Encantado
5 Capítulo 5
PIETRO ACORDOU RELUTANTE, sua mente se desvencilhando de camadas e mais camadas de sono. Tinha uma lembrança distante da cálida pressão de uma mão em suas costas, de dedos subindo e descendo por sua coluna, acariciando-o. De um bom-dia sussurrado que parecia um sonho.
Estava deitado de bruços, a camiseta erguida até o meio das costas, os lençóis chutados para o chão. Quando sentiu o frio do ar-condicionado na pele, puxou a camiseta para baixo.
Não estava nu; à mostra, nada que alguém pudesse considerar obsceno. Mas era quase pior. Porque não tinha como saber se estava deitado daquele jeito havia muito tempo, e se Dereck tinha visto aquela marca feia em suas costas. Como se ele já não tivesse bastante coisa da qual se envergonhar. Agora, para piorar, ele o veria também como deformado. Um garoto imaturo com uma marca esquisita.
Saiu vagando pela suíte vazia, fazendo um enorme esforço para não chorar. A vergonha pela noite anterior lhe voltou como uma enxurrada. Por que aquela pressa para ficar com ele? Estava tudo arruinado agora. As cortinas na antessala estavam abertas ao máximo, deixando ver ao longe o oceano lá embaixo. O brilho da luz do sol fazia os olhos de Pietro doerem.
Sobre uma mesa perto do sofá havia um vaso de flores com um cartão branquíssimo, e uma bandeja de prata com uma tampa em forma de domo. Na bandeja ele encontrou o café da manhã: torrada francesa com morangos. E, ao abrir o cartão, encontrou uma mensagem de Dereck.
Oi, lindo,
Tentei me despedir de você hoje de manhã, mas foi impossível te acordar.
Vou trabalhar muito hoje, mas estarei livre mais tarde. Podemos ir de carro até alguns
cemitérios, se quiser... e depois ir jantar, que tal?
Não queria que você se sentisse preso, então deixei aí minha chave mestra. Meu lar é o
seu castelo, seja bem-vindo para explorá-lo, e mande a conta do que pedir para o meu
quarto. Só peço que fique longe do meu outro quarto (a suíte 3013). Tenho guardadas lá
algumas coisas pessoais nas quais não se deve mexer.
Até à noite,
Dereck
A chave-mestra estava sobre a mesa. Pietro passou os dedos pelo pequeno objeto, sentindo-se elétrico. Eles se encontrariam mais tarde. Os dois continuariam a busca; Dereck não sentia repulsa por sua marca. E, nesse ínterim, ele estava livre para explorar o lugar, ir fazer compras, o que quisesse. O lar dele era seu castelo.
Aquilo soava muito bem aos seus ouvidos.
Pietro passou a manhã explorando o hotel. Ficou vagando pelos compridos corredores de quartos, imaginando os dramas que se passavam por trás daquelas portas fechadas. Chegou a ir ao trigésimo andar, para conferir a vista lá de cima — mas nem chegou perto da suíte 3013.
Depois, desceu para a área do cassino. Ziguezagueou por entre as fileiras de máquinas caçaníqueis, na esperança de se deparar com Dereck, em seguida contornou bem rápido as mesas de jogos, procurando avistar uma cabeça de cabelo preto-azulado.
Nenhum sinal dele. Talvez estivesse em uma das salas VIPs, ou em seu escritório.
Ou talvez estivesse na suíte 3013. Mas ele não tinha a menor intenção de invadir o único lugar do qual fora avisado para ficar longe. Talvez fosse um teste; e, se fosse, ele passaria.
O último lugar por ele explorado foi o complexo de lojas. Ficou vendo joias e roupas de grife, roupas intimas caríssimas e até mesmo suvenires do Dream, como camisetas com glitter e brincos de varinhas mágicas. Embora Dereck lhe tivesse permitido colocar na conta dele qualquer coisa de que ele precisasse, Pietro não queria abusar da generosidade alheia. No fim das contas, comprou uma uma cueca vermelha de uma das lojas chamada Eric’s Klein, mas pagou com seu próprio dinheiro, não com o cartão do Dereck.
Ao sair da Eric’s Klein, ele parou para se orientar. O complexo de lojas do Dream era temático, assim como o restante do hotel: amplos corredores decorados de forma a parecerem trilhas no meio de uma floresta. As janelas das lojas apareciam por entre árvores, e vinhas e flores cresciam sobre tudo. Parte do cenário era uma trilha no chão ao estilo das “migalhas de pão” da história de João e Maria. Toda a área se chamava Trilha da Floresta, que, além de butiques, tinha também várias cafeterias, algumas das quais com assentos “ao ar livre”, “em pleno bosque”.
Sentado em uma dessas cafeterias estava Blue.
Estava de costas para Pietro, sentado a uma mesinha de metal “ao ar livre”, acompanhado de Frederick e uma garota morena com uma mecha cor-de-rosa se destacando no cabelo castanho.
Pietro não reconheceu a garota, que parecia um tanto feroz, mais ao estilo da personalidade de Blue do que da de Frederick. Ela vestia um short preto, botas pesadas e uma camiseta rasgada sobre uma regata branca.
Blue falava sem parar sobre alguma coisa. A Trilha da Floresta estava bem barulhenta, de modo que Pietro não conseguia ouvir o que ele dizia, mas não teria ficado surpreso se estivesse reclamando dele. Escondendo-se, Pietro ficou espionando-o durante um minuto, e provavelmente teria ficado mais tempo se Frederick não o tivesse avistado e acenado para que sentasse ali com eles. Dobrando sua sacola da Eric’s Klein para que não vissem o logotipo, Pietro pôs um sorriso no rosto e foi na direção deles.
Blue o olhou com um ar de perplexidade que logo deu lugar a fria indiferença.
— Você está vivo — disse ele.
— Geralmente estou.
Frederick se pôs de pé de um modo quase cortês.
— Pietro, que maravilha! Adoraríamos que você passasse o dia com a gente. Hum, por vontade própria, dessa vez.
— Uau, obrigada. Posso?
— É, passe o dia com a gente — disse Blue. — Assim é mais um dia de vida garantido.
Frederick franziu a testa.
— Blue, não faça isso.
— Não se preocupe, estou acostumado — disse Pietro.
A garota da mecha cor-de-rosa pousou seu copo na mesa para se juntar à conversa, pressionando um guardanapo contra a boca antes de dizer qualquer palavra. Seus olhos ficaram aquosos, e ela começou a tossir, como se estivesse se engasgando.
— Você está bem? Ela está bem? — perguntou Pietro, procurando a resposta no rosto deles. — Alguém aqui sabe fazer a manobra de Heimlich...?
A garota ergueu a mão, indicando que não precisava de ajuda, depois respirou e limpou a boca, agarrando o guardanapo com a mão fechada. Uma pétala de lavanda úmida ficou presa ao lábio dela.
— Estou bem.
— Ok — disse Pietro, ainda sentindo que deveria fazer alguma coisa. — Se você tem certeza...
— Acho que não nos conhecemos — disse a garota. — Meu nome é Ester. — A voz dela era rouca, bonita, ao estilo das cantoras de blues. Seu cabelo escuro estava puxado para trás em um rabo de cavalo, envolvido pela mecha cor-de-rosa torcida como uma fita. Uma tachinha de diamante reluzia em seu nariz, e em suas orelhas havia uma fileira de piercings de pedras preciosas: esmeralda, ametista, safira cor-de-rosa, ônix. — Sou a vocalista da Curses.
— Ah, sei. A banda — disse Pietro.
— Vamos tocar esse fim de semana — disse Frederick. — Você podia ir.
— Pode ser — disse Pietro. — Mas talvez eu tenha planos para o fim de semana.
— Talvez você não esteja aqui — disse Blue, e depois se voltou para Frederick, como se Pietro já tivesse ido embora. — Por isso não faz sentido convidá-lo para show nenhum.
— Vou estar aqui sim — disse Pietro.
— Em teoria — retorquiu Blue, não se dando ao trabalho de olhar para Pietro.
— Hã... enfim — prosseguiu Frederick, seu olhar contemplativo alternando-se, sem jeito, entre os dois —, adoraríamos que você saísse com a gente hoje. Ou que fosse ao show. Se tiver tempo.
— Não somos lá essas coisas. Quer dizer, nós somos — disse Ester —, mas Blue não. Ele meio que acaba com a nossa banda. Sem ele, seríamos ótimos.
— Seria charme demais para uma pessoa só se eu ainda por cima fosse um bom músico — disse Blue.
Pietro bufou.
— Acho que você não precisa se preocupar com isso.
— Mas não é esse todo o propósito de ser nosso baterista? — perguntou Frederick. — Ninguém nunca gosta do baterista. Você tem que ser ruim ainda por cima?
— Infelizmente, sim — foi a resposta de Blue.
Pietro ergueu as sobrancelhas.
— Vocês estão me dizendo que têm um baterista que não consegue acompanhar o ritmo da banda?
Ester assentiu.
— Sorte do Blue que a gente gosta dele. E que as garotas vão aos shows de qualquer forma, para ficarem babando no Frederick.
— Elas não vão aos shows para ficarem babando em mim — disse Frederick. — Elas vão ao show para ver você cantar.
— Que nada — disse Ester, e depois se voltou para Pietro: — Frederick gosta de bancar o difícil.
— Que mentira! — protestou Frederick.
Ester descartou a afirmação dele com um movimento de mão.
— Ãrrã, você banca o difícil, sim, senhor. O Frederick só sai com princesas. Ele é um esnobe. E princesas estão sempre em falta, então...
— Você gosta desse tipo de garota que exige atenção, presentes e mimos o tempo todo, Frederick? — quis saber Pietro. — Elas não são irritantes?
— Eu não... não, não é assim. — Frederick parecia desconcertado, incapaz de explicar as coisas devidamente. — Não é assim.
— Por isso que ele ainda é virgem — comentou Ester, com um sorriso maldoso, antes de ser interrompida por mais um acesso de tosse.
Ester pressionou o guardanapo contra a boca, e, quando o retirou, Pietro viu que o tecido estava cheio de flores empapadas: violetas, minúsculas margaridas, delicadas flores cor-de-rosa de corações-sangrentos. Não estavam mortas, apenas salpicadas de sangue.
Pietro engoliu em seco e sentiu como se ele mesmo tivesse um botão de rosa preso na garganta. Sua mente lutava para entender aquilo, para sentir algo além do horror entorpecente que o dominava.
Só podia estar interpretando errado o que via. Ester não podia estar cuspindo flores. Frederick continuava incomodado com a última coisa que Pietro dissera, e parecia achar que Pietro estava horrorizado com ele.
— Não é por isso... — ele insistiu, suas faces ficando rapidamente ruborizadas. — E... e isso não é algo ruim.
Blue deu de ombros, sem se deixar abalar.
— Todo mundo aqui é virgem, menos você — disse ele, dirigindo-se a Ester. — Ah, e o Pietro também não. Ele dormiu com o Dereck ontem à noite.
— Dormi no sentido de dormir — disse Pietro. — Não que isso seja da sua conta.
— Se está me contando o que aconteceu, então deve ser da minha conta — disse Blue. — E então, o que houve? Ele decidiu brincar um pouco com você primeiro?
— Sabe, você é a pessoa mais... desprezível que já conheci na vida. — Seus dedos agora apertavam com mais força a sacola da Eric’s Klein. — Você nem me conhece, mas insiste em ser um babaca comigo a cada oportunidade que tem.
— Só porque me importo com você — disse Blue, abrindo um largo sorriso.
Pietro o teria estapeado se não achasse que ele fosse gostar disso.
— O Dereck não é alguém com quem se envolver emocionalmente — comentou Ester. — É melhor você ficar longe dele. Foi bom enquanto durou, mas agora parta para outra.
— Tenho plena certeza de que também não pedi a sua opinião — disse Pietro, com raiva.
Ele sabia que tinha sido rude, mas estava se esforçando para não dizer coisa pior. Blue não tinha o direito de envergonhá-la na frente dos amigos dele. E Pietro não precisava de nenhum sermão.
Ester deu de ombros.
— O funeral é seu.
Dizendo a eles que os veria mais tarde, Pietro foi embora. Não estava no clima para discutir por causa de Dereck. Blue diria alguma coisa detestável se permanecesse lá. Ele nunca conseguiria fazê-lo desistir, muito menos com Ester concordando com ele. Só quando tinha saído do hotel para a intensa e quente luz do dia foi que Pietro se lembrou das flores salpicadas de sangue no guardanapo de Ester, tão pouco naturais e fantásticas quanto o próprio Dream. Mesmo algo tão absurdo quanto aquilo devia ter uma explicação.
Quando as palavras de Dereck lhe voltaram à mente, ele sentiu um aperto na garganta.
Eu não acredito em coincidências.
Talvez as maldições em torno das quais giravam as brincadeiras de Blue e seus amigos, e das quais eles não paravam de falar, fossem reais.
Saindo do Dream, Pietro foi até o belo litoral. Queria caminhar descalço na areia branca e pensar. Não sonhar acordado, mas tentar entender as coisas.
O que exatamente estava acontecendo ali?
E quanto daquilo tinha a ver com ele — se é que havia alguma coisa?
Adoradores do sol e turistas passavam aos montes, carregando toalhas de praia, cestas de piquenique, livros desgastados, baldes de plástico e pazinhas de brinquedo. Um borrão de gente carregada do forte cheiro de protetor solar, mas de vez em quando um indivíduo se destacava do aglomerado.
Era quando a multidão se abria em torno de alguém, e Pietro prendia o fôlego. Ele viu um jovem com uma bengala de ponta branca cuja pele em volta dos olhos era marcada por cicatrizes entrecortadas. Houve também uma garota cujos cabelos formavam frisos em volta de sua cabeça como felpas de dente-de-leão; ela parecia muito apressada enquanto avançava como um dardo pela multidão, e trazia uma estranha boneca de madeira agarrada ao peito. Pietro sentiu-se tentado a pará-la e perguntar o que era tão urgente, mas seu instinto a aconselhou a não fazer isso. Além do mais, a garota logo sumira de vista, antes mesmo que Pietro pudesse tentar falar
com ela.
Seriam maldições, aquilo? Era isso o que ele estava vendo? Ou era só paranoia sua?
Pietro estava se apoiando na amurada do calçadão, tirando um tênis com o outro, quando Harry e Gabi pararam ao seu lado, ambos em roupa de banho. Harry carregava um cooler e uma bandeja de papelão com batatas fritas e donuts quentinhos. Gabi segurava as chaves do carro, o quadril inclinado para um dos lados enquanto arrumava o nó de seu sarongue vermelho.
Pietro suspirou. Só esperava que aquilo não significasse que Blue estava a caminho.
— Não tem como fugir de vocês, hein?
— Como? — disse Harry, com seu típico cenho franzido e sua expressão desprovida de humor.
— Haha, não, é um mundo pequeno — disse Gabi. — Eu também bem que queria me livrar desses malas de vez em quando.
— Se eu não estivesse aqui, você teria que carregar suas próprias tralhas — disse Harry.
Gabi esfregou o ombro dele de um jeito brincalhão, com vigor.
— É mesmo! Tenho tanta sorte! — Ela se inclinou e deu um beijo no braço dele, e em vez de se afastar manteve o rosto colado ao bíceps do rapaz, os olhos escuros fixos em Pietro. — E então, forasteiro, o que me diz de se juntar a nós? Posso prometer a você: nada de Blue, pelo menos por um tempinho. E comida grátis. — Ela pegou uma batata frita e deu uma mordida na ponta. — Vamos?
— Vocês não querem ficar sozinhos?
Pietro reparava em como Gabi se aconchegava junto a harry. Estava completamente confuso com o comportamento dos dois hoje em comparação com o que presenciara no dia anterior.
— Hum, não. — Gabi riu e começou a descer os degraus até a praia. — Venha — chamou, acenando para um guarda-sol vermelho enfiado na areia. — Aquele é o meu lugar.
Ela foi correndo na frente, pálida como um fantasma — sua pele era quase tão branca quanto seu biquíni —, deixando Pietro e Harry para trás. Enganchou os dedos por dentro dos seus tênis brancos e foi carregando-os assim, sentindo os dedos dos pés afundarem na areia quente.
— Então, você é o jardineiro ou o namorado dela? — perguntou Pietro a Harry.
Ele o olhou com raiva.
— Você não me perguntou isso.
— Que foi? Eu deveria simplesmente saber a resposta?
— É complicado.
— Complicado como?
Harry soltou um suspiro desconfortável, fazendo com que o gelo e as bebidas se mexessem ruidosamente no cooler enquanto alternava seu peso entre uma perna e outra.
— Você é um forasteiro. Não entenderia. Então não vou nem me dar ao trabalho de explicar.
— Se você não me contar — disse ele —, vou perguntar a Gabi.
Gabi estava de pé sob o guarda-sol, o vento ondulando seu sarongue vermelho no ar enquanto ela o retirava e o jogava de lado, como se fosse um toureiro descuidado provocando um touro. Harry a observava, e seu rosto ficou tenso; havia quase uma dolorosa atração na forma como ele a olhava.
— Sou só o brinquedinho dela — disse ele por fim. — Ela me trata como lixo e depois, quando está entediada, acha que valho a pena. Era isso que você queria ouvir?
— Sinto muito — disse Pietro. — Eu só não conseguia entender vocês dois...
Harry largou o cooler ao lado de Gabi e se sentou como se o lugar que tivesse escolhido fosse temporário. Como se já esperasse ser mandado embora muito em breve.
Ele tinha dito que Pietro não entenderia o que havia entre ele e Gabi por ele ser um forasteiro. E de fato ele não entendia. Mas isso queria dizer que havia algum tipo de detalhe secreto que dava sentido àquele relacionamento? Algo que um não forasteiro saberia?
Indiretamente, eles tinham sugerido a existência de maldições — e ele queria saber do que se tratava tudo aquilo. Era uma maldição se coisas ruins aconteciam a alguém? Se todos os relacionamentos de alguém fossem desastrosos? Se esse próprio alguém fosse um desastre?
Pietro tinha perdido os pais em um incêndio. Nascera com uma marca hedionda nas costas. Sentia-se dominado por uma tristeza que parecia nunca ficar mais leve, e agora vinha a percepção:
Talvez ele fosse amaldiçoado também.
O sol ardia no alto do céu, pálido e furioso. Gabi estava enrolada em uma toalha debaixo do guarda-sol, seu corpo inteiramente à sombra. Harry, agachado a menos de um metro dela, afastava as aves marinhas que tentavam desesperadamente se aproximar de Gabi.
Pietro estava deitado logo depois da sombra projetada pelo guarda-sol, rolando uma garrafa de Coca-Cola molhada sobre a barriga para se resfriar. Uma luz rosada atravessava suas pálpebras fechadas. Ele não sabia ao certo quanto tempo desejava ficar ali, mas Gabi agora estava quieta, tranquila, e o bater das ondas era uma boa trilha sonora para acompanhar seus pensamentos.
Que tipo de maldição recaía sobre aquelas pessoas? Será que havia algo de errado também com Dereck?
Até agora a maldição mais óbvia era a de Ester: as flores que saíam encharcadas de sua garganta, florescendo em seu lenço como o sangue de um tuberculoso. Havia também o estranho fascínio que Frederick e Gabi exerciam sobre os animais. E Gabi tinha dito algo sobre quebrar a maldição de Alan; além de Kayra, que tinha ameaçado atirar em Alan no “dia de sua transformação”... Blue só era antipático.
Pietro não sabia ao certo se aquilo queria dizer alguma coisa.
Mas Gabi parecia mais aberta que os outros; talvez pudesse extrair dela as informações que queria.
— Sua casa é linda — começou Pietro, puxando conversa.
— Uma linda prisão, isso sim — disse Gabi. — Como todo o resto da minha vida.
— Por que uma prisão?
Gabi girou o corpo para poder olhar para ele.
— Regina. Minha madrasta. Ela é obcecada pela aparência, tanto a dela quanto a minha. Ela me odeia.
— Duvido que ela realmente odeie você.
Gabi riu.
— Acredite, ela me odeia sim. Fica dizendo coisas como Eu costumava ter um corpo assim ou Eu costumava ter uma pele assim. É como viver em uma gaiola, sendo avaliada o tempo todo. Antigamente eu me sentia culpada, como se a infelicidade dela fosse por minha causa. Hoje em dia eu só a odeio. Mas sou obrigada a conviver com ela, morando lá. Meu pai passa o tempo todo no campo de golfe, evitando a nós duas.
Gabi olhou de relance para seu brinquedinho amoroso, ainda espantando as aves.
— E tem o Harry. Mas ele é amaldiçoado.
— Amaldiçoado?
Gabi suspirou, apoiou a cabeça na mão.
— Todos nós somos amaldiçoados aqui. Péssimo lugar que você escolheu para passar as férias. Você não gosta do Blue, gosta?
— Não — respondeu Pietro, pego desprevenido pela súbita mudança de assunto.
— Fiquei com medo de ele estar bancando o “cavaleiro em armadura maculada” com você e conseguindo conquistá-lo assim.
— Não, ele é só irritante. Não quero ficar perto dele mais do que o necessário.
— Ah, que bom — disse Gabi, voltando a se deitar.
Pietro jogou uma espessa mecha de cabelo sobre o rosto, como um escudo para protegê-lo do sol. Os fios cheiravam ao xampu de Dereck. Dereck. Ele o veria mais tarde, e Blue seria apenas uma lembrança ruim.
— Que tipo de maldição é essa? — perguntou Pietro depois de um instante, na esperança de que Gabi não estivesse cansada de suas perguntas. Mas não: Gabi estava no embalo.
— Sabe quando você vai a um parque de diversões e resolve ir em um daqueles brinquedos em que você dirige um carro por trilhos de metal, que vão guiando o seu caminho à força? Então. Você tem a impressão de que está dirigindo, mas, se desviar demais em qualquer direção, o trilho simplesmente o traz de volta para o lugar.
— Acho que entendo...
— Nossa vida é assim. Pode até parecer que a gente faz o que quer... mas, se nos
aventurarmos em uma nova direção, o destino puxa a gente de volta. Podemos nos rebelar, mas todo mundo sabe que não vai adiantar. O que não nos impede de tentar, eu acho. Que nem o Blue.
— Como é que o Blue...?
— Espere — disse Gabi, empertigando-se.
Ela fez sombra na frente dos olhos com a mão e olhou na direção da água, para um grupo de garotas, todas clamando a atenção de alguém. Alguém com o cabelo cor de mel de Frederick.
— Bem que eu senti um rebanho de garotas se aproximando — disse Gabi. — O Knight está aqui, e aposto que isso quer dizer que o Blue também está. Parece que o seu refúgio está por um fio.
— Ah, que ótimo — murmurou Pietro.
Isso significava que aquele era o momento ideal para ir embora, mas ele não podia sair dali logo agora que estava obtendo avanços em sua conversa com Gabi.
Harry voltou para perto deles, já que seu trabalho de guarda tinha acabado. Afinal, as aves marinhas agora disputavam com as garotas a atenção de Frederick. Ele se abaixou sob o guardasol, hesitante, como se estivesse esperando permissão, mas ao mesmo tempo prevendo que a permissão lhe seria negada. Mas Gabi estava carinhosa hoje. Ela esticou a perna e tocou o peito dele com os dedos dos pés, acariciando-o de cima a baixo, sensualmente.
— Harry, você faria a gentileza de buscar minha câmera no carro?
Ele assentiu, hipnotizado.
— Obrigada. — Gabi abriu um doce sorriso, e ele lentamente se pôs de pé, como se estivesse acordando de um sonho. — É tão difícil fofocar com garotos por perto — disse ela depois que Harry se afastou, cambaleando. — Então, onde estávamos mesmo?
— Você estava falando sobre essa história de ser amaldiçoado. E que é inútil tentar fugir do destino. Mas que isso não tinha impedido o Blue de tentar. O que quis dizer com isso?
— Ah. É só que o Blue ainda insiste em acreditar que tem o próprio destino nas mãos. Mas é só questão de tempo até ele sucumbir.
— Sucumbir a quê?
— Ao instinto — disse Gabi, como se fosse uma explicação perfeitamente satisfatória. — Pessoalmente, ainda estou esperando que as coisas aconteçam comigo. É embaraçoso; eu me sinto como uma flor que demora a desabrochar. Dois aniversários relevantes já se passaram e ainda... nada. Às vezes fico tão de saco cheio e deprimida em relação a isso que dá vontade de eu mesma me engasgar para fazer as coisas andarem.
— Hã, você... o quê?
Gabi deu uma risadinha de constrangimento.
— Ah, acho que estou deixando você confuso...
— Está. Mas... sinta-se à vontade para explicar.
— É que... é difícil de entender se você não é daqui.
De novo. Pietro já ia começar a discutir quando gotículas geladas respingaram em sua barriga, fazendo-o se sentar. Não demorou muito para ver de onde tinha vindo a “chuva”.
Blue estava de pé junto dele, sacudindo o cabelo molhado como um incômodo cachorro azul. Gotas d’água salpicavam os músculos de seu peito. Ele era esguio, mas forte; não sarado como Harry, mas seu corpo compensava o tamanho com definição. Já a personalidade, nada compensava.
— Pare de me molhar — reclamou Pietro, irritado.
Blue passou a mão pelo cabelo, jogando ainda mais água em Pietro.
— Saia daí se não está gostando.
— Se eu sair daqui, vai ser para bater em você. Não quero te humilhar na frente da Gabi.
— Quanta consideração.
Ele se sentou, a areia grudando em sua pele como açúcar cristal, e passou o braço por cima de Pietro para pegar uma Coca-Cola do cooler — e derrubando água nele de novo. O olhar de ódio que Pietro lhe lançou o fez abrir um largo sorriso.
— Vou procurar o harry — anunciou Gabi , prendendo o sarongue na cintura e saindo de sob o guarda-sol. — Ou ele está fumando um cigarro ou usando minha câmera para fotografar vadias no calçadão. De uma forma ou de outra, ele vai ver só. Lembre-se do que eu disse, Pietro. Sobre... — E fez um movimento desajeitado com a cabeça na direção de Blue.
Pietro fez que sim. Blue o olhou desconfiado depois que Gabi se afastou.
— O que foi aquilo?
— A Gabi me disse que fica feliz por eu não gostar de você. Talvez ela quisesse me lembrar de que as coisas devem continuar assim, mas quanto a isso ela pode ficar tranquila.
— Ótimo.
Ele bebeu metade da garrafa de Coca-Cola, depois a tampou e a devolveu ao gelo semiderretido do cooler. A água espirrou na perna de Pietro, que a secou com a mão.
— Belas pernas — comentou Blue.
Pietro o olhou desconfiado.
— Isso é um elogio ou um assédio? Porque, vindo de você, duvido que seja a primeira opção.
— Sempre presuma o pior.
— Mal posso esperar pelo dia em que nunca mais tenha de ver você de novo — murmurou Pietro.
Pietro se virou de bruços, pegou um livro barato de dentro da bolsa e deixou o cabelo cair como uma cortina sobre o rosto para poder ler. Quase conseguiu ignorá-lo, mas então sentiu a ponta do dedo dele roçar na parte de trás de sua panturrilha, descendo do vão do seu joelho até o tornozelo. Ele se virou e tacou o livro na cara dele, as páginas abertas estapeando-lhe o rosto.
— Não encoste em mim! — gritou Pietro.
Pietro ainda podia sentir o frio na pele ao longo da linha que ele tinha traçado na sua perna, como a costura fora de lugar de uma meia-calça torta.
Blue deu de ombros, sem o menor pudor.
— Eu queria saber se era tão bom quanto parecia.
— Não vai ser nada bom quando eu tiver acabado com você.
Ele pareceu considerar isso. Então perguntou:
— Você dança?
— Sim — respondeu ele, entre os dentes cerrados.
— Imaginei. Você não podia ter um corpo assim tão bonito, não naturalmente. Tinha que ter feito alguma coisa para isso.
Pietro estava formulando uma resposta melhor do que uma mera sequência de xingamentos quando notou que Frederick vinha subindo a praia a passos largos. Trazia algo nas mãos em concha, a água escorrendo por entre seus dedos, e volta e meia parava e se virava para trás para responder às suas admiradoras — as garotas o seguiam, em uma procissão de rostos dourados de sol e biquínis minúsculos.
Quando Frederick os alcançou, pôs-se de joelhos na frente dele.
— Pietro, você já viu uma estrela-do-mar? Eu trouxe uma para te mostrar.
Ele olhou de relance para a estrela-do-mar púrpura estirada nas mãos de Frederick, depois voltou o olhar para Blue. Ele era como uma farpa sob sua pele, irritando-a constantemente. Ele não poderia ter uma conversa normal e legal com Frederick quando se sentia prestes a explodir.
— Por que você é tão babaca?
— É uma técnica de sobrevivência — respondeu Blue.
— É mesmo? Que espécie de vantagem você pode conseguir sendo um idiota?
— Irritar você.
— É claro — disse Pietro, de saco cheio daquela conversa.
— Acho que você é obcecado por mim — disse Blue. — Mas tudo bem. Não vou te julgar por isso.
Ele se levantou antes que levasse um soco. Suas pernas e sunga estavam cobertas de areia. O sol tinha secado sua pele; umas poucas gotas pingavam de seu cabelo. Quando ele se virou, Pietro engoliu uma bolha de ar junto com a Coca-Cola e quase engasgou: porque na base das costas dele, bem no centro junto à coluna, havia uma marca de nascena do tamanho de uma laranja, logo acima da cintura da sunga: uma marca cor de vinho como uma queimadura, a pele local lisa e brilhante como uma cicatriz.
Como a sua. Só que a dele tinha o formato de um coração. Um perfeito e escuro coração.
— Que foi? — perguntou Blue, virando-se de frente novamente. — Ficou triste por eu estar indo embora?
— O que... o que é isso?
Pietro batia no peito, tossindo como se quase tivesse se afogado.
— O que é isso o quê? — perguntou ele.
— Essa marca. Nas suas costas.
Blue deu de ombros.
— Nada.
Ele não acreditou. Aquela marca significava alguma coisa.
— Não se preocupe, não é contagioso — disse ele, e saiu correndo para a água.
O oceano o engoliu em pequenas mordidas: primeiro as pernas, depois a cintura e o peito, até que ele enfim desapareceu sob as ondas. O sol reluzia na água e estava quase cegante, ele não conseguia mais ficar olhando.
— Sinto muito — disse a Frederick, que continuava ajoelhado ao lado dele, desanimado mas paciente... ou talvez apenas calado. A estrela-do-mar parecia sem vida em suas mãos em concha.
— Vou devolvê-la ao mar — disse ele —, tudo bem?
Hesitante, Pietro tocou a estrela-do-mar, mas logo a afastou. Sentia-se mal por ter ignorado Frederick.
— Obrigada por me mostrar. Eu realmente achei legal. Só estava... enfurecido. Não sei por quê, mas parece que é objetivo do Blue é me deixar assim, enfurecido. Seria melhor se ele escolhesse uma das opções: ser legal comigo ou me deixar em paz.
Frederick assentiu.
— Bem... seria melhor. Mas ele não tem autocontrole suficiente para isso, eu acho. Ele só gosta de você.
Pietro ergueu as sobrancelhas.
— Hã... você não vê o que acontece à sua volta, não?
— Eu não disse que ele gosta de gostar de você. Só disse que gosta. Talvez porque você age como se não gostasse dele, então isso faz com que ele se sinta um pouco mais seguro.
— Frederick, isso não faz sentido.
Ele deu de ombros.
— O Blue tem, hum, uns problemas estranhos com pessoas.
— Porque a mãe dele fugiu?
— Não sei como explicar. Só que, sabe, é óbvio que ele gosta de você, mas não quer gostar, então ele está meio que passando dos limites para manter você acuado. Mas acho que ele não está conseguindo simplesmente ignorar você, porque você realmente não gosta dele. O que acaba atraindo o Blue, por mais estranho que seja.
— Quer dizer que ele odeia pessoas grudentas, mas se sente desafiado quando acha que a pessoa está bancando a difícil?
— Hã... — Frederick parou um momento para pensar no assunto, mas depois acabou dando de ombros de novo. — Não sei, Pietro. Não sei como explicar.
— Você poderia dar uma surra nele por mim. Isso resolveria um monte de problemas — disse ele, com um sorriso tímido.
— Ele é meu amigo. Não posso fazer isso — respondeu ele, mas retribuiu o sorriso, nem um pouco ofendido, como se soubesse que Pie estava brincando.
Sim, ele estava brincando; em parte, sim.
— Vou levar a estrela-do-mar de volta agora, ok?
Ao dizer isso, Frederick ergueu as mãos em concha, e os músculos em seu peito se tensionaram com o movimento. Pietro assentiu, e ele desceu a praia em uma lenta corrida, relaxado e casual. Não demorou muito para que as garotas (e dessa vez, alguns garotos) o cercassem de novo, e quando o fizeram ele acelerou o passo; suas pegadas ficaram desajeitadas na areia, como se fosse um urso afastando-se desajeitado de uma colmeia zangada, as patas cheias de mel. Só que Frederick era o mel e o urso.
Por via de regra, Pietro não corria atrás de garotos, não ficava com olhares ávidos em cima deles, mas dessa vez acompanhou Frederick de longe, o livro pressionado à testa como um visor. E foi então que ele se viu refletida na pele dele. Sua roda, sua marca cor de vinho, estava lá, na base das costas dele. Eles poderiam ser gêmeos.
Gêmeos.
Ele se levantou na mesma hora e foi correndo atrás dele. Avançou em meio ao enxame de admiradoras e, ao alcançá-lo, agarrou-o pelos ombros, virando-o para si. O rosto dele ficou lívido, chocado. O calor da pele dele fez as mãos de Pietro arderem.
— O que está acontecendo? — ele exigiu saber. — Você tem de me contar o que está havendo aqui.
Seus dedos se cravavam nos ombros de Frederick, com muita força. Ele ficou encarando-o, mudo, e Pietro sentiu como se estivesse encostando em fogo.
Se você me quisesse, se me amasse, eu poderia destruir você.
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— Você atacou o Frederick. Você assustou o cara — disse Blue.
Eles estavam sentados a uma mesa do lado de fora da Casa de Doces, a cafeteria onde ele havia atirado a faca em Blue. Apenas eles dois. Blue tinha aparecido todo molhado, pingando, bem no momento em que Pietro estava questionando Frederick, exigindo saber o que eram aquelas marcas, e o afastara à força de seu amigo, suas mãos geladas da água do mar. Então lhe dissera que, se ele quisesse conversar sobre isso, que fossem a algum outro lugar. A seriedade no rosto de Blue acabara convencendo-o a concordar.
— Eu não ataquei o Frederick — defendeu-se Pietro. — Estava só chamando a atenção dele. Precisava conversar com ele.
O ar ali fora cheirava a fumaça de grelha e salmoura. O som de bandeiras chicoteando e ressoando nos postes mesclava-se aos gritos das gaivotas e ao movimento dos carros. Pietro repousava o pé na base da mesa, e então se deu conta de que estava encostando na perna de Blue. Deixou a perna como e onde estava, para ver o que ele faria.
— Ele disse que a sua mão parecia estar em chamas. Por que isso?
— Estava quente hoje — disse ele. — Não sei o que aconteceu. Já falei isso pra você.
Pietro ergueu a cabeça para observar os olhos dele, mas Blue não olhava para ele, ao menos não diretamente. Ele batia com o pulso na mesa de modo ritmado, como se estivesse tentando machucá-lo.
— Eu vi a marca nas costas dele — disse Pietro. — Vocês dois têm.
— É muita insensibilidade sua ficar insistindo nisso. Talvez ele tenha vergonha dessa tal marca. Esqueça isso.
— Não. Não estou sendo insensível.
A roda girava devagar em sua mente, como um moinho posto em movimento por um vento suave. A marca os conectava de alguma forma. Ele não iria simplesmente esquecer aquilo.
— O Frederick é órfão? — ele quis saber. — Os pais dele morreram?
— A família Knight está perfeitamente intacta — respondeu Blue. — Ele tem dois irmãos mais velhos, Wills e Caspian. Mãe e pai ótimos. Todos moram juntos em uma mansão exuberante. Sempre foi assim.
— Então ele não poderia ser meu irmão?
Ele teve que forçar a pergunta a sair, engolindo em seco depois de pronunciar as palavras. Seu coração martelava em seu peito. Blue ficou encarando-o, boquiaberto, sem entender. Por fim, ele disse:
— Aposto que ele ficaria desapontado se fosse seu irmão. De onde você tirou essa ideia? Vocês nem são parecidos.
— Achei que pudéssemos ter sido separados na infância. Quando meus pais morreram. Talvez levados por guardiões diferentes.
Ele baixou os olhos. Blue finalmente afastou a perna da de Pietro. Ele pigarreou e então perguntou:
— Levados de onde? De Cross River?
— Eu nasci aqui. Mas fiquei pouco tempo na cidade. Uma coisa ruim aconteceu, um incêndio, que levou meus pais. Foram minhas madrinhas que me criaram. Vim aqui encontrar o túmulo dos meus pais. — Ele sentiu a garganta se apertar. — Você saberia disso se não passasse o tempo todo só brigando comigo.
— Desculpe — disse ele. Então, mais baixo: — Isso me soa... familiar, de um jeito perturbador. Como uma história.
— E não é tudo uma história?
— Talvez, mas não foi isso que eu quis dizer. Quero dizer que soa familiar. Como em um conto clássico.
— Eu sou órfão — disse ele, com uma ponta de amargura na voz. — Isso é o que há de mais clássico na minha história, órfão como Oliver Twist e Sara Crewe. Mas não tem nada de conto de fadas nisso. Não é romântico, não me torna especial. Só quer dizer que nunca tive a oportunidade de conhecer os meus pais e nunca terei.
— Então você esperava que ao menos tivesse o Frederick como irmão?
Pela sua expressão, Blue parecia estar tentando entender.
— Não, eu só... só estou tentando encontrar um sentido para tudo. Isso.
Ele se levantou e, com um movimento desajeitado, ergueu um pouco a camisa. Então se virou, de forma que ele pudesse ver a marca. O olhar de Blue era como agulhas em sua pele, observando aquela parte vulnerável de seu corpo que ele sempre tentava esconder.
— Acho que talvez eu... talvez eu também seja amaldiçoado.
Pietro estremeceu quando ele o tocou, traçando o contorno da marca na base de sua coluna com a ponta do dedo.
Blue articulou uma palavra que ele lhe havia dirigido em circunstâncias muito diferentes. Pronunciou-a sussurrado, e o toque dele também era como um sussurro.
— Ah — disse ele.
— Não esqueça que eu odeio você. — A voz dele tremeu ao dizer isso.
— Eu sei. Vamos manter as coisas assim.
Pietro voltou a se sentar. Os olhos de Blue ziguezagueavam pelo rosto dele, como um pêndulo.
— Bom. — Ele engoliu em seco. — Você não é irmão dele. Para começo de conversa.
Feliz aniversário. Feliz aniversário, querida. Só se faz dezesseis anos uma vez na vida. O salão estava repleto de balões das cores de um castelo no fundo do mar: azul, preto, prateado e verde. Eles estavam dançando. Em um pequeno palco, Ester cantava com suavidade uma balada sentimental e triste sobre infelicidades no amor, sua voz gutural e afável. Pérolas negras escorriam de seus lábios quando ela parava para respirar. Todos batiam palmas, extasiados. Uma explosão de felicidade, como se fossem fogos de artifício queimando.
Ele estava cercado de tudo que amava. Tudo que havia de bom.
Casais sumiam para cantos escuros, sombras refletindo intimidade. O pai dele havia encorajado isso, tratara-os como se fossem adultos. O champanhe espumava, caindo pelas rolhas das garrafas, e, com os papéis de presente sendo rasgados, junto vinha o som de risadinhas.
Ele tentou se manter preso a sua espécie, realmente tentou. Às garotas que sabiam com o que estavam lidando. Mas se deixou levar pelo momento.
Aquela noite, o vestido e os lábios dela eram cor de cereja, tão vermelhos como seu cabelo. E quando ela sorriu para ele, como se fosse a hora de pararem de fingir, de pararem de evitar um ao outro, ele se sentia tão bem que não pôde acreditar na possibilidade de que ela não fosse a garota certa.
Mas ele devia ter imaginado. Ela o conduziu pela mão até o quarto dos fundos, às escuras. Cambaleava em seus sapatos de salto alto vermelhos, quase tropeçando sobre a bolsa de alguém, e jogou os braços em volta do pescoço dele para que ele a segurasse, não a deixasse cair.
Ficaram paralisados por um instante. Ele sentiu o corpo dela de encontro ao seu, cálido e maravilhoso, e a enlaçou para puxá-la para si. Ela o beijou, e ele a beijou... E ele continuou beijando-a até não poder mais respirar. Até ela não poder mais respirar.
— Quantos anos você tem? — perguntou Blue.
Ele pegou a mão de Pietro e a virou para cima, abriu o indicador e tocou o dedo com suavidade, examinando-o.
— Quase dezesseis. Faço aniversário daqui a alguns dias.
— Quantos?
— Quatro.
— Ah. — A palavra foi encurtada pela respiração. — Você é proibido de fazer alguma coisa? Tem restrições?
— Como assim?
Era uma dificuldade manter a mão ali parada, não a puxar da dele ou entrelaçar os dedos aos dele e segurá-los. Seus nervos ficavam abalados toda vez que Blue o tocava. Quanto mais suave o toque, melhor era, e pior ficava.
— Coisas que você é proibido de fazer. Coisas das quais tentam afastar você.
— Claro. Um monte. Tudo. Minhas madrinhas são as pessoas mais superprotetoras do planeta. Eu nem deveria estar aqui, por exemplo.
— Mas alguma coisa específica?
— Não posso andar de carro com os meus amigos. Não posso tirar carteira de motorista antes de fazer dezoito anos. Não posso namorar. Não posso ver filmes violentos. Não posso sair depois que escurece. Não posso manusear objetos afiados. E por aí vai...
Blue assentiu com um ar sombrio, como se Pietro houvesse confirmado algo de que ele desconfiasse.
— Entendi. Bem... vou te contar uma coisa. Mas você pode não gostar.
— Sobre a minha... maldição? — perguntou ele, na esperança de que ele dissesse que não, que ele estava enganada.
Em vez disso, porém, ele assentiu.
— Pietro, você tem o que é chamado de marca de Märchen. Märchen é a palavra em alemão para conto. Como em conto de fadas.
— O que isso quer dizer?
— É uma marca que identifica você. Que te atribui um papel. Que te diz o que você deve fazer, ou o que vai acontecer com você. É como... o seu destino. Sua maldição.
Blue colocou as mãos na mesa; um leve tremor as percorria.
— Há certos lugares onde nossa espécie se encontra. Cross River é um deles.
— Então os seus amigos... todos eles são... amaldiçoados.
Ele assentiu.
— Sim.
— O que a minha marca significa? Qual é o meu papel?
— A roda que você e o Frederick têm representa a roca de “A Bela Adormecida”.
Pietro inspirou fundo e prendeu a respiração.
O conto de fadas predileto do Dereck.
Destino.
— Você é um Sonolento — prosseguiu Blue. — O que significa que foi amaldiçoado provavelmente quando era bebê, e que um determinado objeto... não necessariamente um fuso, já que os contos evoluem e isso seria arcaico demais hoje em dia... foi destinado a fazer com que você entre em um sono encantado se te cortar, furar seu dedo ou algo do gênero. Um sono que talvez dure muito tempo, dependendo de onde estiver seu príncipe quando isso acontecer. E se ele souber como encontrar você.
— Meu príncipe? — Pietro estava pasmo. — Eu tenho um príncipe?
— Hum, é. Que seria o Frederick.
Frederick. Frederick era legal. Frederick era um doce. E um ímã para as pessoas... sem contar que era um ímã também para pássaros azuis, borboletas e esquilos.
Mas Pietro não conseguia vê-lo como seu namorado, como o cara que quebraria sua maldição, não conseguia vê-lo como o amor de sua vida.
Ele deixou escapar um longo suspiro e mexeu seu milk-shake, já meio derretido. Até então, contos de fadas e um final ao estilo “felizes-para-sempre” não lhe pareciam andar de mãos dadas. E ser uma espécie de princesa, se é que ele era mesmo isso, não representava o sonho que ele havia imaginado quando tinha cinco anos, dançando em volta da casa.
Se Belle e Elza sabiam a verdade sobre ele, Pietro estava surpreso por não terem caído na gargalhada ao verem a cena: uma verdadeira princesa fingindo ser princesa.
Pietro engoliu um pouco do sorvete que escorria. Sua garganta se apertou quando ele juntou os pontos de sua história: Elza e Belle.
— Como eu sou idiota.
Blue arqueou as sobrancelhas.
— Ué, o idiota não sou eu?
— Minhas madrinhas. Elas são fadas madrinhas?
— É bem provável — disse Blue. — Se seu bem-estar foi confiado a elas... mas é possível que elas sejam humanas. Já vi coisas mais estranhas acontecerem.
— Nós, por exemplo.
Ele já não achava mais engraçadinho que a cafeteria se chamasse Casa de Doces, nem que as paredes do lugar fossem decoradas com guloseimas. Não teria ficado surpresa se encontrasse um garoto em uma jaula na cozinha, sendo engordado por uma bruxa, como em “João e Maria”.
Uma das garçonetes estava se demorando demais ali perto dos dois, limpando mesas que já estavam limpas. Obviamente estava prestando atenção na conversa deles.
Maldita cidade de contos de fadas.
— Podemos conversar em outro lugar? — perguntou Pietro, apontando para a garçonete enxerida.
— Claro — disse ele, se levantando. — Eu estava mesmo pensando em levar você até a Kayra. Ela vai saber explicar essas coisas melhor que eu.
Por volta das três, Pietro e Blue tinham montado acampamento em poltronas de couro perto da ampla janela de frente da livraria Os Livros Novos do Rei, que vendia livros usados. Estavam esperando que Kayra tivesse um intervalo no trabalho.
As estantes acomodavam um sortimento eclético de livros que Pietro duvidava de que alguém algum dia compraria: exemplares românticos com cheiro cáustico da década de 1970, revistas de palavras cruzadas com metade das respostas já marcadas a lápis, guias de viagem obsoletos havia décadas. Um engradado de plástico contendo discos de vinil acumulava pó no chão, e logo adiante havia um rack aramado cheio de bem manuseadas graphic novels: a única referência ao século atual.
Pietro teve a impressão de que a loja era mais um hobby para seu dono que propriamente um negócio. E, a julgar pelo que tinha visto até então, os clientes viam o lugar como uma biblioteca.
O único cliente regular, um jovem policial que folheava livros com listas de nomes de bebês como se sua vida dependesse disso, estava levando uma eternidade para ir embora.
Kayra separava algumas mercadorias. Estava tão naturalmente linda quanto da última vez que Pietro a tinha visto. Blue tomava café gelado, que pegara da sala dos funcionários, enquanto lia, absorto, uma revista em quadrinhos. Pietro, no entanto, que normalmente ficaria feliz dentro de uma livraria, estava impaciente demais para conseguir ler qualquer coisa.
— Qual é a marca de Märchen da Kayra? — perguntou Pietro, baixo, inclinando-se na direção de Blue.
Blue abandonou com relutância os quadrinhos que estava lendo: uma versão moderna do conto de Peter Pan, repleto de garotas etéreas e garotos perdidos feéricos.
— A Kayra é a Bela, de “A Bela e a Fera”. Coitada, tem que aguentar o Alan. A gente tem pena dela por isso.
— Ah, meu Deus, o Alan é a Fera!
Ele se sentiu um idiota; era tão óbvio.
— É. Bestial por dentro, e logo vai ficar bestial também por fora, assim que uma fada ativar a maldição. Teoricamente ele deve se redimir no fim, mas não temos muita fé nisso. Vai ser preciso algum milagre para que a Kayra se apaixone pelo Alan. Só espero que ele ainda consiga tocar baixo mesmo com patas de monstro. Senão vamos ter que achar um novo baixista para a banda.
— Você diz isso como se achasse divertido.
Blue deu de ombros.
— E não é? É o que ele merece. Não que a gente não goste dele, mas às vezes é preciso aprender as coisas do jeito difícil.
Pietro olhou de relance para ele.
— E você? Teve que aprender alguma coisa do jeito difícil?
— Boa tentativa — disse ele, mas seu sorriso parecia não alcançar os olhos.
O que Pietro realmente queria perguntar era o que significava a marca em formato de coração de Blue — e qual era a marca de Dereck, se é que ele tinha alguma. Mas Blue parecia estar fazendo de tudo para não lhe contar essa parte. E a reticência dele o inquietava. Pietro sabia que havia pessoas más em contos de fadas: lobos que engoliam velhinhas inteiras, madrastas que tratavam suas enteadas como escravas, trapaceiros que vinham com acordos impossíveis... e muito, muito mais. Será que Blue era um dos malvados?
Pietro não queria brigar com ele. Não quando finalmente estavam começando a se dar bem. Então, em vez de forçar a barra, ele mudou o foco:
— E a Gabi? Ela é a Branca de Neve?
— Acertou em cheio. Ela também é uma Sonolenta. Vocês têm em comum os comas encantados. O Harry é o infeliz do Caçador. Um dia a madrasta da Gabi vai ordenar que ele arranque o coração de sua enteada e o leve até ela, o que sempre garante um toque a mais de hilaridade quando os dois estão juntos.
— Ah, meu Deus. — Pietro se encolheu. — Mas ele não vai fazer isso, vai?
— Quem sabe? A Gabi é tão dura com ele, e ele é tão obcecado por ela, que é bem capaz. Ele surta sempre que suspeita que algum cara pode ser o príncipe dela. Vai ficar bem aliviado quando descobrir que o amor do Frederick é seu.
— Eu não...
Ele não estava preparado para aceitar aquilo. Era estranho demais.
— O Frederick não é tão ruim assim — disse ele.
— Não é nada contra o Frederick, eu só...
— Você não gosta de se sentir aprisionado, como se seu futuro já estivesse mapeado para você.
— Isso mesmo.
— Vai por mim, ninguém gosta.
Blue pegou novamente sua revista em quadrinhos, como se tivesse decidido que agora seria um bom momento para evitá-lo. De cabeça baixa, seu cabelo azul era um redemoinho espetado a encarar Pietro, os fios endurecidos por causa da água salgada.
Pietro afastou a revista dele com um safanão.
— E você? Qual é a sua armadilha?
— Não quero falar sobre isso. A curiosidade matou o gato.
Como resposta, Pietro lhe mostrou a língua. Parecia apropriado.
— Que sexy — disse ele, e também mostrou a língua.
Pietro o chutou na canela. Blue se curvou para frente e segurou a perna, xingando.
— Ainda acha sexy? Bem, aquilo que você disse sobre aprender as coisas do jeito mais difícil? Talvez seja essa a sua maldição.
Pietro resolveu deixar Blue ler em paz, imaginando que talvez devesse dar um tempo a ele. Então ficou olhando pela janela, observando as pessoas passarem e se perguntando quantas delas seriam amaldiçoadas. Aquela velha senhora: será que já fora uma donzela em perigo? Aquele garoto: cresceria e mataria um gigante? E aquela garota, aquela garota bonita de rosto sujo e roupas surradas: estaria indo para casa a fim de fazer a faxina, obrigada que era por sua malvada madrasta e suas duas ambiciosas irmãs postiças?
Era estranho pensar em um outro mundo oculto por trás do mundo “normal”. Uma sociedade inteira regida pelo destino. Um “Arrá!” triunfante soou de entre as pilhas de livros, atraindo o olhar de Pietro para aquela direção. O policial dos livros de nomes de bebê rabiscava algo loucamente em um caderno, como se tivesse feito alguma grande descoberta.
— Não use só letras, acrescente alguns números e símbolos — aconselhou Kayra quando passou rapidamente pelo policial. — Eles estão mais experientes agora na escolha de nomes impossíveis de adivinhar. Aprenderam isso com as senhas da internet.
— Droga! Isso vai levar uma eternidade! — exclamou o policial, baixinho. Kayra bateu de leve em seu ombro.
— Sinto muito, Leo.
Pietro franziu a testa, confusa. Às vezes aquele lugar parecia simplesmente estranho demais. Depois de um tempo o jovem policial saiu apressado, levando consigo seu caderno de nomes, falando um rápido “Obrigado!” enquanto o sino de som metálico da porta anunciava sua partida. Kayra virou a placa de “Fechado” e foi até Blue e Pietro. Carregava um grosso livro deencadernação de couro apoiado contra o quadril.
Kayra passara o dia todo tirando livros das estantes empoeiradas, mas não se via nela nenhuma mácula de sujeira nem uma gota sequer de suor. Seu reluzente cabelo negro estava tão impecável quanto o de uma boneca Barbie, e seus olhos escuros cintilavam mesmo quando ela não estava sorrindo. Kayra era como uma pintura da Renascença, de uma beleza sem falhas e cálida.
— Coitado do Leo — disse Kayra, com um suspiro. — Hoje em dia é muito mais difícil decifrar nomes verdadeiros. É quase certeza que o troll vai ficar com o bebê.
— Troll? — perguntou Pietro.
— A maldição de Rumpelstiltskin — explicou Blue. — O Leo é o cara encarregado de descobrir o nome verdadeiro do troll, para que a rainha possa salvar seu bebê das garras dele. Terrível. Não queria estar na pele do Leo.
— Hum, talvez alguém devesse dizer a ele que é Rumpelstiltskin... — comentou Pietro.
Blue deu risada. Kayra abriu um sorrisinho para ele.
— Rumpelstiltskin é o nome no conto — ele explicou. — Não é o nome de todos os trolls. Seria fácil demais.
— Ah — disse Pietro, desapontado.
— De qualquer forma — disse Kayra —, não estamos aqui para falar da maldição do pobre Leo. Estamos aqui para falar das coisas básicas. Preparado, Pietro?
— Mais preparado impossível.
Kayra colocou na mesa à frente deles o livro com encadernação de couro, que se abriu com um uomp! As bordas das páginas eram douradas, o texto impresso em tinta marrom-escura. Parecia uma espécie de enciclopédia. O texto estava disposto em duas colunas, e cada entrada começava com uma rebuscada letra cursiva. Uma obra de arte em si. Algumas das entradas eram acompanhadas de símbolos: uma maçã, uma trança, uma coroa... todos no mesmo tom intenso de marrom. Desenhos, apenas em traços, de cenas de contos de fadas ilustravam o que se lia.
— Peguei isso lá dos fundos — disse Kayra, assumindo um ar de travessura por um segundo. — Eu não devia nem colocar as mãos neste livro: é uma antiguidade. Mas meu chefe não está aqui hoje, e acho que a Pietro merece algo especial para sua introdução neste mundo. Se derrubar café nele — acrescentou ela, olhando incisivamente para Blue —, eu mato você.
— Entendido.
Ele tirou do caminho o copo de café gelado.
— O que é isso, exatamente? — Pietro se inclinou para frente para dar uma espiada nas páginas. Kayra tinha aberto o livro em um ponto aparentemente aleatório; a primeira entrada dizia o seguinte:
Transformados
Aqueles que são fisicamente transformados por meio de magia, para o bem ou para o mal, transformação esta que com frequência é acompanhada de desconforto, sofrimento ou dor. A maldição pode ser desfeita às vezes por amor verdadeiro, outras vezes por outros métodos (matando o Encantador etc.)
Alguns papéis que pertencem à categoria dos Transformados são a Fera (“A Bela e a
Fera”), a Sereia (“A pequena sereia”), as Garotas Boas e Más (“As fadas”).
— É uma classificação das maldições — disse Kayra. — Explica nossos papéis, nossas marcas, tem uma lista dos contos... e também as categorias em que caímos. Por exemplo, sua marca é a roca... — Kayra avançou as páginas, indo até a listagem de “A Bela Adormecida”, ilustrada com uma roca no mesmo formato daquela que Pietro tinha nas costas. — Seu conto é “A Bela Adormecida”, seu papel é o da princesa, e sua categoria é Sonolenta.
— É muita coisa para lembrar — disse Pietro.
Kayra deu de ombros.
— A maior parte disso vira intuitivo, assim que você pega o jeito. A Gabi também é uma princesa Sonolenta, mas o conto dela é “Branca de Neve” e a marca dela é uma maçã. Então temos aqui alguns pontos em comum.
Kayra folheou o livro, seus dedos virando as páginas quase com amabilidade.
— Originalmente, este livro foi criado para ser usado como ferramenta de referência para fadas jovens, para que elas pudessem aprender sobre as diversas maldições e saber escolher em quem usar cada uma. Mas agora é mais um item de colecionador. Fadas têm maneiras mais fáceis de compartilhar informações.
— Mas a gente não nasce com essas marcas?
Kayra balançou a cabeça em negativa.
— Alguém te falou isso? Geralmente somos amaldiçoados quando crianças, ou mesmo mais velhos, assim que nossa personalidade se torna conhecida. Existem, sim, maldições hereditárias, ou seja, que estão no sangue de uma família específica. — Ao dizer isso, Kayra olhou de relance para Blue. — E...
Pietro se virou para Blue. Pretendia lhe perguntar sobre isso, mas ele apenas mantinha o café erguido e longe do livro, como se essa fosse a questão importante ali.
— Não vou derramar — disse ele. — Não me olhem assim.
— Bom, enfim — prosseguiu Kayra, um pouco sem jeito —, você provavelmente foi amaldiçoado quando bebê, Pietro. Esse é o caso da maior parte das Sonolentas Belas Adormecidas. Foi o que aconteceu com a Gabi também. No meu caso, foi quando eu tinha dez anos, e a Ester só foi amaldiçoada faz pouco tempo. Então varia. Qualquer um com magia no sangue corre o risco de ser amaldiçoado, mas é preciso que haja uma fada para despertar a maldição.
— Tem magia no meu sangue?
Pietro girou o pulso e olhou para o entrelaçado de veias do local, subitamente nervoso com o que poderia haver ali.
— Isso só quer dizer que em algum ponto na história da sua família houve um ancestral que não era completamente humano, talvez uma fada, e assim a magia foi passada pra você — explicou Kayra. — De forma muito diluída, é claro.
— Relações entre humanos e seres feéricos não são muito bem-vistas — esclareceu Blue. — E por relações eu quero dizer...
Mas Pietro o cortou, o rubor se espalhando por suas bochechas:
— Eu entendi.
— Então nossa maldição é uma punição por aqueles namoros proibidos — continuou Kayra. — As fadas sentem que têm o direito de nos testar, de fazer com que a gente passe por um suplício. Embora algumas tenham uma fraqueza por nós. Algumas são boas. E, hoje em dia, elas não amaldiçoam todo mundo, muita gente se livra disso. É o que chamamos de maldição latente.
Aquela conversa sobre fadas fez os pensamentos de Pietro se voltarem para Elza e Belle. Será que elas duas eram fadas? Belle até que podia passar por uma fada madrinha, com aquele monte de vestidos de babados e o andar animado e a loja de produtos esotéricos. Mas Elza parecia prática demais para um ser mágico. Sem contar que Pietro não conseguia imaginar nenhuma das duas punindo ninguém.
Bem... exceto, talvez, ele próprio. Por desobedecê-las. E mentir.
Seus olhos encheram-se de lágrimas ao pensar em suas madrinhas. Ele poderia ligar para casa, contar que estava em Cross River e que sabia da verdade agora... mas e se as duas estivessem furiosas com ele? E se fizessem um escândalo e resolvessem levá-lo embora dali? Pietro não estava pronto para partir. Tampouco estava preparado para abrir mão de sua independência.
Kayra ainda prosseguia com sua explicação:
— Não é só uma questão de magia no sangue, tem também uma linha divisória social. A maldição de príncipes e princesas é reservada para as pessoas chamadas de Realeza. Isso porque na família delas, alguma vez na vida, teve alguém que fazia parte da nobreza. Geralmente são pessoas ricas...
— Casar com o camponês que transforma palha em ouro... é sempre um bom passo — disse Blue.
— ... e consideradas a elite dos contos de fadas, embora essas maldições não sejam necessariamente as mais desejáveis. Tenho certeza de que tanto você quanto Gabi confirmariam isso. Mas, de qualquer forma, tudo isso é subjetivo. Tradicionalmente, uma maldição ruim é aquela concedida por uma fada má. A maldição de Alan, por exemplo. Ao passo que a minha, supostamente, é uma maldição boa... porque estou destinada a quebrar o encanto da Fera — ela revirou os olhos em desgosto — e porque me foi lançada por uma fada boa.
— Em outras palavras, você pode odiar sua maldição mesmo que uma fada ache que ela é uma recompensa — disse Blue.
— A propósito, boas e más são nossos termos para descrever as fadas — disse Kayra. — É melhor não chamar uma fada de má na cara dela.
— Vou me lembrar disso — falou Pietro, com um sorriso.
Foi quando alguém bateu no vidro, alarmando-os. Era uma velha cujo cabelo pendia em um emaranhado com faixas cor de laranja, pretas e brancas, como pelo de gato irregular. Ela carregava um cesto de vime e parecia ligeiramente ensandecida. Kayra apontou para a placa de “Fechado” até que a mulher franziu a testa em desprazer e foi embora.
— Na verdade, nós temos um pouco de poder sobre nossa vida — prosseguiu Kayra, assumindo um ar pensativo. — Tomamos nossas decisões, mas o destino tem um jeito de torcer nosso esforço para atender às suas próprias expectativas. Então, existiram Cinderelas que fugiram do baile, fugiram de seus príncipes e continuaram correndo até que seus sapatinhos de cristal quebraram. E tivemos Lobos que optaram por não devorar a Chapeuzinho Vermelho ou sua avó e que foram aceitos na família da menina com gratidão, apenas para, semanas depois, se tornarem selvagens novamente e matarem todo mundo: porque, afinal, matar faz parte da natureza de um Lobo.
Blue apertou o braço da cadeira e afundou nela. Pietro analisava-o, se perguntando: seria ele um Lobo? Mas não fazia sentido que um Lobo tivesse a marca em formato de coração.
Ele estava com a cabeça baixa, então Pietro não podia ver sua expressão. Os nós dos dedos dele estavam brancos.
— Então... vale a pena tentar? — quis saber Pietro. — Ter algo que as fadas não querem que você tenha?
Pietro tinha esperanças de que Kayra respondesse que sim. Kayra tinha que dizer sim. Ele queria acreditar que poderia se apaixonar e fazer com que fosse importante, e não apenas cair no lugar devido, como uma peça de quebra-cabeça.
Kayra abriu um sorriso de comiseração; de certa forma, seu destino era pior. Tudo bem que ela não precisava se preocupar com a possibilidade de mergulhar em um coma de cem anos, mas estava destinada a ficar presa em uma casa com o bestial Alan, tolerando as babaquices dele até que o “amor” o ensinasse a não ser um babaca.
— É difícil fugir do destino — admitiu Kayra. — Mas, no seu caso, sua melhor chance seria descobrir qual é o seu gatilho, qual o objeto que vai te lançar em um sono encantado, e assim você pode evitar tocar nele. É bem provável que não seja um fuso; quase não se encontram fusos hoje em dia, e fadas malignas não correm esse tipo de risco. Suas madrinhas chegaram a mencionar alguma coisa? Um objeto em que você não pudesse tocar?
— Tinha tanta coisa que elas não me deixavam fazer... eu não sei mesmo. Elas baniram por completo objetos afiados. Não me deixavam usar nem mesmo uma tesoura, a menos que fossem aquelas de ponta arredondada que a gente usa no jardim da infância.
— Será que é uma tesoura? — sugeriu Blue.
Kayra balançou a cabeça em negativa.
— Não podemos presumir isso. As madrinhas da Pietro provavelmente só estavam sendo cautelosas. A única forma de descobrir é encontrando uma fada que se lembre da maldição, para perguntarmos a ela. A gente podia perguntar para Delilah.
— Não. De jeito nenhum — disse Blue, pondo-se de pé. — É perigoso.
— É a única forma de ele se proteger — insistiu Kayra. — E se o Pietro vai para algum lugar sozinho e lá acaba por furar o dedo em seja lá o que for capaz de ativar o sono encantado, e ninguém o encontrar por cem anos? Eu preferiria perguntar à fada.
— Eu também — disse Pietro. — Eu prefiro saber.
Ele sentiu um arrepio, desejando que a luz do sol que entrava pela janela pudesse espantar o frio que havia tomado conta dele. Dormir por cem anos. E quando acordasse? Todo mundo que fizera parte de sua vida já teria morrido. O mundo tal qual ele o conhecera não existiria mais.
Perder os pais já era bem ruim; ele não podia tolerar a ideia de perder tudo.
— Eu prefiro saber — repetiu. — Para ter a chance de evitar.
— No conto da Bela Adormecida — começou Blue —, a fada má que amaldiçoa a princesa diz que ela vai furar o dedo e morrer. Foi só com a intervenção de uma fada boa que a maldição foi amenizada para o sono encantado. Delilah é uma fada má. Se vocês a confrontarem, como vamos saber se ela não vai aproveitar a oportunidade para amaldiçoar você com algo pior?
Pietro engoliu em seco. Ele não queria nem pensar no que poderia significar pior.
— É um risco que estou disposto a correr — disse ele, por fim. — Passei muito tempo sem saber de nada; não quero continuar assim. Quero saber a verdade.
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