Emboscada de Natal | Flash Book
3 Engasgado com a Cenoura
No jantar, as mães decidiram que o tema seria: "Vamos fingir que o tempo não passou". Tia Sarah fez assado. Minha mãe abriu o vinho e eu e Noah fomos colocados lado a lado como antigamente.
— Vocês estão tão enormes e lindos! — Tia Sarah disse pela quinta vez, servindo batatas. — Lembram quando vocês construíram aquela passarela de dinossauros na sala?
— Lembro — Noah respondeu. Curto. Educado. Sem olhar para mim. Ele comia com a precisão de um cirurgião, focado no prato como se a carne fosse a coisa mais interessante do mundo.
Eu aplicava minha melhor estratégia: manter a boca cheia para não ter que falar e apenas acenava. Mas mães são predadores experientes. Elas sentem o cheiro do medo.
— E então... — minha mãe tomou um gole de vinho, assumindo o tom de “Fofoqueira do Bairro". Ela mirou no Noah. — Como está a vida amorosa? Alguma garota especial?
Eu engasguei com a cenoura. Foi involuntário e barulhento. Comecei a tossir, buscando o copo de água desesperado. Noah parou o garfo no ar. Ele virou o rosto para mim devagar. A expressão não era de preocupação. Era de irritação.
Porra.
Os olhos dele se estreitaram, frios. Tá rindo do quê? Ele deve ter pensado. Pode ter achado que eu estava debochando. Que eu estava rindo da ideia dele ter alguém.
— Não, Tia Karen — ele respondeu, seco, ainda me encarando enquanto eu tentava recuperar o ar. — Sem tempo. O hóquei e as aulas tomam tudo.
— Ah, que pena — minha mãe suspirou, decepcionada.
Recuperei o fôlego, sentindo meu rosto queimar, querendo explicar que eu só engasguei, não estava rindo. Mas o momento passou. Noah voltou a olhar para o prato, o maxilar travado.
Aí foi a vez da Tia Sarah. Ela sorriu para mim, preparando o ataque. — E você, Oliver?
O laser mudou de alvo.
— É... — minha voz saiu rouca por causa da tosse. — Focado nos estudos. O último ano foi pesado.
Minha mãe revirou os olhos do outro lado da mesa.
— "Estudos". Oliver não sai do quarto nem pra ver a luz do sol, Sarah. Eu vivo dizendo: filho, sai desse computador, vai viver!
Silêncio na mesa. Eu queria morrer. Simplesmente evaporar. Era a humilhação suprema na frente do cara popular que já estava irritado comigo.
Esperei que o Noah dissesse algo. Qualquer coisa. Nem que fosse uma risada de escárnio. Mas ele não fez nada. Absolutamente nada. Continuou cortando a carne com uma calma irritante, como se eu não estivesse sendo massacrado a trinta centímetros dele.
Tia Sarah riu, aquele riso nervoso de quem quer mudar de assunto, e começou a falar sobre a previsão de nevasca para o dia seguinte. E assim foi.
Eu arrisquei olhar para o lado. Queria saber o tamanho do estrago. Queria checar se ele ainda estava bravo pelo engasgo ou se estava rindo da minha cara por dentro.
Nada. Noah não retribuiu o olhar. Não piscou. Parecia focado em ignorar a minha existência. O muro estava lá. Alto, frio e intransponível.
Voltei a encarar meu prato, perdendo a fome.
Ele me odiava. Certeza.
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