Emboscada de Natal | Flash Book
7 Você é Bonito
Eram cinco da tarde e o sol já tinha desistido do dia. Encontrei Noah na varanda dos fundos. Ele estava sentado no degrau, sem casaco, apenas com aquele moletom cinza, com o celular nas mãos.
Ele não estava jogando. Estava encarando uma mensagem no WhatsApp com uma cara de quem acabou de ler uma ordem de despejo.
Hesitei na porta de vidro. A regra não dita era: Não perturbe. Mas a conversa sobre o Minecraft me deu uma coragem estúpida.
Abri a porta. O ar gelado invadiu a sala.
— Você vai pegar uma pneumonia — avisei, encostando no batente.
Noah bloqueou a tela rápido. Rápido demais.
— O frio preserva a carne.
— Credo. Isso soou como um serial killer.
Ele deu um meio sorriso, mas não olhou para mim. Continuou encarando as árvores escuras. Sentei no degrau ao lado dele. Mantive uma distância segura. A "Zona de Segurança do Ex-Amigo".
Chutei um pouco de neve com a ponta da bota. O silêncio não era ruim, mas eu tinha uma missão. — Olha... sobre o jantar — comecei, olhando para meus próprios pés. — Eu queria pedir desculpa.
Noah parou de girar o celular. — Pelo quê?
— Pelo engasgo. — Virei o rosto para ele. — Eu sei que pareceu que eu estava rindo da sua cara quando minha mãe perguntou das namoradas. Mas eu juro que foi só uma cenoura. Eu não estava debochando.
Ele ficou em silêncio por uns segundos, processando.
— Pareceu que você estava rindo — ele disse, baixo. — Tipo: "Ah, claro, o Noah namorando, que piada".
— Mas... por que você ficou tão puto com isso? — A pergunta saiu antes que eu pudesse filtrar. — Tipo, você ficou realmente chateado.
Ele desviou o olhar para a floresta. O maxilar travou. Ignorou a pergunta completamente. Como se tocar no motivo real fosse perigoso demais.
O silêncio voltou a crescer, ficando denso. Eu precisava que ele entendesse.
— Noah, sério — insisti, a voz saindo um pouco mais alta. — Eu nunca riria disso. Porque... qual é. Não faz sentido.
Ele finalmente me olhou. — O que não faz sentido?
Senti meu rosto esquentar no frio. Agora eu tinha me enfiado num buraco. Tinha que terminar a frase, por mais humilhante que fosse.
— Eu duvidar que você tem alguém — soltei, atropelando as palavras. — Noah, olha pra você. Você ficou... você é muito bonito. Tipo, bonito mesmo. Qualquer garota daquela escola estaria louca por você. Seria ridículo da minha parte achar que você não consegue ninguém.
Parei. O eco das minhas palavras ficou pairando no ar gelado. Você é muito bonito. Eu disse isso em voz alta? Disse.
Noah não desviou o olhar. Ele estava pensando, me encarando com uma expressão indecifrável. Os olhos dele varreram meu rosto, procurando algum traço de ironia. Mas eu não estava sendo irônico. Eu estava sendo sincero. Até mais do que gostaria.
— Ah — ele soltou. O som saiu meio estrangulado.
Ele coçou a nuca, parecendo subitamente desconfortável. As pontas das orelhas dele ficaram vermelhas, e eu tinha certeza que não era só por causa do frio.
— Valeu — ele murmurou, voltando a olhar para a neve, mas sem a frieza de antes. A voz saiu rouca. — Você... também não é de se jogar fora, Oliver.
Engoli seco. O coração batia na garganta. Ok. Eu tinha pedido desculpas. E tinha elogiado a aparência dele. E ele tinha devolvido. Do jeito torto dele, mas devolveu.
O ar entre nós tinha mudado. Não estava mais hostil. Estava elétrico.
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