Se existe algo mais alto do que um tiro de canhão, é um colchão inflável no meio da madrugada.

Virei para a esquerda: NHEEEEC. Virei para a direita: FROOOMP.

Eu estava naquela batalha há horas. Olhei para cima, para o estrado da cama do Noah. Silêncio total. Pelo menos um de nós estava dormindo. Ou então ele tinha morrido sufocado com o travesseiro e eu era o próximo.

O problema era que minha garganta estava seca. O aquecedor da cabana transformava o ar em deserto e eu precisava de água.

Tentei levantar. O colchão fez um som que pareceu um pedido de socorro de uma baleia. NHEEEEEC.

Parei. Um arrepio de medo tomando conta do meu corpo.

Esperei algum xingamento vindo de cima. Nada.

Levantei a cabeça de leve, em total câmera lenta e espiei com mais precisão a cama. Vazio. O edredom estava jogado de qualquer jeito.

Ué.

Saí do quarto na ponta dos pés, pisando nas tábuas do corredor como um ninja fracassado. A cabana estava escura. A neve lá fora refletia uma luz azulada fantasmagórica pelas janelas.

Entrei na cozinha. E quase tive um infarto.

Tinha alguém encostado na bancada da pia, iluminado apenas pela luz fraca do relógio do micro-ondas.

Noah.

Ele segurava um copo de água, encarando a janela escura. O capuz do moletom estava puxado sobre a cabeça.

Travei na entrada. Foge, Oliver. Volta pro quarto e morre de sede.

Mas era tarde demais. Ele virou a cabeça. Na penumbra, os olhos dele pareciam cansados.

— Foi mal — sussurrei, a voz falhando. — Não sabia que você estava aqui embaixo.

Ele não respondeu de imediato. Tomou um gole da água, devagar.

— Aquele colchão faz barulho pra caralho — a voz dele saiu rouca. — Desisti de tentar dormir faz uns vinte minutos.

Senti meu rosto esquentar. Então ele tinha fugido do quarto por minha causa. — É. Desculpa. Tentei não me mexer.

— Você se mexeu a cada trinta segundos — ele disse. Não era uma acusação raivosa, era só uma constatação de fatos. — Eu contei.

Ótimo. Além de perdedor, eu era a causa da insônia. Caminhei até a geladeira, tentando agir naturalmente. Peguei a jarra de água. O vidro tremeu na minha mão.

O silêncio entre nós era pesado. Eu queria dizer: "Ei, eu não ri de você no jantar. Eu só engasguei." Mas as palavras entalaram. O Noah da cozinha parecia ainda menos acessível que o do jantar.

Ele suspirou. Um som longo, impaciente e incomodado de provavelmente dividir a cozinha comigo. Desencostou da pia e colocou o copo vazio na bancada. Passou por mim para sair da cozinha. Senti o vento do movimento dele.

Quando achei que ele ia sumir no corredor sem dizer mais nada, ele parou. De costas para mim.

— Tem remédio pra crises no armário de cima — ele disse, baixo. — Caso você decida "rir" de novo.

E saiu, me deixando sozinho na cozinha escura.

É. Ele ainda estava puto. E sarcástico.