Encantado

4 Capítulo 4


A CASA DE DOCES era uma cafeteria cafona que ficava em uma casinha decorada com doces molduras, eram listradas em vermelho e branco, e caramelos, chicletes, pirulitos e balas de hortelã enfeitavam as paredes.

Os fregueses matinais estavam chegando aos poucos: casais, policiais e várias pessoas indo comer sozinhas. Uma dúzia de garotas em vestido de festa e descalças caminhavam pelo estacionamento com seus sapatos detonados nas mãos, como se tivessem passado a noite toda curtindo a balada e estivessem relutantes em voltar para casa.

Um grupo de turistas de meia-idade, todos com camisetas iguais estampando o nome de um farol que tinham ido visitar, não pôde entrar; a atendente à porta, vestida como uma garçonete da Bavária, lhes explicou que eles precisavam ter feito reserva.

Gabi não enfrentou a mesma resistência. Reivindicou uma mesa para oito no meio da cafeteria lotada, depois pegou seu celular e começou a chamar pessoas para encontrá-la ali. Uma garçonete apressou-se a entregar os cardápios, e serviu a todos xícaras de um lamacento café. Pietro acabou sentando quase à ponta da mesa, ao lado de Blue e em frente a Frederick. Em certo momento, no carro, apertado no banco traseiro entre pessoas que mal conhecia, ele se sentira incapaz de continuar com aquilo por mais tempo. Sentira um repentino surto de solidão e desamparo, um desespero ao pensar que não iria encontrar, afinal, o túmulo dos pais, e lágrimas quentes haviam escorrido por suas faces. Ele logo tinha virado o rosto para a janela e limpado as lágrimas. Aparentemente, ninguém havia notado que ele estava chateado — e não queria mesmo

que notassem.

— As panquecas daqui são muito boas — disse-lhe Frederick — Assim como os waffles.

Pietro passou os olhos pelo cardápio. Tentou falar com um tom ameno:

— Eu estava pensando em um pouco de liberdade, e, para beber, uma medida cautelar de afastamento. Mas é tudo só com bacon.

— A medida cautelar de afastamento sai mais caro — intrometeu-se Blue, rasgando dois pacotinhos de açúcar e adoçando seu café. — Tem que pedir separado.

— Que saco. Acho que vou querer o bacon então.

Enquanto os outros faziam seus pedidos, Blue tomou um gole de café e perguntou a Pietro, baixinho:

— Por que você estava chorando antes? Estava com medo?

Pietro balançou a cabeça em negativa. Não sabia o que dizer.

— Não. Eu estava... eu me lembrei de uma coisa que me deixa triste.

— Ah, sim. Achei que tivesse assustado você.

— Você não se preocupou com isso quando invadiu o meu quarto.

Blue deu de ombros, com uma expressão culpada.

— Eu realmente quis assustar você. Mas só para servir de alerta. Minha intenção não era fazer você chorar... isso muda as coisas.

— Muda como?

— Faz com que eu esteja magoando as pessoas em vez de ajudá-las.

— Então você ainda acha que está me ajudando?

— Mesmo que você não saiba disso.

Ele então se calou e voltou sua atenção para a garçonete, rindo de alguma piada que Gabi falou. Levantou-se para acenar para um cara fortão que vinha na direção deles que parecia não ter ido dormir ainda. O cara trajava uma camisa havaiana e tinha marcas de batom no pescoço, de duas cores diferentes. Seu bagunçado cabelo loiro-dourado estava emaranhado em volta de seu rosto, mas, apesar de descabelado, ele conseguia ter um ar presunçoso.

— Este é Alan — apresentou Frederick. — Foi ele quem derrubou sua porta. Ele teria vindo com a gente, mas tinha que... bem, acompanhar umas damas até em casa.

Pietro assentiu, olhando para Alan com suspeita. Ele já estava começando com um ponto negativo, e Pietro sentia que haveria mais.

Alan se jogou na cadeira ao lado de Gabi e passou o braço por trás da cadeira dela — e então se pôs a olhar para a camiseta dela.

— Gabi ainda não tem peito nenhum — anunciou ele.

Harry socou a mesa com as duas mãos, fazendo os pratos e talheres trepidarem ruidosamente. Depois de murmurar alguma coisa sobre ir embora antes que matasse alguém, saiu da cafeteria.

Gabi soltou um suspiro.

— Pare de falar dos meus peitos, seu babaca.

— Alan, por favor, tenha um pouco de modos — disse Frederick. — Ou pelo menos finja que tem.

Alan ignorou a ambos.

— Você perdeu na loteria da puberdade, Gabi. Dê um jeito de fazer com que o seu pai compre um par de peitos para você. Que nem os da sua madrasta.

Gabi tomou um gole de Coca-Cola, os olhos semicerrados em indiferença, como se estivesse acostumada com aquilo.

— Sabe, eu me mataria se tivesse que quebrar a sua maldição — disse ela.

— Eu também. Preciso de uma garota bem gostosa se for meu destino ficar preso a uma só pelo resto da vida.

— Tem damas à mesa — censurou Frederick, sua voz começando a soar mais severa.

Por fim, Blue jogou um pedaço de pão em Alan.

— Guarde sua maldição para você, Wilder.

Alan catou o pão do colo, dobrou-o e o comeu em duas mordidas.

— Você não tem do que reclamar — disse Alan de boca cheia, apontando um dedo carnudo para Blue. — Taí um problema que você nunca vai ter: ficar preso a uma garota. Pode ter quantas quiser. É só continuar passando para a seguinte até cansar.

Blue desferiu a ele um olhar frio, firme e de ódio... um ódio genuíno.

Então chegou outra amiga, desviando o foco da atenção de Alan e Blue para si, e evitando que os dois partissem para a briga.

— Que história é essa de maldições? — perguntou Pietro a Frederick, em um murmúrio.

— É só brincadeira — respondeu ele, com um sorriso não muito convincente.

Pietro fez um biquinho de contrariado. Estava óbvio que ele estava escondendo alguma coisa.

A recém-chegada se sentou à ponta da mesa, entre Pietro e Frederick, e quando Pietro olhou para ela — olhou de verdade —, até esqueceu por que tinha feito biquinho para Frederick.

Era a garota mais bonita que Pietro já tinha visto em toda a sua vida.

Seu cabelo preto, liso e brilhoso ia até a cintura. Seus olhos de corça tinham longos cílios, quase negros de tão escuros; sua pele reluzia como seda. Seu rosto era tão belo que só de olhar para ela as pessoas se sentiam felizes, e até mesmo o aroma que ela exalava era agradável: como madressilva. Nenhuma borboleta girava em volta de sua cabeça, mas deviam ter passado por ali antes.

Frederick a apresentou.

— Pietro, esta é a srta. Kayra Phan. Kayra, este é Pietro.

— Oi — disse Kayra.

Sua voz era gentil, doce... mas algo feroz surgiu em sua expressão quando ela olhou para Alan.

— Não quer sentar aqui perto de mim? — perguntou Alan a ela com um largo sorriso no rosto.

— Não, não quero — respondeu Kayra. — Eu não sentaria perto de você nem se todos os outros lugares da sala estivessem em chamas.

— Ai! — Alan se encolheu e depois se recompôs, com um sorriso abatido. — Eu ficaria magoado com isso se acreditasse que era verdade. Você bem sabe que tem curiosidade de experimentar o meu equipamento.

— Mais ou menos a mesma curiosidade que eu tenho de pegar sífilis — retrucou Kayra, irritada.

— Ele estava se referindo ao carro dele — disse Frederick a Pietro, como se tivesse a absurda esperança de que Pietro fosse tonto o suficiente para acreditar.

— O carro dele tem sífilis? — perguntou Pietro, se fazendo de chocado. Frederick ficou vermelho. — Eu sei que não era isso.

Frederick assentiu, envergonhado, e esfregou o rosto com as mãos.

— Tem razão. Lamento que você tenha de ouvir uma coisa dessas. Ele algum dia ainda vai... sofrer mudanças positivas; um dia.

— Ele é um tremendo de um idiota — murmurou Kayra. Sua mão tremia sobre a mesa. — Eu adoraria atirar nele com uma espingarda quando o dia da transformação dele finalmente chegar.

— Dia da transformação...? — perguntou Pietro no mesmo instante.

Os grandes e escuros olhos de Kayra a observaram como se só agora ela se lembrasse de onde estava.

— Ah. Nada. Não se preocupe. Olá. Esqueci que nem conheço você. Eu... costumo exagerar. Muito. Nem espingarda eu tenho.

— Pode comprar uma no Walmart — sugeriu Gabi. — Passe no meu cartão se quiser. Vou usar meu coma como álibi.

Pietro concentrou-se em comer suas panquecas, embora estivesse começando a se sentir esquisito. O que havia de errado com aquelas pessoas? Todo mundo ali era doido de pedra?

Ao seu lado, Blue parecia tenso, partindo uma tira de bacon em pedaços. As pontas de seus dedos brilhavam com a gordura.

— Estou começando a achar que foi um erro apresentar você para a galera toda — disse ele.

Alan continuava dando em cima de Kayra, que continuava brigando com ele, insistindo no fato de que fadas não transformavam pessoas boas em monstros, só expunham as monstruosidades que as próprias pessoas já tinham dentro de si; e Frederick dava o melhor de si para bancar o reconciliador, ou professor de etiqueta de 1850, ou fosse lá o que estivesse fazendo.

Harry observava o grupo lá de fora, recostado na janela fumando um cigarro. Gabi examinava uma tortinha de maçã com um largo sorriso masoquista no rosto.

— Não é de se adimirar que você seja tão esquisito — disse Pietro por fim.

— Ah, é, aprendi com essa gente — disse Blue, com um sorriso débil.

— Eu quero que você saiba... — falou Pietro — ... que sejam quais forem as suas intenções, e mesmo que você ache que são boas, eu não viajei até esta cidade para ser levado de um lugar para o outro com pessoas loucas bancando minhas babás. Tenho assuntos a resolver aqui, e é o que pretendo fazer.

— Tudo bem, é só ficar longe do cassino.

— Não.

Blue então virou o corpo todo para Pietro e o agarrou com força pelo pulso, como se estivesse tentando intimidá-lo. Pietro jogou nele sua faquinha toda melada de mel e, se contorcendo, conseguiu se soltar. Causando uma cena, é claro. Às vezes é necessário.

Em um pulo, ele ficou de pé.

— Não me diga o que fazer. E não me trate com grosseria a menos que queira ser desmembrado. É o meu último aviso.

— Dá para falar baixo? — reclamou Blue, baixinho.

— Não, não dá — retrucou Pietro, gritando ainda mais, de propósito.

Havia uma mancha de mel do tamanho e forma exatos de um talho no peito de Blue. As pessoas olhavam para ele, mas ninguém parecia tão surpreso com o surto de Pietro, o que era bem estranho, e na verdade ele não estava nem aí se eles estavam ou não surpresos. A raiva se associava ao açúcar em seu sangue, o que o deixava nauseado.

Ele só queria ir embora. Então, pegou sua bolsa e, pela segunda vez em dois dias, saiu em fúria.

— Sempre popular com as pessoas, Blue — disse Gabi.

Pietro ouviu uma cadeira ser empurrada para trás, como se alguém estivesse prestes a ir atrás dele, depois ouviu a voz de Blue:

— Esqueça, Frederick.

— Mas ele está chateado — falou Frederick.

— Ele não é mais nenhum bebê. Deixe que brinque com fogo se quiser.

E então Pietro saiu, a porta oscilando e se fechando atrás dele, finalmente silenciando aquele bando de malucos; e lá foi ele pelo estacionamento quente, seus chinelos fazendo um barulho de sucção como se estivessem quase derretendo no asfalto fumegante.

Harry ergueu o olhar quando o viu se aproximando.

— Quer uma carona? — ofereceu, mas ele não parecia muito entusiasmado com a ideia de levá-lo a lugar algum.

— Não. Mas obrigada. Divirta-se com os doidos.

Ele deu uma bufada de desdém.

— Eu não chamaria isso de diversão.

— Eu estava sendo sarcástico.

Harry assentiu, levando o cigarro à boca, e ele seguiu seu caminho em direção ao Dream.

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Pietro parou em um dos banheiros reluzentes do Dream, se trocou — vestiu roupas amarrotadas, mas normais —, depois buscou dentro da bolsa um creme para pentear e passou um pouco no cabelo. Ainda parecia sujo e desarrumado, mas ao menos não estava mais de pijama e seu cabelo estava um pouco apresentável. Saindo dali, foi até a recepção e pediu para falar com Dereck Valentine. Seu coração batia alucinadamente. Ele chegou a se perguntar se a mulher da recepção conseguia notar isso.

Quando Dereck apareceu, ele parecia ainda mais bonito. Seus olhos estavam mais brilhantes, seu sorriso lhe vinha mais rápido ao rosto.

— Olá, Pietro — disse ele.

Pietro imediatamente desandou a falar:

— Não sei se agora é um bom momento. Se não for, não tem problema. Eu teria esperado você me ligar, mas seu irmão invadiu meu quarto hoje de manhã e me fez sair daqui, e eu... achei que você deveria saber disso.

— Espere... pode repetir? Blue invadiu o seu quarto?

— Um dos amigos dele derrubou a porta e eles me levaram embora daqui à força.

— Não posso acreditar que ninguém tenha me falado nada a respeito disso — murmurou Dereck. — Só um minuto.

Dereck pegou o celular e afastou-se um pouco de Pietro para fazer uma ligação. Ele não conseguia ouvir muita coisa do que ele dizia, o saguão estava tumultuado àquela hora do dia, mas via, pelas expressões no seu rosto, que ele estava gritando com alguém. Quando voltou, no entanto, já não havia mais qualquer sinal de indignação em seu semblante.

— Tudo resolvido. Não vai acontecer de novo.

— Obrigada — disse Pietro, arrastando um dos chinelos no chão distraidamente.

De repente Pietro se sentiu tímido. Não estava acostumado com pessoas ficando com raiva por sua causa — mas meio que gostou. Fazia-o sentir que Dereck se importava com ele.

Dereck passou os dedos pelo cabelo e inclinou a cabeça, olhando para ele.

— Preciso sair um pouco daqui. Quer ir começar a sua busca hoje? Sou todo seu, se você me quiser.

Pietro apenas assentiu, não confiando em si mesmo para falar algo.

O ponto de partida foi o maior cemitério de Cross River, de onde seguiram até o mais pitoresco. Por fim, o calor intenso forçou os dois a entrar em algum lugar, em um restaurante vietnamita quase vazio, onde se sentaram a uma mesa preta bamba. Passaram duas horas ali, tomando café gelado e rolinhos, além de pratos cujos nomes Pietro nem conseguia pronunciar, a cafeína e a atenção exclusiva de Dereck o deixando eufórico.

Dereck tinha trocado de roupa antes de eles saírem do Dream. Sem o terno — agora de calça jeans e uma camiseta branca lisa —, ele parecia uma outra pessoa. Não ficava intimidante vagando em meio a túmulos sob o calor, tão suado e sujo quanto Pietro. Ele tinha levado um par de óculos de sol, o que era injusto, já que a forte luz branca do sol o obrigava a apertar os olhos para conseguir enxergar; e no restaurante ele afanou os óculos de Dereck e os experimentou, apoiando o queixo nas mãos e o desafiando a recuperar seus óculos, com sua melhor expressão de diva impassível.

Dereck ergueu uma sobrancelha.

— Não vou brigar com você pelos óculos. São os mais baratos que eu tenho.

Ele torceu o nariz para Dereck, encarnando Myrna Loy em A ceia dos acusados.

Ele riu.

Pietro tinha bebido tanto café gelado e olhado para ele tanto tempo que seu sangue zunia. Seu coração não cansava de bater acelerado.

No carro — preto, com janelas cobertas por insulfilm —, Dereck colocou jazz para tocar. Pietro conhecia algumas das músicas graças às aulas de dança, e Dereck admitiu que o jazz era influência de sua mãe. Uma das únicas coisas típicas dela que absorvera para si.

— Ela só ouvia esse tipo de música quando eu era criança — contou ele. — Pegava um quebra-cabeça ou alguma outra coisa para eu brincar, botava um disco para tocar e se arrumava como se fosse sair, só para ficar dançando no quarto durante uma hora. A música era uma fuga para ela, eu acho... uma forma de fugir de mim, do meu pai. Não que ele passasse muito tempo com a gente na época em que ela ainda não tinha ido embora.

Pietro lhe perguntou sobre seu pai — como ele era? —, mas Dereck parecia relutante em entrar nesse assunto, então ele não insistiu.

Passaram por casas antigas maravilhosas, edifícios inabitados e em frágeis condições, faixas de areia branca e reluzente. Pietro comentou que seu aniversário estava chegando, e que a data o fizera sentir que estava na hora de parar de apenas sonhar e finalmente fazer alguma coisa.

Depois, contou que tinha ficado muito nervoso por medo de ter cometido um erro... mas que agora estava grato por poder contar com a ajuda dele.

Terminaram o dia em um velho e triste cemitério perto do mar. A maior parte das lápides estava rachada e os mausoléus tinham desabado, mas ainda dava para ler as inscrições. Na verdade, Pietro ficou foi aliviado por não encontrar o túmulo dos pais naquele lugar tão decadente.

Estavam sentados lado a lado em um banco de pedra, à sombra de uma árvore florida, um musgo espanhol (ou barba-de-velho, como também é conhecido), quando Pietro pegou a fotografia que havia trazido consigo. Aquela que ficava ao lado de sua cama em casa, para a qual ele sussurrava boa noite antes de dormir.

Ele pegou a foto pelas beiradas, para que seus dedos suados não a manchassem.

— Estes eram meus pais — disse ele. — Se quiser ver...

— Claro que quero.

Pietro lhe passou a fotografia. Era um retrato tirado no dia do casamento dos dois. Sua mãe usava um vestido antigo com gola rendada que lhe subia pela garganta. Seu pai estava elegante em um smoking preto, o braço em torno da noiva, exibindo o porte nobre de um oficial do Exército, ou de um cavaleiro. Ambos eram muito bonitos. E pareciam muito felizes.

— Ariel e Piers — disse Dereck, repetindo os nomes que ele lhe dissera. — Um belo casal.

— Eles eram um casal perfeito. Quer dizer, imagino que fossem. Quando imagino como deviam ser. — Pietro baixou bastante a cabeça, envergonhado. — Eu... invento histórias sobre eles. É esquisito, eu sei.

— Não é tão esquisito assim. Eu penso no passado às vezes... em como eu gostaria que tivesse sido diferente. Tem coisas que eu daria quase tudo para mudar.

— O quê, por exemplo?

Dereck colocou a foto no colo dele e ergueu os óculos de sol do nariz de Pietro.

— Levar você de carro por aí não é suficiente? Você precisa saber dos meus segredos também?

Pietro riu.

— É claro.

Dereck ergueu os olhos para o céu, agora com ar sério. Folhas farfalhavam no alto da árvores, lançando sombras indistintas que dançavam pelo rosto dele.

— Como posso dizer isso? Muitas vezes... penso que conheço determinada pessoa, que posso confiar nela. Mas então descubro que estou enganado... e minha vontade é nunca ter conhecido aquela pessoa.

Pietro prestava bastante atenção. Sentia como se Dereck estivesse lhe mostrando algo que ele relutava em exibir, e queria ser merecedor dessa honra.

— Já me machuquei muito — continuou ele. — E isso ... depois de um tempo, faz com que a gente se sinta um idiota. Fico me dizendo...

O maxilar dele enrijeceu e ele parou de falar, como se estivesse decidindo se devia ou não continuar.

— O quê? — perguntou Pietro gentilmente.

Ele suspirou, limpou o suor da testa e desviou o olhar de relance para o oceano.

— Fico me dizendo que o amor não é para nos destruir. Porque não quero acreditar que seja assim. Que tenha de ser assim. Mas todos os relacionamentos que já tive terminaram em desastre. Então, a sensação que tenho é de que... de que o amor destrói. Só isso: só destrói.

Pietro ficou se perguntando que tipo de traição ele sofrera; o que uma garota (ou até mesmo um garoto, ou vários dos dois) tinha feito para partir seu coração daquela forma. E disse a si mesmo que ele nunca o machucaria assim.

Não que teria a oportunidade de fazer isso.

Dereck se levantou, encerrando a conversa.

— Desculpe, Pietro... Não queria descarregar isso em cima de você desse jeito.

Ele foi até a ponta do cemitério e ficou lá parado de pé, em meio a pedaços de anjos quebrados, o olhar fixo na água. Havia uma rachadura nele, na pessoa que ele desejava ser, e Pietro conhecia essa rachadura, porque também a tinha.

Pietro se pôs de pé rapidamente, a foto saindo voando de seu colo, esquecida. Foi na ponta dos pés até Dereck, como se executasse uma dança com movimentos muito precisos, e tocou nas costas dele. De leve, só para que ele soubesse que ele estava ali.

— Não vai ser assim sempre — disse Pietro, tentando não soar tão ingênuo.

Pietro sabia que era um garoto em quem Dereck poderia confiar. Se ele quisesse...

A água reluzia como vidro, como se a luz do sol a partisse em lascas reluzentes. O calor infindável, a umidade e os perfumes fortes do verão tornavam Pietro ciente do físico, de todos os sentidos... e enfraqueciam a sedução de seu sonhar acordado.

Ele tinha vontade de abraçá-lo, colar seu rosto nas costas dele e apertá-lo, mas não conseguiria dar aquele salto. Não sem algum sinal de que ele queria aquilo. Seria humilhante demais se ele o afastasse.

Dereck ficou calado por tanto tempo que Pietro achou que ele nem fosse responder. Mas então ele se virou, e os braços dele deslizaram em volta dele antes mesmo que pudesse pensar nisso... e, de repente, Dereck também o estava abraçando, com muita naturalidade, olhando para ele como se estivesse tentando ver quem realmente Pietro era. Um dos cantos de sua boca se ergueu, tão brevemente que mal poderia ser considerado um sorriso, mas naquele momento foi tudo.

— Veremos — disse ele.

Dereck o deixou no Dream, disse-lhe para pedir o jantar para o quarto dele e lhe deu uma chave da suíte. Tinha que voltar ao trabalho, mas prometeu que mais tarde arrumaria um novo quarto para ele — com uma porta intacta, onde Blue não fosse incomodá-lo. Até lá, ele poderia ficar na suíte dele.

Agora Pietro estava deitado na cama de Dereck, folheando uma velha antologia de contos de fadas que encontrara na estante dele e sonhando acordado — recordando os braços dele o envolvendo — enquanto partia o gigantesco cookie de chocolate que surrupiara do bufê.

O livro de contos de fadas estava caindo aos pedaços. A capa meio solta ficava balançando sempre que ele a abria, o sumário estava faltando, páginas de histórias inteiras tinham caído e se perdido. Com uma rápida folheada, porém, Pietro viu que continha praticamente todos os contos mais famosos, além de muitos outros que para ele eram novos.

“Cinderela”. “Os sapatinhos vermelhos”. “A Bela e a Fera”. “O junípero”.

Pietro já tinha visto quase todos os filmes da Disney e se lembrava vagamente de ter tido um ou dois livros ilustrados dos irmãos Grimm quando criança, mas contos de fadas nunca fizeram muita parte de sua infância. Elza e Belle o fizeram se interessar por romances clássicos desde bem novo, então ele se sentia naturalmente atraído por esse tipo de literatura, autores como Frances Hodgson Burnett, Louisa May Alcott e Laura Ingalls Wilder. Tinha apenas lembranças difusas de crianças subindo um gigantesco pé de feijão, irmãos encontrando uma casa feita de doces no meio da floresta, sapatinhos de cristal e personagens sofrendo transformações em meio a muito brilho.

Ele pegara aquele livro porque parecia estranho que Dereck tivesse uma antologia de contos de fadas em meio a tantos volumes sobre negócios, mas, quanto mais o lia, mais se sentia absorvido pelos contos.

Em “O junípero”, um garoto que havia sido decapitado pela madrasta ressurgia dos mortos para assassiná-la. A irmã postiça de Cinderela decepava o próprio dedão em uma desesperada tentativa de fazer com que seu pé coubesse no sapato pequeno demais, para enganar o príncipe. E “A pequena sereia” era um conto pura e simplesmente trágico: todos os passos que a sereia dava na terra eram agonizantes, como se seus pés estivessem sendo cortados por facas; e, no final, a pobre garota não conseguia fazer com que o príncipe a amasse, deparando-se com a escolha entre matá-lo na noite do casamento ou se dissolver nas espumas do oceano, sem alma e morta.

Amor e morte. Morte, amor e transformação. Pietro ficou horas lendo o livro, arrebatado. Passava um minuto da meia-noite quando a porta se abriu sem muito ruído. Pietro ouviu alguém se movendo pela antessala da suíte sem a menor discrição e então ouviu, em um murmúrio:

— Idiota. Cadê você?

Então não era nenhuma faxineira. Nem Dereck.

Era Blue.

Pietro soltou um suspiro e saiu da cama para confrontá-lo.

Eles quase colidiram um contra o outro na entrada do quarto.

— Garoto imbecil — disse ele, seu lábio se retorcendo.

— Sentiu minha falta?

Ele nem tentou se afastar. Continuou ali, tão perto, que Pietro podia sentir o calor irradiando do corpo dele. Blue havia trocado de roupa desde a última vez que o vira, aquela manhã; vestia agora uma camiseta roxa com a estampa anatomicamente correta de um coração no peito.

— Pelo menos você não está pelado — disse ele.

— Porque, se eu estivesse, você desmaiaria com o esplendor da minha nudez.

— Não. Não é por isso. Cadê o Dereck? Levei uma bronca no telefone por sua causa. Ele deve gostar de você. Por todos os motivos errados.

Pietro revirou os olhos.

— Talvez ele não aprove o seu mau comportamento. Sabe... invadir o meu quarto, me atacar, me sequestrar... Nem passou pela sua cabeça essa possibilidade?

— Eu conheço meu irmão melhor do que você. Mau comportamento é a especialidade dele.

Pietro esperou por um instante, empertigado, encarando Blue enquanto ele o encarava de volta. Por fim ele relaxou, deixando de cerrar os dentes, e disse:

— Bem, Dereck não está aqui. Tchau.

Mas Blue não saiu do lugar. Apoiou as mãos uma em cada lado do vão da porta, os músculos de seus braços se tensionando.

— Quer dizer que você caiu igualzinho a todos os outros? Acha que é especial, aquele que vai conseguir segurá-lo? Que as regras não se aplicam a você?

— Que regras?

— Tudo que você precisa saber é que tem de ficar longe dele — disse Blue, inclinando-se para frente com agressividade. — Essa é a sua regra. Fique. Longe. Dele.

Pietro recuou de um salto — mas depois ficou irritado por não ter se mantido firme. Blue aproveitou para na mesma hora entrar no quarto, seus olhos se voltando para a cama.

— Lendo contos de fadas, que meigo. O Dereck é o seu príncipe encantado? Ele já te deu flores?

— Não interessa. Por que não vai encontrar outra pessoa para perturbar?

— Você não é uma vítima minha, Pietro. Se fosse, você saberia.

Ele sentou na cama, descansando uma das pernas, em sua calça jeans surrada, sobre a colcha.

— Cinderela — falou em um murmúrio. — Gostou da parte em que o sapato fica cheio do sangue da irmã postiça dela? O príncipe acha que encontrou a garota misteriosa do baile, mas então um passarinho vem e lhe diz para dar uma olhada na trilha de sangue: ele está carregando uma impostora no cavalo. É bem doentio.

— Igualzinho a você.

— Isso mesmo. — Seus olhos encontraram os dele, e Pietro notou algo muito sério nas profundezas daquele olhar. — Igualzinho a mim. Igualzinho ao meu irmão.

A forma como ele disse isso o fez sentir calafrios. De repente ele não se sentia bem em estar sozinho com ele.

— É melhor você ir embora.

— Ah, você acha? Que pena. Preciso conversar com o Dereck. E, ao contrário de você, eu moro aqui.

Ele voltou a folhear o livro, ignorando-o. Depois comeu o que tinha sobrado do cookie. Irritado, Pietro se retirou para a antessala e ligou a TV. Teve dois minutos de paz antes de Blue se jogar ao seu lado.

— E então, que tipo de coisa ele diz a você? Estou curioso.

— O Dereck não está dando em cima de mim — disse Pietro, entre dentes. — Ele está me ajudando a encontrar os meus pais. Mesmo ocupado ele conseguiu um tempo para me ajudar com uma coisa que é importante para mim. Que crime!

— Encontrar seus pais? — Ele assoviou baixinho. — Então você é um garotinho perdido!

Ele girou o corpo para encará-lo, os punhos cerrados, pronta para dar um soco no coração anatomicamente correto da camiseta dele.

— Você está realmente me irritando. Eu sei que faz parte da sua estratégia, mas vou logo avisando: pare já com isso ou vou perder o controle e acabar machucando você.

Ele abriu um sorriso.

— Viu? É por isso que não entendo você. Tão irritadiço e intocável quando está comigo... por que não consegue ficar assim o tempo todo?

— Isso pode ser divertido para você, mas eu não gosto de sentir raiva o tempo todo.

Suas unhas estavam cravadas na palma das mãos com tamanha força que doía.

Ele relaxou as mãos e se levantou do sofá. Precisava ficar longe de Blue antes que quebrasse alguma coisa na cabeça dele, mas o garoto o agarrou pela bainha da camiseta e o puxou de volta para baixo.

— Espere — disse ele.

— Que foi? — perguntou ele, irritado, ficando onde estava, já que ele ainda o segurava com firmeza pela camiseta.

Blue sorriu. Ele tinha um daqueles sorrisos tão charmosos e devastadores que chegava a dar raiva. Era como se ele estivesse jogando sujo.

— Não vá embora. Vamos, me diga uma coisa.

— Dizer o quê? — respondeu ele, duramente.

— Diga o que faria se eu fosse legal com você.

— Eu não o mataria. — Pietro nem teve que pensar na resposta.

Ele riu.

— Quantas pessoas você já matou?

— Quinhentas. — Ele revirou os olhos. — E quantas pessoas você já matou?

Blue o soltou, ergueu-se e foi até o canto onde ficava o frigobar. Abriu uma das garrafinhas transparentes e engoliu o líquido antes de responder — em uma voz que soava como se ele estivesse engasgado:

— Uma.

Ele a beijou como um homem possuído.

Era o tipo de beijo em que você se entrega completamente. Tudo desapareceu, menos o som da respiração dela. O cheiro de seu cabelo vermelho: maracujá e framboesas. Ele ergueu as mãos para afastar as mechas do rosto dela; queria olhar para ela. Era um primeiro beijo. Um beijo perfeito — ela disse isso a ele, e ele ficou enrubescido de prazer.

Bêbado de prazer.

Beijou-a mais uma vez. Com mais intensidade. Puxou-a mais para perto de si.

Ele ouviu seus amigos se apresentando na outra sala: Ester cantando, Frederick afinando a guitarra.

Feliz aniversário. Parabéns pra você. Parabéns...

E então, o ofegar mais estranho. Olhos se revirando, expondo a parte branca. No coração dele, terror. No dela, silêncio.... pra você.

Blue o deixou em paz depois disso. Preparou um drinque para si e não falou com ele, nem mesmo para perturbá-lo. Ficou estatelado no sofá vendo filmes da ampla coleção de Dereck enquanto Pietro tomava um banho de banheira, com a porta trancada. Pietro tinha achado que se sentiria melhor se Blue não falasse com ele, mas na verdade era ainda mais perturbador: não estava acostumado a vê-lo calado.

Mas ele estava inebriado. O que poderia ser algo muito ruim... ou talvez pudesse fazê-lo baixar a guarda e responder a algumas das suas perguntas.

Pietro se sentou na cadeira em frente a ele. Blue tinha deslizado para baixo, estava quase caindo do sofá, segurando um copo alto. Ele nem sabia o que tinha dentro do copo. Gasolina, a julgar pelo cheiro.

— Ei, seu perturbado — chamou Pietro.

— Oi.

Os olhos dele estavam grudados na tela da TV. Era um filme de guerra antigo; parecia vagamente familiar.

— Então, me diga uma coisa: por que seus amigos são tão esquisitos?

— O Frederick não é esquisito.

— Hum, os passarinhos voam até ele como se ele fosse feito de açúcar.

— Então os pássaros é que são esquisitos.

Ele apertou os lábios, frustrado por um instante.

— É porque eles são amaldiçoados?

— Os pássaros?

Blue tomou um ruidoso gole da bebida em seu copo; pela careta que fez, parecia que na verdade ele estava bebendo gasolina.

— Não, os seus amigos — disse Pietro.

— Provavelmente. Isso cria muito drama. Sturm und Drang. Porcarias assim.

— Eu não falo alemão.

— Nem eu. Só uma ou outra expressão. Como Märchen.

— O quê?

— Märchen — repetiu ele, com uma fala lenta e preguiçosa. — O sabor da cidade, Fräulein.

Pietro resistiu à intensa vontade de pegar a bebida e jogar nele. Mas voltar a ser um garoto insolente agora não lhe daria as respostas que ele desejava.

— Que tipo de maldição é essa?

— Antiga. Existe outro tipo?

— Bem... existe a maldição que faz com que eu sempre me depare com você. Essa é nova.

— Ha.

Blue sorriu. Ele estava começando a fechar os olhos; se era por sono ou melancolia, Pietro não saberia dizer. Estava prestes a fazer mais uma tentativa quando ouviu o zumbido de uma trava eletrônica sendo acionada. Não demorou muito e a porta da suíte se abriu com um clique.

— Oi, Pietro. — Dereck tirou a jaqueta enquanto entrava, e franziu o cenho quando viu o irmão.

— Eu esqueci de falar para você chamar os seguranças quando ele aparecesse.

— Só um aviso: ele está bêbado feito um gambá — disse ele.

Dereck foi para trás do sofá, tirou o copo alto da mão de Blue e se inclinou sobre o irmão.

— O que você está fazendo aqui? Falei para você ficar longe dele.

— E eu falei para você ir à merda — retrucou Blue.

— Você é bem esperto de não me dizer isso quando está sóbrio. Levanta!

Pegando o sofá por trás, Dereck o ergueu para lançar o irmão ao chão. Blue caiu rolando, mas, inabalável, se ajeitou de novo em frente à TV, no chão dessa vez.

— Depois — disse Blue. — Estou vendo Apocalypse Now.

Dereck ficou lá de pé por um instante, os dedos afundados na parte de trás do sofá.

— Tudo bem. Não estou no clima para entrar nessa com você agora. Pietro... podemos conversar um instantinho?

— Claro — murmurou ele, e o acompanhou até o quarto.

Era estranho ver os dois irmãos interagindo, a tensão óbvia entre eles. Será que algum dia eles tinham se gostado? , ele se perguntou. Da TV, atrás dele, vinha o famoso discurso de Marlon Brando sobre “o horror”. “Eu vi os horrores... Horrores que você viu...” Depois ele ouviu o ruído do atrito do couro, quando Blue voltou para o sofá — e então Dereck fechou a porta.

Dereck trazia consigo o cheiro do cassino: o miasma da fumaça de cigarro da área de jogos havia penetrado em suas roupas, além de deixar seus olhos levemente vermelhos. Dereck os esfregou, aparentemente irritado, mas tentando se controlar.

— Espero que ele não tenha te incomodado muito. Ele sabe que deve ficar longe de você, mas o Blue não gosta de seguir ordens. E eu não gosto de brigar com ele quando está bêbado.

— Está tudo bem. De verdade. Ele é chato, mas não fez nada.

Pietro se sentou na cama. Depois de um instante, ele fez o mesmo. O livro de contos de fadas estava aberto entre os dois.

— Você queria conversar comigo — arriscou Pietro. — Descobriu alguma coisa?

Ele balançou a cabeça em negativa.

— Ainda não, mas estava pensando em você hoje à noite e fiquei me perguntando: por que as suas madrinhas nunca lhe disseram onde seus pais foram enterrados? O que elas não queriam que você encontrasse?

Pietro ficou calado, sem saber o que responder. A possibilidade de que Belle e Elza tivessem ocultado algo dele, algum segredo sobre seus pais, nunca lhe havia passado pela cabeça.

— Não sei. Talvez achassem que não fazia diferença.

— Você não perguntou isso antes de vir para cá?

— Eu não queria que elas soubessem aonde eu estava indo. Elas teriam me impedido. Minhas madrinhas eram violentamente contra a ideia de algum dia eu vir aqui.

— Por quê? O que há de tão perigoso em Cross River?

— “Lembranças” que eu não tenho — foi a resposta dele, com um dar de ombros. — Elas tinham medo de que fosse traumático para mim.

— Isso me cheira a desculpa. E não das boas. — Ele ergueu o olhar, voltando a fitá-lo. — Não acredito em coincidências, Pietro. Acho que você teve que viajar até aqui sozinho por algum motivo. Alguma coisa que você devesse encontrar.

Talvez fosse você, pensou ele, e então quis desesperadamente desfazer tal pensamento. Não queria ir com sede demais ao pote ou parecer imatura. Não queria gostar dele mais do que ele gostava de si.

— Vamos descobrir o que é. — Ele colocou a mão sobre o livro de contos de fadas, parecendo só então notar que estava ali. — Você estava lendo isso?

Pietro assentiu.

— Engraçado encontrar um livro desses na sua estante. Eu não tinha muito costume de ler contos de fadas quando era criança. Achava muito... sei lá, bobos? Mas vi que são diferentes do que eu imaginava. Mais sombrios. Acho que “A pequena sereia” é o meu predileto até agora.

— Você gosta de finais tristes? — ele perguntou.

— Talvez.

Pietro engoliu em seco. Ele não tinha pensado nisso antes, mas talvez fosse verdade. Não tinha sido o romance o que o cativara na história, e sim o anseio, o desespero, o nobre sacrifício da sereia. Isso era o que alcançara seu coração e o fizera sentir de uma forma que os finais felizes não faziam.

Porque se amamos alguém, e continuamos amando mesmo que esse amor não seja retribuído, então só pode ser um amor verdadeiro. Dói demais para ser qualquer outra coisa.

— Finais tristes são tudo que eu conheço — disse ele.

Dereck franziu a testa.

— Ainda não acabou Pietro. Vamos encontrar seus pais. Mal começamos. — Ele pegou o rosto dele e virou-o em sua direção. As pontas de seus dedos a fizeram sentir um misto de queimação e arrepios pelo corpo, e Pietro se pegou encarando Dereck um pouquinho além da conta. — Você não vai desistir de mim, vai?

Pietro balançou a cabeça em negativa, não confiando na própria voz; e, quando seu rosto começou a arder ainda mais sob a mão dele, ele se afastou, antes que pudesse fazer algo embaraçoso como fechar os olhos e suspirar, ou se aninhar contra ele como um gato.

— E quanto a você? — Pietro perguntou, para mudar de assunto. — Qual é o seu conto de fadas predileto?

Fazendo uma careta, Dereck se estirou na cama.

— Na verdade, eu não gosto de contos de fadas.

— Mas... mas e esse livro?

Um livro que não combinava com o resto das coisas dele. Por que ele o manteria ali se não era algo de que gostava?

— É um livro que está na família já faz um tempinho — explicou ele. — Meu pai ficaria chateado se eu o jogasse fora. E antigamente eu até que gostava, sim, de contos de fadas. Mas acho que a novidade das histórias já se perdeu. Cansei de ler sobre tortura e desmembramento e... finais felizes que são concedidos de forma aleatória, a pessoas que não merecem.

— Diga a verdade — brincou Pietro.

Dereck abriu um leve sorriso.

— Não são todos ruins. O da Bela Adormecida é mais ou menos legal. Ela cai em um sono de cem anos e não vai mais trabalhar. Eu ia querer fazer isso. E é acordada com um beijo. É um tipo bom de transformação.

Dereck deitou de costas, com os olhos fechados, a boca relaxada. Pietro corou com a posição dele, pensando como seria fácil se inclinar sobre ele e beijá-lo. Seria uma indireta? Mas... não, ele não podia fazer aquilo. Morreria de vergonha se o beijasse e ele abrisse os olhos e dissesse “O que você está fazendo?”.

— Algumas maldições são feitas para serem quebradas — disse Dereck. — E outras simplesmente prosseguem até que sua vida se esgote.

— Maldições?

Pietro começou a ficar ofegante. Não existiam coincidências — era o que ele tinha dito. Ele era sua resposta, a verdade que tentara arrancar de Blue.

— Maldições & Beijos. Curses & Kisses... É o nome da banda do Blue — disse Dereck.

— Ah. — As esperanças de Pietro diminuíram tão rápido quando tinham crescido. — Aquilo era... você estava citando a letra de uma música?

— Só falando. Cansaço, eu acho. Tenho que me levantar e arrumar outro quarto para você.

Dereck se ergueu com esforço, e Pietro disse, sem pensar:

— Ou eu poderia ficar aqui.

O coração dele pareceu martelar vinte vezes — batendo assim: imbecil imbecil imbecil imbecil — antes de ele finalmente dizer:

— Você quer ficar aqui?

Ele o olhou de um jeito estranho. Agradavelmente surpreso? Ele queria que Pietro ficasse? Pietro queria que Dereck quisesse que ele ficasse?

O olhar dele o estava deixando zonzo.

— Tudo bem — respondeu Dereck enfim, mas sua expressão era indecifrável. — Só preciso chutar meu irmão para fora daqui.

Dereck saiu e fechou a porta do quarto. Pietro se empoleirou na beirada da cama, as pernas sobre o colchão, se perguntando o que deveria esperar que acontecesse, o que queria que acontecesse. Parte dele sabia que estava querendo encrenca se ficasse. O restante desejava saber como era a encrenca.

Alguns minutos se passaram, durante os quais ele ouviu os irmãos discutindo em vozes baixas porém raivosas, mas não conseguiu discernir as palavras. Algo feito de vidro se partiu, estilhaçou-se. Ele ouviu um baque contra a parede e se encolheu. Então a voz de Blue surgiu pela porta, tão perto que era como se tivesse a mão dele em seu ombro.

— Pietro, não fique aqui.

Ele não respondeu.

— Pietro...

Depois de mais um instante, ele ouviu os xingamentos de Blue. Ouviu a porta do corredor ser batida com força. E então ele e Dereck estavam a sós.

Dereck surgiu do banheiro em meio a uma névoa de vapor. Estava com uma calça de pijama preta, o cabelo molhado, uma toalha jogada sobre os ombros. Era a primeira vez que Pietro via o corpo dele, as linhas de músculos definidos que as roupas apenas sugeriam. Pietro o contemplava como se ele fosse um quadro, imaginando como seria tocá-lo — e desejando que ele próprio estivesse vestindo nada além de uma cueca box sexy em vez de um pijama que parecia roupa de ginástica.

Dereck descobriu a cama, deixando a colcha cair no chão. Pietro esperava ao lado dele, sem graça, em seu conjunto de short e camiseta.

— Eu posso dormir no sofá — sugeriu Pietro. — Se você quiser.

Ele olhou para Pie como se não estivesse levando a sério o que acabara de ouvir.

— Você quer mesmo dormir no sofá?

— Não — admitiu Pietro.

Pietro hesitou... e então subiu na cama.

O problema era que ele não sabia o que queria e continuaria sem saber até que fosse tarde demais. Talvez fosse esse o motivo para que ele tivesse ido sozinho até Cross River. Talvez tivesse que descobrir algo sobre si mesmo. Crescer. Acordar. Quando estava com Dereck, Pietro não se perdia em devaneios. Desejava que as coisas fossem reais.

A luz foi apagada com um clique. Ele podia sentir o colchão afundando sob o peso dele, os lençóis sendo repuxados conforme ele se aproximava. Quando ergueu a mão para sentir onde ele estava, deparou-se com o peito nu dele. Deslizou os dedos por aqueles músculos, desfrutando a sensação de tocá-los antes que ficasse constrangido e parasse. Ele estava se inclinando sobre Pietro, o calor de seu corpo aquecendo o ar entre os dois.

— Oi — disse ele, um sorriso se insinuando em sua voz.

A mão de Pietro ficou paralisada sobre o peito dele. Pietro nunca se sentira tão tenso antes.

— Não fique nervoso.

— Não estou nervoso — mentiu.

Se ao menos ele fizesse um movimento, Pietro poderia rejeitá-lo ou aceitá-lo — e assim parar de esperar que algo acontecesse e de imaginar o quê. Ele colocou a mão no quadril de Pietro, um gesto íntimo, mas ele se esquivou, nervoso; afinal, o que mais poderia ser natural para ele mas ao mesmo tempo monumental para si?

— Dereck, por que seu irmão te odeia tanto?

Ele pareceu achar graça naquilo.

— O Blue disse isso?

— Não exatamente. Ele só... ele diz um monte de coisas ruins sobre você. Que eu deveria ficar longe de você, por exemplo.

— Mas é claro. Eu faria o mesmo se achasse que você estava interessado nele. Mas você já deve estar acostumado a ter vários caras brigando por você.

— Brigando? — Pie riu. — Hum, não. Isso não costuma acontecer.

A mão dele parecia tão pesada sobre o seu quadril... ele mal conseguia prestar atenção em outra coisa. Ele acariciava sua pele, massageando seu quadril de um jeito quase casual e ainda assim nada casual.

— Eu não sabia que você gostava de mim assim — disse ele, sua voz soando baixa e íntima no escuro. — Estou meio que feliz com isso.

— Mesmo?

Dereck riu.

— Por que não estaria?

— Não sei. Ninguém nunca... gostou de mim dessa forma.

— Ou os caras que cresceram com você são cegos — disse ele —, ou suas madrinhas são carcereiras. Tudo bem: vou contar porque gostei de você. — Ele aproximou a cabeça da de Pietro. — Você é corajoso, Pietro. É bonito. E esperançoso, coisa que eu não sou. Você me faz sentir que as coisas podem ser diferentes...

A voz dele ficou mais terna e sumiu quando ele começou a beijar o canto da boca de Pietro, um beijo cálido e suave; sua mão deslizava pelas costelas dele, lentamente puxando a camiseta para cima. Pietro não sabia ao certo se...

A mão dele roçou de leve os seu membro, e a respiração de Pietro ficou presa na garganta. Dereck parou. Parecia estar ponderando se o ofegar dele significava sim ou não. O momento passou; ele alisou a camiseta dele no lugar, cobrindo-o novamente. Pietro queria fazer alguma coisa, mostrar a Dereck que era capaz de encarar aquilo naturalmente, mas... não conseguia. Seu corpo havia ficado rígido, apreensivo.

— Você quer só dormir? — perguntou ele gentilmente. Será que ele tinha ficado constrangido por sua causa? Por ele ter achado que conseguiria brincar no mundo dele, mas não conseguira?

Ele assentiu, mas depois se lembrou de que estavam no escuro.

— Tudo bem.

— Venha aqui — disse ele, beijando a ponta de sua orelha.

Ele o puxou de costas para si, de modo que seu peito pressionava as costas dele, seu hálito cálido contra o pescoço de Pietro. Ele o abraçou e ficou assim, sem falar nada, sem insistir.

— Boa noite — disse ele.

Pietro ficou deitado imóvel, até ouvir a respiração dele cair no ritmo suave e regular do sono.

Então tocou sua mão, disse seu nome, mas ele apenas o puxou mais para perto de si, em uma inconsciente possessividade, encaixando-o melhor junto a seu corpo.

Aos poucos o som da respiração de Dereck o acalmou. Já que não havia nada pelo que esperar, nada a decidir, sua respiração entrou em sincronia com a dele. Pietro se sentia seguro então, envolvido pelos braços de Dereck. Como se pertencesse a ele — mesmo que isso fosse apenas mais um de seus devaneios. Naquele exato momento, ele sentia como se fosse verdadeiro.

— Boa noite — sussurrou Pietro.