Encontro Selvagem

8 Você é especial!


Kalika ficou impressionada com o ambiente de Tiruchirappalli. Desde a entrada na cidade, foram poucos minutos de deslocamento até que chegassem a uma hospedaria. Mas poderiam ter andado pela cidade por muito mais tempo com a moça entretida em observar as vias e edificações, surpresa com aquele ambiente urbano desconhecido para ela. Era noite e quase ninguém circulava pela cidade, mesmo assim as ruas já lhe chamavam a atenção. Obviamente, Atreya escolheria apenas uma hospedaria de alto nível, não se permitindo nada simples. O prédio em frente ao qual a carruagem parou tinha quatro andares, bem destacado se comparado às construções ao redor.

— Bem-vindos à nossa hospedaria! De quantos quartos precisam? — Uma mulher muito bem-vestida em seda e com maquiagem pesada veio cumprimentando empolgada assim que a porta da carruagem foi aberta.

— Quatro quartos, por favor. Três homens e uma mulher. Os melhores que você tiver, por favor. — Disse Atreya, sem olhá-la no rosto.

— Vieram ao lugar certo! Por favor, entrem.

Adentrando à hospedaria, Kalika ficou impressionada novamente. Não estava acostumada com estruturas tão grandes nem com corredores tão amplos. Estava com olhar distraído na arquitetura e decoração quando uma servente lhe chamou a atenção.

— Por aqui, senhorita, vou te levar até seu quarto. Suas roupas estão muito sujas. Gostaria de um sari? — Kalika deixou-se ser conduzida sem dizer palavra, ainda surpresa com aquele ambiente.

— Aqui é seu quarto. — disse a moça, abrindo a porta corrediça de madeira. — Gostaria de tomar um banho?

— Um banho! Como vou tomar banho aqui no meio da cidade? — A moça sorriu, divertindo-se com a confusão da garota.

— Nossas instalações estão à sua disposição. Fique a vontade, eu vou preparar seu banho.

Assim que ela se retirou, outra mulher se apresentou, uma mais velha, carregando uma bandeja.

— Desi daru, senhorita?

— Aceito, obrigada. — A princípio Kalika estranhou o gosto do desi daru, sendo bem diferente do que ela estava acostumada a tomar em Anurigama, quando o arroz plantado no próprio vilarejo era fermentado e consumido no mesmo dia, sem maturação. Mas depois de dois ou três goles, percebeu que a bebida era de qualidade superior.

Minutos depois a servente mais jovem voltou ao quarto, avisando que o banho estava pronto.

— Me perdoe se a água estiver muito quente. Esquentarei mais se estiver muito fria. Fique a vontade.

Kalika teve a maior surpresa de todo aquele longo dia ao entrar na banheira. Nunca tinha imergido em águas quentes antes. Aquele conforto era surreal. Mergulhou totalmente, até o topo da cabeça, a sentir-se envolvida por aquelas águas ternas e aconchegantes. Pensou que poderia dormir ali mesmo, tão relaxante que era o afago da água quente em seu corpo. Mas depois de uns bons minutos, a água estava fria. Com vergonha de pedir à servente que esquentasse novamente a água, ela decidiu sair do banho e ir para a cama, que também era muito mais confortável que a cama de sua velha casa então tão distante. O travesseiro feito com penas diferenciadas e o cobertor limpo com o melhor isolamento térmico que ela jamais experimentara.

Foi a melhor noite de sono que ela teve em sua vida. Mas foi breve. Atreya bateu em sua porta pouco depois do sol nascer, disposto a aproveitar o máximo possível do período de claridade.

— Bom dia, Kalika! Levante-se! — Ele falava elevando a voz. — Vista-se e venha tomar seu café da manhã. Vamos sair em breve.

Quando Kalika se levantou, a servente veio recebê-la com um elegante sari branco.

— Bom dia, senhorita Kalika. Gostaria de vestir um sari? O senhor Atreya o comprou pra você! — Anunciou ela. Kalika de fato achou a peça muito bonita.

— Obrigada. É muito bonito. — disse ela, tímida.

Vestida com o sari, Kalika foi conduzida até a sala de refeições da hospedaria, uma mesa ampla e muito bem decorada com frutas, assados e peixe.

— Nossa, quanta coisa! — Impressionou-se a garota.

— Sirva-se como preferir, Kalika. — Disse Atreya, convidativo, já servido de uma boa porção de frutas e desi daru. — Já comeu isso? — Ele apontava para um pão de notável brancura. — Se chama pão, é feito de trigo, um grão parecido com o arroz. Tenho certeza que você vai adorar.

Kalika deu uma mordida tímida no pão, por curiosidade, e ficou com vergonha de admitir a Atreya o quão agradável lhe era o gosto.

— Agora que estamos compartilhando dessa agradável refeição, Atreya. — começou a dizer Kalika. — Talvez você queira me dizer quem é você, como tem tantas riquezas, como vive lá em Khambhat.

— Fico feliz com seu interesse! — Respondeu ele, entusiasmado. — Sabe o que é seda, não sabe, Kalika?

— Claro que sei.

— A seda que eu vendo não vem daqui, vem do grande império do leste. Eles produzem toneladas de seda por lá e vendem para lugares muito distantes. Existe uma rota criada por eles, com vários entrepostos intermediários, que vai desde as partes mais distantes do império a leste, até o fim do mundo a oeste.

— Fim do mundo! — Exclamou Kalika. — Que assustador. — Atreya riu.

— Não fique assustada. O que vai até o fim do mundo é a seda. Os mercadores viajam apenas alguns meses e eles sempre voltam. Quarenta anos atrás, meu pai percebeu que existem cidades marginais na rota dos mercadores em que pouca seda chegava, pois a maior parte era vendida nos grandes centros comerciais ao norte, como Samarcanda, Bukhara e Sravasti. — Kalika nem sequer sabia onde ficavam tais cidades, mas ouvia com interesse. — As pessoas em cidades distantes se reuniam para comprar seda, então meu pai começou a montar pequenos entrepostos nas cidades mais isoladas para escoar a seda. Foi assim que ele ficou rico. E agora, eu continuo com os serviços dele.

— Oh. . . Isso é impressionante. — disse ela. — Então a seda que você vende vem direto do grande império do leste.

— Sim. Só vendo seda da melhor qualidade. Eles têm jeitos muito especiais de fazer as coisas por lá. — Deu um dramático último gole em seu copo de desi daru, anunciando o fim da refeição. — Mas você também é especial, Kalika. Você tem poderes que eu quero presenciar. É hora de voltarmos à floresta. Vamos?

Quando saíram da hospedaria e se depararam com a agitada Tiruchirappalli diurna. Vendedores ambulantes correndo de um lado ao outro da rua. Carruagens e cabriolés enchendo as ruas. Pessoas com roupas diferentes, de profissões diferentes, passeando, conversando, perambulando. Era uma dinâmica que chegava a lhe deixar confusa. Não estava acostumada a ver tantas pessoas se movendo ao mesmo tempo. Ficou tão distraída com a cena que nem percebeu que Atreya e Farshid já tinham entrado na carruagem.

— O que houve, Kalika? Não vai entrar? — Chamou Atreya, assustando-a. Ela se apressou e entrou.

Assim que a porta da carruagem estava fechada, ela lhe disse:

— Essa cidade é impressionante! Tem tantas coisas diferentes pelas ruas! — Atreya riu gostosamente.

— Imagino como você ficaria impressionada se estivesse em Khambhat! — Ignorando o comentário, Kalika pediu:

— Podemos passear um pouco pela cidade antes de ir à floresta? Raktabīja não vai sair de lá.

Atreya inclinou a cabeça para trás e franziu a testa, visivelmente contrariado. Não era parte de seus planos. Estava ansioso para observar os poderes de Kalika. Mas justamente por depender dela, concedia a ela certo nível de controle da situação. Suspirou e respondeu:

— Tudo bem, Kalika, podemos. Se vai te ajudar a recuperar seus poderes, podemos.

— Por que insiste em falar dos meus poderes? Já disse que não é nada disso! — A indignação era um pouco menor depois de passado um dia inteiro.

— Eu já disse que você fica linda com esse sari branco? — Provocou Atreya, desviando do assunto.

As atividades pelas ruas de Tiruchirappalli eram das mais diversas. Atores dançavam com fantasias estravagantes. Guerreiros faziam apresentações de suas armas e contavam sobre as glórias de suas batalhas passadas. Artistas desenhavam transeuntes em papiros. Brâmanes davam sermões de seus palanques. Os itens vendidos em barracas e por ambulantes eram os mais diversos, de roupas a vasos. Mas de tudo isso, de longe, o que mais chamou a atenção de Kalika foi a música.

Ela se deteve longamente diante de um músico com uma longa barba grisalha e turbante, dedicado ao toque de sua cítara. Outro músico, um mais jovem, possivelmente filho dele, cantava em sua companhia. Tão maravilhada que ficou, Kalika decidiu que assistiria à apresentação até que Atreya a chamasse. O que aconteceu após cinquenta minutos, com o nobre já bastante impaciente. Assim que eles se viraram de costas, o velho, bastante incomodado, passou a reclamar:

— Jovens, os senhores observaram minha arte por tanto tempo e não vão me dar nenhuma recompensa? Não desrespeitem um velho músico dessa forma! — Antes que ele terminasse de falar, Atreya lhe jogou uma dinara com desdém.

A dinara foi o bastante para fazer o velho se calar, pois era de valor muito maior do que ele esperaria de um transeunte. O dia estava apenas começando e já tinha sido lucrativo. Para Atreya não importava dar uma moeda de tão elevado valor a um artista de rua. Só queria sair logo dali.

— Por que não existem músicos assim em Anurigama! — Kalika falava com uma empolgação inédita na presença de Atreya. — Se eu tivesse opção, com certeza seria musicista!

— Que bom que gostou, Kalika. Se isso vai te ajudar a encontrar os tigres selvagens, fico feliz. — Atreya mal conseguia esconder sua impaciência. — Agora, vamos para a floresta?

Assim o ritual do dia anterior se repetiu. Até anoitecer, Kalika chamou por Raktabīja sem sucesso. Embora os gritos de Kalika espantassem a maior parte dos animais da floresta, um urso-preguiça curioso apareceu para cumprimentá-los. Kalika ficou bem impressionada com a beleza do animal, mas Farshid, com sua espada em punho, já estava entre ela e o urso um segundo depois dele ter aparecido, espantando-o. Precavido para o segundo dia, Atreya levou lamparinas para prosseguir com a busca à noite, embora Kalika tenha achado a ideia ruim. A luz anormal no meio da floresta espantaria os animais, não os atrairia. Ela mostrou-se certa, afinal, nenhum animal se lhes apresentou durante a noite. Nem tigre, nem urso. Depois de duas horas de busca noturna, voltaram para Tiruchirappalli.

Mesma hospedaria, mesmo banho quente, mesma cama confortável, mesmo café da manhã farto. Mais um dia de busca, sem sucesso. Assim se sucederam mais dois dias. Foi só no quinto dia que Raktabīja apareceu.

O tigre veio galopante da floresta em direção aos humanos. Sempre atento, Farshid foi o primeiro a perceber o animal se aproximando, logo se pondo em posição de batalha.

— Cuidado, senhorita Kalika, um tigre! — Alertou ele. Kalika arregalou os olhos ao ver o grande felino galopando em sua direção. Farshid tentou se manter entre os dois, mas num segundo Kalika o reconheceu e avisou o guarda-costas:

— Está tudo bem, Farshid! É ele! Raktabīja! — Ela ultrapassou o homem armado na corrida, aproximando-se do tigre, que a recebeu como sempre fazia: patas nos ombros e lambidas.

Até mesmo Farshid ficou com o coração acelerado. Anteviu um devoramento brutal da humana quando o tigre ergueu suas patas sobre ela. Mas ele não veio. O tigre não a agredia.

— Olá, Raktabīja, meu amigo! Há quanto tempo! — Kalika cumprimentava com afagos nas orelhas do tigre.

— Por Vishnu! Isso é incrível! — Balbuciou Atreya, caindo sentado tamanho seu assombro.

Kalika virou-se para os dois homens enquanto Raktabīja a afagava com sua cabeça, em cumprimento. Ela sorriu, não para Atreya a quem finalmente mostrava o que ele tanto ansiou ver, mas sim porque não podia conter a felicidade de estar com seu amigo de novo depois de tão árdua busca.

— Ela realmente controla o tigre! É uma mensageira dos devas! Só pode ser! — Dizia o homem, impressionado.

— Não controlo ninguém, Atreya. Ele é apenas meu amigo.

— Ora, então você não vai se importar se eu tocar no pelo do seu amigo, certo? — Atreya disse, sardônico, se aproximando. O braço de Farshid o deteve firme, pondo-se estendido em seu caminho.

— Não se aproxime, mestre Atreya. É perigoso.

— Como perigoso? Não parece perigoso para ela! — Estranhou Atreya.

— Ele está certo, Atreya. — acrescentou Kalika. — Raktabīja não conhece vocês. É perigoso chegarem perto. Só eu posso. — Ela se ajoelhou na grama, deixando sua cabeça na mesma altura da do tigre, permitindo que o focinho molhado de Raktabīja tocasse sua face, ao que ela retribuiu com um beijo na testa. — Muito obrigada por ter aparecido. Sempre bom ver você. Agora, volte pra sua floresta. Eu preciso voltar pra minha tribo humana. Qualquer dia desses nós brincamos de novo, meu amigo. Tchau! — Ele ronronou e a afagou com a cabeça uma última vez antes de obedecê-la e voltar pelo caminho pelo qual tinha vindo.

— Você dispensou o tigre? — Estranhou Atreya. — Como diz que não tem poderes! Você realmente o controla! Quem é você de verdade, mulher? Não acredito que seja só uma camponesa tamil!

— Pois não acredite. — Falou uma sorridente Kalika, ainda alegre pelo encontro. — Eu mostrei o que eu tinha a mostrar, Atreya. Isso é o que você veio ver, sinto muito que não honre as lendas a meu respeito. Eu e Raktabīja somos amigos. Apenas isso.

— Humanos e tigres não podem ser amigos! Tem algo mais aí! Algo especial.

— Tem razão, eu concordo. Minha amizade com Raktabīja é especial.

Missão cumprida. Kalika mostrou a Atreya tudo que tinha para mostrar. O homem não ficou insatisfeito com suas visões e sim com a modéstia de Kalika em não se ver como mais que uma camponesa. Ele estava pronto para ouvir dela a qualquer momento uma revelação de que era uma deva disfarçada e que estava esse tempo todo lhe testando. Mas tal declaração nunca veio.

Na verdade, declaração nenhuma. A viagem de volta a Anurigama ocorreu em total silêncio. Nenhum som além das rodas da carruagem esmagando a grama por onde passava. Já estava de noite quando chegaram a Anurigama. Céu estrelado de uma noite de verão.

Kalika despediu-se timidamente e caminhou até a entrada do vilarejo. Atreya a acompanhou de perto, dispensando Farshid e seguindo-a sozinho. Estavam exatamente no perímetro do muro do vilarejo, com as casas à vista, incluindo a casa de Kalika, quando ela resolveu encerrar aquela longa companhia.

— Ficamos por aqui, não? Obrigada por tudo. — Sem dizer mais uma palavra, Kalika deu-lhe as costas e seguiu caminhando.

Atreya esperou que ela desse quatro passos à frente para lançar sua próxima pergunta sem delongas:

— Você gostaria de se casar comigo, senhorita Kalika? — Kalika arregalou os olhos e fitou Atreya fixamente. Seu sorriso lhe soava cínico, desagradável. Ela desviou o olhar.

— Eu não sei o que dizer.

— Diga “sim”. — Insistiu Atreya.

— Como pode me perguntar isso, Atreya? — Exclamou ela, antecipando uma negativa um pouco mais enérgica. — Eu sou uma Sudra, você é um Vaisya!

— Não sou Vaisya. — defendeu-se firmemente Atreya. — Eu também sou Sudra. Meu pai era Sudra, era um trabalhador simples de vilarejo pequeno como o seu, mas ascendeu à riqueza com a seda. — Com uma risada irônica, continuou: — Mas mesmo que eu fosse Vaisya eu me casaria com você, Kalika. O estigma que eu receberia por isso seria um preço baixo a pagar por ter uma deusa como companheira.

— Não sou deusa!

— Mas você é a última pessoa no mundo que se importa com o sistema de castas, tenho certeza. Isso não seria um problema pra você tampouco. — Em seu íntimo, Kalika não podia negar que Atreya tinha razão. Sempre considerou as castas a coisa mais idiota do mundo. Mas não era algo que ela gostaria de admitir para ele.

— Ainda assim, minha resposta é não. — Ela finalmente recusou explicitamente. — Sua oferta é muito lisonjeira, nobre Atreya. Mas não posso aceitar. Agradeço, mas recuso.

Atreya ficou visivelmente contrariado, testa e lábios contraídos.

— Mas a senhorita ficou tão feliz em Tiruchirappalli! A senhorita iria amar a vida em Khambhat!

— Senhor Atreya, sugiro que o senhor não tente me convencer. Será um desperdício de argumentos. Uma boa noite e muito obrigada pelo passeio. — Kalika retirou-se, sem esperar resposta.

— Passeio! — Resmungou Atreya. — Passamos cinco dias caminhando pela floresta e ela chama isso de passeio! — Voltou batendo os pés para sua carruagem.

— De volta a Khambhat, mestre? — Perguntou o condutor.

— Não! — reclamou Atreya. — Não vou desistir tão fácil! São dois meses de viagem até Khambhat! Não vou voltar de mãos vazias! Para Tiruchirappalli. Vamos continuar hospedados lá. Amanhã voltarei a Anurigama e desposarei Kalika. Custe o que custar!