Notas iniciais
Oi pessoal, desculpem a demora para postar o capítulo e eu estou tendo muita dificuldade para continuar escrevendo, não planejo abandonar a história, mas to com um certo bloqueio, eu tenho este e mais um capítulo pronto que postarei no domingo, mas para 'Encontro de Almas' eu não to conseguindo, então vai demorar um pouco, espero que quem está lendo seja paciente e espero que gostem do capítulo novo.

POV Julia

Eu sabia que estava me isolando. Passaram três dias desde a matrícula, e eu me recusava a sair do meu quarto, era uma briga sem fim com a minha mãe, e eu sabia que a mesma desculpa de sempre não colava mais.

Mas a verdade é que, a minha mente estava um turbilhão desde o dia da matrícula, agora além da preocupação em não estragar tudo na missão, eu tinha que lidar com os medos da minha eu mais jovem, o medo de acontecer tudo de novo na escola nova e ser rejeitada pelos colegas novos e professores.

Eu entendia perfeitamente, afinal com o trauma da rejeição e da homofobia que eu sofri na minha antiga escola, eu carreguei comigo a vida toda, inclusive na faculdade.

“Julia! Tu não vai ficar o dia todo presa nesse quarto!” Minha mãe exclamou eu pude ouvir o barulho da furadeira.

Tensionei, não podia acreditar no que eles estavam prestes a fazer. Me adiantei, destranquei a porta, os olhos arregalados. Eu encarei meu pai segurando a furadeira amarela barulhenta, incrédula e decepcionada.

“Tu é inacreditável pai! Vocês três são! Eu pensei que pelo menos tu tava do meu lado.” Disse eu encarando a minha irmã, ela baixou os olhos.

“Tu tá te isolando filha, a gente tá preocupado.” O pai tentou se defender desligando a ferramenta.

Eu gargalhei. “Então em vez de simplesmente respeitar meu tempo, vocês acham mais saudável ou interessante me forçarem a encarar o que eu não to pronta ainda.” Eu exclamei, minhas mãos estavam tremendo, minha voz saiu estrangulada. “Só me deixem lidar com isso sozinha!” Eu implorei.

Já estava pronta pra fechar a porta, minha irmã deu um passo à frente, me puxou pro abraço de urso que ela sempre dá quando eu não to falando tudo que eu sei.

“Não é só sobre o que aconteceu ano passado né?” A mana perguntou, eu tensionei

“Eu não posso falar, vocês não iriam entender nem acreditar, e mesmo que acreditassem, porque eu tenho provas.” Eu engoli o nó na garganta, mas as lágrimas corriam “eu não posso envolver ninguém. Confidencial ou algo assim... por favor... não pergunta e me deixa lidar com isso sozinha.”

“Nós somos teus pais! Nós queremos saber com que tu está lidando.” Meu pai exclamou, os olhos passavam dor, não pude deixar de me sentir culpada. “Nós queremos nos envolver.”

Eu senti uma onda de culpa me envolver, eu não sabia o que fazer, até que uma voz suave, porém distante soou em minha mente. ‘Quando tu estiver prestes a fazer a revelação, chame meu nome’ Era uma lembrança, mas eu não tinha certeza de quem chamar.

"Julinha, nós só queremos entender o que está acontecendo contigo. Tu não é mais a mesma desde que voltou daquela escola nova. Tu te tranca no quarto, evita conversar... Isso não é saudável, filha." Minha mãe insistiu, a voz dela soava tão distante, eu só sentia as palavras começarem a se formar na minha boca, prestes a vir como uma enxurrada.

"Nós estamos aqui para ajudar, mas tu precisa nos dizer o que está acontecendo. Não podemos ajudar se tu não falar." O pai pediu

"Estamos preocupados, Ju. Sabemos que tu passou por muita coisa ano passado, mas isso parece diferente." Disse a Milla com o carinho e determinação nos olhos e na voz.

Respirei fundo, encarando cada um deles. "Vocês acham que isso é fácil pra mim?" Eu perguntei, minha voz finalmente quebrando. "Vocês acham mesmo que eu não queria poder confiar isso a vocês?"

Meus pais e minha irmã mais velha, trocaram olhares preocupados, eu sabia que eles não iriam acreditar, mas eu surtaria se não falasse isso, eu queria lembrar quem eu deveria chamar.

"Vocês têm ideia de como foi difícil voltar naquela escola onde eu tenho tantas memórias? Onde todos os corredores, as salas de aula, o pátio ou até as hortas estão cheias de lembranças doces e amargas, lembranças de como eu ferrei com tudo!" Perguntei, minha voz elevando, meus olhos e garganta queimando.

"Que memórias, Julia? O que tu está tentando nos dizer?" O pai perguntou, é claro que ele não fazia ideia do que eu tava falando.

"Meu melhor amigo podia ter se tornado um músico incrível se ele não tivesse desistido! A minha ‘rival’ poderia ter tido uma vida feliz se ela não tivesse tirado a própria vida depois que as coisas aconteceram, assim como a amiga que levou mais tempo pra aceitar a minha aproximação!" Eu exclamei, as palavras saíram como um vômito em jato.

“Maninha... aquela pergunta hipotética?” Perguntou a Milla eu assenti.

“Que pergunta hipotética?” Perguntou a mãe, confusa.

“Vocês acham mesmo que voltar lá e ver a minha esposa na minha frente, quando ela não fazia a menor ideia de quem eu sou, foi fácil?"

Os olhos dos meus pais se arregalaram em completo choque, a Milla parecia ter tido um momento de epifania,

"Esposa? Julia, tu está... o que está acontecendo aqui?" O pai exigiu

"Eu pedi tantas vezes pra não ir à matrícula, mas vocês tinham que insistir!" A raiva que eu estava segurando finalmente explodiu.

"Julia, isso... isso não faz sentido. Como tu pode estar falando sobre... uma esposa? E essas lembranças? Tu está tentando nos dizer que... você já viveu tudo isso?" Perguntou a minha mãe com a voz trêmula.

Finalmente um nome surgiu em cheio em minha mente eu senti uma onda de alívio acertando meu peito. Corri dentro do meu quarto, caminhei até minha sacada e gritei com a minha voz ainda quebrada.

“ARTEMIS!”

Senti um puxão, como se alguém estivesse me resgatando do perigo eminente, o tempo parou completamente, mesmo que ela não fosse a deusa do tempo, e sim da caça, vida selvagem, donzelas e nascimento, por alguma razão ela estava fazendo as vezes de seu avô.

“Finalmente.” Ela disse com uma voz travessa. “Eu pensei que tu iria falar tudo antes de lembrar meu nome.”

“Desculpa, eu to tentando, eu prometi pra mim mesma não envolver ninguém, mas eu não acho que consigo fazer isso sozinha.” Admiti, encarando os meus pés.

“Daphne... nunca foi pra ti fazer isso sozinha... a tua parceira pode estar com as memórias seladas para evitar complicações..., mas outra razão que eu te mandei de volta... era para tu aprender a confiar nos outros para te ajudarem. Tu insiste em tentar resolver tudo sozinha, quando tu pode contar com as pessoas em tua volta.”

“Humanos não são seres individuais são?” Perguntei rindo, finalmente encarando os olhos castanhos avermelhados da deusa.

“Não, definitivamente não são.” Concordou. “Conta com a ajuda deles.”

“Eu posso contar tudo então?” Perguntei, me sentindo mais leve.

“Não de uma só vez... desculpa não poder devolver as memórias da Thalia ainda.”

“Então ela é parte da missão.” Comentei, ela assentiu.

“Ela também deve te ajudar, mas da forma que ela pode do jeito que ela está agora.” Artemis explicou.

“Aonde nós estamos?” Perguntei olhando em volta. Havia apenas luz como uma barreira feita de luz.

“Eu criei uma barreira para que teus familiares não me vissem, seria demais para eles verem um ‘mito’ andando pela casa.” Brincou ela.

Eu ri nervosamente, sentindo o peso da situação se aliviar um pouco com a presença de Artemis. "Eles já estão confusos o suficiente com tudo o que eu disse. Ver uma deusa grega na sala de estar poderia ser demais."

Artemis sorriu, um sorriso cheio de compreensão e paciência. "Eu sei que é difícil, Daphne... Julia. Mas tu tens a força para lidar com isso. E tu não estás sozinha, lembra disso."

Eu senti uma onda de gratidão e, ao mesmo tempo, uma responsabilidade enorme. Sabia que, no fundo, Artemis estava certa. Eu precisava confiar mais nas pessoas ao meu redor, principalmente naqueles que me amavam.

"Eu só... tenho medo de como eles vão reagir. E se eles não conseguirem lidar com isso? E se isso acabar afastando eles de mim?"

Artemis colocou a mão em meu ombro, o toque dela era leve, mas me transmitia uma sensação de força e segurança. "Eles são tua família. Eles te amam. Pode não ser fácil, mas eles vão tentar entender. E mesmo que não compreendam completamente, eles vão te apoiar."

Respirei fundo, absorvendo as palavras dela. "Tá. Eu vou contar, mas aos poucos. Vou tentar fazer isso do jeito certo."

Ela assentiu, satisfeita. "Isso é tudo que eu posso te pedir. Lembre-se, tu tens um propósito aqui. Cada passo que tu dá te leva mais perto de completar tua missão. Confia no processo e nas pessoas ao teu redor."

"Vou tentar, de verdade."

Artemis sorriu mais uma vez, e com um último aperto reconfortante no meu ombro, ela começou a se afastar. "Eu estou sempre por perto, se tu precisar. E lembra, não precisas fazer tudo sozinha."

"Obrigada, Artemis."

Com isso, a luz ao meu redor começou a desaparecer, e eu me vi de volta ao meu quarto, a sacada aberta para o dia lá fora, o tempo recomeçara, e agora eu precisava encarar.

“Vocês podem me esperar na sala?” Perguntei encarando os meus pais que me esperavam em frente a porta.

“Julia...”

“Pra contar o que eu estou prestes a contar... eu preciso pegar algumas coisas antes, eu preciso mostrar a vocês, então, será que vocês podem esperar lá?” Insisti, a Milla assentiu, eu tinha certeza que ela já tinha entendido tudo.

Quando ouvi os passos se afastando, comecei a pegar o que precisava, verificando se os anos estavam em ordem. Tirei meu violão de dentro da case, e peguei uma daquelas camisetas que vendem no ano novo, com o ano que está preste a começar, coloquei tudo em uma mochila e desci até a sala onde meus pais esperavam por mim.

Os olhos deles estavam cheios de perguntas, mas também de amor e preocupação. Era hora de contar, mas de um jeito que eles pudessem entender. Eu respirei fundo, sabendo que o caminho à frente seria complicado, mas também que eu não precisava percorrê-lo sozinha.

"Eu... preciso que vocês me deem um tempo para explicar tudo. Mas prometo que vou contar. Só... preciso que vocês confiem em mim, como eu confio em vocês."

Eles assentiram, ainda confusos, mas eu pude ver a determinação nos olhos deles. Era um começo, e com o apoio deles e a orientação de Artemis, eu sabia que poderia lidar com o que viesse pela frente.

A primeira coisa que mostrei foi o box da minha segunda série favorita.

“Supergirl?” Milla exclamou incrédula.

“Foi lançada em 2015, eu comprei todas as temporadas depois da Pandemia quando a série finalmente terminou em 2022.” Contei.

“Como?” A mãe perguntou incrédula.

“Sabe a série que a gente tá assistindo? Glee.” Perguntei.

“S...sim.” Confirmou o meu pai.

“Terminou na sexta temporada no ano de 2015, eu tenho todas as temporadas dela.” Expliquei.

“Mas....”

“Eu to quase jogando o meu smartphone novinho que tu me deu de Natal na parede porque eu não sei exatamente como lidar com a lentidão e com o 3g da claro, é frustrante! A imagem da câmera é de uma qualidade horrível comparada com o meu, mas para os dias de hoje, era considerado um dos mais modernos no mercado.” Comentei. “Eu levei uns dez minutos tentando lembrar como desbloqueava a tela sábado passado, pra ver que dia, e mês que eu tava, pra tentar me situar.”

“Tu tá querendo dizer....” Milla ofegou.

“Eu nem sequer lembrava que a gente tinha ido pra Disney até a mãe mencionar a viagem que nós fomos em janeiro.” Admiti, senti minha bochecha queimar, sabia que estava corando. Respirei fundo, engolindo em seco.

“Ju... em que ano realmente tu vive.” O pai me perguntou meio hesitante.

Peguei a camiseta de dentro da mochila.... ainda dobrada do avesso, sem mostrar o ano.

“Antes de responder isso...” Sussurrei. “Pai... quando eu te pedi pra me dar aulas de violão... eu realmente queria isso para nos conectarmos mais, mas....” Posicionei o violão em minha cocha e comecei a tocar, com destreza e habilidade, ele me olhou impressionado e orgulhoso.

“Eu sei do Papas da Língua?” Ele perguntou sorrindo.

“É... eu precisava de algo pra me cobrir.... quero dizer eu não podia começar a tocar violão perfeitamente sem nunca ter aprendido, mas isso não mudou, foi tu que me ensinou na linha do tempo original.” Comentei, o pai assentiu.

“Faz sentido... então tu te esforçou pra fingir que precisava aprender o básico de novo.” Ele sorriu em aprovação.

“Digamos que endurecer os dedos por querer é impossível.” Admiti, meus olhos arregalados. “A Julia de 2012, com os medos, traumas e conflitos está aqui... ela não sumiu e tá cagada de medo de acontecer de novo na nova escola, o que aconteceu na antiga. Ela ainda tem uma vasta dominância do corpo e da mente, então mesmo com 33 anos eu vou agir muito como uma adolescente de 15 anos.”

“Tu é mais velha que eu!” A mana reclamou indignada.

“Desculpa... eu precisava aprender algo importante antes de voltar pra este tempo e concertar o que eu preciso concertar, e mudar o futuro, garantir que as coisas aconteçam de uma forma mais positiva e feliz pra todo mundo envolvido.” Contei.

“Por concertar, tu quer dizer... ajudar as pessoas que tu mencionou?” A mãe perguntou em um sussurro.

“Isso mesmo... eu vou ajudar elas , guiar, proteger e .... salvar.” Eu disse com uma voz estrangulada, meus olhos transbordando.

“A esposa que tu mencionou.” Meu pai perguntou com a voz séria e tensa. Eu soltei uma gargalhada.

“Não te preocupa pai... pra tudo isso funcionar, a gente não pode começar a namorar antes da minha formatura, então as memórias dela estão seladas, assim como os sentimentos dela por mim... eu realmente espero que continue assim, porque eu preciso focar.”

“Como funciona isso?” A mãe perguntou.

“Não sei... eu sei qual deve ser o resultado..., mas não sei como fazer isso, eu não posso me expor, tenho que pensar como uma adolescente pra resolver esse problemão.” Expliquei. “Pra me adaptar bem aos dias de hoje, e garantir que eu não vou sair contando histórias e eventos do meu futuro a torto e a direito para as pessoas, eu preciso me lembrar bem da primeira década dos anos 2000, tentar lidar com os meus sentimentos tumultuados e bem...aprender a ser uma adolescente de novo.”

“Isso a gente pode ajudar.” Disse a minha mãe com um sorriso iluminado.

“Com certeza!” A minha irmã garantiu.

“Eu posso te ajudar a se atualizar com tudo o que tá acontecendo por aqui, como eu dou aula de história, eu sempre anoto eventos dos dias atuais, e comparo com o que aconteceu no passado, tipo a influência que o passado tem no presente.” Contou ele.

“Pai! Tu é o melhor, de verdade!” Me atirei nos braços dele apertando com foça.

“Eu posso te ajudar a parecer mais uma adolescente maninha.”

“E eu a te controlar para não contar coisas do futuro. Mas acho que talvez tu precise nos contar algumas coisas, para sabermos o que pode ser assunto para uma conversa.” A mãe sugeriu.

“Olha... eu não sei se eu realmente posso sair falando coisas do futuro, eu tenho alguém que tá me guiando, e acho que seria demais para vocês, contar isso agora, quem é essa pessoa.” Expliquei,

“Muita coisa pra assimilar, né?” O pai comentou.

“Eu to surpresa que ninguém tá considerando me internar numa clínica.” Comentei rindo.

“Tu tem provas.” A mãe apontou para a camiseta que eu tinha mostrado, e o box de DVD. “Não tinha como não acreditar.”

“Especialmente vendo tu tocar tão bem o violão.” O pai comentou.

“Faz sentido...” Eu tava me sentindo muito mais leve contando isso tudo pra eles. “Por sinal, pai! Eu tenho uma penca de séries e filmes da Marvel no meu quarto, dos vingadores e origens deles.”

“Tu tá brincando!” Ele exclamou, os olhos arregalados, empolgação no olhar.

“Não mesmo, é uma paixão que a gente divide e sempre assistimos juntos.” Contei rindo.

“A gente pode fazer isso, certo? Os DVD’s funcionam, certo?” A mãe perguntou empolgada.

“Olha, no meu computador funciona, eu não testei no aparelho de DVD aqui em casa, mas posso testar, e a gente assiste juntos, se não funcionar, eu conecto o note na tv e agente da um jeito de assistir.” Prometi.

“Vamos testar, nem acredito que vai ter um monte de filme e série boa pra gente assistir e elas nem foram lançadas ainda.” A Milla se empolgou.

“Tu não tem ideia mana, de quanta coisa boa saiu ao longo dos anos, inclusive um reboot de Harry Potter, em forma de série de tv.” Contei sorrindo levemente.

“Por isso que tu tava te isolando?” A mãe perguntou, me abraçando gentilmente.

“Desculpa... eu tava meio que certa que não podia sair contando pra ninguém sobre a missão e tudo mais.” Expliquei, eles assentiram, com entendimento nos olhos. “Milla... tu sempre vai ser minha irmã mais velha, não importa a idade que eu tenha, física ou emocionalmente.” Prometi.

“Ótimo.” Ela sorriu aliviada. “Então, como é a minha vida?”

“Tu terminou o doutorado.” Contei. “E tava prestes a se mudar pra morar com uma pessoa que tu conheceu, mas eu não ia com a cara, muito toxico... nível Chernobil, inclusive Chernobil se tornou uma gíria para relacionamento toxico, não importa o quão errado seja.” Contei.

“As pessoa não tem noção de como o que aconteceu em Chernobil afetou uma sociedade inteira? Devastou famílias?” O pai perguntou furioso.

“No meu tempo, as pessoas se tornaram incrivelmente sem noção, eles não ligam para o sofrimento alheio, só querem fama, e ser reconhecido em troca de likes, doa a quem doer, muitos perderam o senso de amor, empatia e comunidade.” Confidenciei. “Uma guria foi levada a tirar a própria vida, por fake News, dizendo que ela tava saindo com um influenciador que ela nunca viu na vida, foi atacada de todos os lados.”

“Que horror!” A mãe exclamou com os olhos arregalados.

“Eu sei, parou a internet. E o veículo de fofoca, nem se desculpou ou compensou a família das menina por danos.” Contei. “Claro que teve coisas boas, pessoas ajudando quando Porto Alegre praticamente afundou em pelo menos duas enchentes, mobilização da população para parar as queimadas e desmatamento, tem até Transexuais no governo agora, com os grandões da câmara dos deputados.”

“Isso é bom, as pessoas estão mais mente aberta.” A Milla comentou.

“É, com muita luta, porque a bancada evangélica tá cada dia mais retrógrada, mas talvez, com esse reset da linha do tempo.... talvez algumas coisas podem ser mudadas.”

“E a tua vida, como é?” A mãe perguntou.

Senti meu coração afundar, sabia que não voltaria para aqueles dias, eu viveria todos eles de novo, tomaria decisões não muito diferentes até consegui chegar lá.

“Bem... eu me formei na faculdade em 2026. Em 2028, a gente se mudou pro sítio, ficamos surpresas quando vocês sugeriram que a gente morasse na casa de hospedes, assim a gente teria nosso próprio espaço lá, mas não muito longe de casa.” Contei rindo alto, mas senti as lágrimas se formando. “Eu sinto falta da minha vespa... ficou pra trás... eu acho.”

“Não me diz que tu comprou uma vespa!” A mãe exclamou com empolgação nos olhos.

“A gente sempre roda a cidade com ela, é divertido... tu é a que mais anda fica dizendo que te lembra da tua lambreta azul.” Contei.

“Bateu até saudade da velha lambreta.” O pai mencionou. “Tu provavelmente sente falta né filha?”

“É...” Eu puxei o ar, meu coração tava um turbilhão de novo. “Mas aquela linha do tempo não existe mais, todo mundo foi mandado de volta, acho que com memórias seladas, evitar que saibam do futuro deles, mas por um lado é bom, talvez estas pessoas possam fazer novas decisões que façam a vida deles melhor.” Comentei. “Eu só sinto falta das minhas amigas, é estranho não ter os abraços sufocantes da Naya, atualmente.”

“Imagino.” A mãe comentou. “O que tu acha de nós irmos juntos tomar um sorvete?”

“Claro, um pouco de normalidade né?” Brinquei “Acho que agora que vocês sabem eu me sinto um pouco melhor.” Comentei.

“Imagino.” O pai concordou.

Levantamos e fomos nos arrumar para sair, seria uma boa fazer um passeio em família, mesmo que fosse apenas na sorveteria da esquina, eu já me sentia mais leve, e esperançosa.