Subir as escadas atrás do Noah foi estranho. O corredor tinha cheiro de madeira velha e velas de canela, mas o silêncio entre a gente era tão pesado que quase dava para tropeçar nele.

Ele empurrou a porta do quarto com o pé e entrou. Eu parei na porta, esperando ver o santuário nerd de antigamente. Pôsteres, legos, bagunça e muito vídeo-game. Mas o quarto estava... vazio. Paredes cinza, uma estante de livros organizada e uma guitarra num canto. A cama estava perfeitamente feita. Não parecia o quarto de um adolescente. Parecia um quarto de hotel. Frio e sem personalidade.

No chão, espremido entre a cama, estava o colchão inflável azul. Murcho.

— A bomba tá ali — Noah apontou para o canto com o queixo, tirando o celular do bolso. — Sabe usar, né?

— Sei — menti. — Tranquilo.

Ele se sentou na cama dele. Não puxou assunto sobre a escola, não perguntou da minha vida. Ele apenas pegou um headset grande que estava na cabeceira, colocou na cabeça e encostou na parede.

Ele criou uma barreira física entre nós. Ok. Mensagem recebida. Fique no seu canto, Oliver.

Me ajoelhei no chão e peguei a bomba manual. O quarto estava num silêncio absoluto. Noah parecia ter esquecido que eu estava ali. De todos esses anos, uma coisa eu percebi. Ele havia se tornado um péssimo anfitrião.

Respirei fundo e comecei a bombear. Fwiip-fwoop. O barulho do plástico enchendo era agudo e irritante. Fwiip-fwoop.

Essa coisa parecia um elefante asmático. Senti instantaneamente meu rosto esquentar.

Eu estava ali, de joelho, humilhado, suando dentro do casaco de inverno, fazendo uma barulheira infernal, enquanto meu ex-melhor amigo que dividia a mesma escova de dente comigo agia como se eu fosse invisível.

Olhei de canto de olho. Noah estava com a testa franzida, digitando algo no celular. A luz da tela iluminava o rosto dele. Ele parecia sério. Totalmente distante.

Foi um tempo até, finalmente o colchão tomar forma. Joguei meu travesseiro em cima. Noah tirou um dos lados do fone, sem me olhar.

— Banheiro é na segunda porta à direita. A toalha azul é sua.

— Valeu.

E colocou o fone de volta.

Eu sentei no meu colchão baixo, no nível do chão, olhando para o teto.

Como uma cabana de uma família tão rica não tinha um colchão decente?