Encantado

2 Capítulo 2


SEIS DIAS ANTES DE seu décimo sexto aniversário, sentado na Poço dos Desejos, a cafeteria de um cassino no coração de Cross River, Pietro pedia sua terceira limonada da noite e espalhava engenhosamente algumas poucas batatas fritas já frias pelo prato de forma a parecer que ainda estava comendo e não apenas ocupando espaço. Era uma da manhã e ele estava sozinho em uma cidade estranha, com sua bolsa de viagem ao lado, um livro de uma peça de teatro aberto a sua frente... e sem nenhum lugar para onde ir.

Essa não era a triunfante volta ao lar que ele havia imaginado

.

Pietro tremia de frio por causa do ar-condicionado. Seu cabelo ainda estava mais ondulado que de costume, todo rebelde por causa da umidade, além de emaranhado graças ao tanto que ele tinha andado, suado e se cansado.

Ele precisava de um lugar para ficar, mas não tinha idade para alugar um quarto de hotel sozinho. Nem coragem para acampar ao ar livre. Ele fora a três cemitérios naquele dia, pois, se não conseguisse passar a noite em Cross River, queria pelo menos ver o túmulo dos pais antes de partir. Mas tudo o que conseguira foi ficar queimado de sol e frustrada.

Ao cair da noite, seu entusiasmo havia desaparecido. A convidativa cidade à beira-mar tornara-se uma ruína em néon. Silhuetas escuras infiltravam-se por entre as sombras. As luzes dos cassinos dançavam e piscavam, queimando seus olhos como explosões estelares. O ar úmido grudava em sua pele como um admirador indesejado, e ele foi correndo para dentro do Cassino Dream para se ver livre dele.

E assim acabou indo parar na Poço dos Desejos.

Os cassinos ficavam abertos a noite toda. Ele presumiu que poderia ficar sentado na cafeteria, talvez até dar uma cochilada com a cabeça apoiada na mesa, que ninguém nem se importaria.

Mas agora que já estava ali havia três horas, os problemas daquela estratégia começavam a lhe parecer óbvios. Algum frequentador do cassino veria um garoto “indefeso” de short e regata e iria assediá-lo. Ou alguma vovó daquelas viciadas em máquinas caça-níqueis avistaria um “criminoso fugitivo” e chamaria a polícia. Ou ambos.

Pietro geralmente era considerado um alvo fácil, graças a sua aparência inocente: olhos indolentes e brandos e rosto de feições suaves que o faziam parecer ingênuo e manipulável, embora não fosse nem um nem outro. Ele mantinha a cabeça baixa para não encorajar a aproximação de nenhum bom samaritano. Ou de pervertidos.

Estava lendo Um bonde chamado desejo pela enésima vez, mexendo os lábios sem vocalizar as palavras já quase decoradas, quando notou um cara em pé junto a sua mesa. Ele levou a mão à nuca, ficou tentando desembaraçar o cabelo com os dedos, e rezou para que o estranho fosse embora.

Não deu muito certo.

— Estou ficando entediado de observar você — disse ele. — Você está lendo esse livro aí há horas!

Pietro ergueu as sobrancelhas e viu uma calça jeans rasgada, com frases escritas em tinta preta se torcendo em volta de cada perna como correntes. Um bracelete de couro com spikes cobria o pulso magro e levemente moreno. No pescoço, um cordão com um pingente de serra elétrica em miniatura.

E para completar: o cabelo e até as sobrancelhas dele eram azuis. De um azul cor de bala, um azul de tinta guache. O cabelo do garoto era todo espetado, mechas duras e pontiagudas, e, para combinar, ele exibia no rosto um sorriso presunçoso. Um piercing atravessava sua sobrancelha esquerda.

Tudo nele parecia calculado para afastar as pessoas. Como uma planta guarnecida de espinhos, ou animais cujas cores brilhantes eram sinais de veneno.

Bem, funcionava.

Pietro não sabia se ele estava flertando com ele ou o perturbando só por diversão, mas queria ser deixado em paz. E, segundo lhe dizia a experiência, a melhor maneira de se livrar de um cara atrevido era sendo rude com ele. Ele já tinha passado tanto tempo sendo educado que definitivamente sabia como fazer o oposto.

— Não estou aqui para entreter você — disse ele, com seu olhar mais frio.

Os músculos nos braços bronzeados do cara se flexionaram quando ele espalmou as mãos sobre a mesa e se inclinou sobre Pietro para ver a página que ele estava lendo, sem se deixar desanimar.

— Então está aqui para quê?

— Não é da sua conta — foi a resposta dele.

— Duvido muito.

Pietro o ignorou, na esperança de que ele ficasse entediado e fosse embora.

— A propósito, meu nome é Blue — disse ele.

Pietro revirou os olhos. Blue. Azul. Ah, tá.

— Que legal pra você.

Ele então voltou a atenção para a bolsa de viagem dele: quase explodindo de tão cheia, com o adesivo portando o código de destino da empresa de ônibus ainda colado na alça.

— Você está perdido? Não é órfão, é? Meu irmão mais velho adora seduzir órfãos.

A ideia era absurda, mas a palavra órfão a atingiu em cheio. O que sempre acontecia.

Pietro engoliu em seco sua primeira reação.

— É mesmo? — disse ele, com indiferença na voz.

— É uma doença. Então, para sua própria segurança, vou ter de pedir que vá embora.

— Este é um lugar público — argumentou ele. — Eu posso...

— Na verdade...

Mas alguém o interrompeu:

— Blue... espero que você esteja sendo legal com ele.

Ao se virar, Pietro se deparou com um garoto de camisa social branca, as mangas arregaçadas até os cotovelos. Ele era bem bonitinho, tinha cabelo cor de mel e físico atlético, mas parecia desconfortável, até mesmo um pouco envergonhado, em estar ali. Seus olhos adejavam em torno de Pietro como uma abelha distraída por uma flor.

Para ser educado, ele conseguiu abrir um sorriso forçado.

— Este é o Frederick — apresentou Blue. — Ele tem uma quedinha por "donzelas em perigo".

Ele disse isso em tom de zombaria. Frederick baixou a cabeça e murmurou:

— Mentira.

— Não, ele não está sendo legal comigo — foi a resposta de Pietro, já que Blue estava ignorando a pergunta.

— Eu estou sendo legal sim — retrucou ele. — Estou expulsando você daqui.

Pietro lhe lançou um olhar de ódio.

— Então eu deveria agradecer por você ser um babaca?

— Exatamente. — Ele se inclinou na direção de Pietro, de novo. — Aliás, o que está fazendo aqui? Você está praticamente acampado aqui no cassino.

— E você só reparou isso porque não tem nada melhor pra fazer do que me encarar.

— É — foi a resposta de Blue. — Mas também porque eu moro aqui. O Dream é o cassino do meu pai.

Pietro tomou um gole da limonada, tremendo. Que ótimo. Talvez ele estivesse mentindo... mas talvez não, e nesse caso ele seria um babaca e o chutaria para fora dali, porque era algo que podia fazer. Então, ele teria que ir andando até um dos outros cassinos, em um horário em que só Deus sabia que tipo de gente vagava pelas ruas.

Pietro agarrou sua bolsa de viagem.

— Tenho que ir ao banheiro — falou bruscamente.

Frederick ficou ruborizado e desviou o olhar.

— Então você é humano — disse Blue.

— O que mais eu poderia ser?

— Nada. — Ele sorriu. — Pode ir. Vamos esperar aqui.

Quando ele voltou, Blue e Frederick tinham pagado sua conta, e tanto seu copo de limonada quanto o prato de batatas fritas que ele “ainda não tinha terminado” fazia mais de três horas haviam sido retirados da mesa. Não era lá grande coisa, mas ele estava se agarrando àquela mesa como se fosse seu refúgio. Sentia como se tivessem roubado algo seu.

— Eu ainda não tinha acabado de comer — reclamou Pietro.

Ele se imaginou caminhando com dificuldade pela cidade de novo, só que dessa vez no escuro, com a pesada bolsa de viagem aquecendo sua coxa com o atrito, ouvindo os enervantes passos atrás de si...

— Não precisa agradecer — disse Blue. — A comida e o quarto são por nossa conta, não é transtorno algum. Não mesmo.

— Eu não estou hospedado aqui! — disse ele, cada vez mais irritado. — Era por isso que eu precisava da mesa.

Os olhos de Blue se iluminaram... e Pietro ficou nervoso: ele parecia feliz demais em saber que ele não estava hospedada ali.

— Melhor ainda. Vou levar você até o Palace, nesta mesma rua. Não é lá essas coisas... afinal, eles têm banheira em formato de coração e papel de parede cor-de-rosa e, hã... Pois é. — E lhe dirigiu um olhar como quem diz “Por aí você já tem uma ideia”. — Mas lá não vai aparecer ninguém para te atacar no quarto. Coisa que eu não posso prometer caso você durma aqui na cafeteria.

Pietro o encarou com toda a raiva que conseguia transmitir.

Ele deu de ombros.

— Nunca se sabe. Nossa clientela aqui é bem baixo nível.

— Muito tentador — murmurou Pietro. — Mas não, obrigada.

Pietro o empurrou ao passar por ele, mas Blue o pegou pelo braço, seus dedos bronzeados o segurando com força. Ele não parecia estar lhe dando a possibilidade de escolha. Estava tentando obrigá-lo a aceitar a oferta, levá-lo embora do cassino e depois...?

— Estamos no meio da noite — disse Blue com gentileza, o charme se insinuando sorrateiramente na voz dele. — Vamos... Eu e Frederick acompanhamos você até lá.

Ele sentia o sangue pulsar nos ouvidos. Que péssima ideia tinha sido aquela!

Aquilo tudo, na verdade... Pietro se soltou com um solavanco. Sua voz estremeceu ao dizer:

— Não me ouviu, não? Eu não vou a lugar nenhum com você!

Blue abriu a boca para dizer alguma coisa, mas ele não ficou por perto para ouvir.

As luzes do teto do cassino ardiam em um amarelo feio. Pietro seguia o nauseante tapete violeta, preto e dourado como se fosse a própria estrada de tijolos amarelos. Máquinas caça-níqueis ressoavam e bradavam em massa, como monstros brigando uns com os outros. Garçonetes carregando drinques costuravam seu caminho por entre a multidão.

Era 1h38 da manhã — não tinha a menor condição de ele ficar vagando pelas ruas. Então encontrou uma parte mais afastada do elaborado jardim de conto de fadas que ornamentava o saguão do Dream, pulou a frágil barricada de corda que isolava o local e se ajeitou na base de uma glicínia para esperar a manhã chegar.

Pietro olhava o relógio de tempos em tempos, o coração tamborilando de nervosismo a princípio, se perguntando quanto tempo conseguiria descansar antes que alguém a chutasse dali para fora. Porém, quando deu 1h50, depois 2h04 e, por fim, 2h15, ele relaxou.

Estava semiadormecido quando ouviu uma voz feminina murmurar:

— Ah, olhe só para ele. O que será que há de errado?

Subitamente alerta, ele tentou fingir que não tinha ouvido aquilo. Talvez a mulher nem estivesse se referindo a ele. Ou, o que era mais provável, até estivesse — mas logo a esqueceria e iria embora.

Ele ouviu o som de sapatos afundando na palha que compunha o chão do jardim, acompanhado de um resmungo masculino, como se vindo de alguém que não devia estar tão ágil às duas e meia da manhã para pular a corda e entrar na sintética floresta de contos de fadas.

Pietro ergueu o queixo — no exato momento em que o cara se agachou na frente dela.

Ele devia ter vinte ou vinte e um anos, o que o deixou surpreso. Estava acostumado com garotos universitários, por viver em uma cidadezinha cheia deles, e, de modo geral, eram uma mistura de seres tolerantes e egocêntricos que não ligavam a mínima para o que os outros fizessem. Ele não conseguia imaginar um dos alunos de sua madrinha Elza se interessando pelo que ele estava passando.

Em contrapartida, aquele cara não parecia um típico garoto de vinte e um anos.

Ele vestia um terno escuro, sem gravata, a camisa aberta no pescoço. Seu cabelo reluzia em um tom tão escuro quanto seus olhos — que eram azuis como safiras, ou como as asas de um corvo. Alguma coisa nele não era lá muito normal, bonito demais, e estranho, e Pietro se pegou observando-o como se observa o fogo: encantado e um pouco amedrontado por estar tão perto.

Ele abaixou a cabeça e olhou para Pietro como se esperasse que ele lhe contasse um segredo.

— Você não parece feliz — disse ele.

— Eu estou bem — disse Pietro, ciente do quão falso aquilo soava considerando onde estava.

— Está se escondendo de alguém?

— Não... não exatamente.

Os olhos escuros a analisavam, tentando entendê-lo, indo de sua bolsa de viagem para suas roupas amarrotadas e a inquietação que muito provavelmente estava estampada em seu rosto.

— Pode me contar. Talvez eu possa te ajudar.

Atrás dele, Pietro podia ver a jovem que a havia avistado primeiro, inclinando-se na diagonal para espiar através do bosque enlaçado de árvores. O cabelo da garota era de um castanho escuro, seu belo rosto era em formato de coração e seu corpo era ainda mais gracioso, que o vestido verde justinho que ela usava valorizava muito bem.

— Ele está bem? — quis saber a jovem.

— Elw está bem, Cora. — Baixando novamente a voz, ele perguntou a Pietro: — E então, o que está acontecendo?

Pietro deu de ombros.

— Um cara aí estava me importunando na cafeteria... então eu vim para cá.

— Um cara aí? — Ele ergueu as sobrancelhas. — É só me mostrar quem é que eu faço com que ele peça desculpas e ainda o coloco para fora daqui.

— Eu não... Como é?!

Um calafrio percorreu o corpo dele. Seus olhos permaneceram por um bom tempo fixos no preto-azulado do cabelo dele e em seus abismais olhos azuis.

— Você... trabalha aqui?

— Sou o dono — disse ele. — Quer dizer, mais ou menos. Só quando meu pai não está. E adoro botar as pessoas para fora, é só me dar uma desculpa.

— Hum... Não acho que você vá colocar essa pessoa para fora. Acho que ele é o seu irmão. Mas obrigada — murmurou Pietro.

Ele riu. Os cantos de seus olhos se voltaram para cima e, de súbito, ele estava diferente. Sua expressão estava mais natural, e ele sorria.

— Blue? O imbecil do meu irmão estava importunando você? Tem razão, não posso chutar o cara para fora daqui... mas posso te oferecer algo como reparação. Que tal uma sessão no spar? Um jantar no Rampion?

Ele começou a lhe lançar opções, como se fosse ficar feliz em dar a Pietro o que quer que ele quisesse; e, enquanto ele falava, o fluxo de sangue em sua cabeça se intensificou a tal ponto que Pietro já não ouvia mais as palavras. A forma como os olhos dele naturalmente se fixaram nos seus, assomada à linguagem corporal, ao timbre de sua voz agora que ele estava sendo legal, tudo isso fez com que Pietro se desse conta de que... aquele homem, até que era bem sexy. E, quando a mão dele por acaso roçou a sua, um choque provocante eletrificou suas veias. Aquele cara não era um garotão com seu skate, cheirando a colônia barata, que ria exageradamente de piadas desagradáveis. Ele era outra coisa, alguém que vivia em um mundo diferente, e Pietro gostou disso.

— Não, sério, eu estou bem — disse Pietro, envergonhado de estar sendo tão afetado por aquele cara que mal conhecia, a apenas três metros da namorada dele, que continuava ali parada, de pé. — Só quero ficar sentado um tempinho aqui.

Ele balançou a cabeça em negativa.

— Você não pode ficar aqui no jardim. Qual é o número do seu quarto? — Ele pegou o celular. — Eu falo com os seus pais. Você brigou com eles? É por isso que está com essa bolsa de viagem?

A namorada começara a ficar inquieta, alternando o peso do corpo entre uma perna e outra, esfregando os braços descobertos. Parecia menos preocupada e mais impaciente agora.

— Está tudo bem? — perguntou ela.

Ele fez um aceno com a mão na direção dela, como quem diz “espere”.

— Eu não estou hospedado aqui — disse Pietro. — Não estou com os meus pais. Vim para cá encontrar os meus pais.

Pietro exalou o ar com força, em frustração, já se arrependendo de ter dito aquilo sem pensar. Já esperava que ele lhe dissesse como aquilo era imbecil. Em vez disso, porém, ele pareceu interessado:

— Você veio encontrá-los?

— Estou procurando o túmulo deles. Eles morreram aqui em Cross River faz muito tempo, mas não sei onde foram enterrados. E eu não... não tenho nenhum lugar para onde ir agora.

Pietro ficou mexendo, inquieto, no zíper de sua bolsa de viagem, certo de que teria que ir embora dali. Seus músculos estavam tão exauridos de ter passado o dia todo andando que ele só queria dormir. Entregar-se, desistir, e de todas as formas possíveis.

— Você não tem um lugar para ficar, nenhum parente por aqui, nada?

Ele balançou a cabeça, confirmando com uma negativa, envergonhado. Pietro tinha sido obcecadamente cuidadoso com todos os detalhes de sua fuga, mas contara que seus instintos e sua íntima ligação com seus pais a guiariam assim que chegasse em Cross River. Agora ele se sentia uma idiota.

— Pois agora tem — disse ele, erguendo a bolsa de viagem de Pietro antes que ele pudesse impedi-lo, abaixando a corda que isolava o jardim artificial e olhando para trás de relance, como se esperasse que Pietro o seguisse. — Você não vem?

— Hum... — Ele o seguiu, hesitante. — Eu consigo carregar isso aí. E a minha intenção não era descolar caridade quando eu...

— Relaxe — falou ele, virando o corpo para impedir que ele pegasse a bolsa de volta. — e me deixe ajudá-lo.

Relutante, Pietro pulou a corda, que só então ele soltou. Pietro não sabia ao certo aonde eles estavam indo, mas tinha certeza de que Cora não estava nem um pouco animada com aquilo. O olhar feio que a garota dirigiu a ele não deixava dúvidas.

— São duas da manhã — disse o irmão de Blue. — E temos quartos desocupados. Então você vai passar a noite aqui no Dream. Sem discussão.

Pietro assentiu, embaraçado.

— Ok. Quer dizer... obrigada.

— Ou você pode chamar a polícia — disse Cora ao namorado, sua voz assumindo uma rispidez até então inexistente. Ela cruzou os braços. — Já que é bem provável que tenha alguém procurando por ele. Além do mais, ele não é problema seu.

Pietro sentiu um calafrio percorrer seu corpo.

— Eu... não tem ninguém procurando por...

— Todo mundo neste hotel é problema meu — respondeu ele friamente, com um olhar incisivo para a namorada. — E tenho certeza de que se ele quisesse que chamassem a polícia, ele mesmo teria feito isso. Então, que tal você ir jogar? — Ele tirou do bolso um punhado de fichas de aposta. — Veja se consegue perder o meu dinheiro ainda mais rápido. Tente bater seu recorde.

Cora fez cara feia, mas aceitou as fichas, enfiando-as na bolsa-carteira preta como se já tivesse feito isso uma centena de vezes.

— Tudo bem, mas veja se anda logo. Não estou sentindo a sorte muito do meu lado hoje.

— Ligo para você mais tarde.

Ele apertou o botão do elevador, e, quando as portas de metal se abriram, entrou junto com Pietro, deixando Cora para trás.

Os reflexos dos dois se multiplicavam pelos espelhos que forravam todos os lados do elevador — mostrando a Pietro que ele estava mais desgrenhado do que havia imaginado. Seu cabelo ondulado estava emaranhado e grudado em alguns pontos, como se ele tivesse rolado pelo chão de uma floresta em vez de apenas dormido encostado em uma árvore. Ele se segurou para não tentar ajeitar aquele horror, pois não queria dar a impressão de que estava tentando ficar bonito para o outro. O que seria mais embaraçoso que o cabelo bagunçado.

Ele levou Pietro a um quarto no vigésimo andar, abriu a porta com a chave-mestra e, ao entrar, colocou a bolsa de Pietro no chão, depois seguiu a passos largos até a janela e abriu as grossas cortinas. O luar inundou o quarto, fazendo os objetos e móveis escuros tomarem forma.

Ele se virou na direção de Pietro, mas não se afastou da janela.

— Você chegou à cidade esta noite?

— Hoje mais cedo.

Ele foi se deixando levar para a janela, atraído pela vista. Lá embaixo, podia ver as sinuosas ondas negras do oceano, tingidas de prateado pela lua. Ali, longe do clamor das máquinas de jogo, do caos de centenas de vozes, o Dream estava bem silencioso.

— Então você não conhece a cidade muito bem?

— Não — admitiu ele. — Tenho um mapa, mas... é difícil saber por onde começar.

Ele olhou Pietro com cautela, como se estivesse considerando algo.

— Se não estiver com pressa, talvez eu possa ajudar você. Se estiver disposto a ir fundo nisso.

— Eu estou disposto — ele apressou-se em dizer. — Faz tanto tempo que eu tenho esse desejo em mente que... Significaria muito para mim.

Ele estava com pressa, mas a ideia de ter que caminhar sozinho pela cidade era tão desanimadora que não custaria nada esperar alguns dias se isso fosse lhe render alguma ajuda.

— Tudo bem então — disse ele. — Bem... não posso prometer nada, mas vou ver o que posso fazer. E, enquanto isso, você será nosso hóspede.

— Obrigada. Muito obrigada.

Pietro se sentia como se estivesse balbuciando coisas sem o menor sentido, mesmo quando mal abria a boca. Ele estava sendo tão gentil... Pietro já devia tê-lo deixado ir embora. Pietro começou a se afastar da janela e o outro disse:

— Então, me conte sua história. — E ele parou. Podia sentir a atenção dele, como uma mão em seu pescoço. — Quem você deixou para trás em casa? Pais adotivos?

— Minhas madrinhas. Elas conheceram meus pais. Estavam lá quando eles... morreram. E cuidaram de mim desde então.

Ele recostou o ombro na janela e inclinou a cabeça para olhar para Pietro. A luz prateada transformava a cor de seus olhos e cabelos em um tom de preto tão escuro quanto a madrugada.

— Você se incomoda se eu perguntar o que aconteceu?

Normalmente ele não falava sobre sua tragédia, mas o olhar dele lhe inspirava o desejo de confiança. Além do mais, ele havia se disposto a ajudá-lo com... com aquele sonho que significava tudo para si. Ele merecia conhecer sua história.

Pietro abaixou a cabeça.

— Eu tinha três meses de vida. Estávamos na minha festa de batismo... Era um belo salão de festas, com uma pintura no teto como a Capela Sistina, só que com cenas de contos de fadas. Por mais que a pessoa girasse e girasse, sempre podia ver uma história diferente. Havia uma menina com uma capa vermelha correndo de um lobo, uma sereia com barbatanas prestes a se transformarem em pernas e... uma bela domando uma fera. Isso foi o que minhas madrinhas me contaram... Eu era novo demais para lembrar.

Pietro inspirou fundo, fez uma pausa. A história daquela noite estava inteira em sua cabeça, em uma linha contínua como uma daquelas histórias que se contam às crianças para fazê-las dormir, porque era assim que suas madrinhas lhe contavam, mas ele não conseguia recontar a história direto. Tinha que dividi-la em antes e depois.

— Depois... começou o incêndio. Que se espalhou pelo salão e foi subindo, engolindo as cortinas e chegando até o teto. A fumaça enchia o ar e as vigas começaram a cair... e meus pais estavam tentando salvar todo mundo. Eles me entregaram para minha madrinha Belle, que me envolveu no xale dela e saiu comigo, fugindo do fogo em direção a algum lugar seguro. Como era uma festa, tinha muita gente, mas meus pais conseguiram fazer com que todos saíssem a salvo. Só que eu acho que eles não se deram conta de que já tinham conseguido isso, porque continuaram procurando mais pessoas. Então eles foram... — As palavras ficaram presas em sua boca, duras como pedra. — Eles foram os únicos que não conseguiram sair de lá a tempo.

— Que trágico. Eles agiram como heróis, mas poderiam ter sobrevivido se soubessem.

Ele disse isso como se realmente se importasse. Como se entendesse o quão horrível era ter perdido os pais daquele jeito.

— Isso é o pior. Mesmo me culpando por pensar assim, minha vontade é de que eles não tivessem feito tanto esforço para salvar todo mundo. Porque... porque talvez assim eu ainda tivesse os dois comigo.

Pietro já esperava ouvir que aquele seu desejo não era realmente o que ele queria, como Elza sempre dizia, ou que era egoísmo abrir mão de tantas vidas por apenas duas. Mas não: a mente dele estava em algum outro lugar.

— Uma festa de batismo... Então seus pais eram muito tradicionais.

— Pelo menos é o que parece pelas fotos. Eu devo ter só uma foto em que meu pai não aparece de smoking — disse Pietro, com um sorriso. — Mas não sei. Geralmente penso neles como perfeitos.

Ele inclinou a cabeça para trás, cerrando os olhos. O luar deslizava por seu pescoço.

— Não me lembro muito bem da minha mãe. Nunca pensei nela como perfeita. Provavelmente por ela ter ido embora de casa. Quando alguém escolhe abandonar você... é diferente.

— Você perdeu sua mãe?

Pietro não esperava ter algo em comum com ele. Será que tinha sido por isso que ele havia se oferecido para ajudar-lhe?

— Ela nos deixou quando eu tinha oito anos. Acho que tinha medo de se apegar.

Pietro apenas assentiu, sem saber o que dizer. Não conseguia imaginar uma mãe que fosse tão fria a ponto de deixar a família por um motivo desses.

— Sinto muito — disse a ele.

Ele deu de ombros.

— Isso foi há muito tempo.

Eles permaneceram junto à janela por mais um instante, até que ele foi até o interruptor e acendeu a luz. O quarto expandiu-se, passando de um oceano escuro para uma suíte ligeiramente pomposa; o brilho e o tremeluzir do cassino se mesclava com as cores de mar e areia.

Agora que o quarto estava mais claro, parecia menos íntimo, menos propício para confissões.

Pietro foi tirando suas coisas da bolsa de viagem enquanto ele ligava para a recepção. Ele desenrolava camisetas e camisas e calças tentando não o encarar.

— Aqui é o Dereck — disse ele ao telefone. — Preciso que você ative uma chave para o quarto 2015 e traga aqui em cima. Isso. Só anote aí que é meu convidado. Deixe a data de saída em aberto.

Ele — Dereck — desligou o telefone e o fitou. Ficou parado por um instante, observando-o desfazer a mala.

— Vão trazer a sua chave.

— Obrigada — disse Pietro, afastando o cabelo do rosto e se endireitando.

Ocorreu-lhe então que talvez ele estivesse sendo pretensioso. Que era rude presumir que ficaria de graça no quarto.

— Eu tenho como pagar — disse, pegando a carteira.

Mas Dereck fez que não com um movimento curto e enfático de cabeça.

— Não se preocupe com isso. Vou me sentir melhor se você não ficar na rua. Pense como se estivesse me fazendo um favor. Não como se me devesse um.

Dereck sorriu, e havia algo vulnerável em seu sorriso, como se fossem amigos. Pietro retribuiu o sorriso, sentindo-se seguro e menos perdido... e a tensão que tinha suportado o dia todo começou a baixar como a maré de um oceano.

Poucos minutos depois, alguém bateu à porta. Um funcionário do hotel trazendo o cartão-chave. Dereck dispensou o funcionário após pegar o cartão. Deixou-o sobre a escrivaninha ao lado de um bloco do hotel, em que anotou alguns números úteis: da recepção, do serviço de quarto, o celular dele... e foi então que Pietro, por fim, ficou sabendo seu nome completo, as letras surgindo em uma série de traços elegantes e inclinados:

Dereck Valentine

— Se não conseguir falar comigo... provavelmente é porque estou resolvendo algum assunto importante ou em uma reunião e não posso atender. Não vá pensar que estou ignorando você. — Ele então parou, perdido em pensamentos, e riu. — Até agora eu não perguntei seu nome. Fiquei tão envolvido em... — Ele balançou a cabeça. — Está tarde, eu não estava pensando direito. Como você se chama?

— Pietro — respondeu ele. — Ou Pie.

— Tudo bem, Pietro... Vou deixar você dormir um pouco. Mas me ligue se precisar de alguma coisa. E amanhã, ou depois de amanhã, vamos dar início à nossa busca... assim que eu conseguir arrumar um tempinho.

— Se estiver ocupado, posso fazer essa busca sozinho. Você já fez muito por mim, não precisa...

Mas as palavras secaram em sua boca. Algo no jeito como Dereck o olhava... aqueles olhos azuis plenos de autoconfiança... alguma coisa fazia com que ele se sentisse um bobo em insistir em dizer que ele não precisava se envolver naquilo. Ele pôs a mão em seu ombro e disse:

— Pietro, eu passo os meus dias fazendo coisas que não quero fazer. Mas ajudar você é algo que eu quero fazer. Posso arrumar um tempo para isso.

Dereck então se inclinou para frente, e seus lábios roçaram a face de Pietro, e por um instante Pietro não conseguiu enxergar mais nada além dele. O mundo havia sido reduzido à calidez dos lábios dele, ao leve cheiro de fumaça em suas roupas, ao aroma intenso de seu perfume.

E então ele se afastou. Provavelmente estava só sendo gentil. Mas Pietro não estava acostumado a receber beijos de ninguém além de suas madrinhas. Não estava acostumado a beijos que fossem ao mesmo tempo assustadores e maravilhosos, casuais e memoráveis. Seu mundo era muito menor que isso.

— Tudo bem? — perguntou ele, com um sorriso.

— Tudo bem — Pietro conseguiu dizer, desconfiando que não sabia mais o que estava respondendo.

— Ótimo.

Dereck seguiu para o corredor, mas parou um instante para dizer a ele:

— Ei... tranque bem a porta depois que eu sair. Por aqui, cuidado nunca é demais.

— Pode deixar — prometeu.

Mas não o fez. Não de imediato. Sua bochecha ardia como se ele tivesse pegado sol por tempo demais, e ele ficou ali parada, de pé, completamente imóvel, para não quebrar o encanto.

O cheiro do perfume de Dereck permanecia em sua pele.

Quando fechou os olhos, conseguiu imaginar que ele ainda estava lá. Conseguiu reviver aquele beijo uma vez mais. Todos os dois segundos que tinha durado.

Suspirando lentamente, Pietro enfim trancou a porta e tirou os chinelos, chutando-os para longe. Esperou que sua fantasia se dissolvesse (Foi um beijo equivalente a um aperto de mãos; nenhum motivo para ficar todo animado ) e permitiu que a deliciosa liberdade de estar descalço o trouxesse de volta à realidade. O carpete era um alento, bem diferente do asfalto quente de uma estrada sem fim à vista. Pietro tinha um quarto; não precisava mais ficar com medo de que alguém o importunasse ou o machucasse. Podia descansar.

Mas, antes de tudo: um banho. Estava grudento demais de suor para ir dormir.

Foi calmamente até o banheiro. Era imenso, com toalhas dobradas tão macias quanto almofadas, uma parede inteiramente espelhada e uma banheira de hidromassagem bem funda separada do chuveiro.

Tirou as roupas sujas e entrou no box rodeado por paredes de vidro. Esfregou-se até eliminar a camada de sujeira do dia de viagem, se sentindo por fim uma nova pessoa, com esperanças renovadas... e nisso seus dedos esbarraram na deformidade que ele tinha na base das costas.

A marca.

A marca ficava na base de sua coluna. Era de um tom de vinho como uma queimadura, a pele do local menos opaca e mais lisa e fina, tal qual uma cicatriz: um anel raiado por finas linhas vermelhas, como uma roda. Tão grande quanto seu punho.

As roupas cobriam a marca se ele tomasse o cuidado de usar camisetas compridas, mas com a roupa de praia não tinha jeito. Parecia que ele havia sido marcado a fogo, e Pietro odiava isso.

Suas madrinhas diziam que era bobagem ficar constrangido por causa de “uma pequena marca de nascença”. É o seu corpo, não tem nada de errado com você.

Como se fosse normal ter uma marca horrenda em forma de roda na pele.

Ele sentiu uma pontada de culpa ao pensar em Elza e Belle, e ficou se perguntando onde elas estariam naquele exato momento; se teriam pegado um voo para San Francisco ou se estavam botando a casa abaixo, em pânico. Mas Pietro estava exausto demais para ficar se martirizando com isso. Ele não gostava de mentir para suas madrinhas, mas elas não tinham lhe dado muita escolha. Pietro precisava de uma conclusão emocional para aquele difícil evento de sua vida, era uma necessidade explorar sua conexão com os pais. Enfrentaria as consequências quando voltasse.

Ao acabar o banho, Pietro envolveu seu cabelo loiro com uma toalha, vestiu o conjunto de short e regata que comprara para usar como pijama e deitou na cama, enfiando-se debaixo dos lençóis, deixando que as cobertas o engolissem como areia movediça.

Estava tão cansado que mal conseguia sentir os braços e as pernas — mas mesmo assim seu cérebro não adormecia. Encarando a negritude do teto, ele se perguntava se era louco, tendo percorrido toda aquela distância para se ajoelhar ao lado de dois túmulos. Partir o coração de suas madrinhas para salvar o seu.

É claro que você é louco. Só não sei até que ponto.

As cobertas eram pesadas, como se ele estivesse deitada debaixo da terra.

Normalmente, quando não conseguia dormir, Pietro se refugiava em seus devaneios, encontrava conforto em sonhar acordado. Desenrolava uma história para seus pais como se fosse um tapete de veludo, e os guiava por ali até cair no sono.

Aquela noite, no entanto, ele se sentia preso demais à realidade do momento para deixá-lo.

Estava em um lugar novo, em um belo quarto só seu. Pensou em Dereck, no beijo que ele lhe dera no rosto, e seu coração se acelerou como se quisesse lembrá-lo de que estava ali. Pietro havia passado oito meses obcecada com seu plano, escrevendo cartas de amor para um garoto que não existia. Era legal a sensação de uma paixonite de verdade uma vez na vida.

Quando adormeceu, sonhou com o oceano, com pétalas de glicínia acariciando sua pele. Com Dereck ajoelhado na areia, a espuma do oceano escorrendo de seus dedos e ele murmurando:

Aqui estão eles.

Acordou com um tremendo bam!.