As luzes da árvore de Natal piscavam num ritmo hipnótico. Verde, vermelho, dourado. Era o único movimento na sala. Eu continuava abraçado à almofada, usando-a como um colete à prova de balas emocional. Noah estava na outra ponta do sofá, girando um anel imaginário no dedo, olhando para o nada.

— Desculpa — ele disse.

A palavra flutuou no silêncio. Pisquei, confuso.

— Pelo quê? Pelo roubo no jogo de cartas? Porque aquilo foi sujo mesmo.

Noah soltou uma risada fraca, sem humor. Ele virou a cabeça para me olhar. — Não. Por ter sido um babaca. Desde que você chegou. E, principalmente, naquele dia na cozinha.

Apertei a almofada. O assunto tinha voltado.

— Eu já falei que não estava rindo de você, Noah. Foi o engasgo.

— Eu sei. — Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo bagunçado. — Mas eu não fiquei puto só porque achei que você estava debochando.

Ele fez uma pausa. Parecia estar escolhendo as palavras com cuidado, como quem pisa num campo minado.

— Eu fiquei puto com a pergunta da sua mãe. "Alguma garota especial". Aquilo me tirou do sério.

— Por quê? — perguntei, genuinamente curioso. — É uma pergunta chata, mas normal. A não ser que você tenha uma ex psicopata ou algo assim.

Ele me olhou. A expressão dele era séria. Cansada. — Não tem ex psicopata, Oliver. Não tem ex nenhuma.

— Ah, qual é. — Tentei aliviar o clima. — Jogador? Você deve ter uma fila de...

— Não é falta de opção — ele me cortou. A voz saiu seca. — É falta de interesse.

O sorriso morreu no meu rosto. Noah sustentou meu olhar. Ele travou o maxilar, respirou fundo e soltou a bomba:

— Eu não gosto de garotas.

Silêncio.

Fiquei olhando para ele, paralisado, com a almofada no colo. A frase ecoou na minha cabeça. Eu não gosto de garotas. De repente, tudo fez sentido. A frieza. A defesa armada. O jeito que ele ficou desconfortável quando eu disse que ele era bonito. A provocação no banheiro…

Abri a boca para falar alguma coisa. Qualquer coisa. Mas nada saiu. O choque não era ruim. Era apenas... grande. Grande demais para processar às duas da manhã.

Noah esperou. Um segundo. Dois. Três. O meu silêncio deve ter sido ensurdecedor para ele. Ele desviou o olhar, encarando o tapete. Os ombros dele caíram. Ele parecia ter se arrependido de ter falado.

— Está tarde — ele murmurou, abruptamente.

Antes que eu pudesse responder, ele levantou do sofá num pulo. Não olhou para mim. Passou a mão pelo rosto, nervoso, e caminhou rápido em direção à escada, fugindo da sala como se ela estivesse pegando fogo.

Ouvi os passos dele subindo. Pesados. Fiquei sozinho na sala, processando.

Se eu ficasse ali, seria uma resposta. O silêncio seria uma resposta. E não era a resposta que eu queria dar.

Joguei a almofada no sofá, levantei e fui para a escada.