Encantado
3 Capítulo 3
A PÁLIDA LUZ DA aurora vazava para dentro do quarto pelas bordas das cortinas, apenas o bastante para que Pietro visse que a tranca da porta havia sido arrombada, e que a porta havia sido escancarada e batida com força contra a parede. Uma silhueta esguia e escura avançava rapidamente pelo quarto...
E se lançou sobre a cama.
Pietro começou a gritar; esticou a mão para pegar o telefone ao lado da cama enquanto o corpo do intruso caía em cima do seu. Uma mão quente cobriu com violência sua boca.
— Por que ainda está aqui? — sibilou ele. — Você é louco?
Desorientado, mas cheio de adrenalina, Pietro deu um tranco com o corpo — ele era mais forte do que parecia: fazia dança de salão havia anos —, e conseguiu fazer com que o estranho saísse rolando de cima dele, o corpo dele indo cair com um baque no chão. Seus instintos lhe diziam:
Lute, proteja-se.
Ele desceu da cama de um pulo e aterrissou sobre ele, atingindo-lhe o peito com os joelhos.
Então esticou a mão para pegar o telefone — e o teria esmagado na cabeça do invasor se ele não tivesse erguido os quadris com força e lançado Pietro para o lado. Ele o agarrou pelos pulsos e o imobilizou de costas no chão. Inclinou-se sobre Pietro.
E, sob a obscura quase aurora, ele o reconheceu. O cabelo espetado. O corpo magro, que fazia um esforço para mantê-lo preso. E então seu medo se transformou em raiva.
— Você é louco mesmo — murmurou Blue. — Você precisa dar o fora daqui, agora!
— Me largue! — disse Pie, tentando levantar a perna para golpeá-lo com o joelho em um lugar sensível.
— Estou tentando impedir que você seja morto.
— Ah, sei...
A porta arrombada já havia oscilado e quase se fechado com um clique fazia um bom tempo.
Agora foi aberta de novo. A expressão preocupada de Frederick apareceu quando ele enfiou a cabeça no quarto para ver o que estava acontecendo.
— Está tudo...?
Quando ele viu os dois no chão, entrou correndo, com uma expressão mortificada.
— Blue, o que você está fazendo?
— Você sabe o que eu estou fazendo.
— Tire o imbecil do seu amigo de cima de mim! — exclamou Pietro.
— O imbecil aqui é você! — retrucou Blue. — Porque ainda está aqui. Tenho plena certeza de que mandei você ir embora.
Eu odeio você, pensou Pietro, olhando com raiva para ele.
O pingente de serra elétrica do cordão de Blue balançava no ar, a lâmina prateada suspensa bem na frente do rosto de Pietro, provocando-o.
A vontade de Pietro era dar um safanão naquele pingente, mas suas mãos estavam presas. O chão, que tinha parecido tão macio na noite anterior, estava duro sob seus ombros; ele se sentia quase nu em seu minúsculo pijama improvisado — ótimo para quem morava em uma casa cheia de mulheres, não para ser atacado por garotos estranhos.
Frederick se jogou ao lado deles, aflito.
— Solte o menino, Blue; isso não fica nada bem.
— Por que não faz alguma coisa — disse Pietro —, em vez de ficar com essa cara de cãozinho triste?
— Ei! — exclamou Frederick, com cara de cãozinho triste.
— Não vou molestar você — disse Blue.
— Está molestando o meu pulso — falou Pietro. — Eu não quero que encoste em mim.
— Eu não queria que você chutasse meus pulmões, então acho que estamos quites.
— Engano seu — disse ele por entre os dentes.
— Vamos ao que interessa — disse Blue. — Você precisa sair desse hotel. E não voltar aqui nunca mais. E se eu tiver que carregar você para fora, arrastá-lo à força até o cassino Palace ou a um hotelzinho qualquer de beira de estrada, é o que vou fazer. E se tiver de machucar você, vou
machucar. Eu não sou legal. Então não me teste a menos que queira provas disso.
Pietro respondeu a isso com palavras que Belle e Elza nunca lhe permitiriam dizer. Blue sorriu, como se tivesse acabado de ouvir que era um talentoso agressor.
Frederick parecia chocado.
—Adolescentes não deveriam falar assim.
— Ah, cale a boca! — retrucou ele, com raiva.
— Seja legal com o Frederick — disse Blue. — Ele gostou de você.
— Talvez eu também não seja legal — disse Pietro.
— Certo. Seja malvado com o Frederick, mas não venha me culpar se um pardal apaixonado arrancar seus olhos. Eu avisei.
Ele então o soltou e se levantou, olhando-o com atenção como se esperasse ser atacado.
— Pegue suas coisas. Vamos embora daqui.
— Os pardais nunca machucariam ninguém — disse Frederick. — Um gaio azul poderia ferir alguém. Ou um beija-flor. Mas nunca um...
Ignorando-o, Blue gritou com Pietro:
— Ande logo! Você tem dois minutos antes que eu mesmo comece a colocar suas coisas dentro da sua bolsa.
— Você é doido! — disse Pietro, vestindo o casaco e puxando o zíper até em cima estava cansado daqueles dois encarando-o. — Primeiro você me oferece um quarto. Depois, tenta me arrastar até algum hotel meia-boca. E quando o seu irmão é realmente legal comigo, você tem um acesso e me ataca. Que parte disso faz sentido?
Ele balançou a cabeça, irritado.
— Se eu o tivesse colocado em algum outro lugar, você não teria conhecido o meu irmão. Não quero que ele chegue perto de você. E ponto-final.
— Não acredito que você está com ciúme do próprio irmão — murmurou Pietro.
— Ciúme? — Blue apertou os olhos, finalmente parecendo estar com raiva, e assumiu uma expressão que lhe dava um ar diferente daquela arrogância repulsiva que em geral demonstrava.
— Você não faz a mínima ideia de onde está se metendo. Agora faça o que digo antes que eu tome uma atitude da qual posso me arrepender.
Pietro enfiou os pés nos chinelos, bufando como um touro. Estava furioso.
— Duvido que você se arrependa de alguma coisa! Antes você precisaria ter consciência.
— É, é... Vamos. — Ele o empurrou de leve por entre as omoplatas.
— Aqui não é o seu lugar. Você nem faz ideia.
Blue e Frederick o conduziram pelo saguão do Dream até a entrada principal. Lá fora, um funcionário do hotel estava parado, a postos para guiar hóspedes que chegassem ou saíssem de táxi. Ao avistar Blue, ele fez um movimento indicando o carro do hotel, um utilitário Lexus preto,
e os instalou em segurança. Pietro se perguntou se faria alguma diferença para o manobrista se ele tivesse anunciado que estava sendo feito refém.
Imaginava que não.
— Aonde vamos? — perguntou o motorista.
— À propriedade dos Deneuve — respondeu Blue.
— Gabi não vai querer nos ver assim tão cedo — comentou Frederick.
— Não me importa o que Gabi quer ou deixa de querer.
— E alguma vez você se importa com o que alguma pessoa no mundo quer? — provocou Pietro, acidamente.
— Não — respondeu Blue.
Ele abriu as janelas do carro e se acomodou, relaxado, no amplo assento de couro. Fechou os olhos, seu corpo amolecendo como água, como se estivesse determinado a cochilar por alguns minutos. Pietro sentiu uma vontade intensa de agredi-lo enquanto ele estava ali vulnerável, para
se vingar por ele tê-lo prendido contra o chão, mas parecia absurdo começar uma briga na frente do motorista do hotel.
A manhã como um todo foi absurda. Em toda a sua vida, Pietro nunca tinha sentido tamanha raiva, nem nunca se sentira tão agressivo. Normalmente ele não tinha aquela vontade de bater nos outros, nem mesmo de gritar com ninguém — porque em geral dá para conversar
racionalmente com as pessoas. E, se não der, há sempre a opção de evitá-las. Mas Blue era impossível. Era um garoto muito rude e hostil, e estava... inexorável em relação a isso.
Pietro se ajeitou em seu lugar e fez o que pôde para ficar calmo. Talvez depois Dereck desse um soco no irmão por ele.
Seguiram em um silêncio quase total, interrompido apenas por Frederick, que volta e meia perguntava ao motorista se ele não queria ouvir o CD de sua banda — ao que o motorista sempre respondia com um firme “não”. Os prédios altos e as extensões prateadas de oceano deram lugar
a estradas margeadas por árvores de magnólia e carvalhos à medida que eles deixavam a área central da cidade para trás. Um intenso cheiro de verde penetrou no carro, tão forte que Pietro chegava a sentir o gosto.
No momento em que chegaram à propriedade dos Deneuve, uma mansão branca localizada à margem de um campo de golfe arborizado, Pietro tinha passado de furioso a apenas irritado e agora estava quase esperançoso. Gabi devia ser uma garota. Gabi provavelmente não pularia para cima dele para atacá-lo nem ficaria lhe dando ordens a torto e a direito; talvez até ficasse do seu lado e gritasse com aqueles dois jovens raptores — ainda mais considerando que eles a estavam incomodando àquela hora da manhã.
Quando eles saíram do carro e se dirigiram à casa, Pietro viu um adolescente forte e de cabelo escuro empurrando um cortador de grama pelo terreno inclinado, contornando os carvalhos que pontuavam o jardim. Seu peito estava úmido de suor, e pedacinhos de grama cortada salpicavam
sua pele morena-clara. Ele usava uma bermuda esportiva marrom, com uma camiseta por dentro do elástico da cintura.
O garoto desligou o cortador de grama quando os viu — e olhou para eles de cara feia.
Pietro torceu para que aquele não fosse Gabi. Mas, vendo pelo lado positivo, mais alguém estava infeliz em ver Blue e Frederick. O mundo estava começando a fazer mais sentido.
Blue foi subindo o jardim como se a expressão irritada do garoto tivesse renovado suas energias. Pietro teve que correr para acompanhar os passos dele.
— Quer que eu carregue a sua bolsa? — ofereceu Frederick. Ele parecia um pouco culpado, mas esperançoso também.
— Não. — Pietro torceu a alça em volta do pulso, de forma que ele não pudesse puxar a bolsa. — Não preciso de nenhum favor seu.
— Mas eu quero fazer esse favor para você.
Pietro olhou com ódio para ele.
— Não.
Ao se aproximarem da casa, avistaram uma mulher no alpendre. Ela vestia um robe cor-derosa elegante e quase transparente, ornamentado com penas de marabu, e segurava uma taça de martíni cheia do que parecia ser suco de laranja. Os seios fartos e empinados (e provavelmente muito caros) saltavam do decote de seu robe. Mal balançaram quando ela os cumprimentou com um aceno.
— Aquela é a Gabi? — quis saber Pietro.
Blue desatou a rir.
— Sorte sua ela não ter ouvido você dizer isso.
— Aquela é a Regina, a madrasta malvada da Gabi — disse Frederick. — Opa, a madrasta da Gabi — corrigiu ele. — Madrasta normal, foi o que eu quis dizer.
— Hum... entendi — disse Pietro.
— E aquele é o Harry — acrescentou Blue enquanto eles davam a volta na colina, apontando para o rapaz que estava cortando a grama. —
Ele trabalha aqui, é o jardineiro. Entre outras coisas.
Quando chegaram perto de Harry, ele secava o suor do rosto com a camiseta. Devia ter a idade deles, cerca de dezessete anos, mas sua testa já estava enrugada, como se tivesse passado anos vigilante, esperando que alguma coisa ruim acontecesse.
— Por que você tinha de trazer o Knight aqui? — perguntou Henley.
A voz dele era grave e forte, como daqueles garotos da escola que se davam mal em todas as aulas, menos na de educação física, e que viviam eternamente irritados.
— Relaxe. Não seja paranoico.
— Harry acha que eu sou a fim da Gabi — sussurrou Frederick para Pietro. Um sussurro não muito sutil, na verdade, pois acabou saindo um pouquinho alto demais. — Mas eu não quero. Nunca nem tentei nada.
— Quem é esse? — perguntou Henley, agora olhando para Pietro.
— Ninguém importante — disse Blue. — Só um garoto qualquer que estou protegendo de um sedutor.
— Meu nome é Pietro — disse ele, oferecendo a mão.
Ele o cumprimentou com sua mão suada e quente. Seus olhos estreitaram-se; ele ainda parecia estar com raiva, mas não de Pietro.
— Prazer em te conhecer, eu acho. Pena que seja na companhia desse babaca.
— Gabi está viva, certo? — perguntou Blue. — Você não arrancou o coração dela, espero?
— Qual o seu problema? — exclamou Pietro, irritado. — Que coisa repulsiva!
Henley mantinha a expressão severa, o olhar pesado sobre Blue.
— Sorte sua eu não estar com um machado aqui comigo, Valentine.
— Sorte de todo mundo, não? — retrucou Blue. — Mas então, e a Gabi?
— O que você quer com ela?
Harry era o jardineiro, mas se comportava como um guardião. Pietro se perguntava por quê. Talvez ele fosse o namorado da tal Gabi... ou talvez quisesse ser.
Blue deu de ombros.
— Preciso tirar do hotel esse pirralho arrogante aqui. O Dereck o trancou em um quarto e ele acha que Dereck é simplesmente um sonho.
— Ah, cale a boca! — disse Pietro. — Você não sabe de nada sobre mim.
— Enfim — prosseguiu Blue —, ele não tem lugar para ficar, então vim incomodar a Gabi. Achei que fosse uma boa ideia, quando considerei essa possibilidade pela primeira vez.
Blue olhou de relance para a madrasta de Gabi, apoiada na balaustrada do alpendre, mergulhando o dedo em sua taça de martíni e espiando o grupinho ali reunido.
— A Regina está olhando para cá para verificar se a grama está sendo bem cortada ou ela só fica assim por perto para o caso de você precisar que alguém lamba o suor do seu peito?
Harry se enfureceu.
— Ela gosta de tomar o café da manhã ao ar livre, só isso.
— Foi o que imaginei — disse Frederick, em um tom bem-humorado. — Ela parece uma mulher bacana. Apesar de ser tão perversa.
— Cale a boca, Knight — rosnou Harry.
Os quatro deram a volta até os fundos da casa, onde ficava a sacada do quarto de Gabi.
A sacada dava vista para um pequeno jardim composto apenas por um poço de pedra rodeado de árvores frutíferas. Pássaros pontilhavam os galhos das árvores como enfeites de Natal até virem Frederick, quando então saíram voando e o cercaram, batendo as asas acima da cabeça
dele como uma coroa flutuante. Esquilos listrados surgiram dos arbustos e foram guinchar aos pés dele.
Frederick estendeu a mão, e um pardal empoleirou-se em seu dedo. Ele deu uma risada inocente e falou:
— Pietro, olhe! — E fez um gesto, chamando-o mais para perto. — Não se preocupe, esse não vai arrancar os seus olhos.
Mas Pietro manteve distância, impressionado demais para se mover.
As criaturas do bosque ignoravam tanto Harry quanto Blue, mas pareciam não se cansar de Frederick. Não era uma visão assustadora, mas era estranho. Era contra a natureza. Pietro fechou os olhos com força, na esperança de que o grupo de animais adoradores de Frederick sumissem.
Mas, quando abriu os olhos, continuavam todos lá. Frederick ainda ria, daquele jeito doce dele, tilintante. E Harry o olhava de cara feia, como se Frederick fosse o mal em forma de gente.
— Outra marca, outro destino — Blue estava dizendo a Harry, em um tom de voz baixo e calmo. Seus olhos foram rapidamente na direção de Pietro; e logo se desviaram.
— Ah, é — bufou Harry. — Como se ele não notasse.
As portas francesas que davam para o quarto de Gabi estavam escancaradas, uma brisa sugando para dentro as cortinas brancas translúcidas para depois lançá-las para fora.
Harry colocou as mãos em concha em torno da boca e gritou, em voz bem grave:
— Gabi! Acorde!
Um minuto depois, uma garota apareceu na sacada. A luz do sol foi revelando-a aos poucos, como se o próprio sol relutasse em tocá-la.
Sua pele era branca como giz; sua boca, de um cor-de-rosa avermelhado, como sementes de romã; e seu cabelo, tão negro quanto uma pincelada de caligrafia chinesa. Ela vestia uma camisola que caía quase reta em sua silhueta franzina como a de um menino, e usava uma máscara de dormir de cetim vermelho que ela havia puxado para a testa.
— Olá, Gabriele — disse Blue.
A garota apoiou os cotovelos na balaustrada, e três pombas desceram alvoroçadas para se juntarem a ela.
— Ah, meu Deus! Primeiro o jardineiro, e agora isso. Preciso do meu sono da beleza, sabiam?
— Logo, logo você vai poder dormir bastante — disse Blue. — Bem que poderia ficar consciente enquanto pode.
Ele abriu um largo sorriso puxado para o lado, olhando para ela lá no alto. Gabi passou a mão pelo rosto, com ar de extrema infelicidade.
— Se eu controlasse esses pássaros, eles estariam cobrindo vocês de cocô — disse ela.
— Que pena que você controla só o coração deles, não a mente — disse Blue. — Podemos subir?
— Acho que sim. Sei que vocês só vão embora se eu disser que sim.
Harry conduziu-os pela porta dos fundos, que ia dar direto na cozinha. Pedacinhos de grama caíam no chão enquanto o jardineiro colocava para dentro da bermuda a camiseta suja de terra. Ele parecia desconfortável dentro da elegante casa. Como se ali não fosse seu lugar e ele soubesse disso.
Quando chegaram ao quarto de Gabi, encontraram-na de roupa trocada, sentada na beirada de uma imensa cama vermelha e preta, seu corpo se destacando em meio aos lençóis vermelho-sangue.
Ela tomou um gole de uma garrafa de Coca-Cola pela metade e fez uma careta.
— Sem gás — reclamou. — E quente.
— Porque você é preguiçosa demais para descer e ir pegar outra garrafa — disse Harry.
— Porque eu não quero ver aquela vadia — retorquiu Gabi, com raiva.
Blue se jogou na cama e apanhou um travesseiro para ficar confortável.
— Ei, pelo menos com esse café da manhã ela não corre o risco de engasgar.
— Cale a boca! — disseram ao mesmo tempo Gabi e Harry.
Pietro ficou se perguntando o que eles queriam dizer com aquilo.
Talvez Gabi tivesse engasgado com alguma coisa um dia desses, será? E agora eles ficavam sacaneando a garota por isso?
Com um suspiro, Pietro se sentou na cadeira da escrivaninha de Gabi, perto de um MacBook. Era muito difícil acompanhar aquelas pessoas e suas piadinhas internas; metade do tempo ele não entendia o que eles falavam.
O logo da maçã, no laptop da Apple, estava coberto por um X feito com fita isolante preta.
Pietro estreitou os olhos ao notar aquilo. Coisa esquisita.
— E aí? — falou Gabi, ao que Pietro girou na cadeira. Gabi a encarava, seus olhos brilhavam. — Ele é dos nossos?
Blue balançou a cabeça em negativa.
— É de fora. Só estou fazendo papel de guardião.
Gabi assentiu, como se aquilo fizesse sentido para ela.
— Que fofo. Mas você precisa arranjar um novo hobby.
Uma pomba entrou voando pela sacada e pousou no ombro de Gabi, arrulhando de um jeito meigo. Uma série de borboletas azuis veio em seguida, e depois foram em direção a Frederick.
Quando Frederick riu novamente, Harry grunhiu e atirou pelas portas francesas a garrafa de Coca-Cola, que no entanto acabou não passando da balaustrada, derramando o líquido preto por
toda a sacada.
— Você vai limpar isso! — disse Gabi a ele.
— Mais alguma coisa? — debochou Harry, irritado.
Gabi revirou os olhos.
— Que tal você fazer um tratamento para controlar essa sua raiva? Ou parar de ser um imbecil?
— Eu voto por todas essas opções — disse Blue, abraçando o travesseiro e rolando na cama até ficar de costas para os outros. — Caramba, está difícil dormir com vocês aqui.
— Falou o cara que me acordou às sete da manhã!
Gabi pegou seu travesseiro e o arrancou de Blue, usando-o para bater nele até obrigá-lo a se sentar direito na cama.
Ficaram todos em silêncio por um instante. Um rato com uma margarida entre os dentes aproveitou-se da quietude para passar correndo, deixando a margarida aos pés de Gabi para depois seguir ligeiro para baixo da penteadeira, antes que alguém pudesse pisar nele.
Pietro queria perguntar: Por que este lugar está repleto de animais? Animais fofos que agem como se amassem essa garota? Mas não disse nada, porque ninguém mais estava questionando isso.
— Você devia sair com a gente — disse Gabi a Pietro, abaixando-se para buscar um par de sandálias sob a cama e nisso desencavando um minúsculo coelho branco.
— Eu só quero... — começou Pietro, tentando explicar por que estava em Cross River, mas foi interrompido por Gabi antes que pudesse terminar.
— Não se preocupe. — Ela sorriu. — Não vamos permitir que ninguém machuque você. — Ela se virou para os outros. — Ei, estão a fim de ir à Casa de Doces?
— Por mim, tudo bem — disse Blue. — O Dereck nunca põe os pés naquele lugar.
— É porque vocês são donos de, tipo, uns cinco restaurantes chiques. Eu também não iria à Casa de Doces se tivesse meu próprio sushi bar lá embaixo. — Gabi calçou suas sandálias, envolvendo os tornozelos com fitas vermelhas. — Só preciso de um minuto.
Levantando-se, Gabi foi até um espelho com moldura negra e ficou parada na frente dele. O espelho captava seu reflexo da cabeça até a cintura, e Gabi parecia nervosa enquanto encarava sua imagem. Retorcendo o cabelo em uma espiral bagunçada, ela piscou para o espelho como se
estivesse esperando sua aprovação.
— Você está linda — disse o espelho. — Incrível.
O espelho... falava? Pietro apertou os olhos para ver se havia alguma caixa de som presa a ele.
Como se... talvez a pessoa pudesse comprar um espelho que viesse com frases pré-gravadas: pressione um botão e ele dirá: “Você está maravilhosa!”
Mas Gabi parecia preocupada e não lisonjeada. Ela soltou palavrões e puxou os grampos de cabelo. Mechas negras caíram sobre seus ombros; ela então jogou a cabeça para baixo e bagunçou o cabelo com as mãos.
— Piorou? — perguntou ela, com um olhar de incômodo estampado no rosto.
— Ainda linda — foi a resposta do espelho. — Mais linda do que ela.
Pietro soltou uma exclamação de espanto como se estivesse engasgando, e nisso Blue saiu da cama de súbito, derrubando um travesseiro quando suas botas alcançaram o chão.
— Você pode por favor parar de brincar com o seu espelho? — falou ele. — Está assustando o nosso hóspede.
— Eu só queria ter certeza — disse Gabi, na defensiva.
— Por que insiste nisso? Você já sabe mesmo qual vai ser a resposta.
— Eu sei, mas... — Ela balançou a cabeça. — Não importa.
Frederick se pôs de pé, fazendo as borboletas entrarem em frenesi.
— Vamos à Casa de Doces, Gabi. Você vai se sentir melhor depois de umas panquecas. E talvez assim engorde um pouquinho, o que deixaria Regina feliz por um tempo.
Ele tentou um sorriso todo luminoso no rosto, mas em nada melhorou o humor de Gabi.
— Regina nunca fica feliz.
Com um suspiro, Gabi saiu do quarto e desceu para o térreo, suas sandálias plataforma ressoando contra os degraus da escada.
Pietro notou que Harry observava Gabi — como agora observava o espaço vazio em que ela estava apenas alguns segundos antes — com o mesmo olhar de fascinação do espelho sobre ela.
O desejo que transparecia tão claramente no rosto dele fez Pietro ter calafrios.
Ele sentia como se tivesse ido parar por acaso em um mundo de segredos de estranhos — no país das maravilhas, em vez da cidade onde tinha nascido —, e esses segredos eram como dinamites prestes a explodir. Ele não sabia ao certo o quanto gostaria de saber.
Eu tinha a vida dela em minhas mãos.
E então a tomei.
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