Encontro Selvagem
4 Caçadas
Jaimini já estava entrando em idade de iniciação e era compelido a participar das atividades masculinas da comunidade, como a caça, por exemplo. Mas talvez o amor pelos outros animais fosse um traço familiar, pois o garoto também ficava extremamente incomodado em machucá-los. Parashara, um homem mais velho e experiente fez a demonstração. Localizou o cervo a uma distância confortável, mirou com seu arco e disparou a flecha, certeira em seu abdome. O animal tentou fugir, mas o ferimento o fazia mancar, não sendo capaz de disparar em fuga como faria normalmente.
— Isso foi só uma demonstração. — explicou o homem. — A caça de verdade ficará por sua conta, Jaimini.
Jaimini apertou a testa e virou-se de costas, visivelmente incomodado. Mas a caçada continuaria. Em algumas dezenas de minuots, localizaram outro cervo, distraído e comendo folhas verdes baixas num arbusto.
— Agora é sua vez. Quero que acerte aquele cervo. — Sussurrou o homem. — Lembre-se de manter as mãos firmes no arco. — A contrariedade ainda era visível no rosto de Jaimini enquanto ele entesava o arco. Mirou no cervo e hesitou, segurando a flecha pesada no arco entesado por longos segundos. — Não pode demorar muito pra atirar, Jaimini. — explicou ele. — Ele pode fugir a qualquer momento e você perde a caça. Atire. Não tenha medo de errar.
Jaimini discretamente desviou o arco poucos centímetros para errar a flechada. O cervo correu. O sorriso brotou tímido em seus lábios, mas ele se conteve, num desajeitado fingimento de estar gostando da atividade.
— Tudo bem, foi um bom tiro. Da próxima você acerta. — Falou Parashara, numa tentativa de consolo que, para Jaimini, mais soava como um elogio completo. — Mas não podemos perder muito tempo aqui, temos bocas pra alimentar lá no vilarejo, então no próximo pode deixar que eu atiro. Amanhã você tenta de novo.
— Combinado! — concordou Jaimini, feliz de poder adiar por um dia sua inevitável sina masculina.
Como planejado, o homem atirou no próximo cervo encontrado. Foram duas flechadas em seu abdome, uma de cada lado, impedindo-o completamente de correr, mais do que isso, fazendo-o cair deitado na grama e espantando os outros animais ao redor.
— Acertei! Venha, Jaimini, venha terminar o serviço! — Chamava o atirador, enquanto o grupo saía de seu esconderijo na floresta e se reunía ao redor do animal ferido.
— O quê? Você disse que eu só ia atirar de novo amanhã! — Protestou Jaimini.
— Não é pra atirar. — Explicou Parashara. — É pra usar a lança. Às vezes caçamos animais de perto também. Mate esse cervo só pra você aprender a usar a lança. Pulaha, pode passar uma lança para o garoto?
Um dos homens do grupo seguiu a sugestão prontamente. Jaimini agarrou a lança automaticamente, bastante amedrontado.
— É só ficar no pescoço. Movimento rápido. O que você está esperando? Jaimini? — Jaimini estava imóvel. O cervo gritava de dor, o gemido agudo ressonando pela clareira e espantando pássaros de árvores próximas.
— Eu não consigo. — Declarou Jaimini, com a voz trêmula.
— Como não consegue? — Falou o homem em tom repreensivo. — Ele está bem na sua frente, é só dar o golpe! — A extrema inabilidade de Parashara em ler emoções humanas o fez levar ainda mais alguns segundos para perceber o que realmente ocorrida. — O quê? Você está com pena do cervo? Deixe disso e mate-o agora, Jaimini!
— Não. — recusou-se o garoto, extremamente apreensivo e hesitante, chegando a gaguejar.
— Deixe de ser um efeminado! Isso é uma vergonha para a sua família. Mate o cervo! — A voz do homem se elevava violentamente, deixando o imperativo claro na forma e no conteúdo.
Com as pernas trêmulas Jaimini deu um passo à frente. Levantou a lança como se aquilo fosse um esforço extraordinário. Atacou sem muita força, acertando o dorso do cervo que pareceu não reagir. A dor pelas flechadas em seus glúteos já era imensa. Uma espetada a mais sem força na parte superior não seria sequer sentida.
— Que golpe horrível, garoto. Ele não vai morrer desse jeito. É no pescoço! No pescoço!
— Eu não consigo! — Jaimini finalmente explodiu, deixando as lágrimas saírem e molharem seu rosto já bastante ruborizado.
— Consegue sim, seu moleque! — Parashara acertou um tapa forte no rosto de Jaimini, derrubando-o ao chão.
Aquela violência ativou imediatamente o instinto de fuga do garoto, que se pôs a fugir em fuga.
— Deixe de ser um fresco, Jaimini, mostre que você é homem! — Falou outro dos homens do grupo, que tentava segurar Jaimini pelo dhoti, mas sem sucesso.
Num segundo o garoto já seguia em corrida pela grama do bosque.
— Aonde você vai, garoto? É perigoso andar sozinho pela floresta! — Alertou Parashara. Jaimini mal lhe ouviu, e mesmo que tivesse ouvido, preferiria se arriscar na floresta a continuar suportando aquela hostilidade.
Resignado, o caçador recolheu a lança de Jaimini do chão e acabou com a dor do cervo em um segundo. A próxima lição de Jaimini naquele dia seria como carregar a comida até o vilarejo, mas as aulas tinham acabado mais cedo.
Jaimini correu até ficar sem fôlego, sem prestar atenção em para onde estava indo, desde que se distanciasse de seu grupo, que tentou debalde persegui-lo por poucos segundos. Logo perceberam que o garoto era muito mais rápido e o deixaram ir adiante, embora preocupados, porque sabiam que ele voltaria.
Vendo-se sozinha, Jaimini sentou-se ao tronco da árvore mais próxima e se entregou ao choro suspirante. Se Kalika estivesse ali, ela lhe diria que ter um coração que o impede de matar animais não é nenhum defeito. Ela lhe diria ainda que, por mais que as pessoas no vilarejo precisassem comer, era totalmente compreensível que um caçador iniciante ficasse chocado com a violência em sua primeira caça, que levaria um tempo para se acostumar, e que mesmo aqueles homens que o forçavam a reprimir sua empatia também tinham passado pelo mesmo quando caçaram pela primeira vez quando tinham a idade dele. Mas Kalika não estava ali. No grupo dos caçadores só havia homens. Nenhum dos homens naquele grupo tinha a perspicácia ou a sensibilidade de Kalika para ter tais percepções ou o mínimo de simpatia pelo desconforto de Jaimini. Eles apenas cumpriam seu papel.
Mas nem sempre a voz humana é amedrontadora para os outros animais, ainda mais quando essa voz está chorando, demonstrando sua fragilidade. Um par de dholes que havia perdido uma corrida para um cervo foi atraído pelo choro de Jaimini. Astutos, se dividiram para não deixar o garoto escapar. Um de cada lado da árvore. Jaimini levantou sua cabeça baixa, que até então derramava lágrimas e percebeu o perigo num susto. Eles já estavam perto. Era tarde para fugir. O da direita se aproximava sorrateiro, a cabeça baixa, pronto para dar o bote, o olhar fixo no garoto. Jaimini caiu para trás.
— Vá embora! Vá embora! — Ele gritava. A voz deixava claro como o dia o quão assustado o garoto estava.
Desesperado, ele sacou seu arco e flecha e entesou-o com a mão trêmula enquanto o dhole se aproximava, mas não teve tempo de disparar. O canídeo percebeu o que o humano ia fazer e deu o bote antes da flecha ser disparada. Jaimini foi derrubado. No chão, sentiu a arranhada leve da pata do animal sobre seu rosto. O dhole já exibia suas orgulhosas presas salivantes de predador quando o grunhido do rei da floresta foi ouvido de longe.
O segundo dhole, que observava a espera do abate pelo parceiro, fugiu rapidamente tão logo Raktabīja surgiu do interior da floresta, mas o primeiro, concentrado que estava em predar o humano, não estava tão atento e quando se virou para ver de onde viera o grunhido, o tigre já estava perto o suficiente para jogá-lo longe com uma patada. Raktabīja posicionou-se em frente ao animal caído e exibiu-lhe suas presas, muito maiores que as dele. O dhole ganiu e fugiu derrotado, tendo perdido sua segunda refeição do dia.
— Obrigado, Raktabīja! — Agradeceu Jaimini, abraçando seu amigo. Raktabīja o cumprimentou com seu costumeiro afago com a cabeça.
— A Kalika te salvou dos dholes no dia em que vocês se conheceram, e agora você me salvou dos mesmos dholes. Humanos e tigres estão quites! — Brincou ele. Logo em seguida voltou à sua voz lamentosa e desabafou com o amigo felino:
— Sabe, eu queria ser como você. Um grande predador, ágil, que consegue matar qualquer animal com uma patada ou uma mordida. Mas eu sou fraco. Eu não consigo. — Raktabīja olhava fixamente o rosto lamentoso de Jaimini, percebendo a tristeza do amigo, mesmo sem entender suas palavras. — Eu sou fraco. Mas o que posso fazer? Eu nasci homem, é meu dever ser caçador e prover pro meu vilarejo. Mas, oh, Raktabīja, é tão difícil!
Jaimini acariciava a cabeça do tigre, próximo das orelhas, e o tigre respondia com ronronados.
— Você me entende, não é, Raktabīja? Mesmo sendo um predador, você me entende. — Ele enfim sorriu, com o rosto ainda molhado.
— Jaimini! — a voz dos caçadores foi ouvida de longe, deixando o tigre em estado de alerta, procurando por eles nos arredores.
Dois homens surgiram dentre as árvores, andando a passos moderados para poder procurar por Jaimini, olhando em volta da floresta. Correr não seria eficaz.
— Um tigre! — Alertou um deles, com a voz abafada, ao ver Raktabīja de longe, olhando-os atentamente. O outro caiu sentado com o susto.
Jaimini inadvertidamente se levantou da árvore em que estava sentado para identificar seus colegas de caça.
— Jaimini! — exasperou-se o homem. — Fique calmo, eu vou te salvar! — Ele segurou a lança com as mãos trêmulas. Mas, assim que Raktabīja deu um passo à frente, exibiu seus dentes e soltou um grunhido grave e breve, nem chegando a ser um rugido, o homem gritou um “ah!” agudo e correu em seu caminho de volta, totalmente assustado. O colega o seguiu com as pernas trêmulas.
Raktabīja deu um salto à frente, demonstrando que perseguiria os homens, mas Jaimini num impulso segurou o tigre pelo rabo, fazendo-o soltar um murmúrio de dor e voltar-se para o garoto bastante contrariado.
— Desculpe se machuquei seu rabo, Raktabīja. — desculpou-se Jaimini. — Mas por favor não persiga os homens do meu vilarejo. Eles são o meu bando. Você entende, não é? — Jaimini entendeu o ronronado seguinte como um “sim”. Abraçou o amigo uma última vez. — Se o Samsara for bondoso comigo, espero que na próxima encarnação eu seja um tigre! Até mais, Raktabīja. — despediu-se e partiu.
A alguns minutos de caminha dali, no bosque em que o cervo fora abatido, Parashara repreendia severamente os dois colegas.
— Mas vocês são idiotas? Quantos anos de caça vocês têm e não sabem que nunca se deve correr de um tigre? — Ele perguntava com voz bastante elevada, deixando todos ali, mesmo os que não eram alvo direto da repreensão, bem desconfortáveis. — Se ele quisesse, poderia muito bem ter almoçado vocês dois! Ele só não caçou vocês porque já tinha uma refeição mais fácil servida. Pobre Jaimini! São vocês que vão dar a notícia à família! Essa será sua punição por terem sido tão amadores! Agora, vamos ver se encontramos pelo menos algum pedaço de roupa do garoto.
Mas, antes que pudessem partir na busca, Jaimini se aproximou do grupo, andando normalmente, sem parecer sequer assustado.
— Jaimini!
— Está vivo! — Surpreenderam-se todos. Jaimini assentiu com a cabeça.
— O que aconteceu, Jaimini? — Quis saber o caçador. — Como sobreviveu ao ataque do tigre?
— Ele não me atacou. — disse Jaimini. Para alívio do garoto, aquela declaração verdadeira foi tudo que ele precisou dar, pois os outros não fizeram mais perguntas.
— Viu só, Parashara? — o homem repreendido aproveitou a surpresa para tentar se justificar. — Nós o salvamos, afinal! O tigre deve ter ficado com medo quando viu que tinha mais humanos ao redor e por isso não atacou.
— Cale a boca! — Repreendeu Parashara. — Venha, Jaimini. Já está quase anoitecendo. Me ajude a carregar de volta ao vilarejo o cervo que você não matou.
— Está bem. — assentiu Jaimini, prontamente agarrando uma estaca da padiola que carregaria o cervo.
No caminho de volta, Parashara observou muito desconfiado Jaimini. Sabia que havia algo errado. Era muito estranho um tigre não ter atacado e mais estranho ainda o garoto não parecer assustado. Mas não falou nada. Guardou suas desconfianças para si. Sendo o caçador experiente que era, sabia que a floresta que tinha muitos mistérios.
O incidente mudou algumas coisas nos arredores de Anurigama, contudo. Poucos dias depois, um cervo morto com uma mordida no pescoço foi encontrado ao portão principal do vilarejo. Um presente. Mas os moradores concluíram que não era saudável nem prudente aproveitar-se da caça de um animal selvagem e descartaram a oferenda. Mais alguns dias depois foi um grande nilgai, um animal que pouquíssimos predadores na floresta têm força para matar. Aquilo verdadeiramente chamou a atenção dos moradores. Não era comum ver um animal daquele tamanho ser deixado morto tão próximo ao vilarejo, e o fato de não ser uma ocorrência isolada deixava muito claro que havia algo incomum acontecendo.
Enquanto estavam os moradores intrigados reunidos ao redor do cadáver discutindo o ocorrido e levantando suas conjecturas, Parashara manifestou suas impressões.
— Isso são oferendas, presentes. Algum animal está tentando nos agradar, criar simpatia com os humanos. Mas poucos animais conseguem caçar um nilgai. Que dirá carregar o cadáver dele até a entrada de um assentamento humano. Teria que ser um predador enorme e poderoso. Talvez o próprio rei da floresta. — Com uma pausa dramática, concluiu: — Não acha, Kalika?
Kalika recebeu a pergunta com visível incômodo, mais brava do que nunca.
— Por que pergunta pra mim? — Em resposta, Parashara apenas riu.
Naquela noite, os homens do vilarejo se reuniram para formar um plano de ação. Parashara apresentou suas impressões e plano de ação de forma bem direta:
— Tem um tigre rondando Anurigama. É o tigre que meus caçadores viram com Jaimini na floresta. Também é o mesmo tigre que nos ameaçou com rugidos no começo do verão. É o mesmo tigre também que as crianças viram no rio ano passado. Mas não é um tigre comum. Esse tigre tem algo de especial, ele não tem medo dos humanos, pelo contrário, ele está tentando se aproximar de nós, por isso está deixando animais mortos na entrada do vilarejo. São presentes, são jeitos dele tentar agradar. Eu nunca vi nada parecido em toda a minha vida. Não sei o que tem de diferente com esse tigre. Mas ainda assim, é um tigre, é o animal mais perigoso de todos, e está rondando nosso vilarejo. É questão de tempo até que vacas e até mesmo pessoas comecem a aparecer mortas por aqui. Temos que nos livrar do perigo. Eu proponho montar uma expedição para caçá-lo o mais rápido possível
— Apoiado, Parashara! — disseram os outros homens em uníssono. Nenhum se opôs.
— Será uma missão difícil, vocês sabem, tigres são ferozes e inteligentes. Mas vai valer a pena. Quando terminar, eu terei uma bela pele listrada para pendurar na minha parede e me gabar pela caçada! — Concluiu Parashara, malicioso.
A decisão dos homens chegaria às orelhas de Kalika na noite seguinte, durante o jantar com a família.
— Ele não machucou Jaimini, mas poderia ter machucado! É só uma questão de tempo até alguém morrer. — dizia o pai, enfático, entre as deglutidas de seu pongal.
— Eu acho que vocês não precisam se preocupar com isso. — acrescentou Kalika, sabendo que não seria levada a sério e por isso confortável em emitir sua opinião embasada em conhecimentos que não podia compartilhar.
— Você é muito ingênua, Kalika. Não sabe o perigo que é um tigre. — continuou o pai. — E por isso os caçadores do vilarejo estão se organizando numa expedição para caçá-lo. — Kalika ficou imóvel imediatamente. — Você deveria ir, Jaimini. É uma oportunidade única pra quem está começando a caçar, ver o predador mais perigoso de todos ser caçado de perto!
— Você está louco! — Reclamou a mãe. — Seria arriscar a vida! Até pros caçadores experientes é perigoso.
Kalika enfim se levantou. Todos a olharam, atentos e surpresos.
— Ele está certo, Jaimini. Você precisa ir.
— Kalika? — estranhou o garoto.
— Se você não for, eles vão matar o tigre sem você. Você não vai deixar isso acontecer, não é? — Jaimini não soube o que responder. Kalika imediatamente recolheu algumas roupas e foi saindo.
— Aonde você vai, Kalika? — Exclamou a mãe, levantando-se preocupada. Kalika não respondeu e saiu em disparada. Os pais tentaram segui-la, mas ela era muito mais rápida.
Em poucos minutos, ela estava na floresta, no frio da noite, o que não era típico mesmo para ela.
— Raktabīja! — Ela chamava. Chamou por alguns minutos até que ele apareceu. Aqueles lindos olhos amarelos sempre se destacavam na escuridão da noite. — Aí está você! — Ajoelhou-se em frente ao tigre, que a afagou com toda a extensão do seu pelo.
— Eles querem te caçar, Raktabīja. Eu não vou deixar. Não vou deixar que encostem um dedo em você. Nem que eu tenha que morrer pra te proteger, eu não vou deixar te fazerem nenhum mal, meu amigo. — disse a garota, tocando com seu rosto aquele pelo laranja e macio que tanto a confortava.
Não era comum que tigre e humana andassem juntos pela floresta à noite, mas reproduziram seus hábitos diurnos sem problemas até que Raktabīja estranhasse que já estava tarde e que Kalika não tinha voltado para seu bando, o bando humano, para passar a noite entre os seus. Já avançados no adentramento da floresta, Raktabīja escalou um declive extremamente íngreme, quase vertical e bastante rochoso, alcançando uma altura maior no terreno.
— Eu não consigo subir aí! — Avisou Kalika lá de baixo.
Do alto, o tigre ficou olhando para ela, intrigado. Ele sabia que ela não conseguia subir. Não esperava que ela subisse. Humanos não dormem na floresta. Era hora dela ir embora. Ele a observou do alto do declive, com seus olhos amarelos, por um longo momento. Também ela olhava para ele com atenção, mas sem fixar o olhar, pois sabia que o olhar fixo do humano é uma das coisas mais desconfortáveis e ameaçadoras para qualquer animal selvagem.
Quando Raktabīja enfim percebeu que Kalika não iria embora, desceu do declive e seguiu em frente por um caminho em que ela conseguia segui-lo. A noite já ia alta quando Kalika reuniu um grande amontoado de folhas verdes do verão, sobre as quais se deitou e se cobriu com um chaddar que pertencia à sua mãe, mas que ela tinha levado em seu cesto sem permissão.
— Dormir na floresta é perigoso, mas eu confio que você vai me proteger. — Assentindo, o tigre se aproximou dela e deitou-se ao seu lado. Kalika deslizou em sua cama improvisada até seu amigo felino, encostando sua cabeça nele, fazendo dele um travesseiro.
— Obrigada, Raktabīja. — Foi a última coisa que ela disse antes de adormecer, com os olhos já fechando, cansada física e emocionalmente, da longa caminhada e também da intensa carga emocional que recebera no vilarejo.
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