Encontro Selvagem
5 Corte da Autora
Notas iniciais
Quando Kalika acordou pela manhã, Raktabīja ainda dormia, mas não próximo a ela, e sim a uma clareira próxima, poucos passos dali, onde ele poderia receber melhor o aconchegante calor do sol nascente. Ela sorriu ao ver a cena. Mas logo em seguida, se deu conta de que estava com fome, e não havia trazido comida consigo. Pegou uma lança e saiu à procura de uma árvore frutífera, da qual pudesse comer, sem a menor ideia de quão difícil seria achá-la. Caminhou por horas sem sucesso, o cansaço e a fome se retroalimentando. Depois de muito caminhar, conseguiu ouvir o fluxo do rio. Não tinha encontrado frutas, mas ao menos poderia saciar sua sede. Foi seguindo o som, mas antes que chegasse ao rio, Raktabīja surgiu dentre as árvores, com um peixe na boca.
— Bom dia, Raktabīja. — disse ela. O tigre servilmente deixou o peixe aos seus pés. Mais um presente.
— Obrigada. — disse ela. — Mas eu não posso comer isso. Preciso grelhar primeiro, e eu não sei como fazer fogo. — Raktabīja afastou-se e correu gracioso para o rio, como se tivesse entendido o que ela disse.
Por sorte, à margem do rio, Kalika encontrou arbustos carregados de carandas, negras e suculentas, das quais se saciou. Raktabīja nadava divertidamente no rio, acompanhando as correntes, enquanto a garota comia. Logo ela se saciou, despiu-se de suas vestes e acompanhou o amigo na atividade hídrica.
Fazia mais de um ano que Kalika não brincava com Raktabīja no rio, e mesmo da vez anterior, quando Jaimini o conheceu, ela não tinha tanta liberdade para nadar com ele e ele não tinha aquele tamanho todo, pois ainda não era um tigre adulto. Foi uma experiência completamente diferente e nova nadar no rio com o tigre num dia de verão, por horas e horas, até a pele ficar invaginada, até o frio a forçar a sair da água. Uma tarde inesquecível. Uma humana e um tigre.
— Aqui estamos seguros, Raktabīja. — disse Kalika, apoiando-se no dorso do majestoso tigre enquanto ambos flutuavam à correnteza. — Aqui aqueles caçadores malditos não vão vir te perseguir.
Kalika adorava ver Raktabīja saindo da água. Seu corpo imenso e seu pelo encharcado levantavam um grande volume de água do rio quando ele saltava para a margem e, sendo próximo de meio-dia, o sol forte lançando raios diretos na pequena cachoeira que o animal causava ao saltar criava no ar pequenos arco-íris que logo sumiam. Era a coisa mais especial do mundo para Kalika.
Mas a brincadeira no rio estava encerrada por aquele dia. Era hora do almoço.
— Está difícil achar frutas por aqui que eu possa comer. Vou voltar o caminho até Anurigama pra recolher alguma coisa da nossa mangueira. Lembra, aquela mangueira? Mas não me siga. É perigoso pra você se aproximar de Anurigama. Pra mim, não.
Malgrado o conselho, Raktabīja acompanhou Kalika de longe. Às vezes passeando pela floresta num caminho independente do dela, às vezes parando para descansar, eventualmente adentrando aos arbustos mais altos em busca de alguma presa, mas nunca ficou mais distante dela que sessenta metros, por todo o caminho até a mangueira, que durou cerca de três horas.
Kalika subiu a árvore e se deliciou com duas mangas, e arrancou ainda mais seis, o máximo que conseguia carregar, a ter estoque para os próximos dias, pois já havia percebido o quão difícil era encontrar frutas na floresta. Se ao menos tivesse aprendido a acender fogueiras! Raktabīja providenciaria volumes infinitos de carne em suas caçadas, mas ela, diferente do tigre, não poderia comer carne crua. Assim que se reuniu com o tigre em seu caminho de volta, Kalika estendeu-lhe uma manga, ao que o tigre de bom grado aceitou, embora ela não aceitasse seus peixes. Troca de presentes desequilibrada. A natureza nem sempre é equilibrada.
Mais uma vez naquela noite, humana e tigre dormiram juntos sobre uma cama improvisada de folhas, a cabeça da garota encostada no pelo majestoso do tigre. O dia seguinte deu-se de modo bem semelhante ao interior. Mas quando chegou a terceira noite de Kalika fora do vilarejo, algo diferente aconteceu.
Raktabīja levantou-se à noite e andou vagarosamente para a parte mais densa da floresta, entre as árvores.
— O que foi, Raktabīja? — Perguntou a garota, ainda atordoada pelo sono.
Curiosa como sempre, ela se levantou e foi atrás dele. Do outro lado da parede de árvores que ele atravessava, Kalika viu algo que fez seu coração acelerar como nunca antes em sua vida.
Um, dois, três, quatro, cinco, seis pares de olhos amarelos e brilhantes, todos direcionados para ela. Ela ficou estática, imóvel. Raktabīja se pôs entre Kalika e os outros tigres em posição perpendicular, protegendo-a. Aquele simples gesto foi bastante para que eles entendessem. A humana não era ameaça. Um dos tigres, o da extremidade esquerda da formação, foi andando lentamente em direção a Kalika. Raktabīja afastou-se, confiante que ele não a machucaria, mas pronto para intervir caso percebesse alguma agressividade por parte do par de sua espécie.
Kalika olhou rapidamente para o amigo, que apenas caminhava despreocupadamente pela grama, como os outros tigres. Ela foi capaz de ouvir a voz de Raktabīja dentro de sua cabeça naquele momento. “Cara amiga humana, conheça a minha tribo.”
O tigre se aproximou de Kalika e cheirou, sem tocá-la. Com um grunhido, afastou-se. Os outros tigres também começaram a caminhar ao redor, dois deles estavam sentados até então, apenas a observando. Kalika enfim se permitiu começar a caminhar, percebendo que os tigres todos caminhavam no mesmo ritmo dela, sempre se aproximando bastante, mas nunca tocando, e então se afastando sutilmente, como se estivessem fazendo um convite para que ela os seguisse.
— Isso. . . isso é incrível! — Ela dizia para si mesma.
Kalika lembrou-se de Krishna, das batalhas do Mahabharata e de como ela sonhava com aventuras heroicas afins durante toda a sua infância. Ela teve certeza, naquele momento, rodeada por sete tigres numa floresta à noite, aos 14 anos de idade, que aquilo era o mais próximo que ela chegaria de Krishna. Aquilo era o melhor que a realidade de sua vida numa pequena comunidade tamil tinha a oferecer em termos da aventura que ela desejava. Nunca viveria outro momento como aquele. Nenhum outro humano que ela conhecia nunca teria uma experiência como aquela.
Então, algo ocorreu a Kalika. Ela tinha ficado tão maravilhada com a experiência que sequer tinha reparado num importante detalhe:
— Esse é o seu bando, Raktabīja? Eu pensei que tigres não viviam em bandos, pensei que vocês fossem solitários. — Ela então parou de caminhar e se limitou a observar como os tigres se comportavam.
Raktabīja andava de forma diferente dos outros seis. Os outros seis direcionavam seu movimento com base no dele. Se aproximavam sutilmente, mas quando ele andava em sua direção, se afastavam e, quando ele chegava muito perto, deitavam-se, flexionando as patas, com o dorso para cima. Ela então percebeu que Raktabīja comandava aquela dança.
— Vocês. . . vocês são todas fêmeas? — Inferiu Kalika. E inferira corretamente. Dos sete, Raktabīja era o único macho. Eram seis tigrezas, não tigres.
— Ora, elas estão esperando pelo seu cortejo, meu amigo! — Raktabīja se aproximou então de uma das fêmeas em específico e a afagou com sua cabeça, como costumava fazer com Kalika e Jaimini.
Era ela a escolhida. Deitou-se e Raktabīja deitou-se sobre ela. Kalika sentiu inveja da tigreza.
— Então você tem filhos, Raktabīja? Já namorou alguma tigresa por aí? Puxa, que fantástico é pensar que em algum lugar dessa floresta, tem algum filhote de tigre, do mesmo tamanho que você era quando te conheci, e que na verdade é seu filho!
Kalika pensou no filhote e se lembrou de seu primeiro encontro com Raktabīja, dois anos antes. Mas ela sabia muito bem que, mesmo que tal filhote estivesse por aí, ele não viveria a mesma experiência que seu pai. Não faria amizade com um humano como Raktabīja fez com ela. Ela sabia que o vínculo que tinha com ele era único e especial. Algo que só ocorria uma vez, mesmo na natureza.
No dia seguinte, Kalika voltou à mangueira para recolher mais mangas. Estava no alto da árvore quando viu uma silhueta humana movendo-se entre as tecas próximas. Desceu rapidamente, desconfiada. Mas, conforme a figura se aproximava, ela pôde identificá-la e ver que não havia perigo. Era Jaimini.
— Aí estão vocês! — disse ele. Galopante, Raktabīja aproximou-se com seu cumprimento costumeiro, a cabeça baixa. Jaimini o acariciou por toda a extensão do seu corpo.
— Olá, Jaimini. Como estão as coisas? — Perguntou Kalika, se aproximando.
— Eu achei que você estaria com fome. Trouxe dosas, bananas e alguns doces. — Ele lhe estendeu o cesto.
— Obrigada. Você acertou. Eu não posso comer o que o Raktabīja caça porque não sei fazer fogo, então tenho vivido só de frutas esses dias.
— Eu te ensino a fazer fogo, Kalika. — Kalika sorriu, pegou um dosa do cesto e sentou-se na grama, ao lado do irmão, para conversarem.
— Nesse momento eu estou diante das duas criaturas mais procuradas de Anurigama. — comentou Jaimini.
— É mesmo? Ainda estão caçando o Raktabīja?
— Estão, e também estão procurando por você. É uma expedição com dois propósitos. Quanto tempo isso vai durar, Kalika?
— O tempo que precisar. — Kalika disse com total seriedade. — Vou me esconder na floresta por quanto tempo for preciso. Não vou deixar ninguém colocar um dedo que seja no Raktabīja! Mas me diga, Jaimini. — Kalika logo cortou o assunto, pois sabia que não tinha muito mais a acrescentar. — Como estão indo suas caçadas?
— Infelizmente eu tenho melhorado. Já consegui matar um cervo.
— Parabéns! — elogiou Kalika.
— Não achei que você ficaria feliz com isso, Kalika. — disse Jaimini, levemente surpreso.
— Por que não? Você terá que alimentar sua família no futuro, Jaimini. Precisa saber caçar. — Jaimini a fitou, profundamente intrigado. — Não tem nada de errado em caçar. Pra cada cervo que você mata na floresta pra comer, Brahma cria mais um no lugar dele. A natureza é equilibrada. Nós caçamos os outros animais, eles nos caçam. Quando os caçamos, eles morrem, mas se não caçamos, nós morremos de fome. Não tem nada de errado em viver assim, é o jeito da natureza, é como o mundo funciona. Mas às vezes as pessoas agem de formas idiotas.
— Como o Parashara? — Jaimini sabia exatamente de quem Kalika falava.
— Isso. Como o Parashara. O que ele está buscando é um sacrifício desnecessário que não é bom pra ninguém. Mas, ele não vai conseguir entender que Raktabīja não é uma ameaça. Por isso, eu preciso protegê-lo. E além disso, Jaimini. — Ela se virou para o irmão, sorrindo ao fitá-lo — Não pude deixar de notar que você disse que “infelizmente” melhorou na caça. Mesmo sendo seu dever e mesmo você melhorando nisso, você ainda sente a dor do cervo quando caça. Você está conectado com a natureza, meu amigo. Nunca perca isso. Isso é especial.
Finda a conversa, Jaimini recolheu alguns gravetos e algumas pedras do chão para ensinar Kalika a fazer fogo. Ela observava atenta enquanto ele fazia o movimento de fricção no galho sobre a pedra e começava a explicar, mas antes que a primeira fagulha surgisse, eles ouviram passos vindos dentre as árvores. Atento, Jaimini levantou-se para checar e confirmou que um pequeno grupo da expedição, formado por quatro homens, realizava sua busca por ali. Isso forçou a lição a ser interrompida, antes que Kalika pudesse efetivamente aprender a fazer fogo. Jaimini gesticulou com as mãos para que os dois fossem embora antes de serem achados.
— Obrigada pela comida, Jaimini. — Kalika agradeceu com um sussurro antes de sumir na floresta.
O achamento dos que não queriam ser achados, o cumprimento do objetivo da expedição, era inevitável. Tal evento inevitável aconteceu muito mais tarde do que seria razoável esperar, considerando a capacidade de sobrevivência na floresta de uma menina de quatorze anos, e muito mais cedo do que Kalika queria que acontecesse, tal era o seu apreço por aquela vida selvagem que levava, acompanhada apenas de Raktabīja.
Foi durante uma tarde. Kalika corria por entre as árvores, sentindo o toque ligeiro da grama verde em seus pés, sentindo os raios de sol entrecortados pelas sombras das tecas aquecendo seu rosto. O majestoso rei da floresta a seguia a uma distância razoável. A brincadeira comum dos dois era que Raktabīja deixava Kalika liderar a corrida, coisa que fazia desde filhote, por alguns minutos, e depois corria por poucos segundos em sua velocidade máxima, disparando na frente da garota e ganhando uns bons metros de vantagem, e então parava e esperava por ela.
Naquele momento, Kalika liderava, mas não percebeu a grande expedição que circulava aquela parede de tecas, o que faria seus caminhos se cruzarem, mas como Kalika corria mais rápido, entrou sem perceber no campo de visão dos caçadores, surgindo dentre as árvores bem à frente deles.
— Kalika! — gritou um homem da linha de frente, chamando atenção de todos os demais.
Aturdida, Kalika interrompeu sua corrida e virou-se para a origem da voz, o semblante expressando total preocupação e surpresa. De fato, fora pega de surpresa.
Raktabīja, vendo a garota parar de correr, concluiu que era hora de aumentar a velocidade para ultrapassá-la, e sua corrida até então moderada tomou a velocidade de perseguição. Assim, não se passou um segundo entre o momento em que Kalika parou de correr surpresa, para olhar o grupo que a flagrou e o surgimento do tigre em toda a sua formosura, saindo do mesmo bosque.
Naturalmente, ao cruzar o caminho do grupo, Raktabīja também interrompeu sua corrida e os fitou, assustado. O susto do tigre o fez soltar um grunhido grave de surpresa, mas que para os humanos soava ameaçador.
— O tigre! — gritou o mesmo homem, acompanhado de gritos agudos de susto vindos de boa parte de seus companheiros, alguns dos quais deram um passo para trás ao vê-lo.
Raktabīja parou atrás de Kalika e fitou o grupo de humanos fixamente. Eram nove. Nunca tinha estado na presença de tantos humanos assim antes. Era uma situação amedrontadora para ele também. Estava pronto para lutar a qualquer segundo. Lutar, não fugir. Qualquer outro tigre naquela situação teria muito maior chance de fugir. Mas ele precisava proteger sua amiga que, ironicamente, era quem estava entre as duas ameaças.
— Ora, ora. — começou a falar Parashara, num tom sardônico. — Encontramos os dois animais que procurávamos de uma vez. Não estou surpreso. Eu sabia que vocês andavam juntos.
— Raktabīja, corra. Fuja. Suma na floresta. — Kalika falava com voz baixa, mas firme. O tigre não tinha como obedecer. A própria voz da menina expremia seu intenso medo. Ele não abandonaria uma amiga ameaçada. Precisava ficar ali. Precisava defendê-la.
— Vamos acabar com essa brincadeira. — Parashara disse, dando um passo a frente com sua melhor lança, uma feita de prata, em posição, pronta para matar qualquer animal que se aproximasse.
Raktabīja rugiu em desespero. Mais uma vez, sua imponência de predador assustou os homens da retaguarda, que recuaram. Mas não ao líder da expedição, o caçador mais experiente e habilidoso, que seguia em seu passo firme.
— Vamos, fuja, por favor! — Pediu Kalika com a voz embargada. Raktabīja, desobedecendo, deu um passo lento a frente.
Os dois animais com sede de sangue estavam cada vez mais próximos um do outro, com a garota entre eles. Vendo que o tigre não obedecia, Kalika se colocou na posição de defesa, abrindo amplamente os braços, na tentativa de formar uma parede humana.
— Terão que me matar! — Ela gritou. Mesmo o determinado Parashara interrompeu seu passo, olhando contrariado para a garota. — Só vão acertar uma flecha que seja em Raktabīja se me matarem primeiro!
— Saia da frente, Kalika.
— Recue, Parashara! — Kalika gostaria que sua voz tivesse sido firme e imperativa, mas saiu chorosa, e o que ela queria que fosse uma ordem soou mais como uma súplica desesperada, o que realmente era.
Raktabīja abaixou-se, pondo-se na posição de dar o bote em Parashara. Kalika virou 180º, mantendo a mesma posição de parede humana, com os braços abertos. Estava fazendo um esforço fenomenal para que nenhum dos lados atacasse o outro.
Naquele momento, teve uma epifania. Fechou os olhos um longo momento, respirou fundo e pôs em ação um movimento extremamente arriscado. De frente para o tigre e de costas para os humanos, Kalika começou a andar para trás, aproximando-se dos humanos.
— Quando eu ultrapassar você, ele vai atacar, Parashara.
— Que ataque, eu estou preparado! — Retrucou o homem.
— Eu sei, e você vai matá-lo com certeza. Mas acha que vai sair ileso. Acha que o tigre não vai te deixar uma cicatriz ou até te aleijar?
— Nós vamos matá-lo antes que ele consiga fazer isso, Kalika.
— “Nós”? Olhe a distância a que seus caçadores estão de você, Parashara! — Parashara olhou para trás só de relance. Um caçador experiente não tira os olhos de sua presa. Mas a fração de segundo foi suficiente para ele perceber o que Kalika dizia. Ele estava cerca de três metros à frente da linha de frente.
— Se eu te passar, fico entre você e os outros. Eles não vão ter coragem de atacar, não vão arriscar a minha vida pra atacar Raktabīja. — Continuou ela. — Será só você e o tigre, um contra um. É melhor você recuar, porque eu não vou parar de andar. — Ela de fato continuava com seus passos lentos para trás. Parashara soltou um seco grunhido de frustração.
Recuou, assim como Kalika, andando para trás, e se pôs novamente na linha de frente. Kalika também continuava andando. Raktabīja ainda estava na posição de bote, o rabo serpenteando.
— Pare, Raktabīja, não ataque. — Kalika ordenou com voz firme. O tigre levantou sensivelmente a cabeça, parecendo entender. — Está tudo bem, não ataquem. — Dessa vez ela falou com os caçadores.
Acelerou um pouco o passo retrógrado, mas sem correr, e se pôs entre os caçadores, compondo a linha de frente. Com suas duas mãos, ela tocou os braços de dois caçadores que estavam à sua direita e à sua esquerda.
— Viu? É seguro pra mim. Eles não são ameaça, eles não me machucam! São a minha espécie! Mas pra você sim eles são ameaça, Raktabīja. Por favor, fuja!
— Govinda. — Falou Parashara, se referindo a um garoto de quinze anos, um caçador iniciante que estava na retaguarda do esquadrão. — Livre-se dela. — Ordenou.
Antes que Kalika percebesse, foi puxada violentamente para trás, sendo removida da linha de frente e, portanto, do plano de visão de Raktabīja. Aquilo obviamente ativou o instinto caçador do tigre e ele partiu para o ataque. Tarde demais. A bomba explodiu.
A lança de Parashara foi certeira no peito do felino. As garras de Raktabīja foram firmes nos bíceps do caçador. Urrou de dor, o sangue jorrou. Levaria semanas para o ferimento fechar e as cicatrizes o acompanhariam por toda a vida. Mas, ele tinha acertado o tigre no coração, ele estava na vantagem. As flechas vieram em seguida, altas, direcionadas à cabeça do animal, que era bem mais alta que Parashara, portanto ele corria pouco risco de ser acertado. Não durou mais que sete ou oito segundos.
Quando Kalika pôde levantar a cabeça para ver o que acontecia depois de ter sido derrubada por Govinda, o tigre já estava ao chão, abatido.
Ela começou a gritar à plena capacidade de seus pulmões, as lágrimas escorrendo incessantemente. Govinda tentou inutilmente tapar a boca da garota com as mãos. O grito desesperado dela seria um som de fundo constante na cena que se seguiu:
— Parashara, você está bem? — Perguntou um caçador se aproximando e segurando o homem ferido pelos ombros.
— Estou ótimo. — disse Parashara, levantando-se com os braços ensanguentados. Caminhou até o tigre caído e murmurante e pôs o pé em seu pescoço, num ato de desprezo. — Eu queria finalizar essa caça, mas como esse carinha aqui é bom lutador, não posso mais usar meus braços, na verdade não poderei por uns bons meses. Então, quero que você o finalize. Com a minha lança.
— Claro. — Concordou o homem. Parashara virou-se para Kalika e com um sorriso sardônico, disse:
— Não leve a mal, Kalika. É a lei da natureza. O que vamos fazer com o seu amigo é a mesma coisa que ele fazia com cervos, pavões e nilgais.
A visão da lança penetrando o pescoço do tigre e espirrando sangue aos jorros foi a última que a garota teve antes de desmaiar. Ela acordou nove horas depois, em sua própria cama.
— Raktabīja! — Foi a primeira coisa que ela disse, assustada, ao acordar.
— Kalika! — Falou sua mãe, aliviada, correndo em sua direção para abraçá-la.
— Ficamos muito preocupados! — disse o pai.
— Parem, parem com isso, deixem-na sozinha! — Jaimini falava em firme tom repreensivo. — Por favor, saiam. Ela não quer a companhia de vocês. — Embora grandemente contrariados e frustrados, os pais percebiam que o que o filho falava era verdade e acataram, saindo da presença de Kalika na qual se mantiveram desde que ela, inconsciente, fora carregada ao vilarejo.
— Eu sinto muito, Kalika. — falou Jaimini, sentando-se ao lado da irmã. Nenhuma palavra a mais era necessária. Kalika o abraçou, enterrou a cabeça em seu peito e se entregou ao pranto, ao que Jaimini acariciava sua nuca, na tentativa de consolo.
— Raktabīja! Raktabīja! Por quê? Por quê? — Ela gritava entre os soluços e as lágrimas.
No dia seguinte, em sua casa, Parashara, com os braços totalmente pensados, recebeu uma visita inesperada.
— Namastê. — disse ela, entrando sem ser convidada.
— Kalika! Pensei que estivesse com raiva de mim.
— Estou com mais raiva do que jamais senti ou sentirei de qualquer outra pessoa na minha vida, Parashara.
— Eu sei que está frustrada. Mas um dia você vai entender.
— Eu já entendo. É você quem não entende. Mas eu não vim aqui pra discutir isso. Eu vim te fazer um pedido.
— Um pedido? — Estranhou o caçador.
A pele majestosa de Raktabīja estava pendurada na parede, cobrindo-a em toda a sua estensão. Os olhos amarelos não estavam mais lá. Mas o pelo laranja, as listras e suas majestosas presas felinas ameaçadoras ainda estavam ali, ecoando a glória do rei da floresta após sua vida.
— Oh, Raktabīja! — disse ela, olhando a pele do animal e deixando duas lágrimas escorrerem.
— Sei que esse é um precioso troféu de caça pra você. — disse Kalika — Mas quero que não seja só seu. Quero que o deixe no centro do vilarejo. Quero poder ver a pele do meu amigo sempre que eu quiser. E quero que toda Anurigama se lembre sempre do quão majestosos e imponentes são essas criaturas lindas que vivem lá fora. Porque assim todos saberão o quão incrível foi a experiência que eu tive. Eu tive. Ninguém mais.
Parashara soltou um riso ríspido, que foi respondido com um olhar repreensivo de Kalika. Ele se refreou imediatamente da ideia de mais uma vez caçoar da garota. O espírito inquebrantável da rebelde estava ali. Era mais corajosa que qualquer caçador. Ela tinha todas as qualidades que Parashara admirava em seus homens. Naquele momento todo o conflito que tivera com a garota nos dias anteriores perdeu o valor, e ele sentiu por ela apenas profundo respeito.
— É um pedido totalmente justo, Kalika. Eu concedo. — Ela se retirou sem dizer mais palavra.
A pele do tigre foi exposta no centro de Anurigama. Crianças que nasceram depois ouviriam admiradas a história de Kalika, Jaimini e Raktabīja. Quando os meninos cresceram e se tornaram caçadores, aprendendo sobre o comportamento dos tigres, se questionavam seriamente se a história era real, de tão incrível. Mas, com ou sem dúvida, ela continuaria sendo contada, vezes sem conta, nas fogueiras, dentro das casas, em conversas casuais, a todo habitante de Anurigama e de fora dela, pois não houve um único visitante ao vilarejo, daquele dia em diante, que não se admirava incrédulo com a história por trás da pele à sua frente.
Mais de quarenta anos depois, uma idosa Kalika, com seus cabelos brancos, ainda sentiria um resquício da paz que sentia quando estava com seu amigo, olhando para sua pele majestosa, o registro imemorial de seu encontro selvagem.
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