Em um Canto Escuro
2 Despertar
Notas iniciais
Ao acordar no dia seguinte, Requy está sentindo uma estranha sensação, como se tivesse acontecido algo durante seu sono, mas não consegue dizer o que. Em sua cabeça, imagens passam de forma dispersa, mas o que ele consegue se lembrar é nítido o suficiente para saber que aquilo, de alguma forma, havia sido real. Se era algo que aconteceu em sua presença ou se foi algo que esteve em sua cabeça não conseguia dizer. “É assim que um louco se sente?” pensou. Sua mente retoma o foco no agora quando ele olha para o relógio. São 8 horas, e ao olhar pela janela, vê que está apenas começando a amanhecer.
– Opa, hora de levantar!
Requy levanta-se e vai para o banheiro para se lavar e começar o dia, rumando em seguida para a cozinha para tomar seu café da manha. Enquanto comia uma tigela de cereal, lembrou-se que esqueceu de pedir para seu pai o telescópio emprestado para o dia seguinte. Assim que terminou de comer, foi até seu quarto e pegou um bloco de notas e escreveu “posso pegar o telescópio amanhã à noite?” nele, arrancando a folha em seguida e prendendo-a à porta da geladora ao descer para a cozinha novamente, para que seu pai veja quando voltar do trabalho após o meio dia. Nesse meio tempo, é hora de Requy trabalhar. No momento que o garoto abre a porta da frente de sua casa, o telefone toca na sala.
– Altamente oportuno. — resmunga ele direcionando-se para atender a chamada — Alô?
Do outro lado, um chiado ensurdecedor responde ao garoto, que afasta o telefone da orelha por reflexo. Ele olha assustado para o aparelho em sua mão.
– Mas o quê? — balbucia, aproximando o telefone de sua orelha novamente.
Desta vez, ele consegue ouvir um leve ronco do outro lado, como se um motor estivesse em funcionamento mas sem ser estimulado a produzir mais potência, esperando.
– A-alô? — ele repete mais uma vez, com temeridade na voz. Mais uma vez, ele ouve um chiado do outro lado, mas desta vez nota que há uma voz por trás de todo aquele som, e aos poucos esta voz parece estar ficando mais clara.
– Acorde. Você tem 10.008 segundos.
A porta se abre. Requy se encontra novamente em seu quarto, envolto nas sombras, com a luz que entra pela janela formando uma penumbra no interior e traçando uma linha entre a cama e a porta para o corredor do segundo andar. Observando o ambiente, pôde notar que há algo nas sombras, é possível ver seus movimentos, mas nada distinguível. Ficar parado na cama não o ajudará em nada, pensa o garoto, que então levanta-se e segue diretamente para a porta. Por algum motivo, sabe que a linha de luz entre a sua cama e a porta é o caminho. O caminho seguro, pelo menos. O corredor não está em condições muito melhores, tendo apenas a lâmpada bem no centro do mesmo como fonte de luz. Parado bem embaixo dela, sua cabeça move-se para ambos os lados, mais uma vez observando o ambiente. Um ruído estranho vêm de sua direita, mas ao olhar, não consegue ver nada, apenas o canto escuro que a luz não consegue revelar totalmente, mas, novamente, consegue ver movimentos vindo do meio das sombras. Sua cabeça começa a lhe trazer pensamentos de paranóia. Ao dar um passo para a frente, o ruído aumenta de volume, e ao olhar novamente, o garoto se assusta ao notar que as sombras começam a se mover em sua direção, quase como se fosse um líquido escuro escorrendo por uma superfície levemente inclinada, e aquilo continua a se aproximar ainda vagarosamente, com a velocidade aumentando a cada instante. O garoto começa a recuar, sentindo algo perverso vindo daquela coisa à sua frente. Ele vai recuando, recuando, recuando, até sentir suas costas baterem contra algo maciço, como uma parede. Ao virar-se, em sua frente apenas o vazio do corredor, e mesmo que estique a sua mão, não consegue alcançar além do círculo iluminado, como se algo o estivesse barrando.
O ruído atrás de Requy aumenta de volume, e ao vira-se, vê que as sombras deixaram de parecer algo líquido e tomaram forma, e ainda que não aparente ser algo exatamente sólido, o garoto nota que aquilo tem consistência o suficiente para lhe causar danos diretamente em seu corpo, e aquilo rapidamente se prepara para dar um bote em Requy. Por reflexo, ele estica seu braço na direção do vaso que repousa no armário do corredor, e o atira contra a criatura. Aquilo reage na mesma hora, porém erra na sua decisão e pula contra o garoto, e é atingida pelo vaso em cheio, derrubando-a. Nesse momento as luzes atrás de Requy se ligam em um forte estalo, e a parede invisível nas costas de Requy parecem desaparecer sobre o peso das costas do garoto, que cai no chão devido a desaparição repentina de onde ele se apoiava até o momento.
A queda o atrapalha tempo o suficiente para que a criatura se recupere do golpe sofrido, e mais uma vez tenta atacar o garoto, que se joga para o lado e se põe de pé rapidamente, usando-se da força vinda de seus músculos para levantar-se para começar a correr de seu agressor. O quanto mais avança, mais e mais luzes se ligam, criando um caminho através do corredor, agora muitas vezes mais longo do que deveria ser. Sua fuga continua, até encontrar um jogo de escadas que vão além do teto da casa, seguindo por um buraco de onde vem uma leve luz. Sem ter muita escolha, Requy começa a correr escada acima, pulando degraus de dois em dois, atrás dele, a criatura continua a perseguí-lo cada vez mais rápido, quase como se deslizasse pelo chão.
Voltando sua atenção para a sua frente, é impossível deixar de notar o fato que a
escada se estende pelo céu em uma espiral, terminando em mais uma luz, mas dessa vez com uma coloração azulada, parecida com a Lua em Planetary. Ao examinar as ruas de Planetary, ele consegue distinguir apenas as paredes das casas com mais de um andar, abaixo disso um mar de escuridão toma conta, com apenas alguns pontos amarelos distinguíveis dentre toda aquela massa preta. Uma sensação ruim toma conta do estômago de Requy.
– Sem chance de descer. — ele olha para a luz no topo da escadaria, mais ou menos um prédio de cinco andares acima dele — O jeito é continuar subindo.
Tomando cuidado para não tropeçar e cair mas sem diminuir demais seu passo, Requy retoma a corrida escadaria acima. Olhando novamente para trás, ele consegue ver a criatura surgir da abertura no teto com certa lentidão. Ele nota que a cada degrau que ela sobe, a criatura se estica, com dificuldade de alcançar o próximo degrau, com cerca de dez centímetros de altura entre cada um. Pelo que consegue notar, um terreno estreito e alto causa uma grande dificuldade de movimentação naquela coisa. Aproveitando-se disso, o garoto aumenta um pouco mais a passada, esticando as pernas o suficiente para pular de degrau em degrau sem perder muita velocidade.
Um pouco depois da metade do caminho, Requy pára para examinar novamente a cidade, tentando descobrir até onde aquela legião de criaturas chegou. Ao, examinar a cidade ao longe, seu coração pesa ao notar que as criaturas estão desde o Observatório, na ponta norte, até a lagoa da ponta sudeste, passando por todas as ruas centrais e tomando boa parte do lado leste. Os distritos oeste e sudeste estão quase limpos, mas não parece ser algo que continuará assim por muito tempo.
O coração de Requy pesa sobre tal visão, especialmente ao pensar em Lute. Onde estaria ela no meio de tudo aquilo? Esse era um pensamento que inconscientemente manteve afastado até agora, para conter o medo que estava sentindo naquele momento. Ele aperta seu punho, na tentativa de afastar esses pensamentos de sua cabeça, e continua seguindo pela escadaria. Por mais que odeie admitir, não há nada que ele possa fazer. Ele não sabe contra o que está lutando, mas já notou que simples pancadas não farão efeito algum sobre essas criaturas, e ele sente que algo no topo daquela luz lhe trará respostas para isso.
O fim da escadaria está próximo agora. A luz começa a atrapalhar um pouco a visão de Requy, que tapa o excesso de luz nos olhos com a sua mão. Para ter certeza que está seguro, ele olha para trás na tentativa de localizar a criatura, avistando-a a alguns metros abaixo. Ela aumentou a velocidade de sua subida, e estaá um pouco mais rápida que Requy, mas agora isso já não o preocupava, pois estava bem próximo da luz, seria impossível para ela alcançar-lo naquela situação. O vento que batia no corpo de Requy daquela altura estava começando a fazer com que manter o equilíbrio fosse difícil, e seu corpo começou a bambear de um lado para outro. O garoto firma o corpo, e olha a frente. Ele está a apenas alguns degraus de distância, e então um relâmpago corta o céu, iluminando a mão negra gigantesca que se aproxima de Requy pela sua esquerda. Num reflexo, ele se joga para a frente, caindo sobre o degrau seguinte, e a mão atinge a escada em cheio. O degrau em que Requy está caído vibra por um momento, e despenca logo em seguida. Reflexivamente, ele se agarra no degrau seguinte, e tenta se puxar para cima, então uma sensação de completo horror cruza pelo seu corpo no momento em que sente o degrau em que está se segurando começar a vibrar da mesma forma que o anterior.
Ele sente seu corpo leve. O vento assovia fortemente em suas orelhas, e ele sente a gravidade o puxando para baixo. A luz rapidamente se afasta de Requy, enquanto o mesmo se aproxima cada vez mais do chão. Ele sabe que o ponto em que está caindo é exatamente sobre o mar de criaturas que infesta a cidade abaixo. Ele fecha seus olhos. “É o meu fim” ele pensa com convicção. Logo antes de chegar ao chão, ele sente um puxão, e ao abrir os olhos vê Lute, o segurando pelo braço. Ele olha em volta e nota que está de novo na sala de sua casa, atrás da amiga, ele vê o teto. Estava deitado no chão.
– Cara, nunca mais me assuste assim! — a voz de Lute demonstra uma estranha mistura de brincadeira com séria preocupação.
– O que houve? — pergunta ele, sentindo sua cabeça doer um bocado.
– Eu estava passando para falar contigo antes que fosse trabalhar e encontrei a porta aberta. Logo que entrei, você estava ao telefone e logo em seguida desmaiou. Eu tentei te segurar mas só consegui catar o seu braço. Pelo menos você não bateu a cabeça. — Requy pôde notar mais claramente a preocupação na voz dela. Ela o ajuda a se levantar e o senta no sofá — Você não parece estar em condições de ir trabalhar, Requy. Você está bem pálido.
– Eu estou bem. Só preciso descansar um pouco.
A garota então se dirige até a cozinha, pega um copo de água e leva até o amigo.
– Obrigado. — ele pega o copo e bebe vagarosamente, para molhar bem a garganta seca.
– O que aconteceu? — Lute se mostra cada vez mais abalada pelo ocorrido — Quase morri do coração quando te vi ali caído!
– Eu… não sei, sinceramente. Atendi telefone e, sei lá, devo ter apagado, pois lembro de algo, um sonho talvez? Alguém no telefone me disse algo sobre ter um tempo limite para acordar, quase como se fosse um teste… Eu não lembro bem.
– Cara, você tá mal, acho realmente melhor você ficar por casa hoje. Você deveria ver o quão pálido está seu rosto!
– Ok, entendi. Só preciso ligar para o chefe avisar. — ele confere o relógio de parede — Sorte que ainda é meio cedo, ele não vai pirar demais por eu faltar.
– Você nunca falta, não tem porque ele não te liberar dessa vez.
Requy ficou em silêncio por um momento, olhando então para a amiga e lhe dando um sorriso, grato. Ela sorri de volta.
– De nada, e vê se se cuida!
– Não que eu possa prever quando vou desmaiar, mas irei tentar — riu ele — E o que queria falar comigo?
– Ah sim! Era sobre amanhã. Queria lhe pedir para preparar algo para a gente comer enquanto estivermos lá, e também vim lhe entregar isso. — ela puxa uma carteira de dentro de um dos bolsos do casaco.
– Ah, a carteira do Norman.
– Achei ela embaixo da pia da cozinha. Não sei se quero saber como ela foi parar lá.
– Qual é, é o Norman! Ele não perde as coisas, as coisas fogem dele. Lembra daquela vez que ele perdeu a meia sem ter tirado o tênis?
– Pffffft! É claro que ele tirou o tênis, não inventa! — ela debocha rindo. Dando uma olhada no relógio, ela levanta-se — Bem, só vim lhe entregar isso para você devolver para ele no trabalho. Mas já que você não vai ir hoje, não quer que eu mesma vá levar?
– Se não for demais pra você, fique a vontade. — ele devolve a carteira para ela — Eu vou ligar para lá agora e vou voltar para a cama.
– Faça isso, descanse mais um pouco. Qualquer coisa, me ligue que eu venho lhe dar uma mãozinha. — ela disse sorrindo amigavelmente.
– Ok, e valeu. — Requy devolveu o sorriso. Ela lhe acena e sai, fechando a porta. Nisso, o garoto pega o telefone novamente e começa a discar o número de seu trabalho — Alô? Aqui é o Requy.
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