O problema de dizer "você é bonito" para o seu ex-melhor amigo é a manhã seguinte. Acordei no colchão inflável com a coluna gritando. Olhei para cima: o beliche do Noah estava vazio e arrumado.

Respirei aliviado. Ótimo. Ele já tinha descido. Eu podia escovar os dentes e lavar a cara amassada sem ter que encarar ninguém.

Peguei minha necessaire e fui para o corredor arrastando os pés. A porta do banheiro estava apenas encostada. Nenhuma luz saindo pela fresta. Silêncio.

Assumi que estava vazio. Empurrei a porta e entrei.

— Opa.

Parei. Noah estava na frente da pia. Sem camisa. Apenas de calça de moletom cinza, perigosamente baixa na cintura. Ele estava terminando de secar o cabelo com a toalha.

— Foi mal! — recuei um passo, segurando a maçaneta. — Achei que estava vazio.

Mas meus olhos me traíram. Eles desceram. Rápido, mas desceram. Foi inevitável. Foi por curiosidade. O Noah magricela do Minecraft tinha ficado para trás. O cara jogava hóquei de verdade; tinha ombros largos, peitoral definido e aquela linha no abdômen que você só vê em filmes famosos.

Levantei o olhar, culpado. E percebi que ele tinha visto eu olhando.

Noah não se cobriu. Ele continuou secando o cabelo, tranquilo, mas com um brilho divertido nos olhos e um sorriso de canto.

— A visitação guiada começa só às nove — ele soltou, com a voz rouca de sono.

Travei. — Quê?

— O show. — Ele apontou para o próprio peito nu com o polegar, debochado. — Cobro dez dólares o minuto se for ficar encarando desse jeito.

Senti meu rosto pegar fogo. Abri a boca para me defender, dizer que eu não estava encarando coisa nenhuma, mas não saiu nada.

Ele riu. Uma risada curta e relaxada. Noah passou por mim na porta estreita. O espaço era pequeno demais. O braço nu dele roçou no meu pijama, quente e úmido do banho. Ele parou por um segundo ao meu lado e deu um tapinha no meu ombro.

— Relaxa, Oliver. Pra você eu faço desconto.

E saiu para o corredor, rindo baixo.

Fechei a porta, tranquei e encostei a testa no azulejo frio.

Maldito. Ele estava se divertindo.

Levei vinte minutos para recuperar a dignidade e sair do banheiro. Quando voltei para o quarto, Noah já estava vestido com uma camiseta preta, sentado na cama com o notebook no colo, com a cara mais lavada do mundo.

— Ei — ele chamou, sem tirar os olhos da tela.

— E ai.

Ele virou o notebook na minha direção. Na tela, a logo pixelada que eu conhecia de longe.

— Baixei a versão nova — ele disse, com um meio sorriso. — Quero te mostrar as coisas que fiz por esses tempos.

Franzi a testa, surpreso. O constrangimento de antes diminuiu. — Você tá falando sério?

— Tô. — Ele deu batidinhas no colchão ao lado dele. — Sobe aí. Quero ver se você ainda sabe fazer agricultura ou se esqueceu tudo.

Subi na cama. Sentei ao lado dele, encostando as costas na cabeceira. Estávamos ombro a ombro.

Ele abriu o mundo. E, cara... ele não estava brincando sobre a arquitetura. O que ele tinha construído não era uma casa. Era uma mansão moderna de vidro e quartzo, encravada numa montanha virtual.

— Uau — soltei, impressionado. — Isso é... Noah, isso é nível profissional.

— É só um passatempo — ele desconversou, mas vi o peito dele estufar um pouquinho. — Mas a despensa tá vazia. Preciso de alguém pra cuidar da comida.

— Deixa comigo — peguei meu celular para entrar no servidor. — O Rei da Batata voltou.

Passamos as próximas duas horas ali. Eu, plantando trigo virtual. Ele, projetando uma varanda gourmet pixelada. Rindo das ovelhas que caiam no buraco e discutindo qual madeira combinava com pedra.

Toda aquela estranheza e rancor de antes havia ido embora. Ali, jogando com ele, a sensação não era de pânico. Era de conforto. E isso, honestamente, era muito mais perigoso.