Encontro Selvagem
9 Tapete Persa
Notas iniciais
— Kalika! Está de volta, querida! — Falou a mãe, animada, tão logo a filha pôs os pés em casa voltando da viagem, levantando-se ao seu encontro.
— Estávamos achando que você não voltaria mais. — Informou Jaimini. — Achamos que o nobre tinha te levado pra Khambhat sem mais nem menos.
— Não fomos tão longe assim. Só até Tiruchirappalli. — Contou Kalika.
— Nossa, mas então o nobre te levou até a cidade grande! — A mãe continuava a mostrar surpresa. — Que privilégio! Eu sei que meus cestos são vendidos por lá, mas nunca pus os pés na cidade.
— Ela é incrível! — Kalika começava a se empolgar, contando a única parte da viagem que interessava. — As ruas são cheias de artistas, de músicos, parece que a cidade vive o tempo todo em festival. E as comidas são incríveis! Vocês já ouviram falar de um vegetal chamado trigo?
— Kalika, se o nobre mostrou tudo isso pra você, alguma coisa especial aconteceu. — Falou seriamente o pai. — Será que ele não está querendo casar com você? Porque isso não é normal.
— Eu não vou casar com aquele idiota. — Respondeu rapidamente Kalika. Então, voltou-se para Jaimini, o único que ela presumiria se interessar pela parte interessante. — Então, Jaimini, você acredita que nas ruas de Tiruchirappalli tem guerreiros mostrando suas armas? Vi umas espadas muito bonitas por lá, você teria gostado.
— Isso é sério, Kalika. — O pai insistia no ponto desinteressante. — Como pode não perceber que esse nobre tem intenções com você? Acha que ele só te levou pra passear a troco de nada?
— Não foi a troco de nada. Ele só queria me ver interagindo com Raktabīja e viu, e só isso. Ele já foi embora, não importa mais.
Percebendo que a moça realmente não queria insistir no assunto, o homem se refreou de mais perguntas, embora seriamente desconfiado, olhando com suspeição para a filha que contava empolgada ao irmão sobre as artes de rua da cidade grande.
Mas as artes de rua chegaram a Anurigama dois dias depois. Kalika evidentemente estava enganada sobre Atreya ter ido embora. O som da cítara acompanhada do mridangam chamou atenção à distância de todas as pessoas num raio de várias dezenas de metros, incluindo das mulheres que trabalhavam na plantação com Kalika. Não estavam acostumados a ouvir esse tipo sofisticado de música no seu dia a dia.
— Mas o que é isso? — Indagou-se surpresa a mulher ao lado de Kalika no campo de arroz, com as orelhas atentas ao som abafado das cordas.
— Tem uns músicos peregrinos se apresentando no vilarejo! — Contou uma transeunte que andava com uma bebê.
— Que interessante! Eu quero ver. — Respondeu a colega. — Vamos, Kalika?
Kalika estava estarrecida e taciturna. “Eu já sei o que há por trás disso” pensou ela.
Kalika adorava o som da música, mas pela sua desconfiança, se aproximou devagar, cautelosa, olhando atentamente aos arredores para entender o que acontecia. Uma pequena aglomeração já havia se formado ao redor da fonte do som, mas Kalika, alta que era, não teve muita dificuldade de olhar por sobre os ombros das pessoas. Era o mesmo tocador de cítara que ela tinha visto em Tiruchirappalli, aquele a quem observara por 50 minutos seguidos. Havia apenas uma única possível explicação para sua presença em Anurigama e Kalika não demorou meio segundo para conclui-la, confirmando sus suspeita.
Não gastou muito tempo assistindo e ouvindo música, não se deteve mais que o necessário. Mas assim que virou de costas à aglomeração, com intenção de voltar ao seu ofício, assustou-se com a presença de Atreya e Farshid, bem ali, próximos a ela.
— O que foi, Kalika? Não gostou da música?
— Não vai me fazer mudar de ideia com isso, Atreya. — Declarou, impaciente. Estava aborrecida tanto por Atreya tentar seduzi-la com música quanto por causa do susto.
— Não falei nada sobre casamento. Só trouxe um pouco de música para alegrar o pacato povo de Anurigama. Algum problema com isso?
— Com licença.
— Ora, não seja assim! — Atreya mostrava-se inabalavelmente alegre, mas a impaciência da moça já começava a causar nele uma frustração que ele não deixava transparecer. — Eu também trouxe um presente para você! Farshid!
Farshid rapidamente prostrou-se em frente a Kalika e estendeu a ela uma cítara. Uma bem parecida com a tocada pelo músico atrás deles, feita dos mais belos troncos de árvores e tripas animais. Kalika ficou visivelmente admirada, soltando um breve suspiro antes de recusar.
— É muita gentileza, mas não posso aceitar.
— Ora, não faça essa desfeita, minha nobre encantadora de tigres. Por acaso está preocupada que não tem ninguém em Anurigama pra te ensinar a tocar? Em Khambhat certamente temos!
— É exatamente por isso, Atreya. Não vou aceitar seu presente para você não pensar que mudei minimamente de ideia sobre o casamento. Você está correndo atrás do vento. — Retirou-se rápido, sem esperar resposta, pois sabia que Atreya se envolveria num argumento infindável.
— Farshid, não a deixe ir embora assim! Vá até ela e faça-a aceitar o presente.
— Não posso fazer isso, mestre Atreya.
— Está me desobedecendo?
— Não por vontade própria, mestre. O senhor está me pedindo algo de que sou incapaz. Não posso controlar as vontades da mulher.
— Eu sei, seu idiota. Estou apenas dizendo que lhe entregue a cítara e depois eu vou conversar com ela. Vamos, não perca tempo!
— Imediatamente, mestre! — Falou ele, seguindo o caminho de Kalika.
— Senhorita Kalika! — Ele a chamou, aproximando-se em corrida ágil e regular.
— Veio sozinho, Farshid? Atreya não é sequer capaz de me atazanar sozinho! — Ignorando o comentário, Farshid foi logo entregando a mensagem:
— Senhorita Kalika, por favor aceite o presente. Mestre Atreya escolheu a dedo a melhor cítara para a senhorita.
Kalika revirou os olhos, visivelmente aborrecida. Custava-lhe ver o mesmo homem que corajosamente encarou um tigre e um urso na selva insistindo num presente que ela já havia recusado.
— Farshid, por que você trabalha para o Atreya? Por que um homem tão talentoso quanto você desperdiça suas capacidades pelos caprichos desse homem medíocre?
— Cuidado com as palavras, senhorita Kalika.
— Desculpe. Não quis ofender. Mas justamente por ter tanto apreço pelo seu mestre, você sabe que o que eu falo é verdade. Atreya é o desperdício de um homem.
Taciturno como de costume, Farshid deixou a cítara encostada numa parede qualquer e se pôs a frente de Kalika, caminhando à saída do vilarejo.
— A senhorita gostaria de ter essa conversa passeando pela floresta? Vou te proteger de qualquer animal selvagem que possa aparecer, se seu protetor Raktabīja não estiver por perto. — Kalika sorriu.
— Obrigada. Você é muito gentil.
Poucos minutos depois, entre as tecas, Farshid soltou sua espada e sentou-se na grama, joelhos para cima. Era a primeira vez que Kalika via o homem abandonar seu posto.
— A senhorita deve ter notado que eu sou diferente de vocês. Tanto de vocês, tamil, quanto do mestre Atreya.
— Sua pele é um pouco mais clara e seus olhos são verdes. O que tem demais nisso?
— Sou de outro povo, senhorita Kalika. Sou um estrangeiro. A noroeste daqui, na costa do mar, fica o limite da terra dos tamil com a terra dos concanis. Foi por lá que nós viemos. A norte do Concão fica um lugar chamado Guzerate, e lá uma comunidade do meu povo se estabeleceu no meio do seu povo.
— Khambhat fica lá?
— Sim, Khambhat é uma das maiores cidades na costa do Guzerate, é o lar da família do mestre Atreya. Mas nós somos diferentes de vocês, senhorita Kalika. Não acreditamos em devas, asuras ou no Samsara. Acreditamos em apenas dois deuses. Um deus criador e um deus destruidor. Um deus bom e um deus mau. O mundo é equilíbrio.
— Farshid, vocês são um povo diferente com costumes diferentes. Não tem nada de errado nisso. Acho que povos diferentes podem conviver em paz, respeitando as crenças uns dos outros. Além disso, gosto da sua visão de que o mundo deve ser equilibrado. — confessou a moça, interessada nos costumes estrangeiros.
— Eu também penso assim, senhorita Kalika, e quando nós nos estabelecemos nesta terra, os Rashtrakuta nos fizeram prometer que iríamos respeitar os costumes locais. Mas nem todos pensam como nós dois. Muito tempo atrás, há cerca de vinte ou trinta gerações, a terra dos meus ancestrais foi invadida por um povo que acredita num único deus e no seu profeta.
— Profeta?
— O mensageiro do deus deles. Mais ou menos como Krishna é para vocês. — Farshid sabia ser didático nos paralelos. Não era por nada que falava tão pouco, isso fazia suas palavras sere ainda mais apreciadas por Kalika.
— Esse povo é extremamente avançado em conhecimentos, tecnologia e comércio. — continuou ele. — Mas eles forçaram meus ancestrais a abandonarem suas crenças muito mais antigas, para acreditar no seu único deus e seu profeta.
— Que horror! Qual o problema em deixar as pessoas seguirem sua própria religião?
— Eu sei que a senhorita me entende. Mas não é fácil explicar isso a eles. O meu povo vem de uma longa tradição guerreira. No passado nós formamos impérios que dominavam toda a região das montanhas ao noroeste até o deserto ao norte.
— Farshid, eu adoraria saber quais locais são esses dos quais você fala, mas eu só conheço Anurigama e a selva. Não sei o que tem além do Kaveri.
Farshid balançou a cabeça, percebendo sua presunção. Kalika sempre se mostrara tão inteligente que não lhe pareceu absurdo presumir que ela tinha noções de geografia.
— Tudo bem, não se preocupe com esses detalhes. A questão é que meu povo está perdido, Kalika. Atualmente ele comanda um grande império que se estende para o oeste, chamado de Abássida. Mas os abássidas são todos convertidos à religião estrangeira. Ninguém mais acredita nos nossos deuses, apenas no deus deles e no seu profeta.
— E por causa disso você se sente deslocado, não é, Farshid? Se sente um estrangeiro no meio do seu próprio povo. — Kalika descreveu uma sensação com a qual não podia estar mais familiarizada, e que foi surpreendente certeira para Farshid, fazendo o homem arregalar os olhos sobre a mulher tamil.
Depois de um segundo de silêncio, ele voltou novamente seu rosto para as profundezas da floresta, contemplando suas cores além do verde.
— Isso mesmo. Mas o meu povo já era um povo guerreiro de grande honra e tradição muito antes de conhecer os árabes. Meu pai acreditava na tradição guerreira do nosso povo separada da religião estrangeira que eles nos trouxeram. Mas, como ele não queria lutar ao lado dos abássidas, que não seguem sua religião, ele resolveu vir ao Guzerate, como um humilde mercador. Então, ele conheceu o pai do mestre Atreya, que estava ficando rico com a seda e se ofereceu para ser seu guarda-costas. Foi o único jeito que ele encontrou de manter viva a nossa tradição guerreira, sem a contaminação da religião estrangeira. Afinal, os guzerates aceitam nossa religião, os abássidas não.
Kalika ficou pensativa por um longo momento. O gorjeio das aves e o farfalhar das folhas ao vento acompanhavam seus pensamentos a mundos distantes.
— Então você queria estar lutando ao lado dos abássidas, queria estar conquistando terras distantes, desde que pudesse continuar acreditando nos seus deuses, não é, Farshid?
— Precisamente, senhorita Kalika.
— É um sonho realmente muito excitante, apesar da violência envolvida, e eu não acho que uma conversão seja motivo para você deixar de vivê-lo, Farshid.
Farshid riu. Fazia uma semana que Kalika conhecia o homem, e foi a primeira vez que ela o viu rindo.
— Ora, imagine-se no meu lugar, senhorita Kalika. Você deixaria de acreditar nos seus devas e no seu Samsara para poder viver de música, por exemplo?
— Absolutamente sim, Farshid. Eu deixaria. — Ela disse com toda a convicção do mundo. Farshid não tinha como se surpreender mais com a resposta. Esperava tudo, menos aquela declaração. — Não importa se você acredita nos seus dois deuses bom e mau, ou no deus dos árabes e seu profeta estrangeiro. Não importa se você é um guerreiro conquistador de mundos ou o guarda-costas de um homem rico. Não importa nem mesmo onde você vive, se aqui conosco ou no meio do seu próprio povo. Você é apenas você. Sempre será você. E isso é maior que qualquer coisa.
Farshid fitou estarrecido para Kalika por um longo minuto. Ela estava sorrindo. Ele se sentiu profundamente estimulado pela ausência de palavras da moça. Sorriu de volta para ela. Então, finalmente, levantou-se e recolheu sua espada.
— Obrigado pela conversa, senhorita Kalika. É muito raro encontrar alguém que me entende. — Mal sabia ele do quando Kalika compartilhava daquela sensação.
No dia seguinte, quando Kalika estava trabalhando na plantação, Atreya despudoradamente se aproximou dela, introduzindo uma conversa sem rodeios:
— Bom dia.
— Bom dia.
— Está muito calor hoje, não? Não seria melhor trabalhar na sombra? — Atreya constatou num tom de voz calmo, solene, que era raro para ele. — Farshid? — Farshid abriu um guarda-sol e o pôs sobre a cabeça de Kalika, cobrindo-a com sombra.
— Obrigada, Farshid. Atreya, isso não vai te ajudar. — Atreya piscou os olhos duas vezes ao perceber que Kalika direcionou primeiro a palavra a Farshid, depois a ele.
— Não me leve a mal. Só quero conversar.
— Sou toda ouvidos.
— Sabe, eu não fui justo com você, Kalika. Eu deixei de levar em conta suas necessidades quando te pedi em casamento. — A mulher ao lado de Kalika soltou um grito agudo de surpresa.
— Ele te pediu em casamento, Kalika? — Ela estava gritando escandalosamente. — Como é que você não. . .
— Senhora, por favor não atrapalhe. — Interveio Farshid. A mulher se calou, mas observou a cena com intenso interesse.
— Que bom que você finalmente percebeu isso, Atreya. — Disse Kalika, quando o escândalo da colega foi contido e permitiu se continuar o diálogo.
— Sim. Eu não levei em consideração que você tem apego à sua vida rústica aqui em Anurigama. Tem sua família, seus amigos e o seu tigre. — Ela o olhou de soslaio, desconfiada. — Sabe, você não vai perder nada disso lá em Khambhat. Nós podemos levar todos eles conosco. Temos trabalhos para todos no meu mahal. E se não tiver espaço para eles na minha casa, tenho amigos ricos que ficarão felizes em empregá-los. Você não terá que se separar de ninguém.
Kalika revirou os olhos. Pela segunda vez, superestimou a interpretação interpessoal de Atreya e se decepcionou.
— Não é esse o problema. — Contentou-se em dizer. Não queria gastar muitas palavras com Atreya.
— O problema é o tigre, eu suponho? Podemos levá-lo conosco também. — Kalika soltou o broto de arroz que segurava naquele momento e interrompeu seu trabalho manual. Pôs-se ereta e fitou Atreya nos olhos.
— Como é? — Ela indagou seriamente, agravando sua voz.
— Usaremos uma gaiola. — Atreya passou a dizer sem se dar conta da indignação da mulher. — Ele pode morar no mahal conosco. Eu já vi algumas pessoas que mantém tigres em suas casas como companheiros. Não precisa se preocupar, ele será muito bem tratado e alimentado.
Kalika nunca sentira tanta repulsa por um ser humano em toda a sua vida. Mas estava tão chocada com o que ouvia da boca do homem que não conseguia responder, permitindo que ele continuasse com seu discurso abjeto:
— É incomum fazerem isso com tigres, eu confesso, mas algumas pessoas fazem. Não seria diferente do que já fazemos com cachorros, gatos e cavalos.
— Você acha que está me causando interesse falando essa atrocidade, Atreya? — Ela finalmente reagiu, num grito raivoso.
— Senhorita Kalika, por favor maneire seu tom. — Alertou Farshid. Atreya estava ligeiramente chocado para responder.
— Não! — Protestou Kalika. — Você não pediu pra ele maneirar nas maluquices que ele me fala, Farshid! Atreya, você é rico por causa da seda, não é? Me diga, você alguma vez, uma única vez na sua vida, removeu um casulo de lagarta de uma árvore? Você alguma vez já lavou os casulos ou curtiu a linha? Uma única vez?
Depois de alguns segundos para se recompor, Atreya respondeu:
— Eu tenho serventes que fazem isso por mim, Kalika, você não entende.
— Seus serventes fazem alguma coisa, você não. Isso que eu estava fazendo aqui antes de você vir me incomodar, colher o arroz, é importante. Fazer a seda é importante, fazer cestos, caçar pra comer, tudo isso é importante. Você não faz nada de importante, Atreya, é só um mimado cheio de dinheiro, por isso é incapaz de entender as necessidades dos outros.
Os olhos de Atreya estavam bem abertos, em surpresa e incômodo, e sua boca estava trêmula.
— Isso é um ultrage! Nunca fui tão insultado!
— Eu sei. Você é tão mimado que passou a vida toda sem sequer ouvir umas merecidas palavras duras.
— Ora, eu não tenho que ouvir isso de uma caipira! Vamos embora, Farshid! — Sem demorar um segundo, os dois homens viraram-se e partiram, Farshid fechando seu guarda-sol num movimento rápido.
— Melhore, Atreya. Você tem muito potencial, só está o desperdiçando com seu narcisismo. — Disse Kalika, num alerta de despedida.
— Não posso dizer o mesmo de você, mulher arrogante. — Vociferou Atreya, sem dar-se o trabalho de se virar para Kalika e olhá-la no rosto enquanto falava. — Eu queria te fazer um favor de te tirar desse buraco, você está bem onde você merece, ingrata!
Kalika não mais respondeu e, numa notável indiferença, voltou ao seu trabalho no arroz.
— Espere! Espere! Se ela não quer, eu me caso com o senhor! — Gritava desesperadamente a outra mulher, correndo em direção a Atreya, fazendo Farshid agilmente barrar-lhe o caminho.
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