Em um Canto Escuro
3 Pedestal
Notas iniciais
— Acorde. Você tem 321 segundos.
A porta do quarto se abre. Requy está deitado em sua cama, e a luz vinda da janela forma um caminho entre a cama e a porta. Aquilo parece muito familiar para ele, o que o faz tentar se lembrar do que pode estar ligado aquilo. Aos poucos sua mente vai juntando os fragmentos do sonho que teve naquela noite, a luz, a criatura, as escadas, a luz no fim delas… Lentamente elas retornaram até sua cabeça, mas algumas partes que ainda estão nubladas, incompletas, porém o suficiente para tentar mais uma vez atravessar o caminho.
Ao se levantar da cama, nota que está totalmente vestido, como se nem tivesse trocado de roupa para descansar antes de deitar-se novamente. Ao erguer os olhos para a porta, se assusta ao ver a criatura de antes o fitando, e agora, contra a luz vinda da janela, consegue ver claramente sua forma esguia, sua boca serrilhada abaixo do olhos amarelos, mãos e pés com dedos pontiagudos que mais parecem garras e antenas longas e retorcidas. Uma sensação horrível começa a percorrer o corpo do garoto ao vê-la. Pondo um pé para dentro do quarto, ela começa a andar na direção de Requy, bloqueando totalmente a porta. Se Requy quisesse sair, teria de achar um jeito de derrubar aquilo, ou ao menos tirar ela do caminho.
Com um movimento rápido, pega o seu abajur e o usa como arma contra a criatura. O efeito foi bem abaixo do esperado, mas seu ataque consegue empurrar a criatura para trás, abrindo caminho para que o garoto possa correr até a porta. Ao olhar para a sua esquerda, Requy mais uma vez vê a escadaria feita de luz se estendendo além do telhado de sua casa. Sem perder tempo, ele volta a percorrer-las o mais rápido possível. Parando para olhar rapidamente para baixo, consegue notar que a criatura ainda o segue. Assim que ela passa pelo vão do telhado ela para e observa em volta por um momento, com suas antenas movendo-se energeticamente para ambos os lados, para logo em seguida ela direcionar seu olhar para Requy e voltar a perseguir o garoto, que não perde tempo e volta a correr.
Sem nem conseguir completar dois passos, ele ouve um ruído muito alto vindo do pé da escadaria, e reflexivamente volta sua atenção para baixo. Em horror, ele vê dezenas, quase centenas daquelas criaturas saindo de sua casa e começando a subir as escadas, muito mais rápido do que a criatura que o perseguia sozinha. Tão grande são em número que não há espaço para todas, e muitas delas caem para os lados, diretamente na escuridão abaixo.
— Dane-se a segurança! — exclama o garoto ao retomar sua corrida, subindo o mais rápido possível e pulando dois degraus a cada passada.
Apesar de estar fazendo o melhor que pode correndo, as criaturas são mais rápidas que ele, e se não tivesse ganhado uma vantagem logo de início, a este ponto ele já teria sido pego. Suas pernas doem devido ao esforço e aos poucos começa sentir seus pulmões queimarem, mas sabe que qualquer parada será o suficiente para ser pego pelas criaturas. Logo os céus começaram a ser iluminados por relâmpagos, e os ventos começaram a ficar mais fortes. Más lembranças voltam para Requy, fazendo-o lembrar da gigantesca mão que o derrubou na última tentativa. Agora faltam uns 40 degraus para ele chegar até a luz no fim da escadaria, e a ventania faz com que se manter equilibrado seja tarefa difícil, e com uma rápida olhada para sua direita, o garoto nota que está ela também está afetando aos seus perseguidores. A quantidade de sombras que caíram para fora da escadaria até este ponto reduziu e muito a massa negra no encalço do jovem, porém ainda assim, algumas criaturas continuam passando pela abertura e tentando alcançar a sua presa juntas de seus iguais.
Um novo relâmpago ilumina o cenário, e, ao longe, o garoto consegue notar uma figura gigantesca, provavelmente alto como a escadaria, com suas mãos flutuando ao lado de seu corpo que lembra uma torre com pernas, e dois pares de olhos amarelos no que aparenta ser sua cabeça, movendo-se lentamente na direção da cidade.
— Mas que tipo de criatura é aquela? — grita o garoto assustado, aumentando ainda mais o passo da forma que pode no meio daquele vendaval.
A luz está próxima agora e começa a machucar os olhos do garoto. O som das criaturas abaixo dele aumenta em volume, como se gritassem para ele não fugir delas. Ao fundo, ele ouve o som de algo pesado tocando o chão, e não é necessário pensar para saber que é aquela criatura gigantesca, se aproximando. Foi então que seus ouvidos captaram um novo som, semelhante ao de um motor sendo acelerado, e olhando para o lado da criatura, nota que uma de suas mão está levantada em sua direção, punho fechado, e Requy sabia em o que aquilo está mirando: ele mesmo.
— De novo não!
O horror de ter de repetir a experiência anterior toma seu corpo novamente, seu inconsciente lhe dizendo que está é sua última chance, e o som semelhante a um trovão parece lhe dizer que isto terminará mais uma vez em falha. A mão esquerda da criatura corta o ar como uma pedra sendo catapultada, indo em cheio contra Requy. Ele sabe que ele tem de chegar na porta antes da mão atingir as escadas, pois mesmo ele não sendo socado para fora, aquilo certamente destruirá o único caminho que o garoto tem para fugir.
Com seu último pingo de energia, ele aumenta ao máximo sua corrida, deixando de lado a necessidade de tomar cuidado com o vento, sua única aposta sendo esta corrida contra aquele projétil vindo em sua direção. Vinte e cinco degraus, ele consegue ouvir o som que o ataque de seu oponente faz contra o vento. Vinte degraus, Requy aparenta ter ultrapassado a trajetória do ataque inimigo. Quinze degraus, a mão muda levemente de direção, como se pudesse ser controlada à distância, tudo que lhe resta agora é pular para cobrir o pouco que lhe falta. E o garoto pula. O som de vidro se estilhaçando é alto atrás dele. O vento se deslocando devido ao ataque assovia em suas orelhas, e ele sente como se algo o empurrasse para a frente. Ele cai com força em um dos degraus e prontamente volta a correr, pois sabe que agora a escada vai começar a desabar, assim como da última vez, cada degrau que ele pisa começa a despencar logo em seguida. Falta pouco. Só mais um pouco!
A luz o cega, e ele ouve algo.
“Tempo esgotado.”
Ele se vê em um círculo iluminado. Nada ao seus pés, assim como envolta dele. Sente algo em sua mão, que ao olhar, nota ser um bastão, cerca de 40 centímetros de comprimento, com um orbe reluzente na ponta, segurado por três protuberancias .
— Mas o que? — o gartoto olha confuso para aquilo. Ele sente uma tênue energia vindo daquele objeto. Tênue, porém selvagem, como se ela fosse se libertar a qualquer momento. Nota também um pequeno fluxo do que parecem ser partículas de luz percorrer o orbe, um ou dois centímetros acima de sua superfície.
Um ruído atrás de Requy o tira de seus devaneios. Ao olhar, nota que algumas criaturas semelhantes aquelas que o perseguiram até momentos atrás estão se aproximando dele em passos vagarosos.
— Ok, não acho que isso seja muito bom para mim.
Uma das criaturas move-se com velocidade para a frente, pulando contra Requy. Pego de surpresa, sua única reação é levantar o bastão à sua frente e instintivamente fechar os olhos. Um novo som percorre o ar, e quando o garoto reabre seus olhos, a sombra está a cerca de dois metros para trás. Aquele bastão o havia protegido, disso ele tinha certeza!
— Agora, como que eu realmente uso isto?
“Aponte para aquilo que lhe traz perigo e diga o que seu catalizador deve fazer.”
Uma estranha voz ecoa na cabeça de Requy, proferindo estas palavras.
— Afinal, o que é isso?
“É importante que saiba como ativar este objeto em suas mãos. Ele pode ser a esperança de todos deste mundo.”
— Do que você está falando? — o garoto indaga, começando a ficar irritado com esta contínua falta de respostas.
“Comece com isso.”
Um livro aberto surge na frente de Requy, e seus olhos são atraídos para o centro do mesmo, e neste momento, ele sente algo quente ligando as páginas do livro, seus olhos e sua cabeça, e diversas palavras começam a surgir como um turbilhão em sua mente. Ao voltar a si, ele olha para o cajado em sua mão e o aponta para seus agressores.
— Pela busca da ordem nas trevas, desperte!
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