Encontro Selvagem

3 As Mangas são sua Recompensa


Na manhã seguinte, Kalika acordou Jaimini discretamente para que saíssem juntos do vilarejo para o encontro secreto. O garoto, ainda atordoado pelo sono, a seguiu confuso por um beco que saía dos limites do vilarejo que Jaimini nem conhecia, mas que Kalika já usava havia anos em seus passeios matinais. Raktabīja estava deitado tranquilamente entre as árvores, confiante que não seria incomodado por outros animais, humanos ou não. Assim que viu os irmãos, levantou-se e avançou com andar empolgado em sua direção, cumprimentando Kalika com um salto, levando as patas aos seus ombros, e Jaimini com um afago com a cabeça.

— Podemos brincar com Raktabīja por uma ou duas horas, depois temos que voltar ao vilarejo. — Kalika explicou ao irmão. — Mas temos que brincar mais longe dos muros, para não sermos vistos. Venha, Jaimini! Me siga! — E correu para o denso das tecas, como fazia sempre, o tigre a seguiu empolgado.

Pela primeira vez tinha uma companhia humana em sua fuga física e simbólica de Anurigama. Jaimini parecia confuso, tendo dificuldade em entender como aquilo era possível, mas ao mesmo tempo, muito entretido em conhecer os segredos da irmã. Sua amizade secreta e sua rota secreta pela floresta.

As brincadeiras dos dois irmãos com o tigre se tornaram frequentes. Já era tempo de Kalika passar a ser uma má influência para Jaimini.

Num desses dias, brincando de pique-pega com Raktabīja enquanto Kalika descansava sentada ao tronco de uma árvore, Jaimini se deparou com uma frondosa mangueira.

— Uau! Que mangas bonitas! Tão vermelhas! — Admirou-se o garoto. — Se as crianças lá de Anurigama descobrirem essa árvore, essas mangas não duram um dia, Raktabīja! — confessou o garoto ao tigre, antevendo seus amigos do vilarejo arrancando incalsavelmente os frutos dos galhos, até que não sobrasse nenhum.

Jaimini tentou então, sozinho, a empreitada que vira em sua cabeça as outras crianças tentando: trepou na árvore e desajeitadamente tentou chegar aos frutos. Mal havia subido dois terços de sua altura, estagnou-se, ao mesmo tempo por medo de subir mais e por desajeito, sem muita habilidade na escalada de troncos. Depois de interromper a subida por alguns segundos, continuou, só para cair, assustado, tentando se segurar nos galhos que levou consigo ao chão.

Raktabīja apenas observava, com o rabo serpenteando.

— Você está rindo de mim, não está? — Questionou o garoto. — Tigres não riem, mas você está rindo de mim por dentro, que eu sei. Pode parar. Dessa vez eu vou conseguir.

Cumprindo sua palavra, na segunda tentativa Jaimini alcançou uma manga, segurando-a com apenas uma mão, já que o outro braço estava ocupado em agarrar-se ao tronco. Puxou a manga, mas ela não se desprendeu do galho tão fácil quanto ele supôs, não tendo outra escolha que não fosse usar sua outra mão, a qual levou muito rápido do tronco ao fruto, para evitar a queda. O resultado foi que o garoto ficou pendurado na árvore pelo fruto, os pés desesperados tentando manter-se presos ao tronco, mas sem sucesso. No fim, ele caiu, mas pelo menos trouxe o fruto consigo.

— Viu só, Raktabīja? Eu consegui! Não disse? — gabou-se exultante, embora com a voz travada pela dor da queda.

O tigre correu até a árvore, quase como que dando o bote numa presa. O garoto ficou surpreso com sua agilidade. Raktabīja também não era o mais habilidoso escalador de árvores, pois precisava mover suas patas ao alto rápido para não perder o equilíbrio. No entanto, suas garras permitiam-lhe se prender ao tronco muito melhor que mãos humanas, e ele chegou aos frutos bem mais rápido que Jaimini, e na primeira tentativa. Agarrou a manga com seus grandes dentes felinos e saltou ao chão, patas estendidas adiante, caindo em pé com o fruto na boca.

— Exibido. — Resmungou Jaimini, ainda esfregando suas nádegas para aliviar a dor.

— Kalika! Venha comer manga! — Ele chamava empolgado e feliz, correndo até a irmã com o fruto ao alto, a exibi-lo.

— Nossa! Que manga bonita! — Admirou-se Kalika com a rubridade da fruta, ao vê-la ainda de longe. Raktabīja vinha atrás, trazendo mais uma manga.

— Você encontrou uma mangueira por aqui? Muito bem, Jaimini! — Elogiou ela, quando Jaimini chegou perto, ofegante.

— Temos que comer essas mangas antes que as outras crianças da vila encontrem a mangueira, porque quando encontrarem, não vai sobrar nada!

— Ou os adultos. — disse uma Kalika pensativa. Mas não deu mais atenção ao assunto e começou a descascar o fruto.

Raktabīja deitou-se na grama com o fruto entre as patas e começou a arrancar a casca exatamente como faria com uma presa, rasgando-a com seus dentes e jogando para o lado. Os três se deliciaram com o fruto mais doce da floresta naquela gostosa manhã de verão.

Assim que terminaram de comer, enquanto o tigre lambia majestosamente suas patas, limpando-as da refeição, Kalika levantou-se, limpando os lábios com o antebraço.

— Já está na hora de voltarmos. Tchau, Raktabīja! — disse ela. Os dois irmãos se despediram do tigre com carícias em sua cabeça e orelhas. Ele seguiu o caminho oposto.

Poucos minutos haviam andado os dois em seu caminho de volta para o vilarejo, mal havendo tempo de iniciar uma conversa, ouviram o galope do tigre selvagem atrás deles, ambos se virando simultaneamente para verem Raktabīja vindo em sua direção com uma manga na boca. Ele servilmente deixou o fruto no chão, aos pés dos humanos, e levantou a cabeça, olhando-os firmemente, passando uma mensagem.

— Está dando essa manga de presente pra nós, Raktabīja? — Perguntou Kalika. — Obrigada! — Ela agachou para recolher o fruto e, antes que pudesse se levantar, o felino já tinha lhe dado as costas. Assim que confirmou que seu presente fora aceito, ele voltou para as árvores, desaparecendo na densa floresta.

— Mas o que foi isso? Por que ele deu esse presente pra gente, Kalika? — Jaimini mostrava-se realmente admirado com o comportamento do animal.

— Simples. Quando a gente estava lá na floresta, Raktabīja comeu uma manga sozinho, mas eu e você dividimos uma manga entre dois. Ele percebeu a injustiça de ter comido mais que a gente e deu mais uma manga pra compensar. — Kalika não acreditava na própria explicação, não achava que um tigre soubesse matemática. Mas se satisfazia em dá-la, sendo verdade ou não, Jaimini aceitando ou não. O que lhe importava era que tinha ficado feliz com o presente de seu amigo felino, e Raktabīja também parecia feliz e dá-lo, e aquilo lhe alegrava e lhe bastava.

Kalika e Jaimini foram bem-sucedidos em manter o segredo de sua amizade por todo o período de calor do ano. Mas ele eventualmente acabou, como é o ciclo natural das coisas.

Numa tarde em meados do outono, Jaimini não voltou da sessão de brincadeiras com os outros meninos da vila. Um grupo de quatro entrou conversando e rindo pelo portão da frente de Anurigama, mãos e pés sujos de terra. Uma mulher que carregava um jarro de leite notou a ausência do quinto membro.

— Onde está o Jaimini? — Os garotos se entreolharam confusos.

— É mesmo, ele não voltou com a gente! — Reparou um deles.

— Não se preocupem, ele sabe o caminho. Logo vai voltar.

— Nada disso! — repreendeu a mulher. — Não podem deixar seu amigo sozinho na floresta, é perigoso. Voltem lá e achem-no! — Dois dos garotos voltaram correndo pelo caminho pelo qual vieram, os outros dois ficaram bem contrariados, mas acabaram por obedecer a mulher, ainda mais com o incentivo de seus amigos dando o exemplo.

Mas, não o encontraram. Voltaram preocupados. Faltava menos de uma hora para anoitecer. A mulher foi ligeira à árvore sagrada avisar os homens do ocorrido, e logo alguns deles formaram uma expedição para procurá-lo.

— Eu vou com vocês! — Kalika se ofereceu decidida, assim que soube. — Podem deixar que eu encontro o meu irmão.

O grupo partiu então separado por dez metros de distância. A área de busca tinha que ser ampla, mas não podiam ficar longe demais uns dos outros, pois isso possibilitaria um ataque de animal selvagem. Quando gritavam chamando pelo garoto “Jaimini!”, Kalika sempre acrescentava seu grito por último, de modo a destacar sua voz das vozes masculinas, pois sabia que, quando Jaimini reconhecesse a voz dela, ele responderia.

— Jamini!

— Kalika! — Ele respondeu, depois de algumas tentativas e de uma busca não muito longa. Kalika logo identificou a origem da voz e avançou correndo em sua direção, fazendo o homem ao seu lado emitir um aviso que ela ignorou:

— Kalika, espere!

Kalika encontrou Jaimini sentado à beira de um riacho, abraçando os joelhos.

— Ora, você está aí! Que bom que está bem, Jaimini. Está machucado? Por que não voltou ao vilarejo?

Jaimini foi direto ao ponto em sua resposta:

— Estou com saudades do Raktabīja.

— Oh. — Fez Kalika, compadecendo-se do sentimento do irmão.

— Ele sumiu, Kalika! Já faz três dias que ele não aparece pra brincar com a gente! Será que aconteceu alguma coisa com ele?

Ela se sentou ao lado do irmão, deixando a correnteza do riacho ser o único som do ambiente, e colocou ternamente a mão em seu ombro.

— Jaimini, Raktabīja é um animal selvagem. Ele vive na floresta. Não dá pra esperar que ele esteja sempre por perto pra brincar com a gente.

— Você disse que ele é nosso amigo! — Jaimini estava inconformado.

— Ele é! Ele gosta muito da gente e a gente gosta muito dele. Por isso, temos que deixá-lo ser livre. A floresta é o lar dele. — Jaimini murmurou qualquer coisa, incapaz de responder.

— A mesma coisa aconteceu ano passado. Eu achava que nunca mais veria Raktabīja. E agora sinto de novo a mesma coisa. Não sei se ele vai voltar. Mas se ele não voltar, é porque a vida livre na natureza, longe dos humanos, é o que ele merece. Mas, se voltar, eu vou ficar feliz.

A conversa foi interrompida, pois o homem que acompanhava Kalika na busca se aproximou.

— Aí estão vocês! Vamos pra casa? O que foi, Jaimini? Parece tão triste.

— Ele está triste porque o passarinho dele foi embora. — Explicou Kalika, sorridente. — Eu estava explicando que os animais merecem viver livres.

— É verdade. — concordou o homem, sem se interessar de verdade pelo assunto. Teria concordado com qualquer coisa que Kalika dissesse.

A dúvida de Kalika sobre o retorno de Raktabīja foi persistente no segundo ano, pois o tigre não voltou a aparecer no início da primavera, como havia sido no ano anterior. Passou-se o inverno e a primavera. Já era verão, com suas noites estreladas e colheita farta. Anurigama se deliciava com uma alta coleta de mangas e bananas, rendendo refeições fartas às famílias, incluindo a família de Kalika.

Kalika era muito perspicaz e já tinha percebido que fazia mais de um ano do retorno de Raktabīja e, não tendo ocorrido um segundo retorno, pela segunda vez se conformou que sua amizade havia acabado. Afinal, ele ainda não era um tigre totalmente desenvolvido. Era majestoso, forte, viril, imponente, um predador, mas ainda não tinha atingido o mesmo tamanho nem a mesma exuberância de pelos de um tigre adulto quando ela o vira pela última vez, sem saber que era a última vez.

Kalika pensava que, uma vez que ele crescesse totalmente, não haveria mais tempo em sua vida para vagar perto de assentamentos humanos. Não o veria mais. Aquele pensamento, que a deixava resignada, fazia a menina de quatorze anos ficar longamente parada, com olhar perdido no nada. Imaginava o que ele viveria longe dela. Que fantásticas aventuras, que animais caçaria nos confins da floresta, indo até a nascente do Kaveri e além. Caçando pavões e outros animais lindos. Subindo no alto das árvores mais altas, recolhendo suas frutas. Nadando nos mais cristalinos e rios e lagos. Causando medo em todo e qualquer animal, incluindo humanos, que cruzassem seu caminho. Aquela seria a vida do tigre, o rei da floresta, mas que também um dia foi seu amigo, Raktabīja. Esses pensamentos deixavam Kalika mais feliz do que triste. A consolação era maior que o pesar.

Porém, numa noite estrelada de verão, quando Kalika e sua família jantavam uma porção generosa de mangas e bananas servidas junto ao pongal, um rugido ecoou por Anurigama. Um rugido intenso, que podia ser ouvido de todo o vilarejo e cujas vibrações poderiam ser sentidas numa parede.

O susto ao ouvir o rugido fez Kalika, sentada à mesa do jantar, lançar a cabeça para trás. Em seguida, sua boca entreaberta do susto foi graciosamente se fechando e contraindo num sorriso. Ela olhou para Jaimini, que também sorria.

— Raktabīja! — exclamou ela, inadvertida da presença dos pais.

— Não, Kalika, não é um asura. — corrigiu o pai, sem largar sua porção de pongal. — É um tigre. É raro, mas às vezes podemos ouvir seu rugido.

— Mesmo lá da floresta, podemos ouvir muito bem. — acrescentou a mãe. — O rugido do tigre pode ser ouvido de muito longe.

— É mesmo. — concordou Kalika. — É o brado retumbante do rei da selva. O mais incrível de todos os animais!

— Mas não precisam ter medo. — continuou o pai. — Ele não vai entrar no vilarejo. Ele tem medo da gente também. Só está passando por perto.

— Eu não tenho medo. — Falou Jaimini. — Na verdade, eu quero vê-lo!

— Não seja louco, Jaimini. Ele deve estar bem longe do vilarejo, não dá pra vê-lo de uma distância segura. Podemos apenas ouvi-lo.

— É um privilégio poder ouvir o rugido do tigre, não é? Imagine então poder ver um de perto! — Disse Kalika, provocativa. Jaimini caiu na gargalhada, percebendo como a irmã fazia os pais de bobos falando de experiências reais como se fossem suposições.

Enfim a família levantou-se da mesa e saiu de sua pequena cabana. Apesar de ser noite, todo o povo de Anurigama estava reunido na área externa do vilarejo, admirados com o rugido.

— Namastê. Vocês também ouviram? — Perguntou um vizinho.

— Ouvimos sim. Lindo, não? — respondeu Kalika. Jaimini puxou a irmã pelo braço para sussurrar em sua orelha.

— Vamos vê-lo? Vamos? Eu quero ir agora.

— Calma, Jaimini. — Respondeu ela, sussurrando. — Vamos sair mais tarde, quando todos estiverem dormindo. Temos que ser discretos.

Um segundo rugido se fez ouvir. Menos intenso e mais prolongado que o primeiro. A resposta do vilarejo foi um burburinho de risos e admiração.

— Isso é muito raro, pessoas, lembrem-se bem dessa noite, porque dificilmente terão outra parecida. — falou o caçador, assim que o burburinho baixou e lhe permitiu ser ouvido. — Esse tigre é especial, não é qualquer tigre. Deve ser dos mais corajosos em estar rugindo assim repetidamente perto de um vilarejo.

“Na verdade, você está me chamando, não é, Raktabīja?” Pensou Kalika, em seu íntimo. “Espere só mais um pouco, meu amigo, eu logo irei ao seu encontro. Por favor entenda que não posso deixar meu bando tão de repente.”

Quando se deitaram para dormir, pouco depois dos rugidos, Kalika e Jaimini estavam totalmente inquietos. Nem se deitaram na cama, mantendo as cabeças altas, e olhando firmemente um para o outro, os olhos brilhando na noite, esperando os pais dormirem. Assim que tiveram a certeza que ambos estavam dormindo, levantaram-se agitados, mal conseguindo manter o silêncio.

Saíram furtivamente de casa e atravessaram o muro do vilarejo pelo caminho secreto costumeiro. Mas, ao deixá-lo, logo perceberam uma luz distante, avançando em sua direção.

— Se esconda! — Alertou Kalika. Ambos se atiraram ao arbusto mais próximo, deitados para se esconderem debaixo dele.

Kalika usava suas duas mãos para tapar as duas bocas, dela e do irmão. Um homem passou com uma lanterna. O arbusto foi iluminado, mas ele não percebeu os dois jovens ali. Continuou sua patrulha sem se distrair. Assim que julgou que o homem estava a uma distância segura, Kalika passou a sussurrar:

— Eles estão preocupados por causa do rugido, por isso armaram patrulha. Não querem que o tigre ataque as vacas e outros animais do vilarejo. Agora, quero que se levante e ande devagar, na ponta dos pés, para não fazer barulho, entendeu? Eu vou te dar um sinal quando pudermos correr.

Jaimini seguiu as orientações da irmã com o coração acelerado. Ele ia à frente, Kalika ia atrás, para poder tocar seu ombro e fazê-lo correr quando chegasse a hora. Se fossem pegos, a repreensão seria leve. Kalika diria apenas que eles queriam ver o tigre, o que seria verdade, ao que o vigia os chamaria de loucos e irresponsáveis e os mandaria para casa. O preço maior de serem pegos não era a repreensão, era ter que esperar até de manhã para poderem ver Raktabīja.

Mas, o plano foi bem sucedido e eles conseguiram se aproximar o suficiente das tecas sem que o homem, agora já a uns bons quinze metros de distância, os notasse. Kalika deu dois tapas no ombro do irmão, indicando a hora de correr, e os dois dispararam para o bosque, seus passos fazendo a luz da lanterna se virar rapidamente em sua direção, mas com tempo hábil para se esconderem entre as árvores. A corrida na verdade tinha deixado o vigia bem assustado, pois ele temia muito que o tigre fosse aparecer entre as tecas. Por isso, ficou bem aliviado quando apontou sua lanterna na direção do som e não viu nada.

— Que ruim não poder chamá-lo! Iria atrair os vigias. — resmungou Jaimini.

— Não se preocupe com isso. Ele pode sentir nosso cheiro. Não precisamos chamá-lo. É só continuar andando e ele vai aparecer. — A frase preditiva de Kalika se cumpriu no mesmo segundo em que terminou de ser pronunciada.

A cabeça do maior predador da floresta surgiu esplendorosa na escuridão. Seus reluzentes olhos amarelos destacando-se como ponto mais brilhante do bosque. Cada passo, um farfalhar de folhas, espalhadas pelas suas patas poderosas, capazes de matar um ser humano. Lá estava ele.

— Ah! — Assustou-se Kalika. — Olá.

Raktabīja era um tigre adulto agora, com seus três metros de comprimento e pelos exuberantes ornando sua cabeça. Longos bigodes. Patas grossas. Listras bem desenhadas. Era o tigre. O todo poderoso rei da floresta. Acelerou seu trote em direção a Kalika e saltou sobre ela como faria com qualquer humano ou outra presa que tivesse encontrado, mas posicionou as patas em seus ombros e lhe lambeu o rosto, em vez de atacá-la com as presas como o salto sugeriu.

— Raktabīja! Raktabīja! Dizia a garota lacrimejando, contendo-se para não elevar a voz, pois ainda poderia ser ouvida pelos vigias. — Que saudades, meu amigo! Que saudades!

Jaimini acariciou o ventre do tigre, que logo desceu dos ombros de Kalika e virou-se em sua direção para cumprimentá-lo, afagando-o com a cabeça.

— Caramba, como você cresceu! Está enorme!

— Vamos, Jaimini! — Chamou Kalika. — Vamos para a floresta. É só correr que ele segue a gente, venha!

Kalika não esperou assentimento e correu em direção à floresta, e o tigre seguiu o hábito que já conhecia, deixando a garota o liderar.

E assim dois adolescentes corriam com um tigre selvagem sob as estrelas de uma linda noite de verão na floresta. Uma linda lembrança a ser levada pelo resto de seus dias.