Nos arredores do vistoso vilarejo de Anurigama estendiam-se as tecas a perder de vista, com os caminhos ornados de solanáceas e grewias. De manhã cedo, quando o sol ainda estava alaranjado no leste, Kalika saía para brincar sozinha na floresta, além dos limites de Anurigama.

Saía sempre usando um confortável dhoti que roubara de seu irmão, Jaimini. A princípio, seus pais ficavam muito bravos que Kalika usasse dhoti, mas com o tempo viram que a vontade da menina era mais forte que qualquer repreensão que pudesse receber, e em seu espírito inquebrantável, ela sempre voltava a usar os dhoti de Jaimini o que os fez, com o tempo, se tornarem naturalmente seus. Jaimini não se importava em ceder seus dhoti à irmã. Ele odiava usar dhoti tanto quanto Kalika detestava usar sari.

Aos doze anos, Kalika tinha cabelos tão escuros quanto a noite, olhos amendoados, nariz redondo e lábios ligeiramente carnudos. Era bem alta para sua idade, suas pernas eram esguias, o que lhe permitia correr tão rápido quanto qualquer garoto do vilarejo. Na verdade, era quase sempre a vencedora das corridas que apostavam nos arredores da vila.

Kalika achava que ninguém em seu vilarejo a entendia, nem os adultos, nem as crianças, fossem meninos ou meninas. Andava sempre com os meninos porque considerava as brincadeiras deles mais divertidas, mas em seu íntimo os desprezava levemente por achar que eram todos burros e sem perspectiva.

Certa vez tentara conversar com um garoto de seu vilarejo sobre como achava que Shiva não era totalmente bondoso com Krishna no Mahabharata, mas o garoto não foi capaz de acrescentar uma única palavra sobre o assunto que Kalika tentara introduzir, mesmo tendo ouvido a mesma história do brâmane na puja, se limitando a lançar nela um olhar perdido até que ela terminasse de falar, para então acrescentar: “Ei, Kalika, vamos brincar!”

Kalika menosprezava também a seus pais. Sua mãe era uma tecelã e seu pai um vigia de vacas na goshala do vilarejo. Nenhum dos dois tinha perspectiva de futuro. A eles o que restava era apenas trabalhar, trabalhar e morrer. Uma vez, enquanto teciam cestos, sua mãe lhe contou como era o sonho dela ter trabalhado na anthapura. Kalika ficou realmente triste de perceber o quão limitada era sua mãe. Considerava a anthapura um castigo para as mulheres, exceto, é claro, para a rainha, que recebia o serviço de todas as mulheres que lá trabalhavam. Mas ao perceber que sua mãe não tinha mais nenhuma noção do que havia no mundo além da tecelagem e dos cestos, aquele sonho era até compreensível.

A pessoa de quem Kalika mais gostava em todo o vilarejo era o brâmane. Não era religiosa, pelo contrário, sentia até certa antipatia pela ideia dos deuses terem determinado o destino de todo ser humano. Gostava mais da ideia de independência, que parecia não caber no ideário de seu mundo. Mas, gostava de ouvir as histórias que o brâmane contava. Era sempre a última a ir embora da Puja e nunca dormia durante os sermões, o que o brâmane tomava como uma forte espiritualidade por parte da menina, mas que era na verdade apenas um interesse literário nas histórias. Gostava de imaginar as aventuras de Arjuna e Krishna e à noite, quando se deitava pra dormir, ficava imaginando os heróis em outras histórias, que não estava na Mahabharata, histórias únicas, histórias com criaturas únicas que só existiam na cabeça de Kalika, e que ela nunca contava a ninguém no vilarejo, porque as considerava especiais demais para serem compartilhadas com aquela gente comum. Kalika queria ser Krishna quando crescesse. Queria ser a heroína que comanda exércitos, que se manifesta como o avatar de Vishnu, que fala com os deuses, que descobre terras novas maravilhosas, que entra em reinos desconhecidos.

Mas sabia que isso não seria possível, e era isso que a levava a sair do vilarejo sozinha pela manhã. Inteligente que era, Kalika já tinha percebido o que o destino lhe reservara. Ou seria uma tecelã medíocre como sua mãe, ou, pior ainda, seria dada por dote à família de algum homem, a ser uma esposa e mãe ainda mais tolhida. A infância era o único momento em que poderia ter um fiapinho de liberdade. Urgia aproveitar cada segundo dessa liberdade que lhe escorria pelos dedos como areia.

Ela gostava de andar sozinha pela floresta porque era só assim que conseguia ver os animais mais lindos que lá habitavam, como o porco-espinho, o mangusto e a marta-de-nilgiri. Esses animais são sempre muito ariscos e não chegam nem pertos de grupos com mais de três ou quatro seres humanos juntos. A própria fala dos humanos os espantava a grande distâncias. O único jeito de encontrá-los era andando sozinha e com muita discrição.

Mas de todos os animais, o que Kalika mais gostava era o gato-da-selva. Assim como todos os outros, ele também era arisco, mas quando ela tinha a sorte de achar um, trepado nas tecas ou esgueirando-se entre os arbustos, aquilo prendia os seus olhos como nada mais no mundo.

Naquela manhã laranja, Kalika viu algo especial, algo que uma menina tamil qualquer dificilmente teria a chance de ver durante a vida, um encontro selvagem. Ouvindo o miado, ela logo ficou empolgada e, com um sorriso no rosto que ninguém podia ver, foi caminhando na ponta dos pés entre as árvores para encontrar seu querido gato-da-selva. A uns dez ou quinze metros de distância, teve sua visão: o felino acuado, cercado por quatro dos temíveis dhole, os cachorros selvagens da floresta. Eles o estavam caçando. O sorriso em seu rosto se desfez imediatamente, se transformando em uma expressão de genuína preocupação.

Olhou em volta procurando qualquer coisa que pudesse usar para defendê-lo. Gravetos e pedras era o que tinha à vista. Era perigoso, ela sabia. Dhole eram ameaças para os humanos também, ela poderia acabar se tornando ela mesma a caça. Mas, era corajosa, mais corajosa que qualquer outra pessoa que conhecia, e aquele era o momento de colocar sua coragem em prática. Respirou fundo, o coração acelerado e agarrou os instrumentos que a natureza pôs à sua disposição, para salvar o mais bonito dos animas que Brahma fez.

Com os dentes à mostra, o dhole avançava a passos regulares em direção ao gato, que recuava de cabeça baixa. Quando os dentes do dhole estavam a poucos centímetros das orelhas do felino, ele defecou, no seu último mecanismo instintivo de defesa, mas aquilo não repeliu os canídeos. O dhole líder estava a um segundo de dar o bote, quando a pedra veloz atingiu sua bacia, fazendo-o ganir, mais de susto que de dor. Se virou no susto para ver o que o atingira, no tempo exato de ver a menina surgir correndo das árvores, esbaforida e balançando desajeitada o maior graveto que pudera encontrar.

— Saiam, desgraçados! Saiam! Deixem meu gato em paz! — ela gritava, aflita. Felizmente para Kalika, nenhum dos dholes ali era especialmente corajoso, de modo que todos os quatro fugiram. Se algum deles tivesse ficado e lutado, Kalika não teria chance com apenas pedras e gravetos, mas fato era que o ser humano é o mais temido predador da natureza, mesmo que fosse uma fêmea de doze anos.

O temor aos seres humanos, contudo, inclui também os felinos. O gato que Kalika protegera não se sentiu em nada mais seguro com aquela situação. Continuou acuado, soltando miados agudos e recuando. Percebendo que o perigo se foi, Kalika soltou suas armas. O sorriso voltou ao seu rosto. Ajoelhou-se na grama e estendeu a mão ao animal.

— Aqui, gatinho, aqui. — Ela chamava. — Não tenha medo. Eu sou boazinha.

Quando os passos em marcha-a-ré do felino enfim o fizeram chocar-se com uma árvore e ele não ter mais para onde recuar, Kalika aproximou sua mão de seu rosto vagarosamente, mas percebeu que os dedos estendidos assustavam o animal. Então fechou o punho e encostou os nós dos dedos bem de leve em sua orelha. Era a primeira vez que tocava um animal selvagem diretamente. Assustado, o gato deu um espasmo para trás com a cabeça. Kalika também recuou, entendendo o espaço do animal e tentando não o invadir. Sentou-se na grama, apoiou as palmas das mãos no solo da floresta, e desviou o olhar, tentando não assustar o animal. Olhava de soslaio enquanto ele, curioso, se aproximava vagarosamente da garota para farejá-la.

— Eu sou boazinha. Não sou ameaça. — reforçava Kalika, com a voz mais dócil possível.

Chegando perto, finalmente, ele pôs uma pata hesitante sobre sua coxa. O toque pela segunda vez assustou o animal, e ele se afastou em disparada, em um segundo estando a cinco metros de distância de Kalika, que se pôs a rir gostosamente.

A risada assustou o animal, mas ele percebeu que a humana não o seguia; pelo contrário, continuava sentada na grama, olhando para as árvores. Voltou a fitá-la com atenção e curiosidade. Kalika apenas sorria e olhava para qualquer lugar que não fosse a direção do gato, para não assustá-lo. Surpreendentemente, ele voltou a se aproximar. Entendeu que a garota não era ameaça. A aproximação hesitante levou dois ou três minutos. Um tempo muitíssimo longo para se resistir à tentação de olhar, chamar ou gesticular para o animal, mas Kalika teve tal disciplina.

— Olá, criatura linda. — disse Kalika, — Como é seu nome? — ela apenas falava, sem mover nenhum músculo do corpo que não os do aparelho fonador. Queria que o gato se aproximasse primeiro para ganhar sua confiança.

Enfim o resultado veio: ele encostou seu focinho molhado no braço da menina, oferecendo um sinal de amizade. Kalika tocou-lhe a cabeça, muito compelida por um gesto de ternura, e ficou maravilhada com a reação complacente de seu novo amigo.

— Você é o gato-da-selva mais lindo que eu já vi, pelos tão laranja, tão vívidos! — Tão logo pronunciou as palavras, novamente o sorriso em seu rosto sumiu, sendo substituído por uma expressão de intriga com uma pitada de preocupação.

— Laranjas? Gatos-da-selva não são laranjas. Aqui, deixe-me ver uma coisa. — com mais violência que os toques anteriores, ela tateou firmemente com a mão o dorso do felino, revelando suas majestosas listras.

— Meu Deus! Você não é um gato-da-selva! É um filhote de tigre!

Surpresa e incrédula, a menina se afastou. Seus olhos surpresos encontraram-se com os olhos igualmente surpresos do felino. Ele se aproximou novamente, com as orelhas baixas. Kalika sorriu e acariciou sua cabeça.

— Você está com medo, não é, querido? — Disse ela, tentando manter a voz afável. — Mas não terá mais motivo pra ter medo, quando crescer. Você vai ser o mais forte e imponente de todos os animais da floresta, o rei da floresta, o poderoso tigre.

O tigre respondeu esfregando de leve sua cabeça no braço da garota. Kalika riu. Aquele foi um momento muito especial, que ela levaria em seu coração por toda a vida. Estar junto daquele lindo e futuramente majestoso animal. Uma conexão que não costumava acontecer entre humanos e tigres, especial e rara. Um encontro selvagem.

Kalika ficou sentada na clareira acariciando seu novo amigo por mais de uma hora. Mesmo que no fundo de sua mente a necessidade de voltar para o vilarejo começasse a urgir, a vontade de ficar ali era muito grande. Ela se atrasaria para o começo das atividades matinais. Levar água para o vilarejo, ajudar na plantação. Não importava. Ela estava certa de que, assim que saísse daquela clareira, nunca mais chegaria perto de um tigre novamente, que dirá poder tocá-lo pacificamente. A extensão daquele momento valia qualquer bronca ou castigo pelo seu atraso.

Mas, depois de passada uma hora, Kalika começou a pensar que, se não voltasse logo ao vilarejo, eles sairiam para procurá-la. Não queria ser encontrada ali, naquela situação. O contato com seu novo amigo felino era especial demais para ser compartilhado com os idiotas do vilarejo. Pensando nisso, ela enfim se levantou.

— Adorei te conhecer, tigrezinho, mas agora eu preciso voltar. Eu também tenho meu bando, você entende. Adeus, tigrezinho. — Virou-se e seguiu seu caminho.

Sem surpresa nenhuma, o tigre a seguiu. Kalika o espantou com gestos enérgicos com os braços e reforços verbais de sua obrigação. Assustado, o tigre se afastava correndo por uns poucos metros. Mas, continuava observando a menina enquanto ela ia embora e, passados alguns segundos, voltava a segui-la. A cena se repetiu por três ou quatro vezes.

— Você deve ter seu bando também. Volte para ele. Sua mãe deve estar preocupada com você. — disse a garota, antes de deixar o felino definitivamente. Ele não mais a seguiu.

Naquele dia, o tigre ocupou os pensamentos de Kalika o dia inteiro. Trabalhando na plantação, brincando com as crianças, o tempo todo, ali, secretamente em sua cabeça, estava o tigre. Ela queria conversar sobre o ocorrido com alguém, mas não queria contar o que aconteceu.

Em algum momento durante suas brincadeiras mais agitadas, que envolviam corridas e dispersão, Kalika aproveitou a brecha para se afastar do grupo de crianças e ir até a árvore sagrada da vila, onde os adultos conversavam. Era muito raro uma criança se aproximar de um adulto para conversar. Kalika se aproximou de um pequeno grupo de mercadores e agricultores, que aproveitavam um breve intervalo do trabalho para conversar animadamente, e, hesitante mas determinada, os abordou com um respeitoso cumprimento:

— Namastê.

— Namastê, Kalika. — responderam os homens, muito surpresos. Era raro uma criança se aproximar de adultos para conversar, e ainda mais surpreendente a criança com maior fama de rebelde em Anurigama.

— Com licença, o senhor conhece muito bem os animais da floresta, não é? — Ela dirigiu a pergunta a um homem mais velho, já grisalho, que tinha fama de ser um grande caçador.

— Conheço um pouquinho sim, Kalika. Devo levar seus cumprimentos?

— Não. — disse a menina. — Eu só queria saber sobre animais. O senhor sabe sobre animais, não sabe?

— Sei um pouquinho. O que quer saber?

— Tigres. Quero saber sobre os tigres. — disse ela, determinada.

— Sempre curiosa essa menina. — comentou outro homem do círculo.

— Ah, sim, os tigres. Eles são os animais mais perigosos da natureza, são os animais que todos os outros animais têm medo. Quando andamos na floresta, sempre usamos máscaras viradas para trás para enganar os tigres e eles não atacarem.

— E eles atacam muito?

— Não muito porque é muito difícil encontrar um tigre, Kalika. — Explicou o homem. — O homem que encontra um tigre e sobrevive tem histórias a contar pra vida inteira. Eles são animais solitários, vivem sozinhos. É muito difícil achar um.

— Vivem sozinhos! — Kalika disse a si mesma. — Então ele não tem ninguém! Não tem bando pra voltar. — Ela se afastou correndo, antes que os homens pudessem indagar sobre o que ela falava.

Não deram mais atenção às perguntas da menina, logo voltando aos seus assuntos corriqueiros de adultos.

Na manhã seguinte, ao sair do vilarejo, Kalika teve a grata surpresa de se deparar com o tigre. A postos, entre as árvores, o rabo serprenteando. Ele estava esperando por ela.

— Você! — gritou a menina, toda surpresa. — Você me seguiu até aqui?

A resposta do tigre foi se aproximar rapidamente, baixando a cabeça para encostar na menina com a parte mais superior de sua cabeça. Um alegre cumprimento felino. Kalika ficou imediatamente alegre com aquele toque. Fez um breve cafuné nas suas orelhas e disse-lhe:

— Vamos para a floresta. Não quero que ninguém te veja.

Saiu correndo entre as árvores como de costume. Mas dessa vez, não corria sozinha. O felino vinha atrás empolgado, sem correr a sua plena velocidade, que seria muito superior à de Kalika, porque queria que ela fosse na frente. Queria ser guiado por ela.

Kalika correu por vários minutos até encontrar uma clareira mais ampla, onde pudesse se sentar. Não se passou meio segundo que ela se sentou, foi derrubada por duas patas que a empurraram ludicamente, ao que ela riu muito, empolgada.

Tal como no dia anterior, ficou um longo tempo acariciando o pelo do tigre, mas dessa vez também brincou com ele, usando gravetos e correndo entre as árvores para ser seguida. Brincou até ficar preocupada em ser encontrada pelos aldeões, que era seu alerta para deixá-lo. Mas dessa vez houve algo muito mais especial, mais pessoal na despedida. Um nome.

— Vou te chamar de Raktabīja! — disse ela, empolgada. O tigre inclinou a cabeça para o lado, curioso com aquela palavra. — Como você é o animal mais perigoso da floresta, acho apropriado você ter o nome de um asura, que põe medo na gente. Mas pra mim você não dá medo, você me traz mais paz que qualquer gandharva! Até amanhã, Raktabīja!

Dessa vez, Raktabīja não a seguiu. Como todo animal da floresta, ele temia fortemente os humanos, por isso não seguira Kalika até seu vilarejo. Ela era a única humana em quem ele confiava. Deixaria que voltasse ao seu território humano, onde ele não tinha coragem de entrar, pois sabia que ela voltaria à floresta para vê-lo.