Encontro Selvagem

6 Equilíbrio Natural


Notas iniciais
Boa parte coincide com o Corte da Autora. Cortar a história em duas na cena intensa em que fiz o corte interromperia a fluidez da leitura.

Quando Kalika acordou pela manhã, Raktabīja ainda dormia, mas não próximo a ela, e sim a uma clareira próxima, poucos passos dali, onde ele poderia receber melhor o aconchegante calor do sol nascente. Ela sorriu ao ver a cena. Mas logo em seguida, se deu conta de que estava com fome, e não havia trazido comida consigo. Pegou uma lança e saiu à procura de uma árvore frutífera, da qual pudesse comer, sem a menor ideia de quão difícil seria achá-la. Caminhou por horas sem sucesso, o cansaço e a fome se retroalimentando. Depois de muito caminhar, conseguiu ouvir o fluxo do rio. Não tinha encontrado frutas, mas ao menos poderia saciar sua sede. Foi seguindo o som, mas antes que chegasse ao rio, Raktabīja surgiu dentre as árvores, com um peixe na boca.

— Bom dia, Raktabīja. — disse ela. O tigre servilmente deixou o peixe aos seus pés. Mais um presente.

— Obrigada. — disse ela. — Mas eu não posso comer isso. Preciso grelhar primeiro, e eu não sei como fazer fogo. — Raktabīja afastou-se e correu gracioso para o rio, como se tivesse entendido o que ela disse.

Por sorte, à margem do rio, Kalika encontrou arbustos carregados de carandas, negras e suculentas, das quais se saciou. Raktabīja nadava divertidamente no rio, acompanhando as correntes, enquanto a garota comia. Logo ela se saciou, despiu-se de suas vestes e acompanhou o amigo na atividade hídrica.

Fazia mais de um ano que Kalika não brincava com Raktabīja no rio, e mesmo da vez anterior, quando Jaimini o conheceu, ela não tinha tanta liberdade para nadar com ele e ele não tinha aquele tamanho todo, pois ainda não era um tigre adulto. Foi uma experiência completamente diferente e nova nadar no rio com o tigre num dia de verão, por horas e horas, até a pele ficar invaginada, até o frio a forçar a sair da água. Uma tarde inesquecível. Uma humana e um tigre.

— Aqui estamos seguros, Raktabīja. — disse Kalika, apoiando-se no dorso do majestoso tigre enquanto ambos flutuavam à correnteza. — Aqui aqueles caçadores malditos não vão vir te perseguir.

Kalika adorava ver Raktabīja saindo da água. Seu corpo imenso e seu pelo encharcado levantavam um grande volume de água do rio quando ele saltava para a margem e, sendo próximo de meio-dia, o sol forte lançando raios diretos na pequena cachoeira que o animal causava ao saltar criava no ar pequenos arco-íris que logo sumiam. Era a coisa mais especial do mundo para Kalika.

Mas a brincadeira no rio estava encerrada por aquele dia. Era hora do almoço.

— Está difícil achar frutas por aqui que eu possa comer. Vou voltar o caminho até Anurigama pra recolher alguma coisa da nossa mangueira. Lembra, aquela mangueira? Mas não me siga. É perigoso pra você se aproximar de Anurigama. Pra mim, não.

Malgrado o conselho, Raktabīja acompanhou Kalika de longe. Às vezes passeando pela floresta num caminho independente do dela, às vezes parando para descansar, eventualmente adentrando aos arbustos mais altos em busca de alguma presa, mas nunca ficou mais distante dela que sessenta metros, por todo o caminho até a mangueira, que durou cerca de três horas.

Kalika subiu a árvore e se deliciou com duas mangas, e arrancou ainda mais seis, o máximo que conseguia carregar, a ter estoque para os próximos dias, pois já havia percebido o quão difícil era encontrar frutas na floresta. Se ao menos tivesse aprendido a acender fogueiras! Raktabīja providenciaria volumes infinitos de carne em suas caçadas, mas ela, diferente do tigre, não poderia comer carne crua. Assim que se reuniu com o tigre em seu caminho de volta, Kalika estendeu-lhe uma manga, ao que o tigre de bom grado aceitou, embora ela não aceitasse seus peixes. Troca de presentes desequilibrada. A natureza nem sempre é equilibrada.

Mais uma vez naquela noite, humana e tigre dormiram juntos sobre uma cama improvisada de folhas, a cabeça da garota encostada no pelo majestoso do tigre. O dia seguinte deu-se de modo bem semelhante ao interior. Mas quando chegou a terceira noite de Kalika fora do vilarejo, algo diferente aconteceu.

Raktabīja levantou-se à noite e andou vagarosamente para a parte mais densa da floresta, entre as árvores.

— O que foi, Raktabīja? — Perguntou a garota, ainda atordoada pelo sono.

Curiosa como sempre, ela se levantou e foi atrás dele. Do outro lado da parede de árvores que ele atravessava, Kalika viu algo que fez seu coração acelerar como nunca antes em sua vida.

Um, dois, três, quatro, cinco, seis pares de olhos amarelos e brilhantes, todos direcionados para ela. Ela ficou estática, imóvel. Raktabīja se pôs entre Kalika e os outros tigres em posição perpendicular, protegendo-a. Aquele simples gesto foi bastante para que eles entendessem. A humana não era ameaça. Um dos tigres, o da extremidade esquerda da formação, foi andando lentamente em direção a Kalika. Raktabīja afastou-se, confiante que ele não a machucaria, mas pronto para intervir caso percebesse alguma agressividade por parte do par de sua espécie.

Kalika olhou rapidamente para o amigo, que apenas caminhava despreocupadamente pela grama, como os outros tigres. Ela foi capaz de ouvir a voz de Raktabīja dentro de sua cabeça naquele momento. “Cara amiga humana, conheça a minha tribo.”

O tigre se aproximou de Kalika e cheirou, sem tocá-la. Com um grunhido, afastou-se. Os outros tigres também começaram a caminhar ao redor, dois deles estavam sentados até então, apenas a observando. Kalika enfim se permitiu começar a caminhar, percebendo que os tigres todos caminhavam no mesmo ritmo dela, sempre se aproximando bastante, mas nunca tocando, e então se afastando sutilmente, como se estivessem fazendo um convite para que ela os seguisse.

— Isso. . . isso é incrível! — Ela dizia para si mesma.

Kalika lembrou-se de Krishna, das batalhas do Mahabharata e de como ela sonhava com aventuras heroicas afins durante toda a sua infância. Ela teve certeza, naquele momento, rodeada por sete tigres numa floresta à noite, aos 14 anos de idade, que aquilo era o mais próximo que ela chegaria de Krishna. Aquilo era o melhor que a realidade de sua vida numa pequena comunidade tamil tinha a oferecer em termos da aventura que ela desejava. Nunca viveria outro momento como aquele. Nenhum outro humano que ela conhecia nunca teria uma experiência como aquela.

Então, algo ocorreu a Kalika. Ela tinha ficado tão maravilhada com a experiência que sequer tinha reparado num importante detalhe:

— Esse é o seu bando, Raktabīja? Eu pensei que tigres não viviam em bandos, pensei que vocês fossem solitários. — Ela então parou de caminhar e se limitou a observar como os tigres se comportavam.

Raktabīja andava de forma diferente dos outros seis. Os outros seis direcionavam seu movimento com base no dele. Se aproximavam sutilmente, mas quando ele andava em sua direção, se afastavam e, quando ele chegava muito perto, deitavam-se, flexionando as patas, com o dorso para cima. Ela então percebeu que Raktabīja comandava aquela dança.

— Vocês. . . vocês são todas fêmeas? — Inferiu Kalika. E inferira corretamente. Dos sete, Raktabīja era o único macho. Eram seis tigrezas, não tigres.

— Ora, elas estão esperando pelo seu cortejo, meu amigo! — Raktabīja se aproximou então de uma das fêmeas em específico e a afagou com sua cabeça, como costumava fazer com Kalika e Jaimini.

— Então você tem filhos, Raktabīja? Já namorou alguma tigresa por aí? Puxa, que fantástico é pensar que em algum lugar dessa floresta, tem algum filhote de tigre, do mesmo tamanho que você era quando te conheci, e que na verdade é seu filho!

Kalika pensou no filhote e se lembrou de seu primeiro encontro com Raktabīja, dois anos antes. Mas ela sabia muito bem que, mesmo que tal filhote estivesse por aí, ele não viveria a mesma experiência que seu pai. Não faria amizade com um humano como Raktabīja fez com ela. Ela sabia que o vínculo que tinha com ele era único e especial. Algo que só ocorria uma vez, mesmo na natureza.

No dia seguinte, Kalika voltou à mangueira para recolher mais mangas. Estava no alto da árvore quando viu uma silhueta humana movendo-se entre as tecas próximas. Desceu rapidamente, desconfiada. Mas, conforme a figura se aproximava, ela pôde identificá-la e ver que não havia perigo. Era Jaimini.

— Aí estão vocês! — disse ele. Galopante, Raktabīja aproximou-se com seu cumprimento costumeiro, a cabeça baixa. Jaimini o acariciou por toda a extensão do seu corpo.

— Olá, Jaimini. Como estão as coisas? — Perguntou Kalika, se aproximando.

— Eu achei que você estaria com fome. Trouxe dosas, bananas e alguns doces. — Ele lhe estendeu o cesto.

— Obrigada. Você acertou. Eu não posso comer o que o Raktabīja caça porque não sei fazer fogo, então tenho vivido só de frutas esses dias.

— Eu te ensino a fazer fogo, Kalika. — Kalika sorriu, pegou um dosa do cesto e sentou-se na grama, ao lado do irmão, para conversarem.

— Nesse momento eu estou diante das duas criaturas mais procuradas de Anurigama. — comentou Jaimini.

— É mesmo? Ainda estão caçando o Raktabīja?

— Estão, e também estão procurando por você. É uma expedição com dois propósitos. Quanto tempo isso vai durar, Kalika?

— O tempo que precisar. — Kalika disse com total seriedade. — Vou me esconder na floresta por quanto tempo for preciso. Não vou deixar ninguém colocar um dedo que seja no Raktabīja! Mas me diga, Jaimini. — Kalika logo cortou o assunto, pois sabia que não tinha muito mais a acrescentar. — Como estão indo suas caçadas?

— Infelizmente eu tenho melhorado. Já consegui matar um cervo.

— Parabéns! — elogiou Kalika.

— Não achei que você ficaria feliz com isso, Kalika. — disse Jaimini, levemente surpreso.

— Por que não? Você terá que alimentar sua família no futuro, Jaimini. Precisa saber caçar. — Jaimini a fitou, profundamente intrigado. — Não tem nada de errado em caçar. Pra cada cervo que você mata na floresta pra comer, Brahma cria mais um no lugar dele. A natureza é equilibrada. Nós caçamos os outros animais, eles nos caçam. Quando os caçamos, eles morrem, mas se não caçamos, nós morremos de fome. Não tem nada de errado em viver assim, é o jeito da natureza, é como o mundo funciona. Mas às vezes as pessoas agem de formas idiotas.

— Como o Parashara? — Jaimini sabia exatamente de quem Kalika falava.

— Isso. Como o Parashara. O que ele está buscando é um sacrifício desnecessário que não é bom pra ninguém. Mas, ele não vai conseguir entender que Raktabīja não é uma ameaça. Por isso, eu preciso protegê-lo. E além disso, Jaimini. — Ela se virou para o irmão, sorrindo ao fitá-lo — Não pude deixar de notar que você disse que “infelizmente” melhorou na caça. Mesmo sendo seu dever e mesmo você melhorando nisso, você ainda sente a dor do cervo quando caça. Você está conectado com a natureza, meu amigo. Nunca perca isso. Isso é especial.

Finda a conversa, Jaimini recolheu alguns gravetos e algumas pedras do chão para ensinar Kalika a fazer fogo. Ela observava atenta enquanto ele fazia o movimento de fricção no galho sobre a pedra e começava a explicar, mas antes que a primeira fagulha surgisse, eles ouviram passos vindos dentre as árvores. Atento, Jaimini levantou-se para checar e confirmou que um pequeno grupo da expedição, formado por quatro homens, realizava sua busca por ali. Isso forçou a lição a ser interrompida, antes que Kalika pudesse efetivamente aprender a fazer fogo. Jaimini gesticulou com as mãos para que os dois fossem embora antes de serem achados.

— Obrigada pela comida, Jaimini. — Kalika agradeceu com um sussurro antes de sumir na floresta.

O achamento dos que não queriam ser achados, o cumprimento do objetivo da expedição, era inevitável. O acontecimento de tal evento inevitável aconteceu muito mais tarde do que seria razoável esperar, considerando a capacidade de sobrevivência na floresta de uma menina de quatorze anos, e muito mais cedo do que Kalika queria que acontecesse, tal era o seu apreço por aquela vida selvagem que levava, acompanhada apenas de Raktabīja.

Foi durante uma tarde. Kalika corria por entre as árvores, sentindo o toque ligeiro da grama verde em seus pés, sentindo os raios de sol entrecortados pelas sombras das tecas aquecendo seu rosto. O majestoso rei da floresta a seguia a uma distância razoável. A brincadeira comum dos dois era que Raktabīja deixava Kalika liderar a corrida, coisa que fazia desde filhote, por alguns minutos, e depois corria por poucos segundos em sua velocidade máxima, disparando na frente da garota e ganhando uns bons metros de vantagem, e então parava e esperava por ela.

Naquele momento, Kalika liderava, mas não percebeu a grande expedição que circulava aquela parede de tecas, o que faria seus caminhos se cruzarem, mas como Kalika corria mais rápido, entrou sem perceber no campo de visão dos caçadores, surgindo dentre as árvores bem à frente deles.

— Kalika! — gritou um homem da linha de frente, chamando atenção de todos os demais.

Aturdida, Kalika interrompeu sua corrida e virou-se para a origem da voz, o semblante expressando total preocupação e surpresa. De fato, fora pega de surpresa.

Raktabīja, vendo a garota parar de correr, concluiu que era hora de aumentar a velocidade para ultrapassá-la, e sua corrida até então moderada tomou a velocidade de perseguição. Assim, não se passou um segundo entre o momento em que Kalika parou de correr surpresa, para olhar o grupo que a flagrou e o surgimento do tigre em toda a sua formosura, saindo do mesmo bosque.

Naturalmente, ao cruzar o caminho do grupo, Raktabīja também interrompeu sua corrida e os fitou, assustado. O susto do tigre o fez soltar um grunhido grave de surpresa, mas que para os humanos soava ameaçador.

— O tigre! — gritou o mesmo homem, acompanhado de gritos agudos de susto vindos de boa parte de seus companheiros, alguns dos quais deram um passo para trás ao vê-lo.

Raktabīja parou atrás de Kalika e fitou o grupo de humanos fixamente. Eram nove. Nunca tinha estado na presença de tantos humanos assim antes. Era uma situação amedrontadora para ele também. Estava pronto para lutar a qualquer segundo. Lutar, não fugir. Qualquer outro tigre naquela situação teria muito maior chance de fugir. Mas ele precisava proteger sua amiga que, ironicamente, era quem estava entre as duas ameaças.

— Ora, ora. — começou a falar Parashara, num tom sardônico. — Encontramos os dois animais que procurávamos de uma vez. Não estou surpreso. Eu sabia que vocês andavam juntos.

— Raktabīja, corra. Fuja. Suma na floresta. — Kalika falava com voz baixa, mas firme. O tigre não tinha como obedecer. A própria voz da menina expremia seu intenso medo. Ele não abandonaria uma amiga ameaçada. Precisava ficar ali. Precisava defendê-la.

— Vamos acabar com essa brincadeira. — Parashara disse, dando um passo a frente com sua melhor lança, uma feita de prata, em posição, pronta para matar qualquer animal que se aproximasse.

Raktabīja rugiu em desespero. Mais uma vez, sua imponência de predador assustou os homens da retaguarda, que recuaram. Mas não ao líder da expedição, o caçador mais experiente e habilidoso, que seguia em seu passo firme.

— Vamos, fuja, por favor! — Pediu Kalika com a voz embargada. Raktabīja, desobedecendo, deu um passo lento a frente.

Os dois animais com sede de sangue estavam cada vez mais próximos um do outro, com a garota entre eles. Vendo que o tigre não obedecia, Kalika se colocou na posição de defesa, abrindo amplamente os braços, na tentativa de formar uma parede humana.

— Terão que me matar! — Ela gritou. Mesmo o determinado Parashara interrompeu seu passo, olhando contrariado para a garota. — Só vão acertar uma flecha que seja em Raktabīja se me matarem primeiro!

— Saia da frente, Kalika.

— Recue, Parashara! — Kalika gostaria que sua voz tivesse sido firme e imperativa, mas saiu chorosa, e o que ela queria que fosse uma ordem soou mais como uma súplica desesperada, o que realmente era.

Raktabīja abaixou-se, pondo-se na posição de dar o bote em Parashara. Kalika virou 180º, mantendo a mesma posição de parede humana, com os braços abertos. Estava fazendo um esforço fenomenal para que nenhum dos lados atacasse o outro.

Naquele momento, teve uma epifania. Fechou os olhos um longo momento, respirou fundo e pôs em ação um movimento extremamente arriscado. De frente para o tigre e de costas para os humanos, Kalika começou a andar para trás, aproximando-se dos humanos.

— Quando eu ultrapassar você, ele vai atacar, Parashara.

— Que ataque, eu estou preparado! — Retrucou o homem.

— Eu sei, e você vai matá-lo com certeza. Mas acha que vai sair ileso. Acha que o tigre não vai te deixar uma cicatriz ou até te aleijar?

— Nós vamos matá-lo antes que ele consiga fazer isso, Kalika.

— “Nós”? Olhe a distância a que seus caçadores estão de você, Parashara! — Parashara olhou para trás só de relance. Um caçador experiente não tira os olhos de sua presa. Mas a fração de segundo foi suficiente para ele perceber o que Kalika dizia. Ele estava cerca de três metros à frente da linha de frente.

— Se eu te passar, fico entre você e os outros. Eles não vão ter coragem de atacar, não vão arriscar a minha vida pra atacar Raktabīja. — Continuou ela. — Será só você e o tigre, um contra um. É melhor você recuar, porque eu não vou parar de andar. — Ela de fato continuava com seus passos lentos para trás.

Parashara soltou um seco grunhido de frustração. Recuou, assim como Kalika, andando para trás, e se pôs novamente na linha de frente. Kalika também continuava andando. Raktabīja ainda estava na posição de bote, o rabo serpenteando.

— Pare, Raktabīja, não ataque. — Kalika ordenou com voz firme. O tigre levantou sensivelmente a cabeça, parecendo entender. — Está tudo bem, não ataquem. — Dessa vez ela falou com os caçadores. Acelerou um pouco o passo retrógrado, mas sem correr, e se pôs entre os caçadores, compondo a linha de frente.

Com suas duas mãos, ela tocou os braços de dois caçadores que estavam à sua direita e à sua esquerda.

— Viu? É seguro pra mim. Eles não são ameaça, eles não me machucam! São a minha espécie! Mas pra você sim eles são ameaça, Raktabīja. Por favor, fuja!

Confuso, o tigre observou o bando de dez humanos por mais um momento. Quando Parashara deu mais um passo à frente, para enfrentá-lo, Raktabīja retrucou com seu rugido mais ameaçador, fazendo o homem estremecer e recuar. Mesmo o mais experiente dos caçadores, diante daquele terrível rugido, abalava-se. Entendendo a ameaça, enfim o tigre recuou, fugindo para a floresta e desaparecendo entre os arbustos.

Kalika respirou tão aliviada que chegou a cair de joelhos, surpreendendo os caçadores.

Frustrado, Parashara lançou sua lança ao chão, levantando alguns folículos de grama cortada.

— Você está sendo muito irresponsável, Kalika! — esbravejou o homem, repreendendo a garota. — Você ficou amiga de um tigre e por isso não entende a ameaça! Acha que só porque ele não é uma ameaça pra você, não é pra ninguém mais?

— Se Raktabīja é uma ameaça aos humanos, é o que está perguntando, Parashara? — Kalika falou seriamente, firmemente decidida a confrontar o homem. — É óbvio que é. Ele é um animal selvagem. Assim como o são também todos os tigres, leopardos, dholes e gauros que vivem por aí. Nós os caçamos, eles nos caçam. Mas o que você está fazendo, de perseguir um tigre na floresta, é uma violação da lei da natureza.

— O que uma menininha acha que entende de lei da natureza? — Berrou mais uma vez o frustrado caçador. — Vamos embora!

— Eu não estou preocupada. — disse Kalika. — Logo vai ser sharada de novo e ele vai parar de nos visitar.

De volta ao vilarejo depois de tantos dias, Kalika foi recebida aos abraços por seus pais e pelas crianças do vilarejo que supunham que a garota estivesse em perigo durante todo o seu período de ausência. Jaimini guardara muito bem o seu segredo. Ela cumprimentou sorridente a todos, foi simpática com as boas vindas, mas falou o mínimo possível sobre sua aventura. Às perguntas que ela não se recusava a responder, respondia com frases curtas. Era bom estar novamente no meio de sua própria comunidade, da sua própria espécie, de ter uma cama confortável para dormir e comida assada para comer. Mas mesmo esse conforto e ternura não excluíam o fato de que a ligação única entre a garota e o tigre era especial demais para ser compartilhada com pessoas comuns.

Como previsto, o outono chegou e Raktabīja cessou suas visitas. A mesma época de afastamento do tigre coincidia com as festividades de Diwali. Como Anurigama era uma vilarejo pequeno, sem grandes templos ou palácios, a celebração era modesta. Mas contava com as mulheres do vilarejo, incluindo a mãe de Kalika, praticando o Bharatanatyam em frente a uma fogueira acessa para Lakshimi, com uma decoração característica.

Numa noite de festividade qualquer, Kalika, sentada num canto e segurando um dosa que nem sequer conseguia comer, observava a dança sem empolgação. De repente, foi abordada por um homem.

— Namastê, Kalika. — Ela se virou, surpresa. Era o caçador grisalho. O que havia lhe ensinado sobre tigres no dia em que conhecera Raktabīja.

— Namastê. — Cumprimentou ela, cordialmente.

— Então o seu amigo tigre foi embora? — Quis saber o caçador.

— Ele fica ausente nos meses frios. Talvez ele volte na primavera. Eu nunca sei se ele vai voltar ou não. — Confessou a menina.

— Entendo. Você desenvolveu uma relação muito especial com ele, não é? — Ela não respondeu. Por mais que parecesse uma pergunta inocente, era incômoda para Kalika. Ele se sentou ao lado dela, tomando a liberdade. — Você se sente deslocada aqui em Anurigama, não é, menina? — Novamente, ela não respondeu.

— Eu sei que você não acredita, mas eu te entendo. Eu não sou como você, você é muito especial. Mas eu já conheci pessoas especiais como você, que se sentem deslocadas no mundo, que acham que o mundo é pequeno demais para elas. — Ainda taciturna, Kalika ficou impressionada em seu íntimo em quão bem o caçador a conhecia sem que ela dissesse nada.

— Nessa vida de caçador a gente conhece muita gente. Muitos homens, muitas histórias. Alguns contam histórias de terras distantes, que a gente nunca esquece. Sabe, muito tempo atrás, acho que duas vezes o tempo que você nasceu pra cá, eu conheci um homem que tinha um filho que era como você. Ele estava sempre conectado com a natureza e detestava caçar. Existe um povo que mora na península ao oeste daqui, chamado árabe. Eles estão sempre usando turbante e montam animais fantásticos chamados camelos, que são parecidos com cervos, mas muito maiores. Você iria adorar conhecê-los. — E a menina continuava sem nada dizer, mas o caçador sabia que tinha instigado a imaginação dela com a imagem dos camelos.

— Eu conheci alguns árabes nas minhas viagens de caça, mas esse homem, o filho do caçador, foi muito mais ousado. Ele soube de um lugar lá na terra dos árabes chamado madrassa, onde os homens dedicam sua vida a ficar junto da natureza, olhando as estrelas e fazendo não sei mais o quê. Quando ele ouviu falar da madrassa, partiu em viagem pra lá, mesmo sabendo que a viagem demoraria quase um ano e que não sabia falar a língua das pessoas de lá, mas ele estava decidido a viver na madrassa. Sabia que ela era o seu lugar. — Ele enfim se levantou, dando sinal de que deixaria a garota em paz, embora ela, em seu íntimo, estivesse apreciando a história. — Sabe, acho que você nasceu no lugar errado. Talvez na época errada. Talvez em algum lugar do mundo seja possível viver a vida que você quer, mas você está presa nessa comunidade de pessoas simples. Eu queria te oferecer alguma esperança, Kalika, mas infelizmente eu não tenho. Eu só queria te dizer que você é especial. Namastê. — Enfim o homem grisalho levantou-se e partiu, deixando a garota apenas com suas palavras para meditar.