Encontro de Almas
3 Primeiras amizades
Notas iniciais
POV Rubi.
Acordei cedo na terça feira, tomei uma chuveirada apenas para tirar o suor e cheiro de cama, e voltei para meu quarto me vestir, depois de pronta fui para minha cozinha minúscula, olhei dentro da geladeira, não tinha muita coisa, apenas alguns vegetais quase estragando e um requeijão a um dia para ficar fora da validade, bufei.
“Eu preciso passar no mercado.” Fiz uma anotação mental.
Tinha ido ao shopping ontem exatamente para isso, quando considerei fazer janta, mas obviamente dei preferência pela livraria, e um lanche na praça de alimentação, a decisão de ir ao mercado ficara completamente esquecida. Seria cômico se não fosse trágico.
“Bem, vai ser um sanduíche de salada então, pro café da manhã. De novo.” Rolei os olhos e comecei a preparar meu ‘grande’ café da manhã.
Depois de comer, me encaminhei para o escritório, verifiquei minha pasta e o horário para o dia, peguei tudo e finalmente pude sair de casa, fui para a frente do shopping pegar o ônibus que me deixaria na parada do ônibus em frente à escola.
Quando cheguei no portão, cumprimentei o porteiro que me devolveu um sorriso gentil e entrei no prédio, me sentia leve e animada para começar o dia. Assim que entrei na sala dos professores, já vi a diretora Soraia, sentada na cabeceira da mesa longa mexendo em alguns papéis.
A sala dos professores era ampla, com vários armários alguns onde tinha materiais para os professores, e outros onde colocávamos nossas coisas, como pastas e bolsas ou mochilas. A mesa no centro era retangular de pinho com várias cadeiras em volta, onde os professores podiam sentar para reuniões ou apenas conversas, além das poltronas e sofás.
Ela levantou os olhos, e acenou com um sorriso. “bom dia, Rubi.”
“bom dia, diretora.” Devolvi o sorriso e sentei na cadeira ao lado dela, coloquei a pasta em cima da mesa retangular.
“Me diz Rubi, como foi o primeiro dia? Não conseguimos conversar.”
“Ah, foi bastante interessante, principalmente a minha primeira aula.” Contei rindo suavemente.
“O que aconteceu?” Perguntou ela com um leve sorriso.
“Uma aluna, ela é nova na escola, tem um estilo diferente... ela meio que salvou o dia.” Confidenciei.
“Julia Almeida-Gomes?” Perguntou ela, eu assenti surpresa. “Como ela salvou o dia?”
“Os alunos ainda estavam em ritmo de final de férias, reencontrando os amigos, quando ela de alguma forma, silenciou todo mundo para que eu pudesse começar a aula.” Comentei, Soraia riu alto assentindo.
“Duas professoras da antiga escola dela, transferiram para cá, praticamente pelo mesmo motivo que Julia transferiu.” Comentou ela, o olhar triste, quis perguntar, mas fiquei na minha. “Elas me contaram que Julia é uma aluna muito energética, e que gosta de se juntar as amigas para fazer travessuras a fim de unir a turma e fazer a aula mais divertida.”
“Também para salvar professores em apuros.” Comentou Carmela, a professora de Sociologia, que dava estudos sociais no fundamental. “Ela foi minha aluna no fundamental, tem uma empatia inacreditável, nunca vi isso, tão forte. Mas ao mesmo tempo, é uma menina muito sensível e gentil, tenta ser amiga de todo mundo, e se decepciona quando não consegue.” Confidenciou minha colega. “É uma líder nata, a Julinha.”
“Eu pude notar ontem.” Comentei. “Ela silenciou a turma para que eu pudesse iniciar a aula.”
“Não me surpreende, confia em mim.” Disse a Carmela.
“bom dia, meninas, animadas para colocar algum conhecimento na cabeça dos alunos?” Perguntou o professor José entrando animado na sala, sentando ao meu lado, já colocando a pasta em cima, da mesa e uma caixa de madeira.
“O que tem aí na caixa Zé?” Perguntou a Soraia animada, aparentemente ele sempre trazia uma amostra de suas antigas expedições arqueológicas, visto que é um arqueólogo aposentado.
“Vocês não acreditariam.” Ele disse com uma piscadela e abriu a caixa. Mostrando o conteúdo. “Isto, minhas colegas, é um raro dente de um tiranossauro!” Contou ele empolgado mostrando o grande canino.
“Isso é incrível!” Exclamou Lucia, a professora de Biologia, se inclinando por cima dele para ver mais de perto. “Deus! Eu daria um rim para analisar esta amostra no laboratório de ciências.”
“Deixa eu mostrar pra minha turma hoje, que te entrego na hora do segundo intervalo, prometo que o rim não é necessário.” Disse ele rindo alto. “Eu tenho uma coleção em casa.”
“Zé! Tu não tem ideia de como eu tô animada agora!” Lucia exclamou, os olhos negros como ébano, brilhavam em empolgação, não pude deixar de rir.
A sala dos professores era um espaço extremamente agradável onde relaxávamos e conversávamos assuntos sobre nossas vidas, nada muito pessoal, mas momentos divertidos, claro que sempre tinha aquele colega que não tem limites, eu fui o alvo de um ‘franco atirador’ e um pouco assediador por um bom tempo.
POV Julia.
Terça feira de manhã para mim era como a segunda feira para o resto do mundo, okay que tinham duas matéria que se salvavam, inglês e Sociologia, eu era um zero em educação artística, até hoje só consigo fazer casinha em formato 3d e boneco de palitinho, não faço a menor ideia como passei no psicotécnico na auto escola, mas deixa quieto. Não consigo entender gramática e odeio matemática e química com todas as minhas forças, odeio tanto que eu passava de ano nestas duas com a força do ódio, eu me dedico mais que qualquer outra para garantir que jamais vou ter que trombar com isso de novo.
Mas o que me fazia levantar na terça feira, eram as aulas de Sociologia, com a Professora Carmela, o sorriso da Bi, porque se fosse pela matéria, fingia que tava doente em toda a terça feira e as aulas de inglês com o professor Antônio que dava a matéria de forma divertida e interativa, como a professora na disciplina de Inglês avançado da faculdade. Se não fosse por eles! Eu queria que a manhã de terça feira sumisse.
Desci para a cozinha, meus pais e a mana já estavam sentados na mesa me esperando.
“Por um momento achei que ia ter que te arrancar da cama, Julia.” A mãe resmungou.
“Tem Inglês, sociologia e a Professora Rubi hoje, não perco por nada.” Avisei, eles soltaram uma gargalhada.
“Já vi que só vai aguentar a matéria de português por causa da professora, né?” Perguntou o pai.
“Nem me fala, se fosse pela matéria... eu convocava uma bruxa pra quebrar meu braço toda terça, e curar quando a manhã acabasse, mas se for pensar, ela podia acabar me jogando uma praga depois, melhor deixar quieto.” Comentei rindo. “Oba! Geleia de uva da mãe! ”Exclamei animada, já pegando uma torrada e melando com o doce.
“Tu realmente ama a minha geleia né?” A mãe comentou com um sorriso.
“Muito! É a melhor depois da de morango.” Comentei. “Pena que só em agosto.”
“A gente tem que aguentar cinco meses inteiros até comer geleia de morango.” A Milla reclamou, dando uma dentada na torrada dela.
“Pois é, essa é pior parte!” Concordou o meu pai.
Depois do café da manhã, eu completamente satisfeita, com a barriga cheia, corri de volta para o meu quarto, fui ao banheiro, coloquei minha maquiagem, o piercing falso, e o brinco autocolante no nariz, que eu tinha coleções em casa, vesti a jaqueta de spikes, revisei meu material na mochila, e minha aparência no espelho, arrumei a franja, com um sorriso determinado, assenti para a minha imagem e saí do quarto com a mochila nas costas.
“Time to go!” Exclamei no meio do corredor com um sorriso e corri escada abaixo.
“Tu vai acabar quebrando um osso assim.” Minha mãe rolou os olhos, me deu um beijo na bochecha. “boa aula meu amor.”
“Obrigada mãe, boa aula pra ti também.” Disse dando um abraço
“Obrigada filha.” Disse a mãe com um sorriso.
Abracei a mana e o pai, e saí de casa, batendo o portão que tranca sozinho, coloquei os fones de ouvido, dei play no MP4 e fui para a escola, ouvindo as minhas músicas favoritas.
Quando cheguei na frente do portão, a Lua e a Luci já estavam me esperando, tirei os fones de ouvido, pausei a música nos abraçamos, cumprimentamos o porteiro e entramos na escola de mãos dadas, eu no meio.
“Então, parou em qual episódio?” Lua perguntou empolgada.
“Quatro.” Disse.
“Ah tu tá bem no comecinho, o drama nem começou direito!” Reclamou a Luci.
“Eu comprei o box ontem!” Relembrei.
“Qual série?” Perguntou a Paula se juntando a nós.
“Glee.” Disse eu. “A mãe me deu de aniversário adiantado, só porque eles gostam de série.”
“Ai! Eu amo glee!” Disse a Paula empolgada. “A gente vai poder discutir no recreio, tá em qual episódio já?”
“Quatro, e vocês?” Perguntei animada.
“Eu já to no doze da primeira temporada.” Disse a Paula.
“Vinte da primeira.” Disse a Luana.
“Eu vou ter que me apressar e assistir quatro por noite pelo jeito.” Bufei.
“A gente espera vocês.” Prometeu a Luci.
“Só não me venham com spoilers! Eu odeio spoilers!” Disse a Paula com um olhar ameaçador para as gêmeas.
“Não te preocupa Paulinha, eu prometo que elas não vão dar spoilers.” Assegurei a nossa colega.
“O Paula, vai mesmo andar com as esquisitas da escola?” Uma voz arrogante chamou, nós viramos.
Era um guri alto com um sorriso debochado, bem estilo de jogador de football americano das escolas dos estados unidos, os olhos negros, também afrobrasileiro, como a Paula.
“Em primeiro lugar.” Eu fulminei ele com o olhar. “Tu não nos conhece para determinar se somos esquisitas ou não.” Disse eu com a voz fria, mas não falei nada ofensivo para não ser tachada de racista.
“Em segundo lugar... eu escolho as minhas amizades Anderson.” Disse ela, com a voz seca. “Tu pode ser meu primo mais velho, e quer pagar de superprotetor, quando na verdade não passa de um valentão com esses teus amiguinhos otários, mas tu não decide com quem eu ando ou não.”
“Terceiro, nós não te ofendemos para merecer o tratamento.” Disse Luciana com a voz calma.
“Vocês não são ninguém pra dar liçãozinha de moral!” O primo da Paula reclamou. “Não passam de três branquelas metidas a duronas.”
“Qual o teu problema cara? Ninguém aqui ofendeu a tua raça! Não vem ofender a delas agora.” Disse um guri provavelmente do segundo ou terceiro ano, eu jamais imaginei que me colocaria nessa situação.
“Quer saber? Vamos indo gurias, a gente vai acabar chegando atrasadas na aula! Eu não quero perder um segundo da aula de Inglês.” Disse a Paula. “Afinal eu odeio ler as legendas, perco metade do episódio.”
“Tem certeza Paulinha? Eu não quero criar uma guerra com a tua família.” Perguntei um pouco chateada, a Paula era superlegal e ótima colega.
“Não Jubs, vocês são minhas colegas, ontem passamos o recreio juntas, foi divertido, meus pais estão loucos para conhecer vocês, porque eu contei de vocês pra eles, então só ignora tá?” Pediu ela e seguimos andando. “Sabe, eu vim pra essa escola ano passado, só eu de negra na turma, fiquei com medo que sofreria racismo como na minha escola anterior...”
“Bah isso é uma bosta, né? Eu consigo te entender.” Comentei, senti uma lágrima lutando para sair dos meus olhos. Eu precisava manter o olhar frio, mas o que ela disse depois, não consegui manter aquela máscara.
“Pois é, então eu calei minha boca durante um semestre inteiro, e só andava com o meu primo, até o Pedro dar o primeiro passo e conversar comigo, o pior é que ele nem era da minha turma.” Contou ela.
Senti um nó na garganta ouvindo ela contar isso, eu podia entender o medo dela melhor que qualquer um, soltei a mão das gêmeas, caminhei até ela e para a surpresa da Paula eu puxei ela para um abraço apertado.
“Conosco tu nunca vai ficar sozinha nem precisa ter medo tá?” Prometi, falando no ouvido dela, ela soltou uma fungada alta e retornou o abraço.
“Valeu Jubs.” Disse ela no meu ouvido.
“Não te preocupa com isso.” Disse com a voz embargada.
“Prometo que tu tem a gente aqui.” Disse a Lua se juntando no abraço.
“E jamais vamos falar ou fazer qualquer coisa pra te machucar, então... não te preocupa, okay?” Luci assegurou.
“Vocês são demais.” Disse ela com a voz embargada saindo do abraço um pouco relutante.
“Se quiser, eu te ajudo com o Inglês, eu faço cursinho.” Disse pra ela.
“Sério? Ajuda mesmo?” Pediu ela soando empolgada.
“Com certeza, só me diz que dias tu pode a gente pode se encontrar de tarde, e te ajudo.” Prometi.
“Tu é a melhor Jubs, de verdade!” Disse a Paula sorridente. “Eu fico superfeliz que vocês três transferiram sabia?”
“Tu não tem ideia de como a gente é grata por tu ter forçado a tua presença ontem e nos arrastado pro barzinho contigo.” Comentou a Luana, soltando uma risada.
“Eu sei como eu me senti, quando eu transferi pra cá. Vim sozinha.” Contou ela.
“Pois é, a gente só tem que fazer algo pela Sofia agora, ontem ela nem quis ir com a gente no recreio.” Luana reclamou.
“Pois é, mas talvez ela só esteja um pouco chocada com a movimentação da cidade e escola novas, uma hora ela dá uma chance pra gente, não vamos forçar né?” Disse a Luciana, sempre racional.
“Pois é, talvez seja melhor.” Comentei. Eu mesmo que não conhecesse a Sofia ainda, podia entender um pouco.
As duas primeiras aulas passaram, eu anotei tudo o que os professores falaram, fomos para o primeiro intervalo, foi a vez da Luana de chamar a Sofia, mas a resposta foi a mesma, de ontem.
A Lua apenas negou com a cabeça, e suspiramos frustradas, descemos, eu sempre fico faminta depois de exercitar o cérebro então peguei um lanche reforçado, sentamos juntas.
“Então, o que vocês fizeram nas férias?” Perguntou a Paula.
“Ah eu fui para a praia com meus pais e minha irmã mais velha, a Milla. E tu Paulinha?” Perguntei querendo saber mais sobre a nossa nova amiga.
“A gente sempre viaja para fora do estado, este ano fomos visitar a Bahia.” Contou ela. “Salvador, Ilhéus e Porto Seguro.”
“Eu to morrendo de inveja de ti agora!” A Lua exclamou.
“Pois é, fomos para o sítio, ficamos lá. Sempre quis conhecer o Nordeste.” Contou a Luci.
“Eu fui só uma vez, para a Bahia, com a minha mãe e a mana, dois anos atrás, amei a praia, mas fiquei cheia de brotoeja, acho que foi alergia da areia, não faço ideia, mas o mar!” Disse sonhadora com um sorriso brincando nos meus lábios. “A água verdinha, dá pra ver os peixes, nunca vou esquecer.”
“Tu foi na fazenda de cacau?” Ela perguntou, eu assenti veemente.
“Amei a fruta, tentei amassar o cacau, não deu certo, faltou o mais importante.” Disse fazendo uma pausa dramática. “Habilidade!”
As três riram alto, Paula assentiu. “Tive o mesmo problema, eles negaram meu currículo inexistente.” Zombou ela e explodimos em gargalhada.
“Um dia vamos todas, talvez eu consiga.” Brincou a Luana.
“Duvido, tu tem dois pés esquerdos.” Debochou a Luciana.
“Tu tem pé torto.” Argumentou a Luana.
“Se a gente não parar elas vai por horas.” Cochichei com a Paula, ela soltou uma risadinha.
“Então, qual a matéria que vocês mais estão empolgadas.” Paula perguntou, eu ia falar. “Tu eu já sei! Tu é louca por literatura.”
“História, sociologia, inglês, biologia, e Literatura, são as que eu to mais empolgada, Biologia parece ser superinteressante, o corpo humano, genética e tal.” Comentei.
“Okay, tu não é só a fanática da literatura então.” Paula brincou.
“Eu to louca por Artes.” Disse Luana, empolgada.
“Eu amo português, e sociologia eu não vejo a hora, mas a que eu mais me interesso mesmo, é História.” Contou a Luciana, os olhos brilhando em empolgação
“Amo, história, mas to louca pela de geografia, eu quero entender mais como funciona o território sabe, são tão diferentes os estados, tipos climáticos e relevos, porque afeta nas condições de vida da população.” Disse a Paula.
“Agora que tu mencionou, geografia é realmente importante, né?” Comentei, nunca me importei muito com geografia, mas depois do comentário da Paula, comecei a ver o valor da matéria.
“Pois é, é uma das matérias mais importantes, e funciona bem como a sociologia, que o estudo da sociedade, estilo de vida e tudo mais.” Comentou a Luciana.
“Gurias, sabe o que seria muito legal?” Perguntei, os olhos arregalados.
“Lá vem! A Ju acabou de ter uma ideia mirabolante!” Luciana exclamou tensionando.
“Não to pensando em travessuras, pelo menos não ainda, muito cedo.” Dei de ombros. “Mas acho que seria legal unir a turma e fazer grupo de estudo, sabem? Até porque ensino médio é bem mais difícil, preparação para o vestibular e tal.” Comentei.
“Concordo, acho que seria uma boa. Vocês já decidiram o que vão fazer? Faculdade.” Perguntou a Paula.
“Uhum, eu quero bacharel em letras, mas antes disso, depois de me formar no ensino médio, quero fazer intercâmbio nos estados unidos, ter fluência, e cursos profissionalizantes específicos para essa área antes da faculdade.” Contei.
“Bah, tu vai ter que te dedicar muito.” Paula comentou.
“Eu sei, e tu, o que quer fazer no futuro?” Perguntei para ela.
“Sociologia.” Paula me disse.
Eu sorri em aprovação. “Combina contigo.”
Antes que a Luci e a Lua pudessem contar os planos delas o sinal tocou e fomos de volta para a sala de aula, conversando.
“Eu quero trabalhar com artes, mas talvez alguma outra coisa, que me dê mais estabilidade.” Comentou a Luana.
“Eu adoraria nutrição.” Disse a Luciana.
POV Rubi
Eu estava completamente desmotivada depois das minhas duas primeiras aulas, era frustrante. Não tinha uma Julia em cada turma, para calar a boca dos alunos, ou colocar ordem por mim na turma, eu sentia que poderia desabar a qualquer segundo.
Mas para a minha completa felicidade, no período antes do segundo intervalo, a Julia definitivamente estaria lá, com aquele sorriso e empolgação, com os olhos que mesmo a maquiagem pesada e os óculos, não cobriam o brilho constante, isso me animou um pouco.
A turma já estava sentada esperando, quando cheguei, como era a primeira aula de Português, passei a carga horária no quadro, notei que toda a vez que mencionava os elementos da gramática, eu ouvia um gemido de dor.
“Eu vou me ferrar nessa matéria.” Julia comentou enquanto fazia anotações no caderno dela.
“Calma amiga, tu só precisa focar.” Luciana tentou passar alguma segurança para a amiga dela.
“Fácil pra ti falar né Luci! Tu pega fácil! Gramática me odeia, tu sabe disso!” Reclamou a minha aluna querida, já tinha um plano de ação na cabeça.
“Da pra vocês calarem a boca? A gente quer ouvir a professora.” Reclamou Daiana que senta logo atrás da Julia.
“Ah, para, né? A gente tá cochichando aqui para não atrapalhar.” Disse a Luciana.
“Desculpa sora!” Disse Julia com a voz resignada.
“Tudo bem, Julia, vamos prosseguir.” Disse eu. “Então no segundo bimestre vamos dar início aos verbos, e tempos verbais.”
Continuei dando a explicação do plano, assim que terminei, distribuí as apostilas que eles usariam durante o ano, e junto com ela uma folha com materiais didáticos de apoio, como gramática e dicionários que eles precisariam.
A maior parte da turma começou a se movimentar para sair da sala, vi que apenas uma aluna estava escrevendo, era a Sofia, aluna nova que viera do interior, sorri levemente.
Quando todos saíram caminhei até a mesa dela, com um sorriso leve e gentilmente toquei em seu ombro, Sofia levantou os olhos, me viu e se apressou a fechar o caderno, como se quisesse esconder o que escrevia.
“Posso sentar?” Perguntei apontando a cadeira em frente a mesa dela.
“Claro professora.” Sofia disse com a voz trêmula.
Puxei a cadeira da classe da frente, virei para a mesa dela e me sentei.
“Hoje é o segundo dia de aula, e percebi que assim como ontem, tu não saiu para o recreio com os teus colegas, está tudo bem?” Perguntei
“Eu só não estou acostumada... a escola que eu ia era bem pequena, e as pessoas eram diferentes... mais educadas e gentis sabe? Aquela guria ontem... que subiu na mesa, por exemplo, eu não me daria bem com ela, muito desbocada.”
“Tu chegou a conversar com ela?” Senti meu coração afundar, não pude acreditar o que ela disse sobre a Julia, sem nem tentar conhecer.
“Meu pai jamais aceitaria que eu falasse com alguém como ela.” Sofia disse, eu senti um certo desconforto no meu peito, meu coração apertou.
“Sabe... a Julia pode ter uma personalidade forte, mas se tu não der uma chance para conhecer ela... tu nunca vai saber que tipo de pessoa ela é, se te basear só pela primeira impressão.” Comentei, tentando manter a conversa cordial.
“Meu pai sempre diz que a primeira impressão é a mais importante, e se ela é tão desbocada assim... duvido que ela seja descente.” Sofia insistiu.
“Por isso que tu rejeitou o convite da Paula ontem?” Perguntei.
“Não... eu só fico nervosa de ir ao pátio, medo que vão fazer brincadeiras de mau gosto comigo.” Sofia admitiu.
“E se tu for comigo? Tu acha que se sentiria melhor?” Insisti.
“Desculpa professora, mas eu trouxe lanche de casa, prefiro ficar aqui.” Ela disse encerrando o assunto.
“Tudo bem, não vou insistir.” Prometi.
Quando saí da sala de aula, vi os olhos esperançosos da Julia, Paula, Luana e Luciana. Soltei um risadinha, elas ficaram esperando no corredor, até que eu terminasse de conversar com a Sofia. Fora um pedido que Julia fizera ontem no café do shopping.
“Desculpa gurias... também não rolou.” Disse tão frustrada quanto elas.
“Se nem a professora mais gentil e carinhosa consegue!” Paula reclamou com um grunhido. “Não tem saída para o resto de nós!”
“Pois é, esse mundo tá perdido.” Reclamou a Luana.
“Fazer o que, eu to faminta, vamos nós cinco comer no bar então!” Julia disse se empolgando, segurou a minha mão e me arrastou junto com elas.
“Vocês tem certeza?” Perguntei.
“Sim! A gente meio que planejou isso quando tu tava conversando com a Sofia, só esperávamos que ela iria vir junto.” Contou a Luana.
“Vai ser divertido, prometo!” Assegurou Paula.
Fomos juntas para o pátio, era refrescante ter alunas que queriam que eu também participasse do recreio com elas, talvez tenha sido porque eu encontrei a Julia e a família dela na livraria do shopping ontem, e ela quis me incluir, não sei, mas não pude deixar de ficar empolgada com a situação.
POV
Julia
Foi muito divertido a passar o recreio com a professora Rubi, ela é superdivertida, fala a nossa língua, provavelmente por ser bem jovem, talvez recém-formada, como ambos meus pais teorizaram, ela ainda tinha aquele filtro cor de rosa nos olhos, e por isso era mais fácil se abrir com ela.
Estávamos as cinco sentadas no barzinho, comendo salgados e tomando suco, visto que eu já tinha tido a minha dose de refrigerante da manhã, eu escolhi uma coxinha bem recheada. Dei uma mordida e os olhos arregalaram.
“Hum! Acabei de encontrar o catupiri!” Exclamei animada, soltando um gemido de satisfação.
“Ignora ela sora, a Ju quando tá comendo parece que nunca viu comida na vida.” Luana zombou.
“Que que eu posso fazer, eu fico com fome depois de exercitar o cérebro.” Dei de ombros.
“Então gurias? Animadas com o ensino médio?” Perguntou a Bi, mordiscando um risolis.
“Muito! A gente tem uma visão mais ampla do que pode fazer no futuro.” Comentou a Paula animada. “Eu vou seguir a carreira dos meus pais, os dois são sociólogos, eu quero a mesma coisa.”
“Ah, isso é incrível, e vocês duas? A Julia já contou no primeiro dia de aula o que ela quer, tradução e ser uma romancista.” Rubi comentou casualmente, eu fiquei surpresa que ela lembrava.
“Ah eu quero artes, mas não sei se é mais um hobby ou se é uma boa profissão pro futuro.” Comentou Luana.
“Olha, tem profissões mais difíceis para trazer um bom retorno, professor por exemplo, não recebe o melhor salário, mas é gratificante no final do dia saber que eu estou fazendo a diferença, sabe?” Comentei. “Mas acho que tu deve considerar uma profissão que te dê um bom retorno financeiro primeiro, depois considerar artes como um hobby.”
“Pois é, eu sei que escritor tem muito chão para ser reconhecido, por exemplo, precisa conquistar o público e para publicar é muito caro, por isso tradução seria algo mais certo e a minha profissão principal, mas Lua imagina quanta gente tu pode inspirar, ou trazer um sorriso na cara, só com as tuas obras no futuro? Vale muito mais do que o dinheiro, mesmo que o dinheiro seja necessário.” Comentei.
“Eu sei... talvez por inspirar outros, e ser gratificante seja uma boa escolha como hobby, né?” Lua perguntou.
“Pois é e talvez como uma renda extra quando tu tiver um público mais fiel, e tua arte se tornar popular.” Comentou a Luciana. “Eu quero nutrição, talvez isso pode ser uma forma de ajudar pessoas e aprender mais sobre os alimentos.” Comentou a Luci.
“Acho uma profissão maravilhosa também, vocês quatro já tem uma boa visão do que querem para o futuro. Isso é ótimo.” Disse a Bi.
“E tu sora? Tu sempre quis ser professora?” Perguntei curiosa pra saber mais sobre ela.
“Eu sempre fui uma leitora ávida, e sempre quis aprender mais, especialmente português, e quanto mais eu aprendia, mais eu queria ensinar, até consegui ser tutora de alguns alunos que tinham dificuldade, então sim eu sempre quis seguir esta profissão.” Contou ela.
O sinal tocou e nós fomos juntas em direção ao prédio principal da escola. Nos despedimos e fui para a sala com as gurias, quando entramos na sala de aula, quase caí para trás ao ver quem estava sentada na mesa do professor.
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