Emboscada de Natal | Flash Book
9 Protocolo de Natal
Meia hora depois, eu já estava me arrependendo. Se existe algo pior do que usar roupa social, eu desconheço. Eu estava no quarto, lutando contra o último botão do colarinho, quando Noah saiu do banheiro.
Ele estava de camisa branca de linho e calça social. Cabelo penteado para trás. Estava parecendo um adulto funcional e irritantemente alinhado, eu só consegui pensar: vai ser uma longa noite.
— Fecha a boca, Oliver — ele disse, passando perfume. — Vai babar na camisa.
— Não viaja. — Terminei de abotoar, desviando o olhar. — Só estou surpreso. Até que você sabe se arrumar.
Descemos para a sala. A primeira etapa foi a Sessão de Fotos Forçada das 22h. Minha mãe nos empurrou para a frente da árvore.
— Juntem mais! — ela gritou. — Vocês parecem dois estranhos!
Noah suspirou, impaciente, e me puxou pela cintura. Meu corpo travou. Fiquei rígido, sem saber onde colocar as mãos, enquanto o polegar dele alisava o tecido da minha camisa.
— Sorriam! — Tia Sarah gritou. Sorri amarelo. Foi o minuto mais longo da minha vida.
Mas a noite estava só começando. À meia-noite, o caos se instalou. Brindes, gritos de "Feliz Natal" e a obrigação social dos abraços. Abracei minha mãe. Abracei a Tia Sarah. E sobrou o Noah.
Ficamos nos encarando por um segundo. O protocolo exigia um abraço. Ele se aproximou e deu aquele abraço meio de lado, rápido, com dois tapinhas nas costas.
— Feliz Natal, Oliver — ele murmurou, perto do meu ouvido.
— Feliz Natal — respondi, tenso. Foi rápido, mas o cheiro do perfume dele grudou na minha roupa.
Depois disso, entramos no limbo da madrugada. As mães abriram mais vinho. Jogamos mímica (onde fui humilhado). Jogamos cartas (onde Noah roubou descaradamente). Comemos a sobremesa. Rimos. Contamos histórias. As horas se arrastaram. Eu já começava a ficar com sono, com os pés doendo no sapato social e minha bateria social chegando no negativo.
Às 01:45, minha mãe já estava rindo do nada e Tia Sarah quase dormindo sentada.
— Chega — Tia Sarah anunciou, levantando com dificuldade. — A velhice chegou. Cama. Agora.
— Ah, não! — minha mãe protestou, mas bocejou logo em seguida. — Meninos, não fiquem acordados até tarde. E não comam todo o pavê.
Elas subiram as escadas, rindo e tropeçando, deixando um rastro de "boa noite" pelo caminho e falando como era boa a vida de solteiras e alguns palavrões quando citavam os nomes dos nossos pais.
O relógio da sala marcou 02:10. O silêncio desceu sobre a cabana como um cobertor pesado. De repente, a música natalina de fundo parecia alta demais.
Noah levantou do tapete, onde estávamos jogando cartas, e desligou o som. A sala ficou iluminada apenas pelo pisca-pisca da árvore. Ele se virou para mim. A camisa dele agora estava com os primeiros botões abertos, as mangas dobradas e o cabelo bagunçado.
Eu estava sentado no sofá, abraçado a uma almofada como escudo, encarando ele. Estávamos sozinhos. Sem mães. Sem jogos. Sem desculpas.
— E aí — ele disse, a voz rouca de sono. — Sobrevivemos.
— Por pouco — respondi, num sussurro.
Ele não subiu para o quarto. Ele caminhou até o sofá e sentou na outra ponta. Longe, mas no mesmo móvel. Ele ficou olhando para as luzes da árvore, girando um anel imaginário no dedo. O ar ficou denso. Carregado.
Eu sabia que a gente não ia dormir agora.
Fale com o autor