Emma Mills?
24 Se você pudesse se ver com meus olhos...
Notas iniciais
Se você pudesse se ver com meus olhos...
Parecia ser a milésima vez que relia aquela mesma carta, talvez o fosse, e como poderia não o ser se muitas das vezes em que sentia a dor da saudade sufocar-lhe o coração, aquele simples pedaço de papel foi a única coisa que não a deixou cair aos pedaços? A verdade é que cada letra caprichosamente escrita naquela superfície tornou-se como um balsamo para a dor que se tornava cada dia mais forte, chegando quase ao ponto de sucumbi-la, palavras que de tanto serem relidas gravaram-se fortemente na mente da Rainha.
Mesmo as ligações diárias não bastavam para acalentar aquele sentimento, ou a casa sempre vazia que parecia zombar de sua dor sempre que a adentrava por suas portas, como se fizesse questão de esfregar em sua cara seu tamanho, que se fazia grande demais para uma pessoa só. A maior parte de seu tempo naquela imensidão era grudada no tão amado urso, que incrivelmente a fazia sentir-se mais perto de Emma.
As ligações, apesar do passar de cada semana, mês ou ano, jamais deixaram de serem constantes, aquecendo o coração de ambas, aliviando a saudade sentida por ambas, tanto que eram deveras ansiadas por Regina, e até mesmo por Emma, que com todos os trabalhos e tarefas, sempre arrumava tempo para falar com Regina, momentos ansiados pela não mais tão pequena loirinha. Porque era onde podiam falar sobre seu dia, sem faltar um só detalhe, pois, cada um deles garantia ao menos um minuto a mais da presença uma da outra, eram minutos preciosos demais para serem ignorados.
Na maior parte de seus dias, não importa quão horrível o mesmo tenha sido, falar com Emma o fazia valer a pena. Ouvir a loira lhe dizer como tinha sido cansativo seu dia, mas que havia concluído cada tarefa que precisava arrancava um sorriso de seu rosto, ouvir ela contando com riqueza de detalhes os momentos que passava na cidade, os pontos que conhecia, as partes tão engraçadas que arrancavam gostosas gargalhadas da mais velha, por saber que mesmo tão longe, Emma conseguia continuar sendo tão... Emma.
Ela não tinha muito a contar, afinal, só o que fazia era permanecer naquela prefeitura a maior parte dos dias, algumas vezes ia até a sorveteria, ou até mesmo visitar a escola na hora do intervalo, falar com as crianças a fazia se sentir mais viva, mais perto de seus melhores momentos com a loirinha. Isso quando tinha disposição, mas na maioria das vezes estava tão cansada de tanta solidão que sempre permanecia na prefeitura até mais tarde, somando trabalhos, ocupando a mente antes que enlouquecesse, parando apenas para falar com Emma, ouvir sua doce voz era mais eficiente que as pilhas e mais pilhas em sua mesa.
De certa forma, Emma sempre foi como uma resposta a todas as suas mais dolorosas questões, a única que fazia qualquer coisa valer a pena.
Mas o verdadeiro fato é que por mais longo e doloroso que possa parecer, o tempo passa, e em alguns casos, ele é o responsável por colher cada lagrima derramada, e as vezes, até mesmo devolver a razão de sorrir por ele tirada, mas, de um jeito ou de outro, o destino em algumas ocasiões tem seu próprio jeito de recompensar cada ferida aberta, tal como a dor por ela causada. Era o que de certa forma acontecia nesse momento.
Regina observava da janela de seu quarto, as folhas da arvores começavam a cair lentamente, sendo levadas por um vento preguiçoso, até alcançar o chão, o sol possuía seus raios mais fracos, apesar do céu azul, e de já se passarem das onze da manhã, anunciando um dia de outono que não seria nem quente nem frio. A vista era deveras atraente, porem, nem toda a beleza de tal imagem era o suficiente para distrair sua mente do relógio que parecia abraçar a delicada pele de seu pulso, marcando exatamente 11:10 am, suspirou novamente.
Ainda faltavam quatro horas para o avião que finalmente traria de volta sua não mais tão pequena Emma pousasse no aeroporto da cidade vizinha, e três horas para que realmente precisasse sair. Cada minuto parecia uma eternidade, mas seu coração sonhou tanto, esperou com tanta ansiedade que esse dia finalmente chegasse que sentia no mais profundo de seu ser que os minutos se arrastavam propositalmente. Como um complô.
Voltou a observar a paisagem, tentando acalmar a explosão de sentimentos em seu interior, sempre que lembrava que logo teria Emma sobre suas vistas novamente, ao alcance de seus braços que mal viam a hora de poder envolvê-la, certificando-se que dessa vez, apenas dessa vez seria real, e não mais um de seus tão freqüentes sonhos. Quando pensou na ultima vez em que abraçou Emma, um sentimento novo a preencheu, algo mais que ansiedade, parecia que milhares de borboletas em seu estomago, que faziam seu coração acelerar e um calor absurdo se fazer presente em suas bochechas, imaginava o que poderia ser, mas preferia não pensar no que essas sensações significavam, não podia.
Mas sorriu novamente ao lembrar dos olhos extremamente verdes que pareciam sorrir para ela quando desembarcou naquele aeroporto, faltavam alguns dias para a formatura da turma, que seria no sábado, era uma quinta feira, mas a turma já estava dispensada desde o dia anterior...
Seu coração parecia que sairia pela boca naquele exato momento, foram anos longe, anos apenas se falando por celular, parecia irreal demais que poderia abraçá-la novamente, ver seu sorriso, que estaria completa novamente. Caminhava lentamente, observando aquele lugar tão repleto de pessoas, enquanto seus olhos inquietos procuravam a segurança que apenas aquelas orbes verdes podiam lhe proporcionar.
Quando enfim os encontrou teve de prender a respiração, surpresa com a intensidade que eles transmitiam, mais escuros que ela se lembrava, realçados por uma maquilagem que os tornavam sedutores, a face já não parecia tão adolescente, possuía traços mais firmes e decididos, apesar de não ter medido, tinha certeza que a loira estava alguns centímetros mais alta que quando se viram, a boca rosada tingida por uma cor semelhante ao vermelho, tornando os atraentes até demais, seu corpo coberto por um leve vestido quatro dedos antes dos joelhos, o tecido lhe abraçava as curvas, valorizando cada uma delas, e as pernas bem torneadas da mesma.
Deslumbrada, era como se encontrava, tinha a certeza de jamais ter visto mulher mais linda que Emma, ao mesmo em tempo que se recriminava por ter tais pensamentos sobre a garota que viu crescer, controlou sua respiração antes de lhe lançar seu mais lindo sorriso, apressou os passos para logo se lançar nos braços da loira. E como sentiu falta desse contato, de sentir ela novamente em seus braços, segura e protegida, mesmo que agora ela fosse mais alta, sempre sentiria que apenas ela poderia lhe proteger. Fechou seus olhos, absorvendo o aroma tão único que a loira possuía, matando um pouco da saudade que sentiu todo esse tempo.
– Senti tanta sua falta Gina. Mais e mais em cada mover do ponteiro. – a voz rouca perto de seu ouvido lhe causou um leve arrepio, e arrancou um sorriso de seu rosto, tão bom ouvir novamente sua voz bem perto, tão bom não estar mais sozinho, ao menos por hora, iria aproveitar enquanto não precisa voltar para sua mansão absurdamente grande, sem Emma.
– Também, senti sua falta pestinha, em cada minuto desse tempo. – o sorriso que Emma lhe lançou ao ouvir como Regina lhe chamou foi tão grande que poderia ter iluminado Storybrooke inteira de tanto que brilhou, como sentira falta desse sorriso.
O abraço durou mais um tempo, quando por fim se soltaram, começaram a conversar sobre tudo e mais um pouco enquanto iam em direção a saída do aeroporto, pareciam duas adolescentes conversando e rindo como se nada mais importasse, e ao menos a elas, naquele momento, realmente não importava.
Emma colocou as malas – sim, malas, pois, mesmo que fosse por alguns dias, pelas malas que ela trouxe, parecia que ficaria ali uns dois meses – na traseira do carro e abriu a porta para Regina entrar, logo se dirigiu ao lado do motorista, colocou as chaves mas não fez menção alguma de começar a dirigir, a loira virou-se, ficando de frente para a mais velha, admirando sua face, segurou suas mãos e olhou em seu olhos.
– Você não imagina como é bom te ter aqui comigo, senti tanto a sua falta, desses olhos que me desvendam como apenas você sabe fazer. Nunca duvide de meu amor Gina, porque ele é maior que posso definir, e como eu disse na carta, é grande o bastante para atravessar esse mundo inteiro se estiver me esperando no final, você é tão mais do que se enxerga, se pudesse se ver com meus olhos, veria a mulher decidida, corajosa e incrível que realmente é, e o orgulho que sinto de você.
A morena sorriu docemente com essas palavras, seus olhos lacrimejando, sempre quis tanto, desejou tanto poder ser melhor, alguém digno do tesouro lhe concedido, de quem a loirinha pudesse se orgulhar, que estar ouvindo de seus lábios tais palavras proferidas com toda a sinceridade que lhe cabia o momento lhe deu não só uma imensa felicidade, mas também, trouxe consigo a certeza que cada sacrifício valeu apenas por lhe trazer até esse momento.
– Você não imagina como desejei com cada pedacinho do meu ser poder um dia ouvir essas palavras de você, que quando adulta, pudesse continuar vendo o melhor de mim, que ainda me amasse, sentisse orgulho de mim, ainda mais depois de todo esse tempo longe, tempo em que senti sua falta a cada minuto que passava. Eu me orgulho tanto de você minha não mais tão pequena Emma, tão forte e corajosa a ponto de vencer numa terra desconhecida, se formar, crescer como pessoa e ainda manter dentro de si a Emma que sempre conheci. – disse sorrindo e chorando ao mesmo tempo.
– Não podia ser diferente, não quando eu cresci com uma Rainha. – elas deram seu sorriso mais cúmplice, Emma beijou-lhe a maçã do rosto antes de se virar a começar a dirigir rumo ao apartamento de seria delas por aqueles dias, já que Sophie havia desistido do curso e foi para outra cidade, onde cursaria medicina.
Regina logo tratou de deixar os pensamentos de outrora de lado, apenas aproveitando cada um desses cinco dias que teria com a loirinha, precisou de mais força que julgava necessário para tal ação, mas enfim pode finalmente desfrutar dos momentos com Emma, e foram tão doces e agradáveis como costumavam ser, exceto que agora ela sentia um arrepio sempre que a abraçava, e seu coração mais acelerado quando lhe via sorrir, sensações que ignorava, pois, não estava preparada para o que elas significavam.
Conheceu cada parte da cidade, a loira não desgrudou dela um minuto sequer, sempre conversando, abraçando, matando um pouco da saudade que ambas sentiram.
Foram dias tão bons, sorria sempre que se lembrava deles, dias felizes, de paz e cumplicidade, novamente dirigiu seus olhos para o relógio, vendo que já haviam se passado meia hora, sempre se perdia no tempo quando se lembrava da loirinha, era tão natural que se tornava quase instintivo, seus orbes fitavam – agora com carinho – aquela jóia, que lhe foi enviada um mês atrás, pelo correio, junto a um bilhete de Emma...
A rainha estava ansiosa desde que soube que finalmente teria Emma ali consigo novamente, já faziam duas semanas desde que recebera tal noticia, e ainda tinha mais um mês para esperar, era uma grande tortura para a Rainha, o tempo precisava correr assim tão lentamente?
Foi arrancada de seus pensamentos pelo soar da campainha, imaginou que seria Mary, já que desde que Emma havia ido para a faculdade, volta e meia recebia visitas da professora, o que imaginou ser um pedido da loirinha, que nunca gostou de deixá-la sozinha. Meio resignada, andou em direção a porta, apenas para se surpreender ao ver o carteiro a sua frente com uma caixa em mãos. Assinou o recibo e logo entrou novamente na mansão, sentou-se no sofá, sorrindo assim que viu o remetente, sabendo de quem era.
Dentro da caixa, havia uma outra caixa, razoavelmente menor que a anterior, mas que não deixava duvidas do que continha em seu interior, em cima da caixa aveludada, jazia um cartão, onde leu seu nome com a caligrafia perfeita de Emma. Colocou a caixa nos joelhos e quando pegou o cartão, viu, bordado em dourado bem em cima da mesma: para alguém que vou amar até depois do para sempre...
Sorriu, Emma era sempre muito atenta a detalhes, perfeccionista quando se tratava dela, quando a Rainha imaginava que ela não poderia fazer nada mais lindo, lá ia a loira e se superava ainda mais. Abriu o cartão:
Querida Regina
Depois de tanta espera, finalmente posso declarar as palavras que quis dizer no momento que embarcava naquele avião, já estou voltando para meu lar, que sempre será onde você estiver. Quando menos perceber, estarei de novo ao seu lado.
Esse presente é para lembrar que logo cumprirei minha promessa, voltando para a segurança de seus braços. Use-o para se lembrar disso, conte os minutos daí que eu já os estou contando daqui, te espero no aeroporto Rainha, e não se atrase em!
;)
Com amor
Emma. S. Mills.”
Foi impossível não sorrir depois de ler tais palavras, é claro que jamais se atrasaria, mas amava o fato de que a loirinha lembrava cada detalhe de suas manias, que detestava atrasos por menor que eles sejam. Abriu a caixinha delicadamente, vendo um lindo e delicado relógio de ouro repousando majestosamente dentro da mesma, foi impossível a Rainha conter seu suspiro encantado, a jóia era toda trabalhada, de forma delicada, contendo no meio da mesma, exatamente no ponto em que saia os ponteiros, varias pedrinhas de rubi unidas formando uma linda maçã, assim como varias de esmeralda formando uma delicada folha, num designe maduro e sofisticado.
Retirou da caixa e não pode evitar sorrir grandemente, quando viu gravada na lateral da pulseira dourada um cisne com uma coroa em cima, ao lado, suas iniciais. R. Mills de forma bem discreta, imediatamente colocou a jóia em seu pulso, mais uma vez não conteve o suspiro ao ver que a mesma parecia ter sido feita para ela, em cada detalhe.
A rainha ficou sem palavras para agradecer pelo presente quando finalmente falou com Emma naquele dia, e como poderia ser diferente? Se a mesma sempre a encantava com a atenção e amor que lhe dedicava.
Finalmente, depois de tantos minutos, pode enfim sair de casa para buscar seu presente, depois de ter conferido cada detalhe da mansão é claro, para ter certeza que estava pronto para receber a loira de volta. O caminho até o aeroporto, demorou menos do que supôs e logo estava em frente ao portão de desembarque esperando ansiosamente pela loirinha, e quando seus olhos se miraram novamente, algo diferente aconteceu, algo único, que nenhuma delas saberia explicar quando seus olhares se cruzaram, só sabiam que era grande, poderoso.
Sentiam como se a espera tivesse demorado mais tempo que realmente levou, como se elas esperassem por esse momento desde a primeira respiração, e em seu interior, era como se soubessem, que não importasse o jeito que fosse, esse momento chegaria de qualquer forma, que era destinado...
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Minutos antes...
O que não se podia imaginar era que alguém observava de longe, seus olhos brilhavam como jóias preciosas ao fitarem a morena, que olhava ansiosa para os portões de embarque, sentindo que a loira se aproximava, apenas sorriu enquanto sentia ondas saindo dela, por hora decidiu deixar que aconteça o que está destinado a acontecer. Sorriu ironicamente com esse pensamento que surgiu como uma piada interna.
Acompanhou a troca de olhares, com um sorriso torto para a cena.
– É Rainha, agora é com você!
Deixou escapar indo até uma parte escondida do aeroporto, onde, com um aceno de mão, desapareceu numa nuvem de fumaça transparente...

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