Emboscada de Natal | Flash Book
2 Um Território Hostil
Subir as escadas atrás do Noah foi estranho. O corredor tinha cheiro de madeira velha e velas de canela, mas o silêncio entre a gente era tão pesado que quase dava para tropeçar nele.
Ele empurrou a porta do quarto com o pé e entrou. Eu parei na porta, esperando ver o santuário nerd de antigamente. Pôsteres, legos, bagunça e muito vídeo-game. Mas o quarto estava... vazio. Paredes cinza, uma estante de livros organizada e uma guitarra num canto. A cama estava perfeitamente feita. Não parecia o quarto de um adolescente. Parecia um quarto de hotel. Frio e sem personalidade.
No chão, espremido entre a cama, estava o colchão inflável azul. Murcho.
— A bomba tá ali — Noah apontou para o canto com o queixo, tirando o celular do bolso. — Sabe usar, né?
— Sei — menti. — Tranquilo.
Ele se sentou na cama dele. Não puxou assunto sobre a escola, não perguntou da minha vida. Ele apenas pegou um headset grande que estava na cabeceira, colocou na cabeça e encostou na parede.
Ele criou uma barreira física entre nós. Ok. Mensagem recebida. Fique no seu canto, Oliver.
Me ajoelhei no chão e peguei a bomba manual. O quarto estava num silêncio absoluto. Noah parecia ter esquecido que eu estava ali. De todos esses anos, uma coisa eu percebi. Ele havia se tornado um péssimo anfitrião.
Respirei fundo e comecei a bombear. Fwiip-fwoop. O barulho do plástico enchendo era agudo e irritante. Fwiip-fwoop.
Essa coisa parecia um elefante asmático. Senti instantaneamente meu rosto esquentar.
Eu estava ali, de joelho, humilhado, suando dentro do casaco de inverno, fazendo uma barulheira infernal, enquanto meu ex-melhor amigo que dividia a mesma escova de dente comigo agia como se eu fosse invisível.
Olhei de canto de olho. Noah estava com a testa franzida, digitando algo no celular. A luz da tela iluminava o rosto dele. Ele parecia sério. Totalmente distante.
Foi um tempo até, finalmente o colchão tomar forma. Joguei meu travesseiro em cima. Noah tirou um dos lados do fone, sem me olhar.
— Banheiro é na segunda porta à direita. A toalha azul é sua.
— Valeu.
E colocou o fone de volta.
Eu sentei no meu colchão baixo, no nível do chão, olhando para o teto.
Como uma cabana de uma família tão rica não tinha um colchão decente?
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