O terceiro encontro de Kalika e Raktabīja revelou uma incrível sintonia de mentes. Ao sair de casa de manhã, Kalika roubou um dosa de carne de carneiro para dar de presente ao tigre. Mal sabia ela que também receberia um presente, o qual Raktabīja segurava na boca ao aguardá-la em seu ponto de encontro, próximo à saída do vilarejo.

— Bom dia, Raktabīja! Ora, o que é isso que tem na boca? — Ele se aproximou e deixou seu presente aos pés da garota, orgulhoso. — Um peixe! Você trouxe esse peixe de presente pra mim? Que bondoso! Eu também trouxe um presente pra você, Raktabīja. Aqui, pegue.

Ela lhe estendeu o dosa, que o tigre a princípio cheirou, curioso, para em seguida abocanhar num bote, fazendo a menina se assustar e afastar a mão rapidamente. Mas depois, percebendo que ele apreciara o presente, acariciou suas costas listradas, sorridente, enquanto ele mastigava.

Embora ninguém no vilarejo soubesse dos encontros de Kalika com Raktabīja, eles começaram a notar mudanças no comportamento da garota, algo que os fez em geral ficarem tão felizes que não se preocupavam em buscar causas: ela estava sempre feliz, de bom humor e sorridente, deixando de ser a menina marrenta que cresceu sendo, e começou a usar sari todos os dias.

O sari tinha uma razão prática para ser usado: quando ela brincava de pique-pega com Raktabīja, ele gostava de morder as tiras compridas de tecido, ao que Kalika puxava de volta, fazendo um cabo de guerra. Frequentemente ela deitava na grama e ficava imóvel, esperando o felino perceber sua inércia, o que a divertia imensamente. A reação de Raktabīja era padrão: mordia o tecido do sari, de preferência na parte inferior da veste, que cobria as pernas da garota, e tentava puxá-la, arrastando pela grama, coisa que não tinha força para fazer, o que tirava de Kalika uma gostosa risada.

As coisas permaneceram assim por quatro meses. Então chegou o outono. Com o frio, o tigre não apareceu mais.

No primeiro dia, ela não se preocupou. Apenas guardou suas expectativas para o dia seguinte, e voltou para o vilarejo com seu sorriso costumeiro. No segundo, a reação foi neutra. No terceiro, ela voltou pensativa e ligeiramente preocupada em seu íntimo. No quarto, decidiu correr por entre as árvores por uma longa hora, chamando seu nome aos gritos:

— Raktabīja! Raktabīja! — Pássaros abandonavam suas árvores em voo fugaz, macacos saltavam para os galhos mais distantes, e todo mamífero terrestre fugia para suas tocas ou para o interior da floresta, por toda a extensão de onde Kalika correu, assustados com os gritos da garota.

Depois de uma hora, ela parou de gritar e correr, ofegante. Fechou os olhos, como que fazendo uma oração, e levou o punho fechado ao peito.

— Acho que acabou. — disse a si mesma. — É claro que uma hora ia acabar. Humanos e tigres não podem ser amigos. Ele foi para a floresta viver a vida dele de tigre. Eu preciso voltar ao vilarejo e viver minha vida de humana. Eu sabia que ia acabar, mas não estava preparada pra isso. — Duas lágrimas escorreram, e ela enfim acrescentou: — Adeus, Raktabīja. Torne-se o tigre mais lindo e feroz dessa floresta. Nunca vou esquecer de você.

Apesar da resignação expressa, Kalika ainda voltaria à floresta, esperando ver o tigre, nos dois dias seguintes, mas sem gastar tanto tempo e energia o procurando. A vontade de vê-lo convencia sua mente de que ele ainda podia aparecer, mas não sendo o caso, ela logo desistia e voltava para casa.

As aventuras de Kalika pelos arredores de Anurigama foram suspensas. Não porque ela não tivesse nenhum outro motivo pra voltar lá além do tigre, mas sim por causa do frio. Especialmente no fim do outono, nas temperaturas muito baixas, o trabalho no vilarejo se intensificava e as brincadeiras das crianças se tornavam mais tímidas. Sem grandes correrias e perseguições pelos bosques. Kalika parou de usar sari. Frequentemente desenhava um tigre no solo com um graveto, e escrevia seu nome em sânscrito embaixo.

— Raktabīja é um tigre? — Perguntou um garoto que não tinha muito conhecimento sobre os puranas.

— É sim. — Respondeu Kalika, entendendo a pergunta e não se importando de confundir o garoto.

Esses não foram dias depressivos ou melancólicos para Kalika. Ela dormia muito feliz. Quando se deitava para dormir à noite, fantasiava aventuras ao lado de Raktabīja, imaginava-se montando-o e correndo com ele para terras distantes, e aquilo muito a felicitava, o que a fazia dormir sorrindo. Ela estava convencida de que nunca mais veria o tigre novamente, por isso queria fortalecer as boas memórias o máximo possível, de modo que não se esquecesse no futuro. Mas isso não a impedia de continuar vivendo sua vida normalmente, brincando com as outras crianças.

O inverno chegou e passou. O frio intenso deu lugar à terna primavera, com sua exuberância de flores e frutos e dias quentes perfeitos para se brincar nos arredores do vilarejo. Um grupo de nove crianças, meninos e meninas, incluindo Kalika, agora com treze anos, e Jaimini, tomava banho em um afluente do Kaveri.

Uma queda d’água ficava apenas a pouco mais de um quilômetro a montante, de modo que a leve correnteza ali fazia aquela região muito aprazível para se brincar e tomar banho. O leito tinha cerca de trinta metros de largura, a profundidade não passava de um metro e meio, tornando os mergulhos seguros e aproveitáveis. As crianças haviam chegado ali apenas duas horas depois do amanhecer, dispostas a aproveitar bem o inteiro dia de sol e rio. Mas, uma visita inesperada interromperia o pretendido dia de diversão.

Um garoto de dez anos, o mais introspectivo e atento do grupo, depois de nadar até se cansar, sentou-se numa pedra ao sol para descansar, e ali ficou observando atento um bosque próximo. As tecas eram bem densas, difícil enxergar entre elas, mas ele via que algo se movia ao fundo, algo grande. Talvez um veado? Olhou com atenção por um longo minuto, até que identificasse o animal, pelas feições de sua cabeça.

— Tigre! Tigre! — Ele gritou tão alto quanto pôde, chamando a atenção das outras oito crianças. Já estava nadando em desespero, tentando chegar à outra margem do rio, quando elas puseram os olhos nele.

O feline enfim saiu dentre as tecas, revelando-se completamente. Os gritos reverberaram em uníssono, todas as crianças correndo em desespero, exceto uma, cujo irmão, percebendo que ela ficara em pé e imóvel na água, voltou para chamá-la.

— Venha, Kalika, corra! Ele vai te pegar! — Kalika sequer se moveu.

— Jaimini, venha logo! — Gritou outro garoto, aflito.

— Não! Ela é minha irmã! — Respondeu Jaimini, determinado. O garoto não proferiu mais uma frase e se juntou às outras crianças em fuga.

Do tamanho de um cachorro, o tigre andou calmamente até a margem do rio, deixando suas patas a um centímetro da correnteza. Soltou seu grunhido. Ainda não era o rugido imponente, grave e vibrante do rei da floresta, mas também já não era o miado agudo de um gato. Era estridente e selvagem, certamente capaz de espantar qualquer animal, incluindo seres humanos. Menos Kalika.

— Kalika! — Gritou Jaimini, lacrimejando, antevendo um ataque brutal.

— Raktabīja. — Kalika murmurou. O felino respondeu com um ronronado. A menina andou em seu encontro, os passos fortes espirrando a água do rio. Quando chegou perto o suficiente, ele a cumprimentou com o gesto já conhecido, oferecendo-lhe o ponto mais alto de sua cabeça na vertical.

Kalika abraçou o pescoço do tigre com seus dois braços. Ele começou a lamber os braços e rosto da jovem. Surpresa e extasiada, ela ainda levou quase um minuto para conseguir dizer uma palavra.

— Que saudades! Eu achei que não ia te ver de novo! Que bom que você voltou, Raktabīja!

Terminados os cumprimentos, ela apontou para Jaimini, que estava deitado apavorado na grama.

— Esse é meu irmão, Jaimini. Venha cumprimentá-lo. — Ela andou lentamente até o irmão, o tigre a acompanhou.

Jaimini urinou quando Raktabīja andou em sua direção com olhar fixo nele.

— Não precisa ter medo. — Avisou Kalika. A expressão do garoto mostrava bem o quão inútil era o aviso.

O tigre aproximou-se, cheirou o garoto na altura de suas bochechas, identificando o cheiro parecido com o de Kalika, e esfregou sua cabeça nele, um cumprimento que o imóvel Jaimini não foi capaz de responder.

— Kalika! — gritou o garoto apavorado, com a mandíbula trêmula, depois de gaguejar cinco vez a primeira sílaba do nome da irmã. Kalika riu divertidamente.

— Está tudo bem, Jaimini. Ele é nosso amigo. Raktabīja! — Ela chamou. O felino saltou sobre ela com as duas patas, posicionando-as em seus ombros e dando uma lambida em seu rosto. Era a demonstração para Jaimini de que ele não representava perigo.

Ainda hesitante, o garoto estendeu ao tigre sua mão extremamente trêmula, enfim tocando seu pelo macio. O rabo de Raktabīja serpenteava. Aquilo era surreal. Mas, era real. O rei da selva, o mais feroz dos felinos, embora fosse um adolescente, ainda não totalmente desenvolvido, estava ali, à sua frente, sem atacá-lo.

Humana e tigre brincaram juntos na água, nadando, por mais de dez minutos até que o garoto recuperasse a calma. Raktabīja gostava de avançar para os pontos mais profundos do rio, a sentir uma correnteza mais forte em seus pelos.

Jaimini enfim se recompôs e entrou na água, juntando-se à irmã.

— Como isso é possível, Kalika? — Perguntou, perplexo. — Tigres são bonzinhos? Achei que fossem o animal mais mortal de todos!

— Os outros tigres são. — Explicou Kalika. — Se um dia se deparar com outro tigre na floresta, Jaimini, não corra, olhe nos olhos dele por um segundo, desvie o olhar mostrando que está com medo, e se afaste devagar, entendeu? — Jaimini assentiu com a cabeça. — Mas esse é nosso amigo, só esse. Não precisa ter medo dele. Principalmente quando estiver comigo. Raktabīja, venha!

Ele se aproximou nadando. Kalika abraçou sua cabeça e beijou-o.

— Nós precisamos ir embora. As outras crianças vão ver que ficamos pra trás e chamar os caçadores do vilarejo para nos salvar. Eles vão vir aqui pra te caçar, então eu preciso que vá embora, que suma na floresta, entendeu? Mas amanhã nós nos vemos de novo, meu amigo. Estou muito feliz em te ver. Até logo. — E, afastando-se, disse ao irmão: — Pode se despedir dele, Jaimini.

— Tchau, Raktabīja. — Disse Jaimini, fazendo carinho em seu dorso e, pela primeira vez, sorrindo. Raktabīja esfregou sua cabeça na altura do pescoço de Jaimini, voltou-se para Kalika e lambeu-lhe o rosto, e então saiu da água num salto esplendoroso, espirrando muita água, deixando uma mancha escura irradiando do centro da pedra em que saltou. Os irmãos saíram do rio pela margem oposta.

— Kalika! Jaimini! — Gritou o caçador, com a lança na mão, correndo ao seu encontro. — Está tudo bem. Ele não machucou a gente. — Explicou a garota.

— Foi incrível! O tigre. . . — Jaimini começava a contar, empolgado.

— O tigre estava perseguindo um cervo escondido entre as tecas. — Mentiu Kalika, interrompendo o irmão. — Acho que carne de cervo é muito mais gostosa que carne humana, então ele nem ligou pra gente. Eu e Jaimini fugimos enquanto ele estava ocupado comendo.

— Graças a Vishnu vocês estão bem. — Falou o caçador. Mas da próxima vez, fujam junto com as outras crianças. Não se arrisquem assim.

No caminho de volta ao vilarejo, as crianças conversavam empolgadíssimas sobre a experiência de terem visto um tigre. Todas estavam positivamente surpresas de terem visto um animal tão majestoso de perto, principalmente o garoto observador de dez anos, que foi o que chegou mais perto.

— Eu achava que tigres fossem maiores. — Comentou uma garota. — Ele era mais ou menos do tamanho de um cachorro. — Kalika era a única no grupo, incluindo o caçador, que sabia que Raktabīja ainda era adolescente e cresceria mais, mas guardou esse conhecimento para si.

— Mas isso é estranho. — Comentou o caçador. — Tigres não chegam perto de círculos humanos. Eles só atacam quando estamos dispersos, caçando. Muitos humanos juntos costumam assustá-los.

— Talvez ele não ficou com medo porque viu que somos crianças. — Supôs um garoto.

“Não” pensou Kalika. “Ele sentiu meu cheiro de longe, foi por isso que se aproximou.” Virou-se para Jaimini e fez um gesto de silêncio.

Assim que chegaram ao vilarejo e se dispersaram, Kalika pôs as mãos nos ombros do irmão e disse-lhe seriamente:

— Jaimini, não quero que conte a ninguém sobre Raktabīja, entendeu? Esse vai ser nosso segredo. Ninguém em Anurigama pode saber que somos amigos de um tigre. Nem mesmo o papai e a mamãe, entendeu? — O garoto concordou timidamente.

Enquanto voltavam para a casa, Jaimini direcionou à irmã mais uma pergunta:

— Kalika, por que você deu um nome de asura pra o tigre? — Kalika explodiu em risadas e então respondeu:

— Porque iria ser muito chato se eu desse um nome de deva, não acha? — A explicação satisfez Jaimini, mas na verdade era mais profunda que isso.

Kalika desprezava Anurigama e o estilo de vida que havia conhecido. Rebelde no corpo e na mente, ela buscava oposição aos valores dos seus pais e demais adultos do vilarejo. Por isso, um asura, que em geral seria visto negativamente pelas pessoas, atendia bem ao propósito de ser a oposição, o refúgio do mundo chato e ortodoxo dos adultos.


Notas finais
Meu objetivo com essa história é que ela seja realista. Extraordinária, sim, no limite do comportamento excêntrico de tigres e humanos, mas sem nada sobrenatural ou violação da biologia. Eis que cerca de duas semanas depois de ter escrito esse capítulo, fazendo minha lição de casa sobre tigres que é necessária para essa escrita, eu descubro que na verdade tigres são mais ativos no frio e não no calor. Eles detestam calor e, como o frio dá fome, caçam mais no frio. Portanto, a época do ano em que Raktabïja fica ausente e a época em que volta estão incorretas do ponto de vista biológico. Mas esse será o único erro na história que eu conscientemente deixarei. As cenas deles se refrescando no calor nadando no rio (que acontecem nesse capítulo e serão mais exploradas no decorrer da história) são especiais demais pra mim pra eu removê-las ou adaptá-las a um cenário mais frio, então, me perdoem, biólogos, mas vai ficar assim mesmo.