Emo-ções - Por Todos Os Motivos Errados

19 Capítulo 19: Mentiras Inocentes.


Notas iniciais
Oi gente! Só avisando que no final tem um "especial" em terceira pessoa. (os curiosos correndo para ir olhar)
Obrigada pela atenção e booooooa leitura o/

Sentei ao lado do vaso sanitário e emaranhei ambas minhas mãos em meu próprio cabelo, fitando aquele chão imundo. Como posso ser tão idiota e estúpido? Como posso vomitar com algo bom? Que ridículo eu sou!

-Bryan?

E o idiota do Pedro ainda vem atrás de mim para me envergonhar! Que porra!

Fechei a tampa do vaso com cuidado para não fazer barulho e sentei-me encima, torcendo para que ele desistisse e fosse embora. Afinal, somente de ter ouvido sua voz meu estômago revirou.

-Estou vendo um all star azul marinho cheio de estrelas. Ou é você ou um de seus amigos e além deles estarem em aula também me responderiam. Aliás, já te vi com esse tênis!

Ótimo! Denunciado por um tênis brilhante!

Sem muitas escolhas eu dei descarga e abri a porta da cabine bruscamente, empurrando Pedro para longe de meu caminho e indo direito para a pia, tentar retirar o gosto horrível e o provável fedor de minha boca. Enxaguei.

-Vomitou? Tudo ok?

-Se eu vomitei é obvio que não está tudo bem! – elevei o tom de voz, irritado.

-‘Malz ‘aê. Se não me contar eu nunca vou saber.

-Não é para saber mesmo. Esquece.

Ele suspirou. Eu nem o olhei.

-Isso já começou mal...

-Então me deixa. Eu me viro sozinho – falei sem medir minhas palavras. Recusei-me a fita-lo, pois somente sua presença é o suficiente para que eu fique ‘putamente nervoso.

-Não, não mais – Pedro me respondeu em um tom sério, me surpreendendo. Agarrou meu pulso com força e bateu minhas costas na pedra gélida da pia, posicionando-se a minha frente, impedindo-me de passar. –Se não confia em mim qual é o significado disso?

Com “isso” ele queria dizer nosso “relacionamento” se é que pode se chamar assim. Quero dizer, ele me pediu em namoro. Isso não é simples! Namoro! Mas começa hoje e até agora não houve nada... Nada... Nada o caralho! Houve MUITA coisa porque quase transamos!

Então eu suspirei e pensei no que lhe responder. Minha mente é um nó. Eu mesmo não entendo o que quero dizer ou fazer e, por mais que complique tudo parece que há um caminho bem simples. Então por que o nó?

-Estou nervoso – respondi, por fim a mais pura e simples verdade. Em seguida suspirei, olhando para o chão.

-Por que estamos namorando?

Não o fitei. É impressionante como ele diz “estamos namorando” com uma naturalidade! E estamos à apenas alguns minutos. Ele não pensa em “eu ter te pedido em namoro”. Não há dúvidas para ele, sendo que sou eu quem deve responder e decidir.

-Você fica tão fofo nervoso, Bryan. – Ele riu e eu o fuzilei com o olhar.

-Debocha pra ti ver o que te acontece.

Ele escorregou sua mão de meu pulso para minha palma, enroscando-se ali, na minha. Sorriu e beijou minha bochecha devagar.

-Eu não entendo como funciona com um cara. Bem, menino ou menina eu não acho que seja normal vomitar depois do pedido de namoro, ‘né – ele sorriu e eu somente estreitei os olhos. –Eu juro solenemente que vou fazer muita merda porque eu nunca, nunca, nunca namorei um garoto antes. Porra, nunca fiquei com um garoto que não fosse você! E vai ter que me ensinar.

Desta vez fui eu a rir. Soprei o ar para fora de meus pulmões, mexendo minha franja comprida, sentindo um alivio tremendo tomar conta de meu ser ao me livrar de tal peso. Eu fui tão idiota! Simplesmente idiota.

Depositei-lhe um selinho nos lábios, sorrindo, Pedro retribuiu o sorriso. Senti-me mais idiota ainda, um idiota feliz e o abracei rapidamente. Em seguida me desvencilhei de seus braços e fui na direção da porta, puxando-o pela mão.

-Vamos para a aula.

Tropecei assim que seu braço direito puxou-me pelos ombros para trás. Ele beijou minha bochecha em pleno corredor, envergonhando-me. Ri e segui lhe puxando pela mão, mas novamente ele me parou antes de chegarmos na sala.

-Bryan...

Pedro puxou minha mão, me deixando de frente para ele.

-Sério, não me leva a mal, mas eu não quero resolver isso, – ele disse erguendo nossas mãos juntas na altura de nossos olhos, – na aula de história. A professora já não vai com a minha cara...

-História?!

Soltei sua mão de imediato. Foi na aula de história que eu, Pedro e seus amigos discutimos e fomos parar na diretoria. Com certeza não é só a Pedro que ela odeia.

*

O sinal tocou, anunciando o final da aula. Comecei a juntar minhas coisas enquanto os outros já saiam correndo para fora da sala. Tive a leve impressão de que somente eu retiro o material de dentro da mochila e finjo que anoto alguma coisa.

-Tchau Bryan. Até amanhã! – despediu-se Erick, correndo para fora da sala como ele nunca fez antes. Parece que alguém vai se encontrar com o Thiago... Ri com tal pensamento e continuei a guardar meu material, procurando por minha borracha.

-Oi Bryan.

Pedro sentou-se na cadeira de Erick, aguardando enquanto eu olhava por todos os lados em busca de minha borracha. Estava embaixo de minha classe.

-Vamos para casa juntos?

-Ah, não posso. Meu pai vem me buscar.

-‘Putz. Sério?

Afirmei com a cabeça. Coloquei a mochila sobre os ombros e me levantei, sendo seguido por Pedro.

-Tenho passado alguns dias na casa dele. É muito longe para mim ir e voltar sozinho.

-Então...

Na porta da sala ele me puxou pelo braço, virando-me de frente para ele e me beijando possessivamente. Reagi e correspondi, deixando-o passear com suas mãos por minha cintura e quadril. Inconscientemente dei uns três passos para trás, batendo com minhas costas na parede. Coloquei minhas mãos em seu rosto, beijando-lhe com vontade e apreciando o ato delicioso.

Estou gostando de ter um “namorado” com tanta ‘pegada.

-Vou falar com a minha mãe para amanhã ir para casa – disse quando separamos nossos lábios. Ele não se contentou e atacou minha boca novamente, beijando de novo e de novo, sugando meus lábios e mordendo-os.

-Meu pai deve estar me esperando – disse em um intervalo de beijos, mas ele me ignorou. Continuou a me beijar e puxar meus piercings, dando-me a impressão de que estava alargando o buraco, proporcionando uma leve e sugestiva dor prazerosa.

Quando senti suas mãos escorregarem e apertarem minhas nádegas foi que entendi que se permitisse ele me comeria ali mesmo.

-Pronto Pedro! Deu, deu, deu! Me solta!

Comecei a empurrá-lo. A conta gosto ele aceitou e se afastou de mim. Ri enquanto Pedro mantinha uma expressão amarrada.

-Até amanhã.

Me afastei rapidamente, andando rápido para fora do colégio e sorrindo como uma criança idiota. Talvez meu pai tenha razão e às vezes eu realmente aja de forma infantil. Infantilmente boba e... Apaixonada.

Do lado de fora do colégio havia somente pouquíssimos alunos e... Meu pai, esperando ao lado do carro. Fui até ele e sorri como se nada tivesse acontecido.

-Por que demoraste?

-Estava procurando minha borracha – respondi tentando mentir bem. Acho que não funcionou, pois meu pai estreitou os olhos para mim, desconfiado. Sem dizer mais nada ele deu a volta e entrou no lado do motorista. Eu abri a porta e entrei, retirando minha mochila e largando no banco de trás.

Fechei a porta e coloquei o cinto. Antes de ligar o carro meu pai abriu o porta-luvas, procurando por algo. Vi que ali estava um mini-game meu, mas não o peguei. Quando meu pai encontrou o que procurava fechou o porta-luvas e entregou-me, finalmente ligando o carro.

Estranhei. Era um espelho. Observei se ele tinha algo estranho; nada. Observei meu próprio reflexo ainda sem entender e foi quando vi meus lábios inchados e avermelhados, tanto eles mesmos quanto o contorno foi que entendi.

Merda.

*

Despedi-me e fechei a porta do quarto, seguindo para dentro do colégio. Meu pai não está com o melhor dos humores em saber que vou passar à tarde na casa de minha mãe, sendo que ontem, quando veio me buscar eu estava... Bem...

Que vergonha!

Respirei fundo e segui para dentro do colégio, tentando ao máximo desviar meus pensamentos da cena constrangedora que passei com o meu pai. Fui tão imprudente! Eu tenho que me cuidar. Sei que meu pai tem sido bem compreensível, mas é abusar querer que ele aceite que estou “namorando”... Isso ainda soa tão estranho! E somos eu e Pedro, Pedro e eu! Namorando!

Acabei chegando mais cedo no colégio por pressa da parte de meu pai. Quando estava indo na direção da minha sala de aula vi Matheus entrando sorrateiramente na sua própria sala de aula. Automaticamente fui na direção de sua sala, mas parei um pouco antes. Da última vez que eu me meti em assunto dele deu muita merda. Também teve aquilo ontem. Não ficou uma marca, eu acho, não dá para ver por causa dos curativos.

Desde quando sou tão curioso? Não vou nem espiar, vou entrar direto. E... Eu não deveria ter entrado.

Matheus estava colocando flores na classe de Mi comi, ou pelo menos assim deduzo. Margaridas com um colar fino, brilhante e sem pingente.

-Por que você continua se metendo onde não é chamado? – ele disse rangendo os dentes, sem nem me fitar. Parecia o Matheus possuído por um demônio e mesmo soando ridículo eu estou começando a realmente levar a sério a possibilidade de possessão demoníaca.

-Acho que já era esperado que fosse voc-

-O que faz aqui?

Ele ergueu a cabeça, ficando ereto e mirou-me. Vi em seus olhos tão clarinhos uma seriedade nada característica de Matheus e foi nesse momento que eu parei por um segundo para pensar e considerar aquele momento em que a vítima é apunhalada pelas costas por seu melhor amigo e o público pensa: “como ela pode ser tão idiota?”.

-Acho que você me deve algumas respostas – lhe respondi erguendo meu braço direito e apontando para meu pulso com a mão esquerda, lembrando-lhe do aperto de ontem.

-Acho que você deveria parar de se meter onde não é chamado! Você só faz merda e fode com tudo!

Somente o fato de Matheus estar falando palavrão já me assusta. Ele gritando me congela por dentro e ele enraivecido vindo na minha direção me faz tremer.

-Matheus, eu realmente não te reconheço. Foi tão amável comigo em tudo, dormimos juntos, disse que gostava de mim...

-Que saco Bryan! Por que se mete em tudo? Por quê...

Matheus sentou-se no chão, cruzando as pernas. Levou uma das mãos a testa e virou o rosto para o lado, recusando a fitar-me.

Foi então que eu percebi o quão idiota fui. Matheus pode ser o mais doce, calmo, compreensivo e amigo, mas isso não o impede de ter problemas e eu devo ter feito algo ruim indiretamente para merecer tal tratamento.

-Quer me contar algo?

Tive a impressão de que ele começou a chorar, mas não pude ver porque ele escondia o rosto com o cabelo escuro. Olhei para os lados; não tinha ninguém por perto. Eu realmente não sei o que fazer, pois nunca fui muito bom em consolar pessoas. Me parece um tanto superficial ir até ali e dizer que tudo está bem ou ficará bem.

-Eu amo Lucas – ele disse finalmente olhando para mim. Seus olhos claros brilhavam por conta das lágrimas e. Recém me dei conta de que ele usava aparelho com as borrachinhas verdes.

Me surpreendeu um pouco o que ele disse, mas não foi nada muito exagerado. Na verdade me surpreendi mais com a minha falta de surpresa.

-Eu o amo tanto... E sempre doeu vê-lo se apaixonar por outro, mas pior ainda era quando o machucavam.

Me aproximei devagar, me sentindo mal a ouvir aquela voz que sempre nos apoiou completamente trêmula por conta do choro. Me abaixei na sua frente e tranquei, sem saber o que fazer para ajuda-lo.

-Mas eu sempre soube que não tinha chances. Quando você apareceu Bryan... Você é fofo como ele, sabe... Eu realmente acreditei que poderia me apaixonar por você, mas Lucas é único e é o dono de meu coração.

-Está tudo bem em se apaixonar – eu disse me sentindo um idiota em não puder ajuda-lo. Retirei uma de suas mãos de seu rosto e segurei-a, entrelaçando nossos dedos.

-Eu nunca me declarei! E quando faço soa como uma mentira... E nem foi a quem eu realmente amo!

Ele puxou sua mão, separando-a da minha e abaixou o rosto. Secou o excesso de lágrimas que se acumulavam nos olhos e fungou.

-Tudo bem Matheus. Na verdade acho que é melhor assim... – eu parei, sem saber como completar a frase. O que eu diria? Não te amo dessa forma? Soa tão arrogante! “Tudo bem, eu não te amo mesmo”.

-Você não entende! – ele disse, ferindo-me. Eu não entendo sua dor? –Você o machucou! Foi por sua culpa que Alex foi pra cima dele mesmo depois de todas as vezes que eu transei com ele para proteger o Lu! Foi por sua culpa que ele quase foi estuprado e desistiu do amor! Por sua culpa Lu anda triste e por sua culpa ele se sente feio e em segundo lugar!

Paralisei, me sentindo um monstro. Eu nunca fui bom em socializar e nunca fui um bom amigo porque, para ser sincero nunca tive amigos. Quando tento eu simplesmente estrago tudo.

Sentei encima de minhas pernas e aceitei que Matheus continuasse a jogar tudo encima de mim.

-E sabe qual a pior parte? Que Lu continua sendo bom e te tratando como alguém especial. Enquanto eu transo com Alex por ele você o beija! Você está com ele e... Eu tenho tanta vontade de te bater! Porque para você tudo é fácil, todos irão te apoiar e serão amigos. Você sabe que nos importaremos e que qualquer coisa você pode contar com a sua família. Quando Lu ficou sozinho ele não pensou em nenhum de nós para ajuda-lo. Você tem que se foder, sabe, para dar valor ao que tem e pagar por tudo que fez.

Ele levou as mãos ao rosto, o escondendo. Eu fiquei a ouvi-lo fungar e chorar. Pensei em abraça-lo, mas se ele me odeia isso não é uma boa coisa para se fazer.

-Desculpe. Pode parecer idiota, mas eu realmente me arrependo porque nunca foi minha intenção fazer você e Lucas sofrerem.

Ver o Matheus desmoronar me foi aterrorizante. Desde que o conheci o vi como o mais forte de nós. Nunca imaginei que o faria chorar e o veria completamente apaixonado. Apaixonado por Lucas.

-Eu peço desculpas, Bryan – ele pediu fungando e virando o rosto para o lado novamente. Recostou a mão na testa, por baixo da franja. –Estou colocando tudo encima de ti. Você realmente não fez de propósito e o que mais te culpo é por ciúmes. Você é uma boa pessoa...

Desta vez não parei para pensar. Levantei um pouco meu corpo, ficando de joelhos no chão e abracei. Senti um alivio tremendo quando percebi que ele retribuía meu abraço.

Agora sim parecia Matheus, se desculpando e sendo bonzinho mesmo quando não mereço.

-Está tudo bem, de verdade. Vamos ajudar Lu de todas as formas, inclusive a se apaixonar pela pessoa certa e ser feliz.

Ele continuou a chorar e me apertou mais forte. Recostou sua cabeça em meu ombro, com sua testa batendo em meu pescoço. Senti como ele estava quente, provavelmente com febre.

-Me desculpe Bryan – ele pediu em um fiapo de voz, sucumbindo ao choro. –Te machuquei com gestos, palavras...

-Tudo bem. Você não fez nada errado. Eu realmente tenho culpa e sei disso sem precisar de você dizendo. E eu acho que realmente mereci tudo. De uma forma que ainda não sei isso me fez uma pessoa melhor. Não cometerei os mesmos erros e não serei mais tão intrometido. E pare de se desculpar! Eu realmente estive mais do que errado!

Quem diria que um dia eu estaria consolando Matheus e não o contrário.

Ele se afastou um pouco de mim, ficando cara a cara. Matheus sorriu fracamente e seu sorriso ficou mais bonito ainda com aquele aparelho.

-Você é uma boa pessoa, mas ainda quero te bater.

Ri e tentei secar seu rosto com minhas mãos. Ele parecia estar se acalmando. Por curiosidade toquei em sua testa, constatando que estava certo quando senti aquilo quente em meu pescoço.

-Está com febre.

-Estou com dor de cabeça.

-Quer ir tomar algum remédio?

-Não.

Ele terminou de secar seu rosto e fez menção de se levantar. Fui mais rápido e fiquei ereto, puxando-lhe pelas mãos para lhe dar apoio.

-Estou melhor. Desculpe te fazer perder tempo com meu drama.

Eu ri daquela ironia.

-Desculpe se parecer cruel, mas me sinto melhor assim. Me sinto menos fraco e inútil em ser sempre você a me ajudar.

Ele riu e me abraçou novamente, emaranhando uma de suas mãos em meu cabelo e suspirando meigamente. Ouvi passos na porta e duas garotas entraram, assustando-se ao ver Matheus com os olhos vermelhos. Já esperava que eu não fosse o único a nunca ter visto Matt chorar.

-MAIS COISAAAAAAAS!

Não preciso nem dizer quem foi o ser saltitante que pulou para dentro da sala de aula e berrou em meus ouvidos.

-Vamos lavar esse rosto – sussurrei-lhe baixinho para não chamar a atenção, então nos esgueiramos para fora da sala de aula antes que nos vissem. Espiei dentro da sala de relance e vi Lucas com um sorriso esplendido e reluzente enquanto mirava abobalhado a corrente. Sorri e fui atrás de Matheus.

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-

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Seus pés pararam na frente daquela casa indicada pelo mais alto. Seu coração disparou por conta do nervosismo e sentiu suas mãos suarem. Rapidamente secou-as nos lados da calça e disfarçou da melhor maneira possível, ao seu modo.

-Essa é a minha casa – anunciou o moreno levando a chave à fechadura da grade, girando-a e abrindo.

-Estou vendo – respondeu o acompanhante com ar de ironia.

–Vem.

Entrou, seguido de perto pelo garoto envergonhado que observava a tudo e todos os detalhes. Sem precisar de uma chave o mais velho abriu a porta da casa girando a maçaneta.

-Tia, cheguei.

-Oi Thi! Trouxe seu amigo? – gritou uma moça da cozinha. Não demorou muito para que ela surgisse no corredor de entrada da casa, acenando alegremente.

-Sim. Esse é o Erick. Erick, essa é a minha tia Claudia.

A moça de cabelos da altura do ombro e olhos castanhos secou as mãos no guardanapo de pano, sorrindo meigamente. Em seguida inclinou-se para frente e cumprimentou a Erick beijando-lhe os dois lados do rosto. Ela tinha um nariz fino e o rosto magro, dando ares de arrogância, mas era bem simpática.

-Prazer – o garoto disse educadamente juntando as mãos na frente do corpo, em sinal de timidez.

-Prazer Erick. Fique à vontade.

-Obrigado.

-Tia, vamos para o meu quarto estudar, ‘tá?

A moça alargou seu sorriso, visivelmente contente com aquela noticia.

-Certo. Vou preparar um lanche para vocês.

-Vem Erick.

Thiago segurou o pulso do amigo, puxando-o até atravessar o corredor e chegar à sala. Seguiu em frente, dando pouco tempo para que o menor analisasse o local e foi até uma porta mais ao canto. Abriu e ambos entraram. Somente então Thiago soltou o pulso do menor e fechou a porta do quarto.

Como um garoto que não costumava sair muito, Erick analisou todo o quarto com seus olhos verdes-musgo curiosos. Estava escuro, mas logo Thiago abriu uma janela e o local iluminou-se. Não era um quarto muito grande. Havia um guarda-roupa de casal, uma escrivaninha com várias gavetas, diversos papéis e livros espalhados por cima, uma mesa com cadeira para o computador, várias prateleiras com os mais diversos objetos e duas camas de solteiro.

-Qual é a sua? – Erick perguntou, sabendo que a outra cama pertencia ao “irmão” de Thiago.

-Esta aqui – respondeu Thiago batendo de leve com a palma da mão na cama encostada ao comprido na parede, embaixo da janela. –Guilherme está trabalhando e só volta de noite – disse-lhe explicando que ficariam sós.

-Certo. Onde vamos estudar?

-Pode ser aqui na mesinha.

Thiago foi até a escrivaninha e rapidamente juntou os papéis e livros espalhados, fazendo uma pilha no canto. Curioso, Erick aproximou-se da mesa e observou por sob o ombro de Thiago o que ele estava guardando, surpreendeu-se, porém nada comentou.

Entre livros literários estava o didático deles, aberto na parte que falava sobre autores brasileiros. Aquilo deveria ser um caos para um garoto com dislexia, Erick pensou.

-Espera aqui, vou buscar outra cadeira na cozinha.

Fechou o último livro e virou-se de frente para Erick. Sorriu ligeiramente e foi até a porta do quarto, retirando-se.

O mais novo permaneceu no local onde estava, desorientado. Imóvel, Erick pensava no que deveria fazer para que soasse natural sua visita na casa do amigo. Sem muitas ideias resolveu fazer o que tinha vontade e foi na direção da cama de Thiago, sentando-se na mesma. Imediatamente sentiu-se completamente envergonhado, sem saber realmente a razão para tamanho desconforto e constrangimento.

Puxou fôlego uma, duas vezes e acariciou a coberta macia que escondia a cama, tapando-a. Esta mantinha uma bela estampa com folhas de outono em suas diversas cores e formas. Sentiu a maciez no movimento cima para baixo e por um pequeno momento se distraiu e permitiu-se pensar no quão delicioso seria dormir co- Opa! Não, não deixaria seus pensamentos vagarem por isso! Foi sem querer, mas o suficiente para acelerar seu coração bobamente.

-Trouxe a cadeira – anunciou Thiago carregando-a para dentro do quarto. Deparou-se com Erick sentado em sua cama e sorriu com tal cena. –Preferiu sentar na cama?

Assustado, Erick sobressaltou-se, pondo-se de pé e corando mais ainda.

-Algum problema? – perguntou mais por seu orgulho do que qualquer outra coisa.

-Nenhum. Se você preferir podemos estudar sentados na cama.

Erick deu de ombro e sentou-se novamente, sem mirar a Thiago. O moreno, o qual sua aparência se assemelhava ao do vocalista da banda alemã Tokio Hotel sorriu como sempre, locomovendo-se na direção da cama e, consequentemente na de Erick, sentando ao seu lado.

.

-Meninos, trouxe um lanche. Ué, não estão usando a escrivaninha?

Claudia estranhou a atitude dos meninos em estudar na cama, mas não deu bola. Largou a bandeja com o lanche rapidamente, não querendo atrapalhar e ouviu os meninos agradecerem. Retirou-se, sorrindo internamente.

Thiago levantou da cama, deixando Erick, vários papéis, livros e material didático espalhado pela mesma. Foi até a escrivaninha e pegou a bandeja que sua tia deixara, levando ela para a cama.

-Tem salada de frutas com merengue, bolachinha e coca. O que quer?

Erick esticou o braço e pegou da bandeja a taça com salada de frutas e merengue por cima, juntamente com uma colher de sobremesa.

-O que você disse? – Erick perguntou referindo-se a salada de frutas. O garoto nunca fora muito chegado a doces, até porque havia um grande histórico de diabetes em sua família. Agora, frutas...

-Disse que você gostava de frutas.

-Não era necessário – respondeu sério, mas com uma pontada de alegria, ajeitando os óculos que escorregavam pelo nariz. Sob o olhar atento de Thiago, Erick encheu a colher com salada e merengue, levando a boca.

Erick sabia numerar os vários motivos pelo qual a amizade deles estava dando certo e sendo tão produtiva, um deles era que ele nunca fora um garoto muito sociável, principalmente pelo fato de ser inteligente ele tinha o costume de “queimar” aos outros em conversas. Aprendeu, com o tempo que isso estava afastando as pessoas. Tentou diminuir a agressividade das palavras, mas realmente nunca conseguira se livrar de tal hábito. Felizmente Thiago não se importava, contando que tais palavras não fizessem menção de seu problema em aprendizagem.

-Gostosa? – perguntou Thiago, aguardando uma resposta positiva.

-Sim, sim. Ainda bem que não foi você quem fez.

-Idiota.

-É você.

Thiago riu com seu bom humor de sempre. Pegou a outra taça com salada de frutas e a segunda colher, comendo também.

Enquanto apreciava o doce Erick pôs-se a observar o quarto novamente. Fitou o teto, cheio de adesivos de estrelas e planetas que provavelmente brilhariam no escuro. Observou as prateleiras próximas da cama de Thiago e acabou por distrair-se com uma foto de dois garotos brincando juntos em um escorregador.

-Está vendo minhas coisas?

-Não – negou e abaixou o olhar com as bochechas vermelhas. Estava explícita a mentira em sua face.

-Quer ver o que tem dentro do meu guarda-roupa? – perguntou animado e mesmo sem receber uma resposta largou sua salada de frutas e levantou-se, indo até o grande guarda-roupa de cor escura. Erick viu-se obrigado a girar o corpo, pois estava de costas para o guarda-roupa. Observou enquanto Thiago retirava algumas coisas de dentro. Cintos, colares, pulseiras, anéis...

-Quantos acessórios. Eu não devo ter nem um quinto – comentou comendo sua salada.

Thiago riu com o comentário e guardou de volta. Enquanto colocava as coisas dentro do guarda-roupa novamente seu olhar pousou em algumas latas com tampas coloridas e teve uma ideia.

-Olha, esses sprays aqui são para pintar o cabelo. Tudo colorido. – Encheu braços e levou até a cama, atirando quase encima dos papéis se não fosse por Erick a empurrá-los na hora certa. – Quer fazer uma mecha?

-Está louco? Minha mãe me mataria.

-Não se preocupa, sai com água. Nem é tinta de verdade. Vem, qualquer coisa lavamos no banheiro.

O mais velho inclinou o corpo na direção de Erick, tentando tocar em seu cabelo. O garoto desvencilhou-se.

-Não Thiago!

-Ah, Erick! Você vai perder um dedo? Uma mão? Um braço? É só um pouquinho de tinta que sai. Amanhã mesmo não terá nem rastro dela. Que mal tem?

Erick pensou rapidamente e seguindo a linha de raciocínio de Thiago chegou à conclusão que realmente não faria mal se fosse somente por um dia e nos outros 364 do ano seu cabelo continuasse normal. Com um pesaroso suspiro deu-se por vencido.

-Certo.

-Oba! Que cor queres?

O moreno não quis admitir, mas algo dentro de si remexeu-se ao sentir a alegria de Thiago atingindo-lhe. Impediu-se de sorrir e baixou o olhar, analisando as latas.

-Verde?

-Sabia! É a sua cor favorita!

-Sim...

Thiago ajoelhou-se na cama, arrancou uma folha de seu caderno e pegou a lata de spray, sacudindo-a. Erick limitou-se a comer sua sobremesa enquanto repensava sua decisão e se perguntava mentalmente se era muito tarde para mudar de opinião.

-Uma mecha pequena – advertiu Erick.

O mais velho começou a mexer no cabelo de Erick, envergonhando-o mais ainda. O moreno de olhos verdes perguntou-se se seria sempre assim, nervoso com um pequeno toque de Thiago. De qualquer forma era gostoso, pois ele passava os dedos em seu cabelo suavemente para desembaraça-lo, mas era como em um carinho. Ouviu o barulho do spray. Era tão fácil assim?

-Prontinho – anunciou Thiago retirando a folha de papel que usara para separar somente uma mecha do resto do cabelo e esmagando-a até se reduzir a somente uma bola de papel. Mais uma vez levantou da cama e pegou de dentro do guarda-roupa um pequeno espelho redondo.

-Vê? Ficou bonito.

Erick segurou o espelho e observou o cabelo. Ficara... Diferente. Sentiu-se um rebelde e sorriu com tal pensamento, mas guardou para si permitindo que Thiago considerasse aquele sorriso de agrado.

-Sai mesmo, não é? – perguntou para ter certeza.

-Sim. Só passar água.

Erick continuou a observar seu cabelo. Levou mais uma colherada de salada a boca e virou a cabeça para o lado, tendo uma visão melhor da parte verde limão do cabelo.

-Erick?

-Hum?

Virou-se para Thiago ao ouvir seu nome ser chamado e fora pego de surpresa por um toque em seus lábios. Piscou duas vezes, tentando entender e imediatamente seu corpo todo esquentou. Houvera lhe sido roubado um selinho. Um selinho! De um garoto! De Thiago!

-Idiota! Por que fez isso?

-Calma. Selinho se dá até na mãe.

O mais novo teve vontade de jogar alguma coisa em Thiago, mas não encontrou nada e a única coisa que tinha em mãos era sua salada de frutas. Na verdade até havia bastante coisas, porém não conseguira pensar.

-Tanto faz Thiago! Idiota! Nunca era para ter feito isso! – xingou, tentando livrar-se da culpa. Culpa? Sim, pois por mais que sua mente negasse seu corpo houvera apreciado um tanto assim aquele pequeno gesto.

-Calma Erick. Prometo não fazer mais isso, mas foi só de amigo. Eu esqueci que... Você não deve se ressaltar tanto.

-Você é um garoto! E eu achei que seria o último a fazer algo assim! – aquilo era verdade. Também se sentia traído por ter confiado tão cegamente em um... Gay.

-Um garoto? Eu achei que você não tinha preconceito!

-Eu não tenho!

-Mas você beija sua mãe. Agora incesto tudo bem, mas homo não?

-Idiota! Estúpido! Minha mãe é minha mãe!

Aquela altura Erick já largara a taça de volta na bandeja e recusava-se a fitar Thiago. Aquele... Aquele toque em seus lábios... Os lábios dele... Um beijo...

-E nós somos amigos! A não ser que...

-Idiota!

Tremeu involuntariamente ao lembrar-se daquele toque quente e suave em seus lábios. Não era para ser assim...

-Erick, você nunca beijou antes?

-Obvio que já! – mentiu. Aquele houvera sido seu primeiro beijo.

-Então não se irrite. Você nem deve lembrar de todas as garotas que já beijou – tentou Thiago, mas percebera que aquilo que Erick dissera não era verdade.

-Você é um garoto!

O mais novo queria sumir da face da terra. Queria abrir um buraco no chão e enfiar sua cara com tamanha a vergonha. Havia acabado de dar seu primeiro beijo e com outro garoto! O primeiro...

-Desculpe. Viu Erick? Estou me desculpando. Desculpa, tá? Eu não sabia que você ficaria tão nervoso assim. É que eu costumo fazer assim com os amigos... – mentiu, assim como Erick. A diferença era que Thiago mentia dez vezes melhor.

O moreno da mecha de cabelo verde permanecia imóvel. Bom, não completamente, pois começara a tremer. Erick não conseguia vencer a vergonha, nem a mentira, nem o amigo, nem seus próprios sentimentos.

-Daqui a algum tempo isso não vai valer de nada. Você nem vai lembrar quando ficar com mais algumas garotas. Desculpa, sinceramente.

-Certo... – Erick resmungou em um fio de voz que saiu arrastado. Aquilo era impossível de esquecer! Seu primeiro beijo! Mas como não perdoar o amigo ou... Como ignorar... Como ignorar que... Estava tudo... Gostara... Como... Dizer...

Thiago suspirou um pouco mais aliviado. Observou as bochechas em chamas de Erick e pela primeira vez sentiu um aperto em seu peito com aquela cena. Sempre se encantava com o jeito envergonhado de Erick, mas desta vez aquilo era horrível. Ele recusara-o completamente e por pouco não perdeu a amizade. Sentia seu peito sendo esmagado por aquele sentimento ruim de tristeza, porém engoliu. Sentiu o bolor formar-se em sua garganta e forçou-se a sorrir.

Notas finais
HÁAA. Enganei T-O-D-O-S com a história do Matheus! Ninguém (que comentou) acertou o que se passava com ele, ou pelo menos não disse nada *estufa o peito, orgulhosa* Espero que tenham gostado dessa surpresa e o especial! Esse cap foi carinhosamente escrito para vocês, okks? E perdão o péssimo texto em terceira pessoa, faz tempo que não escrevo assim.
Obrigada a todos que vieram até aqui! 19 caps não é brincadeira! Olha a coragem para ler! Ahh, dezenove caps me lembra que a história não pode se arrastar muito mais...