Minha mãe chama de "A Magia do Natal”. Eu, de "Emboscada".

Fazia cinco anos que eu não via a Tia Sarah. E, consequentemente, cinco anos que eu não via o Noah. A última lembrança que eu tinha dele envolvia aparelho nos dentes, um corte de cabelo de tigela e uma obsessão não saudável por Minecraft.

— Olha essa neve, Oliver! — minha mãe suspirou assim que desligou o carro. — Não é lindo?

O vento gelado me deu um tapa na cara assim que abri a porta. Puxei minha mala do porta-malas, afundando a bota na lama branca.

— É branco. E frio. — ajustei meu cachecol. — Podemos entrar antes que eu perca um dedo?

Subimos os degraus da varanda. A porta da cabana se abriu antes mesmo que a gente tocasse a campainha.

Para minha surpresa, não foi a Tia Sarah que atendeu. Foi um cara que eu levei uns três segundos para reconhecer.

Ele tinha esticado. Muito. Ocupava o batente da porta de um jeito que o Noah de doze anos jamais ocuparia. O cabelo estava mais escuro, caindo no rosto, e ele usava um moletom cinza surrado que parecia extremamente confortável.

Ele olhou para mim, depois para minha mãe. — Tia Karen — a voz dele tinha mudado. Estava mais grave, arranhada. — Oi.

— Noah! — minha mãe passou por mim e o abraçou. Ele retribuiu, dando tapinhas meio desajeitados nas costas dela, mas com os olhos fixos em mim.

Engoli seco.

— E aí — soltei.

Ele me analisou. De cima a baixo.

— Oliver — ele disse meu nome como se estivesse testando a palavra na boca. — Você... mudou.

— Acontece — respondi, sem jeito. — Cinco anos, né?

Um sorriso de canto. Mínimo. Quase imperceptível. — É. Pois é.

Antes que o silêncio ficasse insuportável, Tia Sarah surgiu da cozinha, gritando e chorando, transformando o hall numa chuva de abraços. Noah aproveitou a distração para pegar a mala da minha mão.

— Deixa que eu levo — ele murmurou. — O quarto de hóspedes tá lotado com as coisas da minha avó.

Pera.

— E... onde eu vou dormir?

Ele já estava na metade do caminho. Nem parou para responder, só jogou por cima do ombro:

— No meu quarto. Tem um colchão lá.

E desapareceu no corredor.

Fuzilei minha mãe com o olhar. Traíra. Custava ter avisado que dividira o quarto com alguém? Eu teria trazido roupas de dormir que não fossem socialmente humilhantes.

Ela nem piscou. Apenas manteve aquele sorrisinho cínico no rosto.

É. Feliz Natal para mim.