A segunda-feira para Alexandre estava sendo um pouco diferente das anteriores. Normalmente estaria deitado,dormindo,e só voltaria para a faculdade na quarta-feira. Porém,não esta semana.Sua mãe entrou no quarto batendo devagar às seis horas para ele levantar e se arrumar para o trabalho,simplesmente colocou o travesseiro no rosto e pediu mais cinco minutos. Às seis e meia ela volta a chamá-lo,porém ele grita e diz que não irá levantar,ela abre as cortinas e tira suas cobertas e mesmo assim ele continua inerte.Vitoria saiu do quarto com fortes pisadas.

— Sua vez- falou olhando para Tarcísio que tomava café e lia seu jornal como diariamente,ele levantou os olhos e se afastou da mesa.

Alexandre Barreto não era o filho mais obediente da família,mas de uns anos para cá chegava a sair de controle,foi quando começou as suas brincadeiras com a polícia. Seu pai entrou no quarto carregando um balde amarelo com água pela metade,e sem nem ao menos piscar a jogou em cima do filho que dormia.

— Que P@#$%&* é isso?- ele levantou os olhos e viu a imagem de seu pai.
— Bom dia.- ele apontou com o polegar para o banheiro.

Faltava dez para as sete quando Alexandre apareceu a passos firmes, com seu cabelo molhado sem pentear,uma calça jeans surrada e uma camisa babylook vermelha.

— Filho!- sua mãe sorri da pia- que bom que acordou!
— Como não acordar,não é? – ele olha para seu pai
— Fico feliz que tenha se juntado a nós – disse o advogado — Lavou o cabelo? Está um dia tão frio,espero que tenha usado o aquecedor.
— A água não é a única coisa fria nesta casa – disse ao sentar na mesa.
— Sinto lhe informar que graças ao seu cochilo prolongado estamos atrasados e infelizmente você não terá tempo de comer. – O pai dobrou o jornal e o colocou de volta.
— O que? Vou sem comer? – Tarcisio pegou uma maçã, a esfregou na camisa e jogou em direção do garoto.
— Sempre saudável! Vamos.

O percurso até a biblioteca se tornou mais longo pela falta de diálogo que existia entre pai e filho. O céu havia acordado como se nunca tivesse chovido, pequenas nuvens pairavam sobre a longa fila de carros que esperava o sinal mudar seu tom avermelhado. Crianças atravessando a rua sob a faixa de pedestre, correndo ansiosas para chegar na escola, com suas lancheiras e bolsas de rodinhas. Alexandre encostou a testa no vidro e ficou observado o passar dos calçadões, os homens suados de tanto correr, uma senhora andando pelas areias da praia, duas garotas com olhos vidrados em seus celulares. Um mundo que de dentro do carro, parecia não ter problema, um mundo que poderia ser tocado por uma simples música, mas nem sempre é assim. Talvez o homem estivesse treinando para uma maratona de corrida depois de ter ficado meses em casa por ter torcido o tornozelo. Quem sabe a senhora que andava na praia, não estava lembrando dos momentos que passeava com seu recém-falecido esposo. E as garotas poderiam ter acabado de ganhar seus tão sonhados celulares, apesar da sua família não ter as condições para manter o luxo.

A vida é uma questão de ponto de vista, tudo depende do ângulo pelo qual você está olhando.

Mas o que chamou a atenção do rapaz olhando de dentro para fora do carro, foi uma garota, ruiva, de cabeça baixa, que estava sentada em um banco do parque, lendo um pequeno livro. Os olhos de Alexandre se arregalaram e suas mão foram de encontro com a maçaneta do carro tão rápido que não se deu conta que o veículo estava em movimento. A porta abriu dez centímetros.

— ALEXANDRE!- Gritou. O garoto fechou a porta e olhou para baixo respirando pesadamente- Você está MALUCO?! O que pensa que está fazendo? Quer chamar a atenção? Você não cresce não é mesmo? Você poderia ter morrido!
— Mas não morri! – O menino falava com dificuldade
— Não, claro que não, é muito fácil para você dizer isso, não é? Não é você que vai enterrar um filho!
— Você sabe a sensação pai? – Seu ar começou a faltar, ele começou a tentar puxá-lo pela boca.
— Sua bombinha, onde está, onde está? – Ele apontou para o porta luvas e o homem tirou de lá um pequeno objeto em formato de “L” e entregou-o para o filho, que puxou o ar de dentro várias vezes. – Fazia tempo que você não ficava sem ar, fazem...
— Cinco anos. – O pai o olhou e ficou calado por alguns segundos
— É. – houve uma pausa – O que aconteceu?
— Nada. Era só uma garota lendo um livro, uma estúpida garota lendo um livro. Vamos indo.

Alguns minutos depois o pai continua o percurso. O rádio do carro estava no volume baixo, e o clima estava cada vez mais pesado, porém, não teve como não ouvir a música que se iniciava.

“ Well, we got no choice
All the girls and boys...”

Os olhos de cada um voltou-se para aquele aparelho sonoro, o motorista aumentou o volume e o refrão ia se aproximando, e somente cabeças balançavam para frente e para trás. E foi no clímax da música que a voz de ambos começou a aparecer, e a cada nota da guitarra e batida da bateria suas vozes se tornaram mais altas, unidas e desarmonizadas. Mas aquilo era algo que não acontecia a muito tempo, era algo que somente eles entendiam a sensação. Seus corações estavam acelerados e tomados pela adrenalina que aquela música os proporcionavam. Não era a mais animada, ou a de maior sucesso, mas isso não importava para eles, tudo que importava era o momento e as lembranças.

Desde os quatro anos de idade, Alexandre viajava com seu pai para algumas reuniões de negócios, o trabalho era extremamente entediante para uma criança, mas para ele, as melhores horas se passavam dentro do carro,eram ótimos momentos entre pai e filho. E em todo o percurso, tanto de ida, como de volta, uma música era o ápice de suas viagens. “School's Out For Summer”. Tarciso colocava a fita para tocar e era quando tudo começava, os dois faziam seu show particular. Porém, com o passar dos anos, as viagens começaram a diminuir e esses momentos se tornaram raros, até não existem mais. E hoje. Somente hoje. Especialmente hoje. Ela tocou com eles no mesmo local.

Ainda estavam com sorrisos nos rostos alguns minutos depois que acabara a música. E então, Tarciso quebrou o silêncio.
— Eu vou sempre estar aqui para você, filho.
— Eu sei, pai. Obrigada.- eles se olharam ainda sorrindo, e então Alex desceu, subindo em direção ao seu destino.

Notas finais
Gente, qualquer erro (com certeza tem) me falem. O que estão achando. Sei lá. Valeu!