Emo-ções - Por Todos Os Motivos Errados
25 Capítulo 25: Vá para o inferno, pelo amor de Deus!
Notas iniciais
Carregado pelos fios descoloridos o corpo pequeno e magro fora jogado violentamente no centro da sala, ocasionando em alguns machucados nada importantes perante tal situação.
–O que você tem na cabeça?! É tão difícil assim ser normal? Que merda eu fiz de errado pra você ser assim, Lucas?!
Encolheu-se sobre o tapete vermelho da sala, usando dos braços e pernas para proteger os pontos mais frágeis de seu corpo. Sentiu quando a bota pesada bateu contra seu corpo; o pé daquele quem deveria protegê-lo e amá-lo...
–Desculpe, pai... – balbuciou entre os soluços. Sua voz turva perdia-se na imensidão de tudo aquilo que lhe rodeava.
–Você acha que ser doentio e nojento assim é aceitável? Achas que não existem penalidades? Eu tenho vergonha de ter um filho assim! Você não é um homem, é uma subcategoria de porcarias da sociedade!
Os chutes contra sua estrutura delicada era o de menos. Não se importava se aquela briga custasse-lhe alguns ossos e marcas, pois machucados físicos sempre vão embora. Doía-lhe, contudo, que seu pai o odiasse com tamanha força. Porque se não tinha pais para amarem-no, quem o faria...? Se não tinha nem o seu herói de quando era pequenino e lhe machucavam...
–Você é uma aberração, Lucas! A maior decepção de toda a minha vida!
Por que nascera, afinal...? Por que Deus permitira que alguém como si viesse ao mundo...? Seu pai estava certo, sentia-se um lixo em pensar no significado de sua vida. Ele não existia... Era um imenso vazio o que faria em seu futuro... Queria ser amado...? E quem lhe amaria...? Sua vida marchava em direção a um precipício, pois simplesmente não era cabível uma possibilidade de futuro. Tudo era turvo e incerto...
–Junte suas coisas e quando eu voltar não quero ver nem rastro de ti. Você não é meu filho, Lucas Moura.
As lágrimas não faziam diferença. Quando os chutes cessaram desejou veementemente que eles retornassem, castigando-o por ser quem era. Odiava-se de todas as formas possíveis; odiava-se em seu completo.
–André, não pode expulsar ele de casa. Lu é só uma criança...
Abriu os olhos, tendo uma visão embaçada e distorcida da situação. Sua mãe, com os olhos banhados em lágrimas segurava no braço do marido, tentando impedi-lo de tomar decisões tão drásticas. De nada adiantaria e o loirinho tremeu violentamente, temendo que sua mãe fosse machucada na tentativa de protegê-lo.
Seu pai era grande e forte. Os olhos cruéis e insensíveis sempre machucaram seu coração. A voz firme e grave martelava em sua cabeça, condenando-lhe de todas as formas possíveis. Temera-o sua vida inteira e agora, no ápice só queria poder proteger os outros daquela fúria e direcioná-la completamente para si; quem merecia.
–Uma criança? Com quinze anos? Ele sabe muito bem o que faz!
–Mas é nosso filho... – tentou novamente, usando de uma nova abordagem; fracassou terrivelmente.
–“Nosso filho”?! Essa aberração nunca será meu filho! Nós vamos pra casa do meu irmão e quando voltarmos não quero nunca mais ouvir falar dessa porcaria!
–André, por favor... Pelo menos deixe-me ficar com ele...
Aquele choro vindo da única pessoa no mundo que era capaz de nutrir algum sentimento positivo por si era de partir o coração. Fazia sua mãe, mais que seu pai sofrer com a situação. Provocava-lhe o choro e segurar suas próprias lágrimas nunca fora uma opção.
–Que fique sozinho pra aprender. Quando voltarmos eu quero que você e tudo que te diz respeito suma!
Tentou apoiar suas mãos no tapete, mas o tremor lhe fez resvalar, retornando ao chão. Doía dos pés a cabeça; de dentro pra fora.
–Eu não tenho pra onde ir... – murmurou como uma criança desnorteada. Aliás, o que era não passava longe disso. Com o rosto no chão e os olhos transbordando parecia mesmo uma criança sofrendo seu castigo... Desmerecido.
– Morra. Morra e queime no inferno. Essa é a solução para aberrações como você que poluem o mundo.
O choro da mulher quem lhe dera a vida clamava mais alto que o seu próprio. Suas bochechas ardiam, ambas, pois a agressão fora bem distribuída. De seu ângulo, com a cabeça encostada no chão pode ver a família retirando-se da peça. Seu pai empurrava sua mãe para fora. Carolina aguardava no carro, sempre contra si.
Os raios de sol adentrando pela janela não faziam diferença no momento em que a porta bateu, forte, balançando a estrutura da casa. A solidão gritou, mais alto que o desespero crescente abrigado dentro de si.
Passou ali vários minutos, sem coragem de seguir em frente. Para onde iria...? Não tinha como viver fora de casa. Por Deus, tinha apenas 15 anos! Era emotivo, exagerado, infantil, bobo... Que chance teria sozinho no mundo? Nenhuma parte da família lhe aceitaria perante tais condições... Sua mente, evasiva, vasculhava todas as possibilidades que lhe pareciam cabíveis para, logo após lhe decepcionarem e sumirem. Não havia uma única chance de manter-se vivo...
O mundo era cruel e disso nunca duvidara. Agora sentia na pele a dor de ser um homossexual porque a culpa não era de seu estilo diferente, pois com isto seu pai convivera, a contra gosto. Era porque fora beijado – um beijo que nem ao menos queria, – por Alex.
As chances estavam sumindo... As esperanças esvaindo-se de si uma por uma... A possibilidade de seguir em frente tornara-se escura e negra; seu futuro um abismo e não havia voz em sua mente para ajudar-lhe á seguir em frente.
O tempo não mais fazia sentido. Não sabia se estava ali a longos minutos ou horas a fio. Conhecia as possibilidades e por mais que tentasse agarrar-se a incerteza de um futuro este ruíra junto a seu mundo...
Ergueu a cabeça do tapete. Esta doía, como um batuque de dentro para fora. Fungou diversas vezes, sem se incomodar com os rastros das lágrimas que escorriam pelas suas bochechas vermelhas. Ergueu-se cuidadosamente e passo por passo foi na direção da escada. As pernas bambas dificultavam a subida, mas não a tornavam impossível.
Foi até seu quarto, o primeiro após a escada. Com os dedos arroxeados que conseguia mexer foi até seu armário, pegando dois de seus cintos, um de caveirinhas e outro quadriculado, preto e branco. Sentou-se na cama. As lágrimas retornaram tão rápidas e intensas quanto antes.
Era só isso que podia fazer? Dizer adeus ao mundo...? Pedira, certo dia, para que Bryan nunca se matasse. Consolara, outro momento, quando Luke sentia que aquela era a única saída. Agora estava prestes a perpetuar aquela atitude que tanto condenara. Aquilo lhe dava um nó no peito. Não entrava em sua mente as consequências ou a ação em si.
Se fosse fazer seria sem sangue, pois o odiava. Mas seria capaz mesmo de fazê-lo...? E se sua mãe visse...? Claro que ela não veria, assim que seu pai chegasse correria por toda a casa a sua procura. Ficaria feliz em vê-lo morto. O pior é que ele ficaria mesmo, pois lhe dissera para se matar...
O loirinho jogou-se na cama, com os cintos caindo ao seu lado. Entrelaçou uma de suas mãos em seus próprios fios descoloridos, fazendo cafuné em si mesmo, tentando acalmar-se. Tinha que conseguir raciocinar e desistir daquilo, mas simplesmente não era possível deixar pra lá. Tentava pensar em outra saída, mas sua mente traiçoeira gritava a todo instante: “Mate-se, enforque-se... Ninguém te ama e ninguém sentirá a sua falta... Acabe com isso para o bem de todos.”.
Penduraria sua cabeça na parte principal do ventilador. Era simples, agonizante o suficiente para pagar por seus pecados e esquecê-los por alguns minutos, concentrando-se na dor...
–Pai... Mãe... – resmungou dentre soluços. Por que a vida era tão injusta consigo...? Só queria ser amado e poder amar as pessoas ao seu redor. Mas nem isso poderia ter porque era gay, porque era emo, porque era “fofo”... Porque não possuía nenhuma característica de uma pessoa normal e mentalmente sã...
Morrer era a saída e não mais duvidava. Aceitava, aos poucos, dentro de si a verdade de que para o mundo se tornar um lugar melhor aos olhos das pessoas que amava sua existência deveria ser apagada. Não tinha como existir longe deles ou realmente ter alguma chance.
Antes, escreveria um bilhete. Para quem? Quem estaria interessado? Talvez, para todos que o conhecem e dizer que amou a todos, até seu último fôlego sôfrego e sufocado.
Seu coração acelerou drasticamente ao ouvir o aparelho em seu bolso tocar e vibrar. Tremeu em pânico e medo que fosse seu pai, não queria ouvi-lo e, ainda sim não conseguiria ignorá-lo. As cegas atendeu, pois se visse o nome no identificador de chamadas perderia as forças que lhe restavam.
–Lu? Lu, tudo bem? A Laura me contou algumas coisas que viu hoje...
Prendeu a respiração e arregalou os olhos. Não podia deixar que Matheus percebesse o choro. Se ele percebesse acabaria sendo metido naquele problema o qual ele não precisava encarar. Seu coração tremia afetando todo seu corpo. Tomou fôlego e tentou manter-se calmo.
–Tudo bem.
–Mentira! Você está chorando! Lu, o que houve? Por que não me ligou antes?! Lu!
Como poderia manter-se de pé perante aquela voz encantadora? Caiu em prantos, retomando seu desespero de pouco tempo atrás, com força total. O choro gritava mais alto que qualquer coisa e aquilo serviu apenas para desesperar o emo do outro lado da linha.
–Meu pai viu... Eu vou morrer Matt. Não posso mais viver...
–O quê? Como? Você vai se matar? Claro que não, Lu! Eu não deixo. De jeito nenhum!
Como explicar tudo aquilo que estava lhe engasgando...? E como poderia meter o único que lhe aceitou e ajudou durante sua vida toda naquele mar de tristeza...? Não queria prejudicar Matheus, pois o amava como um irmão.
–Lucas, você está em casa? Vou aí agora mesmo!
–Não... Matt, eu vou me matar... Não quero que me veja enforcado...
–Já saí de casa. Eu imploro Lu, pelo menos eu quero me despedir de você. Eu... Eu tenho muito que dizer algo... Meu maior segredo! – Funcionou. O loiro falso era um grande curioso, não poderia deixar aquilo assim.
– Matt... – tentara argumentar, porém o choro impedia que palavras sólidas passassem por sua garganta.
– Eu estou correndo. Lu, não faça nada, eu imploro. Por favor, por favor...
Era uma questão de tempo...
... E de quem seria mais rápido...
.
– Bryan?
Fui chamado assim que passei pela sala e praguejei, irritado comigo mesmo por ter sido pego. Hoje é quinta-feira e meu tio Ryan decidiu que viria visitar-nos hoje, com meu primo implicante, Jared. Pretendem almoçar aqui, fazendo com que meu pai até mesmo tirasse um dia de folga.
– Sim, pai? – respondi, me contendo. Sei que são meu tio e primo, também sei que meu pai não tem culpa, mas tudo o que quero fazer é me trancar no quarto e não sair mais.
Caminhei até a entrada da cozinha, apoiando-me no batente.
– Tu podes ir ao mercado comprar uma dúzia de ovos, minha criança prodígio?
Sorri disfarçada e inevitavelmente. Digo com orgulho que meu pai ficou feliz e satisfeito quando mostrei para ele que uma das duas provas que fiz hoje gabaritei e sejamos sinceros, quem gabarita uma prova de matemática? O Erick, eu sei, mas ele é uma exceção, digo que matemática sempre foi meu ponto fraco e então gabaritei a prova! Sem falar meu trabalho de artes, no qual tirei nota máxima. Ah, a outra prova que tive hoje, de biologia, também tenho certeza de meu bom desempenho, ainda que a professora não tenha dado a nota.
É satisfatório tirar nota alta, contudo é muito melhor ser o orgulho de meu pai.
– Claro pai.
– Então pegues minha carteira no meu bolso.
Fui ao seu encontro. Meu pai estava ocupado cortando alguns temperinhos verdes para o almoço, sendo assim meti a mão no bolso da sua calça e peguei a carteira negra de couro. Abri-a e peguei uma nota de vinte reais.
– Uma dúzia? – confirmei.
– Exato.
Fechei a carteira e devolvi para o lugar em que estava, dirigindo-me para fora da cozinha.
– Cuide-se, Bryan.
Respondi algo rápido e segui até a porta, pegando as chaves antes de sair. Atravessei o jardim e abri a grade, andando tranquilamente. O bairro daqui é mais agitado que o da minha mãe, há mais pessoas nas ruas e um lugar estimado para se morar por sua localização próxima do centro da cidade.
Então, do que eu posso reclamar da vida? Neste momento eu seria o protagonista de um romance americano... Se eu fosse uma garota... E não fosse emo... E gay... Enfim, há vários pontos relevantes, mas momentaneamente eu poderia ser o principal, namorando o garoto mais bonito e popular do colégio... O jogador de futebol! E o Pedro é tão carinhoso comigo. Dele eu não posso reclamar absolutamente nada... Se tivéssemos sexo melhor ainda.
Tem os meninos. Eu não vi quase nenhum deles hoje por conta das provas, mas está tudo bem, como sempre. Erick e o Thiago estavam estranhos, não se falaram muito. O Erick tem ficado muito nervoso ao falar com Thiago, me pergunto se algo aconteceu entre eles... Ou se Erick está apenas se apaixonando... Seria uma loucura se ele estivesse apaixonado!
Perdido em meus pensamentos adentrei o supermercado, peguei os ovos e paguei, sem nada de diferente. Segui meu caminho de volta para casa. Pensei em Pedro... De novo. Eu o amo e ele me ama, só há meu pai no caminho, que insiste em conhece-lo antes de deixar-nos em paz. E agora tudo o que eu consigo pensar é em como será quando ele puder me tocar, me beijar... Me possuir...
Porque agora eu não posso reclamar da vida que estou levando.
Pelo amor de Deus, morda sua língua
Antes de fazermos você engoli-la
São momentos como este onde o silêncio é ouro
– Mas olha só quem está aqui! Quem é vivo realmente aparece...
Petrifiquei no lugar, surpreso. Um arrepio gélido percorreu minha espinha, fazendo meu corpo tremer e minhas pernas vacilarem. Eu reconhecia aquela voz máscula, assim como o casal de adolescentes vindo ao meu encontro. Eles mantinham sorrisos... Os sorrisos mais falsos imagináveis...
(E então você fala)
– Oi Bryan!
A garota avançou rápida, fazendo-me recuar automaticamente. O cabelo azul estava impecável como sempre, retocado, sem manchas e bem cuidado... O rosto era de se encantar... Quando coberto pela maquiagem. O vestido azul marinho de veludo ressaltava o seu corpo feminino, com direito a grandes curvas admiráveis por quase qualquer garoto, nunca a mim...
– Quanto tempo, ‘ein? Mudou de aparência... Tá tão gatinho!
Segui quieto... Parado no mesmo lugar, sem nem ao menos tentar responder. Eu não tinha o que responder á ela. O que dizer? “Olá Anitta. É verdade, faz muito tempo que não nos vemos. Sentiu minha falta? Aliás, obrigado por ter colaborado em transformar minha vida num inferno.”
Ninguém quer ouvir você
Ninguém quer ver você
Tão desesperado e patético
Eu estou te implorando para me poupar
O prazer de sua companhia
– Por que não responde? – Anitta perguntou sorrindo, próxima demais, mexendo na franja de meu cabelo. Girou a cabeça para trás, focando no jovem que a acompanhava. – Você comeu a língua dele, Josh?
Josh estava parado e sorriu, com a franja caindo-lhe nos olhos e as mãos enfiadas nos bolsos da calça. Sua expressão era divertida, nada irônica e um tanto simpática, como se nada estivesse errado, entende...?
(Quando foi que os diamantes deixaram seus ossos?)
Por um pequeno momento eu senti como se nada tivesse mudado. Aquela frase me trouxe um colapso de desespero, como se eu jamais os tivesse superado, preso no tempo... Todavia o momento se foi, tão rápido quanto surgira e no segundo seguinte continuei meu caminho, desviando de ambos.
– Eu não tenho nada para conversar com vocês.
– O que é isso, Bryan? Nós não somos amigos? – indagou Anitta, enfurecendo-me.
– É claro que não! Nós nunca fomos! – gritei, parado entre os dois. – Por mim vocês podem queimar no inferno que eu não estou nem aí!
Algumas pessoas que passavam fitaram-nos, assustados. Eu gritei e isto não foi o suficiente para dissipar minha raiva. Como ela pode ser tão-
Estou queimando todas as pontes que fizemos
Eu vou assistir você se engasgar com os corações que você quebra
Estou sangrando a cada palavra que você disse
Vá para o inferno, pelo amor de Deus
– Mesmo?
Josh me puxara pela cintura, aproximando nossos corpos. Pus a sacola que carregava para trás, evitando quebrar os ovos e fitei-o com todo o ódio reprimido que eu tinha, sentindo meu coração traidor acelerar e o sangue subir minha face. Ele sorriu daquele jeito lindo de sempre e eu trinquei os dentes.
– Me solte.
– Por quê? Não posso abraçar um velho amigo? Você está tão bonito... – ouvi-o sussurrar próximo de meu ouvido e um arrepio inevitável percorreu minha espinha. Ainda que eu quisesse afastá-lo meu corpo me traía, reagindo...
Porque Josh foi o meu primeiro amor. Porque meu primeiro beijo foi com ele. Porque eu me apaixonei por Josh de verdade e teria feito qualquer coisa por ele...
– Sentimos sua falta...
... Também foi ele quem tentou me estuprar... Foi Josh quem me beijou na frente de meu pai e por causa dele que eu fui expulso de casa. Ainda sim, mesmo ele tendo feito coisas ruins contra mim Josh ainda consegue ser falso e fingir que nada disso aconteceu e vir com um “sentimos sua falta”.
Estou queimando todas as pontes que fazemos
Eu vou assistir você engasgar com os corações que você quebra
Estou sangrando a cada palavra que você disse
Vá para o inferno, pelo amor de Deus.
– Ah é? Você e quem mais? Victor e Ivan? Nicky? Ah, já sei, o Dylan deve estar morrendo de saudades minha! Afinal, vocês são tão amigos, não é?!
– Um casal – corrigiu Anitta, atrás de nós. Emudeci. – Eles são um casal agora, Bryan.
(Vá para o inferno, pelo amor de Deus)
Encarei Josh, sentindo meu peito contrair. Desta vez ele não sorriu ou algo assim, apenas me encarou de volta, simplesmente. Encarei-o, sentido e rancoroso. Se alguém nesse mundo me odeia mais que qualquer um é Dylan. Ele sempre me odiou e fez questão de demonstrar isso em cada palavra que me desferia, cada olhar e cada gesto, mesmo que eu jamais tenha lhe feito algo. E agora o garoto o qual eu era apaixonado e sempre admirei – mesmo não sendo bom pra mim –, ele fica com a pior pessoa que eu possa imaginar.
Estupidamente eu sinto que meus olhos querem encher-se d’água, mas engoli. Me senti traído, mesmo não me devendo nada. É apenas... Eu gostaria que Josh ficasse com alguém legal... E eu...
– Me solte, Josh.
Tentei me desvencilhar, mas não consegui. Quando mais o repelia mais forte Josh apertava minha cintura, puxando-me para próximo de si.
– Você é mais esperto que isso, Bryan.
– Então é mentira?!
Josh me fitou, afastando seu rosto do meu. Encarei-o numa mistura de sensações que embrulharam meu estômago pelo estresse causado. Aguardei, impaciente, quase chegando ao ponto de contar os segundos que se passavam.
Ele largou minha cintura, deixando-me livre.
– Não, nem um pouco. Eu sempre quis o Dylan.
Saí imediatamente após ouvi-lo, acelerando o passo para não correr o risco de alcançarem-me.
Ninguém quer ouvir você (poupe seu fôlego)
Ninguém quer ver você.
Tão desesperado e patético
Você pensa que ninguém vê isso?
Eu penso que é hora de você saber a verdade.
– Não quer conversar, Bryan? – indagou Anitta um tom mais alto, vindo atrás de mim. Virei-me bruscamente. – Saber novidades e se inteirar! Você ainda fazia parte do nosso grupo...
– Não! Vocês nunca gostaram de mim e eu não gosto de vocês! Eu estou tentando uma vida muito melhor longe de vocês, então me deixem em paz!
– Visite-me quando quiser – debochou Josh com um sorriso maldoso no rosto. Ignorei-o e virei-me de costas, querendo deixar os dois o mais rápido possível. – Talvez Dylan esteja lá para que vocês possam conversar.
– Fraco! Você sempre foi fraco e sensível, Bryan! Esse é o seu maior defeito.
Meu peito encheu-se, transbordando toda aquela enxurrada de sentimentos pelo meu corpo. Era assim que funcionava com eles, pisavam em mim, então eu ia para casa com o sentimento de mágoa e tristeza; sempre foi assim... Eu sempre fui estupidamente fiel a eles... E foi por causa desta fidelidade ingrata que eu tentei cometer suicídio...
... Mas não mais.
Estou queimando todas as pontes que fizemos
Eu vou assistir você engasgar com os corações que você quebra
Estou sangrando a cada palavra que você disse
Vá para o inferno, pelo amor de Deus
Larguei a sacola no chão, próximo do muro, apenas na possibilidade de acabar mal, ainda que não fosse tal minha intenção. Larguei e voltei os passos que dera, encontrando-os parados no mesmo lugar.
– Eu sou fraco, Anitta? – pronunciei com o maior desgosto que sentia. Ela fechou a expressão, mesmo não sendo ameaçadora ou qualquer coisa do tipo. Anitta não é o tipo de garota que fará uma expressão cruel para rir, ela é manipuladora e oportunista...
Quando foi que os diamantes deixaram seus ossos?
Deixaram os ossos
Hoje eu não vou me trancar em meu quarto, ouvindo músicas depressivas e sentindo pena de mim mesmo. Eu não vou bancar o emo magoado e me sentir o errado pelas pessoas ruins que eles são. Eu não vou levar desaforo para casa.
– Eu sou fraco e você é o quê? Desesperada e patética. Faz qualquer coisa para chamar a atenção e ter o que quer, mesmo que custe o seu próprio irmão. Você sempre foi e sempre será manipuladora e egoísta e não é porque eu fui gentil o suficiente para jamais jogar na cara que fui cego e não vi – proferi com tamanha maldade que me senti satisfeito em ver sua reação, recuando. – Fala tanto a ponto de dar dor de cabeça, mas é isso que você faz para parecer melhor do que realmente é. Usa as pessoas e não perde uma chance de sugar tudo o que pode. Você é uma parasita e não é me chamando de fraco que você será mais forte.
– Bryan, abaixe a bola.
– E você não tem moral para dizer nada, Josh – voltei-me para ele, deixando Anitta com uma expressão aterrorizada que me satisfez. Com Josh era mais difícil porque eu o amei, independente da forma como o fiz. Eu realmente acreditei nele. No passado eu fui estúpido e inocente o suficiente para acreditar que ele fosse uma boa pessoa e deixar isso para trás não é tão fácil quanto parece...
... Entretanto chegou a hora de superar. Josh não é ninguém que importe, de verdade.
Você não é um pastor, você é apenas uma ovelha
A combinação de esforço de todos que você encontra
Você é pura carne, sem os ossos
Alimentá-los aos tubarões
E jogá-los para os lobos
– E você tem, Bryan? – ele riu irônico. Bastou para que eu colocasse para fora aquilo que me atormentava.
– Mil vezes mais do que você. Eu jamais fiz mal a alguém e você deveria saber, mais que ninguém. Eu não sei e não quero saber o porquê do Dylan me odiar tanto. Não me importa. Mas se alguém sabe que eu jamais fiz algo contra aquele demoniozinho é você porque em algum momento eu fui idiota o suficiente para acreditar em você, Josh. Você não é nada além de um mascote do Dylan e eu espero do fundo do meu coração que ele quebre cada pedaço seu assim como fizeram comigo. Se alguém é tão manipulador quanto Anitta é Dylan, a diferença é que ele é mais sincero e cruel.
Josh riu novamente, como se toda minha raiva não fosse nada. Meu sangue ferveu. Se ele não fosse tão maior e mais forte que eu teria lhe dado um soco na face.
Estou queimando todas as pontes que fizemos
Eu vou assistir você engasgar com os corações que você quebra
Estou sangrando a cada palavra que você disse
Vá para o inferno, pelo amor de Deus
– Nem parece mais o emo chorão de antes, Bryan. Só que todo esse rancor e raiva reprimida mostra que você continua preso a mágoas do passado.
– Errado. É exatamente porque eu superei vocês que eu posso estar aqui – disse-lhe, sentindo o choro pedir para sair. Engoli, tentando ao máximo me manter forte, mesmo que minha voz começasse a oscilar. – Eu tenho os amigos que vocês nunca foram e um namorado perfeito. Eu não estou mais preso á vocês. Eu não quero mais falar ou ver qualquer um de vocês porque nada do que eu sinto chega perto da criança magoada pelo amor não correspondido. Eu não quero mais vê-los, ouvi-los ou até mesmo sentir que respiram o mesmo ar que eu.
Tremia dos pés a cabeça. Josh não respondeu de imediato e eu também não esperei por algo. Fitei Anitta uma última vez apenas para vê-la com o queixo erguido e os olhos maquiados cheios daquela mesma água que eu impedia a mim mesmo de deixar escorrer pelo meu rosto.
Mais leve voltei para onde havia deixado minha sacola e a recolhi. Parei e uma última vez me voltei para eles, respirando fundo para que as lágrimas não surgissem.
– E se querem saber vocês são os piores tipos de pessoas. Vão para o inferno, pelo amor de Deus!
Vá para o inferno, pelo amor de Deus
Vá para o inferno, pelo amor de Deus
Vá para o inferno, pelo amor de Deus
.
– Bryan? Por que demoraste tanto?
Larguei a sacola na cozinha e passei reto, fugindo, correndo escada acima. Fui para meu quarto e bati a porta com raiva para, em seguida, escorar-me nela e sentar no chão em prantos.
Eu tentei evitar entrar em casa. Eu tentei evitar que nossos caminhos se cruzassem... Eu não quero ser mais uma vítima oprimida... Eu não quero e não tenho mais nada a ver com eles, então por que me sinto tão traído em saber que Josh está namorando a pessoa mais detestável que eu já conheci...?
– Bryan?
– Estou bem, pai – respondi com a voz oscilante, soando completamente oposto à minhas palavras. Respirei fundo e tentei engolir o choro, mas doía mais ainda mantê-las trancadas e evitar que caíssem.
Mantive-me o mais quietinho que consegui, evitando soluços e fungadas. Eu não quero chamar a atenção ou algo do tipo, apenas me livrar de todo esse mal e esses sentimentos ruins que estão dentro de mim.
Meu pai demorou tanto para pronunciar-se novamente que cheguei a pensar que ele tinha ido embora. Estava enganado...
– Bryan, não quero que fiques chorando sozinho.
Com um suspiro baixinho empurrei meu corpo para o lado e meti a mão na maçaneta, permitindo que meu pai entrasse. Ele veio e abaixou-se na minha frente. Mantive o olhar baixo, acanhado, sem coragem de encará-lo com aquelas malditas lágrimas nos olhos.
– Encontrei algumas pessoas do meu passado – expliquei antes que ele perguntasse qualquer coisa. Funguei e esfreguei os olhos com o pulso, imaginando o quão borrada minha maquiagem ficou.
– Machucaram-te?
– Não. Só disseram coisas bem ruins... – Senti novamente as palavras trancarem em minha garganta e o choro ser retomado. – E eu sou um idiota, pai, porque eu me importo.
Meu pai sorriu tranquilamente e aproximou-se, envolvendo-me em seus braços. Me senti ainda mais patético e estúpido, mas por Deus, eu amo o carinho de meu pai. Sua mão grande estava em meu cabelo, fazendo um cafuné gostoso e reconfortante. Solucei com o choro.
– É por isso que és uma criança, Bryan. Preocupa-te muito com os outros, todavia ainda guardas as coisas para si e isso te machuca. Não tens tudo o que queres, filho?
– Não fale assim, eu me sinto mais idiota. – Meu choro intensificou-se. – Me sinto estúpido em depender tanto dos outros.
– Mas está tudo bem, filho. Tens apenas 15 anos e pessoas o suficiente que se importam para que possa depender delas. Está tudo bem se queres ser egoísta e preocupado, contando que não atrapalhe tua felicidade.
Afastei-me um pouco e fitei-o, calmo, apenas com rastros provavelmente escuros de lágrimas em meu rosto. Sequei o rosto novamente com o punho do casaco. Meu pai sorria reconfortante e tranquilo. Me sentia magicamente calmo e surpreso.
– Você mudou muito...
– Tu também.
Recebi mais um sorriso calmo. Fiquei de joelhos e o abracei com força, ficando um pouco mais alto que ele. Meu pai retribuiu o abraço envolvendo minha cintura. Senti-me tão bem e tão protegido que não podia acreditar que minutos atrás estava tão assustando, chorando por algo tão bobo.
– Obrigado pai – agradeci levemente emotivo. Ainda não conseguia acreditar que meu pai havia sido tão gentil e dito coisas tão reconfortantes.
– De nada, criança, mas agora preciso ir ver a comida no fogo.
Concordei e me afastei, sentando encima de minhas próprias pernas.
– Posso ficar na volta?
Ele aproximou a mão direita de meu resto, secando as lágrimas e pressionando ao redor dos olhos, retirando os borrões.
– É claro.
Tive que ser sincero comigo mesmo, pelo menos uma vez na vida. Meu pai pode estar certo... “Pode”, não significa uma certeza porque ele não foi um adolescente como eu, com tantos problemas adicionais. Por outro lado ele tem toda a razão em dizer que me preocupo demais com quem não merece... Certo ou errado ele me acalmou, de verdade, meu pai me fez esquecer as coisas ruins ao meu redor. Isso é incrível.
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