendo, quando levantei, apenas uma lembrança, como se meu cérebro, tivesse estocado aquelas imagens longe.
‘Ainda não é a hora’ A minha voz, soou madura e mais velha em meus pensamentos. Estremeci e fui para o banheiro, tomar um banho quente e relaxante para me preparar para mais um longo dia.
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