Encontre-me
5 Capitão das léguas
Notas iniciais
Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca.
— Machado de Assis
Acho que Alexandre nunca pensou que poderia enfrentar seus problemas como agora. Tantas emoções se passavam em sua mente naquele momento. Medo, vergonha, ansiedade, e aquela garota. A tal garota que ele fora dormir pensando. A garota que deu-lhe um banho de bebida e depois acabou com sua blusa, a mesma que arrotou em seu rosto e correu para os braços de outro homem que não eram os seus. E aqueles olhos. Pensava ele, olhos tão penetrantes como o reflexo do luar sobre as águas, como as escuras profundezas das marés, que podem fazer homens se perderem na imensidão daquele olhar.
Subiu cada degrau como se carregasse chumbo nos tornozelos, seu rosto voltado para o chão. Assim que adentrou, um homem alto, magro, com um bigode a la handlebar e de terno, batia os pés e olhava para o relógio impaciente.
— Finalmente! Rápido, rápido, rápido – mexeu as mãos freneticamente- primeiro dia de trabalho e já está atrasado – bateu as mão umas nas outras.
— Sinto muito, o transito estava um caos. – ele colocou as mãos na cintura, comprimiu os olhos e se aproximou de Alexandre.
— Pelo seu histórico, você não é bom em falar a verdade. Pelo seu rosto inchado imagino que não tenha dormido bem noite anterior e pelo seu... – fez uma pausa e olhou o garoto se cima a baixo – vestuário, você acordou tarde e colocou o primeiro trapo que viu. Deixe-me explicar como serão as coisas aqui. – ele agora cruzou o braços e começou a caminhar pelo salão – você chegará ás sete, em ponto, e sairá as cinco. Terá uma hora de almoço, não será admitido trabalhar bêbado ou dormir na residência. Terá que usar um uniforme, que favorecerá muito seu visual, em relação ao que está usando e não poderá atrapalhar os visitantes. Está tudo claro?
— Como água.
— Ótimo! Acompanhe-me, vou mostrar onde poderá se trocar.
Alexandre ficou encarregado de colocar os livros em ordem, cada um em sua devida prateleira, tirar as poeiras deles e ver o estado de cada um. Uma tarefa fácil, se aquela não fosse a maior biblioteca do país. A cada livro que colocava na estante, pelo sua demora, parecia que neles estavam inseridos quilos de areia escondidos.
Durante o almoço, foi até um trailer/lanchonete, em frente a biblioteca, um Food Cruck. Fez o pedido à um senhor gordo que estava de avental na janela do veículo. Haviam mesas espalhadas de frente para os clientes se sentarem. Um rapaz alto, magro e com cabelos ruivos bagunçados, passava pelas mesas limpando-as.
— Com licença, Senhor. Preciso limpar aqui.
— Tudo bem. – Alexandre estava sentado confortavelmente e olhando para o vazio de seus pensamentos.
— Desculpe-me, mas, seu nome é Alexandre Barreto?
— É, sou eu sim. Desculpa, mas eu te conheço?
— Não, não. É porque você é... Como posso dizer... um pouco famoso.
— Ah! Não sabia que minha fama da faculdade me precedia- sorrio consigo mesmo, se sentindo orgulhoso de si.
— Procede.- O jovem continuou falando e limpando a mesa- Mas não é da faculdade. É da polícia mesmo, alguns policiais veem aqui de vez em quando e falam de você. O seu melhor número foi ter invadido a biblioteca. – O sorriso dele foi caindo aos poucos. – Se me permite perguntar, porque a biblioteca?
— Estava entediado.
— Com o dinheiro que tem não conseguiu arrumar nada menos ilegal para fazer? – Alexandre olhou para ele e não sabia se lhe responderia a altura ou deixaria para lá.
— Não pensei por esse modo. Eu simplesmente queria fazer aquilo.
— Acho que o mal das pessoas ricas, é terem tudo tão fácil que precisam preencher suas vidas com algo desnecessário. – Ele olhou para aquele jovem que devia ter sua idade e simplesmente rio.
— Tem razão. Meu nome é Alexandre – estendeu a mão para aquele funcionário, que foi pego de surpresa. Ele limpou a mão e apertou em seguida.
— Gabriel. Gabriel Torres.
— É um prazer, Gabriel.
Os dois ficaram conversando durante um tempo, enquanto Alex almoçava. Logo após se despediram, ele voltou para a biblioteca. Estava andando, perdido em seus pensamentos, se perguntando qual seria a imagem que ele passava para as pessoas a sua volta. Chegou a conclusão que de um jeito ou de outro, não era boa coisa. Entrou no hall principal e subiu as escadas, sem levantar o olhar se quer uma vez. E foi neste mesmo momento que ela passou por ele. A garota do bar, a mesma garota dos olhos de marés penetrantes que o fez ficar acordado a noite toda. Porém, seus olhos não se cruzaram. Ela continuou seu percurso acelerado até a saída, e ele até sua próxima tarefa.
Foi para a primeira ala da biblioteca e voltou a organizar os livros. Segurou um que tinha uma cor amarelada e suas bordas estavam gastas, sua capa destacava dois nomes: Julio Verne e vinte mil léguas submarinas. Abriu aquela obra prima que fazia tempos que não a via, e começou a folear como se visse um antigo álbum de fotografia. Sorria lembrando de sua professora da sétima série lhe perguntando o nome do capitão do navio, e ele respondendo: Procurando Nemo. Mesmo que estivesse brincando com sua mestre de sala, não pôde deixar de ler. Devorou o livro em tão pouco tempo que não bastava ler somente aquele, pediu de presente toda os livros escritos desse mesmo autor. Contudo, só ganhou dois deles. Tal fato, marcou tanto sua infância que foi chamado na escola de capitão Nemo, por seus coleguinhas, isso lhe subia o ego. Para ele o capitão Nemo, era o melhor super herói que uma criança poderia ter, um herói inteligente e astuto.
Por este motivo, apelidou seu carro de Nemo. Não por ele ser laranja como o peixinho que encantou a todas as crianças, mas por admirar tal homem que nunca conseguiria conhecer ou apertar sua mão e dizer o quanto ele foi importante em sua infância. Para ele, seu carro era como o Náutilus para o capitão. Ele sorriu consigo mesmo lembrando de sua obsessão por vinte mil léguas submarinas, e leu um único trecho do livro.
"(...) um objeto longo, fosforescente, em forma de agulha, infinitamente maior e mais rápido do que uma baleia."
— Com licença? – Aquilo lhe arrancou da nostalgia, como se houvessem lhe acordado de um sonho. Deixou o livro cair no chão, fechou os olhos e deixou a mão pousar no peito. – Me desculpe!
— Quer me matar de susto?! – Ele se virou de costas para a pessoa e continuou respirando vagarosamente.
— Sinto muitíssimo! É porque a bibliotecária não está no balcão e eu precisava pegar um livro. – Ele respirou fundo, levantou o corpo e se virou.
— Infelizmente não posso mexer na mesa dela. – Ele olhou para a menina de longos cabelos loiros e olhos castanhos penetrantes que estava em sua frente. Não houve dúvidas, era ela. Os dois ficaram ali sem reação, até que uma única palavra saiu da boca de ambos.
— Você?
Fale com o autor