Encontro Selvagem

7 Sombra de uma Lenda


Então o segredo de Kalika e Jaimini era conhecido, não era mais segredo. Em toda primavera, como de costume, Raktabīja anunciava seu retorno à noite com um poderoso rugido. Diferente do ano anterior, quando ainda tinham segredo pra guardar, que os fez sair escondidos, Kalika e Jaimini, ao ouvirem o rugido, levantaram-se empolgados e imediatamente correram para fora do vilarejo para encontrar o amigo.

— Vocês dois tomem cuidado! É seu amigo, mas ainda é um tigre selvagem! — Alertou a mãe, ao ver os dois irmãos saindo correndo para encontrar o tigre. O instinto protetor da mãe nunca lhe permitiria entender que estar diante de um felino de mais de 200 quilos era seguro.

O contato frequente entre humanos e tigres limitou-se aos três animais que já o mantinham, sem aumentar o número de indivíduos participantes. Kalika era cuidadosa em proteger os humanos.

Numa tarde amena de primavera, quando humana e tigre dormiam sob as sombras das árvores depois de Kalika ter comido carandas, quatro crianças se aproximaram. Eram lideradas por um garoto de onze anos. Foram se aproximando discretamente, fazendo o mínimo de barulho possível.

— Ele está aqui! — Sussurrou o líder.

— Caramba, que enorme! — Admirou-se uma menina de oito anos, vendo Raktabīja deitado.

— Fique quieta! Vai acordá-lo. — Repreendeu o líder.

— Tem certeza de que é seguro? — Perguntou um garoto de seis anos, naturalmente com medo diante da imensidão do tigre.

— Claro que sim, ele é amigo dela. — Justificou-se o mais velho.

As orelhas de Raktabīja, porém, eram sempre atentas a vozes humanas. A tentativa das crianças de sussurrar não foi suficiente para que não a detectassem, tremelicantes. O tigre levantou a cabeça e abriu os olhos, ainda num leve torpor do sono. Eram apenas filhotes de humano, nenhuma ameaça. Mas vendo-o acordar, o garoto de seis anos, o mais assustadiço, não conseguiu conter um grito assustado, breve e sem agudeza, mas suficiente para acordar Kalika.

Ela, diferente de Raktabīja, acordou totalmente atenta, pondo-se alarmada em pé e movendo a cara rapidamente de um lado para o outro para entender a situação.

— Vocês estão loucos? Vão embora!

— Mas a gente queria ver o tigre! — Explicou-se o de onze anos.

— É perigoso. Eu posso porque o conheço desde filhote. Vocês vão embora agora, com calma e sem correr.

— Mas, Kalika.. . .

— Não entendeu? Cada segundo a mais que você passa aqui está arriscando sua vida. Vão embora!

Eles não tiveram escolha a não ser obedecer a jovem, que falava com firmeza, mas no íntimo estava bem nervosa. O interesse dela naquele momento era obviamente proteger as crianças, mas ela sabia que, caso Raktabīja matasse algum humano no vilarejo, ele morreria também. Parashara o caçaria incansavelmente até conseguir matá-lo. Mas isso nunca aconteceu. Contrariando as expectativas do caçador, as vacas também nunca foram atacadas.

Mas se era verdade que o caçador em sua longa experiência aprendia histórias de outros homens, histórias de terras distantes, e desse modo elas chegavam às orelhas dos caçadores de Anurigama, também era igualmente verdade que a história fantástica e extraordinária de Kalika com Raktabīja também se espalharia nas viagens de caça a outras terras. Parashara e outros caçadores, partindo em expedições de caça com outros homens, de outros lugares, compartilhariam a história extraordinária que presenciaram muito rapidamente, e os caçadores que os ouviram, intrigados com a história, a reproduziriam em seus próprios vilarejos, em suas famílias, nos círculos de agricultura e de trabalhos manuais. Com o tempo, a história da menina que fez amizade com um tigre se tornou a sombra de uma lenda.

Kalika tinha dezessete anos quando da estrada surgiu algo extraordinário, que não apenas quase ninguém em Anurigama jamais tinha visto, como também um tamil normalmente passaria uma vida inteira sem ver: uma carruagem carregada por um elefante. Aquele animal enorme, de longe o maior que qualquer pessoa ali já tinha visto, causava um medo compreensível em qualquer pessoa que o visse mesmo de longe, que fugindo e, chegando a uma distância que considerava segura, observava curiosa.

— Que monstro é esse? — Diziam as crianças que nunca tinham visto tal criatura.

— É Ganesha! — Alguns diziam em referência ao folclore local.

A carruagem, embora ofuscada pelo proboscídeo, também era excêntrica. Era quase toda vermelha, ilustrada com dragões em detalhes dourados. Uma grande extravagância. Ela parou à entrada da vila e o condutor desmontou de seu ponto, andou alguns metros adentro e tocou um berrante para a anunciar sua presença. Chamada a atenção de todos, ele gritou para que todos ouvissem:

— Povo de Anurigama, recebam o nobre Atreya! — Outro homem, armado com espadas, abriu a porta da carruagem e ficou em pé ao lado dela, enquanto o jovem extravagante desembarcava.

Ele usava um dastar muito bem enfeitado com ouro e rubis e um sherwani de seda azul, a mais chamativa das cores para uma roupa. Um burburinho levantou ao redor da vila enquanto ele andava.

— Nossa, como ele é esquisito! Que roupas!

— Ele deve ser muito rico! — Fofocavam as mulheres aos sussurros.

O líder do vilarejo logo foi acionado e se dirigiu ao homem.

— Namastê, visitante. Você não é daqui, é? Deve ter vindo de muito longe.

— Namastê. É um prazer conhecer um lugar tão bonito e pacífico quando sua humilde vila, líder. Meu nome é Atreya e eu vim de Khambhat.

— Khambhat! — Exclamou o líder. — Uma terra distante. Deve ter trazido mercadorias muito boas para viajar tanto, caro Atreya. Não sei se teremos dinheiro.

— Não se preocupe com o dinheiro. Eu trouxe presentes para o vilarejo, em um ato de cortesia. Carne de porco para vocês se deliciarem e seda para embelezar suas mulheres! Farshid! — Ele chamava o assistente, que prontamente se ajoelhou diante do líder de Anurigama, estendendo-lhe a urna urna de madeira aberta com vários metros de seda tingida. Vermelha, amarela, branca e azul.

Desconfiado, o tamil deslizou rapidamente o dedo pela seda.

— É muita gentileza. Mas por qual motivo você veio se não vai nos vender nada?

— O senhor tem a ideia errada de mim, líder. Eu não vendo para pequenos vilarejos como esse. Eu faço negócios de proporções continentais, exporto quilos e quilos de sedas levada em camelos e paga em ouro. Meu objetivo aqui em Anurigama é outro. Eu vim ver com meus próprios olhos a lenda viva do vilarejo.

— Lenda viva? Me perdoe, senhor, não sei do que falas.

— Ora, como não? — A expressão de Atreya mudou da professoral para a levemente indignada. — Será que eu sou o primeiro a vir aqui ver? Mas ela certamente se tornou famosa por todo o continente. — Então, percebendo que o homem estava genuinamente confuso com suas declarações, soltou uma rude gargalhada, destoando totalmente do ar diplomático da conversa.

— Eu vim ver a lendária mulher encantadora de tigres de Anurigama.

Kalika estava trabalhando na plantação quando o líder do vilarejo, acompanhado de Atreya e Farshid a chamou de longe.

— Kalika! Kalika! — Ela virou-se para ele sem se levantar, esperando logo voltar ao trabalho na plantação. — Aproxime-se, filha! Esse gentil cavalheiro quer te conhecer.

Kalika limpou as folhas verdes grudadas em seu dhoti dos seus ombros, mulher rústica que era, e se aproximou sem empolgação, exprimindo certa estranheza impaciente no semblante.

— Kalika, esse é o senhor Atreya de Khambhat. Atreya, o orgulho de nosso vilarejo: a jovem senhorita Kalika.

— Namastê. — cumprimentou Kalika.

— Namastê! — Repetiu Atreya, fazendo o gesto com empolgação.

— E o senhor, como se chama? — Kalika dirigiu a pergunta a Farshid, percebendo-o excluído da conversa.

— Este é Farshid, meu guarda-costas, não precisa dar atenção a ele. — Kalika levantou rapidamente as sobrancelhas, impactada com tal desimportância atribuída a um ser humano. — Eu vim aqui para presenciar seus poderes, cara Kalika.

— Poderes?

— Sim, seus poderes sobre os tigres! Aliás, por que uma provável avatar de Durga trabalha na plantação?

— Avatar ou não, pessoas precisam comer, Atreya. Mas ainda não sei de que poderes você fala.

— Deixe disso! Eu estou disposto a pagar muito dinheiro por uma demonstração.

— O senhor está equivocado, senhor Atreya.

— Estou equivocado? Então a senhorita pode me explicar o que eu entendi errado no caminho. Vamos? — O sorriso pitoresco de Atreya não era exatamente o que se poderia chamar de convidativo. Mas, ainda meio contrariada, Kalika o seguiu em sua carruagem.

— Guie próximo aos arbustos até encontrarmos um tigre selvagem! — Ordenou Atreya ao condutor.

— Então, senhorita Kalika, a senhorita dizia que eu estava equivocado sobre seus poderes? — Disse Atreya, convidando para uma conversa.

— Imagino que sim, senhor Atreya. Eu mesma não estou ciente de quaisquer poderes de minha parte. — Respondeu seriamente Kalika, sentada de frente ao homem no banco estofado da carruagem.

— Não seja modesta, minha jovem. Eu vim de longe para ver do que você é capaz. Espero a melhor das demonstrações!

— Talvez para eu esclarecer que poderes eu não tenho, seja melhor o senhor me dizer o que supõe.

— Meu Deus! Mas é difícil acreditar que o próprio local de origem das lendas não esteja ciente delas! Muito bem, vou dizer o que eu ouvi lá em Khambhat: uma mulher com dons especiais de controle animal reside em Anurigama. Quando ela dança na floresta à noite, os tigres surgem e dançam com ela ao seu redor. Com sua voz ela é capaz de comandá-los, mandando-os atacar ou mesmo dispensá-los para longe. E quando ela dança em noites estreladas de verão, o poderoso asura Raktabīja paira sobre sua cabeça!

Kalika tapou a boca com a mão, tentando não soar desrespeitosa diante da história apresentada.

— A senhorita está rindo? Que bom humor as histórias te inspiram.

— Adorei a história, Atreya. — disse ela, ainda contendo o riso levemente. — Sinto te decepcionar que eu não seja essa pessoa, adoraria ser. Fico lisonjeada que eu tenha inspirado um rumor tão interessante, mas infelizmente não posso honrá-lo.

— Encontramos um tigre, mestre Atreya. — Anunciou Farshid.

— Ora! Que perfeita coincidência. Então é hora da senhorita Kalika nos mostrar seus verdadeiros poderes.

— Por que insiste? Já te disse que não tenho poderes! — Atreya abria a porta corrediça e desembarcava do veículo enquanto Kalika pronunciava essas palavras.

Farshid punha-se à frente, com a espada em punho, pronto para defender seu mestre. Atreya não demonstrava nenhum medo, desde que se mantivesse atrás de seu guarda-costas. O tigre estava a cerca de sete metros de distância, olhando com receio e curiosidade.

— E então, senhorita Kalika? Pode encantá-lo? Mostre-nos do que é capaz!

— Vocês estão loucos? Voltem para dentro! Eu não vou sair daqui! É muito perigoso.

— Como? A encantadora de tigres está com medo de um tigre?

— Afaste-se, mestre Atreya. — Farshid ordenou com voz firme, seguido de um estrondoso rugido. O tigre se aproximou num salto, ficando cara a cara com Farshid, o rabo serpenteando.

Farshid mantinha sua espada em posição horizontal, o fio na altura dos olhos e as pernas arqueadas, pronto para desferir um golpe certeiro, se necessário.

— Não olhe nos olhos dele, Farshid! — Admoestou Kalika, encolhendo-se dentro da carruagem, tamanho o pavor.

Farshid seguiu o conselho em parte por confiar na garota e em parte por ter certa experiência em combate com animais. Mas precisava observar com precisão o movimento do tigre, para não perder um milésimo de segundo do tempo de reação, caso ele atacasse. Direcionou o olhar para suas patas dianteiras, a primeira parte do corpo que ele moveria caso atacasse. Aquele confronto psicológico durou cerca de cinquenta segundos. O tigre recuou, sem atacar. Atreya caiu sentado.

— Estava com medo, não estava? — Concluiu Kalika.

— Está seguro agora, mestre Atreya. — Acrescentou Farshid.

Apavorado como ficou, levou ainda uns bons minutos para Atreya conseguir recobrar sua fala. Quando o fez, a sua primeira reação foi explosiva, evidentemente movida pela frustração de ter tido apenas uma experiência aterrorizante, sem nada do extraordinário que ele esperava.

— Então era tudo mentira! — Perguntou-se indignado. — Podíamos ter morrido! Podíamos ter morrido os quatro e você não ia fazer nada! Ficou só sentada aí! Que poderes mais inúteis!

— Eu estou desde o começo dizendo que não tenho poder nenhum, Atreya.

— Ora, e parece ser verdade! Até o momento eu pensava que a senhorita escondia seus dons, por modéstia ou por segredo, mas ia se deixar ser comida pelo tigre, então é porque não tem poder nenhum mesmo! Que decepção!

— Sinto te decepcionar, senhor Atreya. Te agradeço pelo agradável passeio de carruagem.

— Espere! Espere! — Atreya balançava os braços, indignado. Recusando-se a abandonar suas expectativas. — Eu não conhecia a senhorita até alguns minutos atrás! Eu apenas perguntei da lenda e o seu líder me levou até você! Se a lenda é falsa, por que ele me apresentou você e não simplesmente a negou?

— Porque ele provavelmente também não entende. Eu não encantei tigre nenhum. Eu apenas sou amiga de um.

— Amiga! Seu amigo ia nos comer vivos.

— Aquele não era Raktabīja, Atreya, foi por isso que eu não pude fazer nada.

— Raktabīja! O asura! Então é com ajuda dos asuras que você dispõe de seus poderes? — Kalika bufou e revirou os olhos. Atreya era mais teimoso que uma criança!

— Farshid, você está entendendo a situação? — Ela direcionou a pergunta a outra pessoa na esperança de que fosse mais racional.

— Não seria capaz de explicar, senhorita Kalika. — Respondeu Farshid, sempre estrito a sua função de guarda-costas, não se permitindo intervir em conversas. Embora a suposição de Kalika de que Farsid entendia a situação melhor que seu mestre e estivesse ciente da teimosia desmedida destee fosse verdade, ele não se manifestou por não ser seu ofício.

Kalika suspirou profundamente mais uma vez e passou a dizer:

— Muito bem. Eu vou tentar te mostrar o que eu consigo fazer. Não posso te garantir nada, contudo. Vamos deixar essa carruagem e andar a pé pela floresta. Ela vai atrapalhar.

Atreya esfregou as mãos, empolgado e esperançoso de que alguma coisa extraordinária aconteceria. Logo que os três se afastaram o suficiente da carruagem, Kalika passou a chamar:

— Raktabīja! — Chamava tão alto quanto podia, mantendo o fôlego o máximo que conseguia, repetindo o chamado a cada vinte ou trinta passos: — Raktabīja! Raktabīja!

— O que está fazendo? Invocando um asura? — Kalika não respondeu. Seria esforço demais a ser empregado até que Atreya entendesse.

O ato durou sem sucesso até o anoitecer. Raktabīja não apareceu.

— Sinto muito, ele não vai vir hoje. Não posso controlá-lo, ele tem sua própria vida de animal selvagem. Ele me visita quando ele quer e não o contrário.

— Então é possível? — Atreya ainda estava empolgado, apesar do cansaço. — O que podemos fazer para aumentar as chances dele aparecer?

— Tentar de novo amanhã. Estou cansada.

— Claro, amanhã tentamos de novo. Me desculpe, Kalika, eu exigi muito de você. — Kalika pela primeira vez ficou positivamente surpresa com uma fala de Atreya, olhando-o com as sobrancelhas altas. — Eu não levei em consideração que o uso dos seus poderes deve ser muito cansativo pra você. — Ela soltou uma risada ríspida. Havia superestimado a compreensão do homem.

— Mais uma vez, obrigada pelo agradável passeio, Atreya. Agradecerei se me levar de volta a Anurigama.

— Anurigama? Você está brincando? Não vamos dormir num vilarejo, com todo o respeito às suas raízes, Kalika. Hoje você vai dormir em Tiruchirappalli.

— Tiruchirappalli? É muito longe! — Exclamou Kalika.

— É a maior cidade nas proximidades, e precisamos de uma hospedaria de alto nível. Nem eu nem meus servos dormimos em redes. Farshid, em quanto tempo acha que chegamos a Tiruchirappalli?

— Estimo cinco horas, mestre Atreya.

— Cinco horas não é nada! Chegaremos antes da meia-noite, teremos tempo de dormir bem para continuar a busca amanhã! Vamos, Kalika.

Kalika olhou para os lados, ainda levemente contrariada. Deixar Anurigama nunca era má ideia. Mas a companhia de Atreya também não lhe era das mais agradáveis. Entre duas escolhas não muito atraentes, ela optou por aquela que trazia mais novidades.

— Como eu poderia recusar?